Três leitores no vagão

Três leitores no vagão

Toda vez que saio de casa levo um livro na mochila. Ando muito em transporte público e nos deslocamentos li a maioria dos livros da minha vida.

Quando viajo para outros países vejo com  admiração a imensa quantidade de gente que lê no Metrô. Já no Brasil, temos apenas três leitores por vagão.

Descobri esse número depois de anos de observação. Vagões muito vazios podem até ter apenas dois livros abertos, mas mesmo no horário do rush, o número de leitores nunca passa de três.

Aliás, quanto mais observava, mais percebia que esse número tinha algo de mágico. Era um fato comandado por forças místicas e não pela lógica humana.

Quanto mais o fenômeno me intrigava, mais eu fazia testes.

Quando eu era um dos três leitores eu discretamente parava a leitura e guardava meu livro. Nesse mesmo instante um transeunte qualquer sacava um livro, Deus sabe de onde, e me substituía.

Já testei o contrário.  Ao entrar  em um vagão com três leitores eu pegava o meu livro da mochila para finalmente ser o quarto leitor. Sempre  que isso acontecia um dos outros leitores descia na estação seguinte.

Não importa o que eu faça, não importa o quanto eu desafie o destino, já me conformei, seremos sempre três leitores no vagão.

Será que há algo de telepático que une os leitores? Será que há um equilíbrio do universo que pode ser rompido se vários brasileiros entraram em trens, metrôs e ônibus munidos de seus livros e abandonarem repentinamente os dispositivos que usam para trocar mensagens e ver fotos alheias?

Ou quem sabe, aqueles milhares de olhos colados nos smartphones estejam na verdade usando o aplicativo do Kindle e lendo tanto como nós, tradicionais leitores dos antigos livros de papel?

O que aconteceria se quebrássemos  a profecia ? O que aconteceria se como nos EUA, na Argentina, França ou Portugal, rompêssemos a barreira dos três leitores?

Imagine milhões de Brasileiros portando seus Machados, Guimarães, Lígias e Clarisses. Milhões ampliando seus horizontes, adquirindo cultura e conhecimento, expandindo sua sensibilidade, incrementando seu senso crítico.

Como seria o Brasil com mais de três leitores no vagão?

Séries e filmes Nostálgicos

Séries e filmes Nostálgicos

No cinema e nas séries, nostalgia é a palavra do momento. Tiozinhos como eu e como meus amigos adoramos sentir de novo as emoções da adolescência, ainda mais quando podemos levar nossos filhos e dividir com eles as experiências e emoções do passado.

Os produtores perceberam isso e tem nos enchido de nostálgicas histórias. Luke Skywalker está de volta como professor de uma jovem Jedi, Rocky está de volta como professor do filho do Apollo e Larusso está de volta como como professor do filho do John Lawrence.

Creio que este é apenas o começo, há espaço para muito mais, porém acredito que há espaço para ideias mais ousadas. Então vou abrir meu baú de memórias e sugerir alguns plots que renderiam excelentes Spin Offs sem que o velho protagonista precise ser o professor do novo.

Ghost x Ghostbusters

Demi Moore está de volta nessa aventura em que precisa salvar o fantasma de Patrick Swayze das garras dos Caça-Fantasmas.

Apertem os Cintos, o Piloto, os Comissários e o Avião sumiram

Essa série será passada na época da quarentena e mostrará o tédio da equipe de bordo enquanto os voos são cancelados.

O Dia da Marmota

Série baseada no clássico “O Feitiço do Tempo” mostrará o um jornalista preso em um dia eterno numa pequena cidade do interior. Serão 9 temporadas de 13 episódios. Cada episódio mostrará o mesmo dia, começando da hora em que toca o rádio relógio. Sucesso garantido.

A Repartição dos 5

Os 5 adolescentes de “O Clube dos 5” cresceram e agora trabalham juntos na mesma repartição. Seu trabalho é mais monótono que a punição na biblioteca, mas dessa vez eles não esperam o sinal e sim suas aposentadorias.

Flash and Dirty Dancing

Uma soldadora e dançarina aposentada consegue emprego num resort para ensinar danças sensuais a jovens hóspedes.

Malu Mulher

Regina Duarte está de volta. Depois de tantos anos divorciada, ela cansa da independência e casa com um varão apresentado pelo Pastor da Igreja, para desgosto da Narjara Tureta.

A Lagoa Azul

Cansados da vida na cidade, das contas e do preço do arroz, o casal de A Lagoa Azul resolve voltar para a ilha onde foram felizes por tantos anos. Chegando lá encontram Tom Hanks e Wilson, a bola de vôlei.  Todos vivem muito bem graças aos truques que aprenderam em Largados e Pelados.

Armação Limitada

Reboot de “Armação Ilimitada” feita para os dias atuais. No Brasil conservador, o trisal formado por Lula e Juba e Zelda Scott é considerado indecente e eles precisam se separar. Bacana é levado pelo conselho tutelar. Fim.

A Super Máquina

Na nova série, Michael Knight está de volta e pensa estar arrasando com seu parceiro K.A.R.R. Mas daí ele descobre que todos os carros de hoje tem navegação por satélite, acessam o Spotify por comando de voz e não fazem apenas 4 quilômetros por litro de gasolina. No final da primeira temporada ele vende a Super Máquina e financia um Tesla.

Essas são apenas algumas ideias, claro que há muitas mais, mas é um bom começo para ajudar os produtores. E você leitor? Tem algum outro filme ou série que merece um reboot?

Cobra Kai

Cobra Kai

Cobra Kai,  o novo sucesso da Netflix entre os brasileiros ajuda a ver que a dicotomia entre o bem e o mal não é tão simples assim.  Mas antes de explicar minha descoberta (meio óbvia) , deixe-me apresentar a série para quem não a conhece.

Cobra Kai mostra como vivem hoje os protagonistas do clássico Karatê Kid, Daniel Larusso e Johnny Lawrence. Mais de 30 anos depois de se enfrentarem na final do torneiro de Karatê do condado, eles continuam carregando mágoas e traumas do passado.

Larusso, cresceu sob a filosofia de equilíbrio de seu mestre Sr. Miyagi, venceu na vida e é dono de uma concessionária de carros de Luxo. Johnny nunca superou suas derrotas e tornou-se um quase alcoólatra, pulando de um subemprego para outro e carregando a raiva ensinada por seu antigo mestre John Kresse.

O filme Karate Kid se passava em uma época em que as coisas se resolviam na porrada na América do Norte. Depois do fracasso das ideias pacifistas de Jimmy Carter, quando os EUA não souberam lidar com a revolução Iraniana. Reagan trouxe de volta a América forte e militarizada, pronta a invadir qualquer inimigo mesmo que fosse a minúscula Granada.

Os grandes ídolos dos EUA eram Arnold Schwarzenegger  e Sylvester Stallone, gigantes musculosos que representavam a força bruta.

Em 2020, Johnny Lawrence ainda vive nos anos 80, saudoso dos tempos em que homens eram homens e mulheres não podiam passar perto de uma academia de luta.  Para Johnny, o bullying é uma forma justa de educação. Seu lema é “No Mercy” (sem compaixão).

Já a busca de Larusso é pelo equilíbrio, ele conquista com sua habilidade de convencimento ou dando Bonsais de brinde.

Porém, na vida nada é tão simples, Lawrence e seu método acabam conquistando a admiração de latinos, meninas obesas e outros rejeitados, se mostrando uma ótima ajuda para aqueles que se sentem inferiorizados. Larusso não consegue por diversas vezes conter seus instintos violentos e a raiva que sente de Johnny.

Creio que todos transitamos um pouco entre Larusso e Cobra Kai. Queremos a paz interior do sr. Myagi mas deixamos que a raiva seja o impulso que nos movimenta. Sabemos que a evolução é o equilíbrio mas sonhamos em socar a fuça de quem nos tira do sério. Admiramos o Larusso que há dentro de nós mas sabemos no fundo, ou não tão no fundo, que o Johnny Lawrence é mais divertido.

Cobra Kai não é uma super série, mas encanta por ter personagens a quem reconhecemos tão facilmente e principalmente por lembrar que no mundo de verdade, o bem e o mal estão dentro de cada um de nós. Todos os dias temos de escolher se somos Larusso ou Johnny Lawrence.

Mulheres e aplicativos

Mulheres e aplicativos

Não se já falei para vocês, mas este blog é minha grande diversão. Gosto mais de escrever os textos do que de lê-los. Mas o que realmente me diverte, são as interações com os amigos leitores. Procuro responder a todos os comentários e fico feliz com cada curtida.

Aliás, são essas curtidas e comentários de vocês que me fazem pensar que alguns dos textos são bons.

Pensando nisso, juntei alguns contos e publiquei na Amazon, no livro “Mulheres e Aplicativos”.

Em geral são histórias curtas envolvendo mulheres, tecnologia  e solidão. Alguns tem humor, outros são melancólicos. Talvez a maioria tenha um pouco das duas coisas.

Este é o link para quem quiser adquirir. Claro que vocês podem ler os mesmos textos aqui no blog, de graça. Mas se você for a loja e investir R$3,99 no livro, terá todos juntos, além disso, contribui financeiramente para eu trocar minha Maserati. Enjoei do modelo 2019.

Aproveite e veja meus outros livros na Amazon, todos são Worst Sellers internacionalmente desconhecidos.se você gosta das asneiras que escrevo, é bem capaz de gostar deles também.

Tati’k Tok

Tati’k Tok

Com um mês de quarentena, Tatiana estava emocionalmente esfacelada. Longe dos pais que moravam no Sul, passava os dias trabalhando on-line ou em conversas virtuais com as amigas.

Ricardo andava mais sumido que caneta bic em mesa de coworking. Isso não era uma má notícia, ele havia sido um péssimo namorado. Mas nas noites de solidão, até que poderia ser um bom quebra-galho.

Usar o Tinder estava fora de cogitação. Jamais se permitiria encontrar um desconhecido em plena pandemia. Prezava uma boa companhia,  prezava sexo casual bem praticado, mas Tati prezava ainda mais a vida.

Cansada de tantas lives na internet, cansada das séries da Netflix, instalou o TikTok por indicação de uma amiga. No começo não viu muita graça nas dancinhas e nas dublagens, mas matava o tempo olhando aquelas pessoas que lhe pareciam idiotizadas. Pior, achou que as mulheres se expunham demais, havia uma certa objetificação do feminino. Muitas abusavam dos decotes e da sensualidade em troca de cliques.  Era um desserviço.

Mesmo assim, assistia a vídeos do TikTok de vez em quando, até que achou engraçada uma coreografia de Footloose. Tati era ótima dançarina e acabou decidindo fazer sua versão da dança. Caprichou no enquadramento, nos figurinos, nos passos e publicou.

Em poucos dias se surpreendeu com o resultado. Eram mais de duzentas curtidas. Em seis anos de Instagram, nunca conseguiu nada parecido. Decidiu postar mais um vídeo, uma dublagem do Paulo Gustavo. Desta vez foram quinhentas curtidas e muitos comentários, até com cantadas de estranhos.

No quarto ou quinto vídeo postado, Tati colocou uma saia bem curtinha e abriu um pouco a camisa. Dançou um funk chamado “Juliana”. Nem precisou esperar muito para ver o resultado. Mais de cinco mil curtidas, centenas de comentários e compartilhamentos.

No vídeo seguinte, Tati repetiu a saia e abriu quatro botões da camisa o sucesso foi ainda maior.

Passados cinco meses da pandemia, a maioria das pessoas já voltou  para as ruas. As amigas de Tati se reúnem às vezes na casa de uma delas para beber e dar risadas. Mas Tati, nunca apareceu. Ela vive ocupada, respondendo milhares de comentários, fazendo lives e gravando quatro vídeos por dia, vestida em biquínis minúsculos.

Um jovem escritor negro

Um jovem escritor negro

Escrever é um ato egoísta, escrevemos sozinhos e escrevemos o que nos agrada, paradoxalmente torcendo pelo aplauso alheio. No íntimo, queremos influenciar pessoas e tocar seus corações com o conteúdo que sai dos nossos próprios corações. Mas pouco sabemos dos leitores de nossos textos. O livro ganha vida própria na mão de cada um que o lê.

Hoje recebi um e-mail com as novidades da editora Pólen (agora Jandaíra) e com a história de um jovem estudante negro contada pela editora Lizandra Magon de Almeida:

Quando participo de eventos e falo sobre representatividade, sempre conto do rapaz negro, estudante de Letras da UERJ, que leu o Cadu e o mundo que não era e, com lágrimas nos olhos, me disse: “Eu nunca tive um livro cujo protagonista era negro e nunca tive autorização para ser escritor”

Não sei até onde a literatura vai me levar, mas um depoimento deste tipo me faz ter certeza de que tudo vale a pena, de que o esforço que venho fazendo desde 2013 tem sentido, de que se ainda não consigo levar minhas histórias a tantas pessoas quanto gostaria, pelo menos consigo trazer alegria e até mesmo coragem a quem lê.

Com o blog acontece o mesmo, nem sempre tenho a quantidade de leitores que almejo, mas cada feedback, cada comentário, cada elogio tem um significado especial. E isso é importante pois tudo que escrevo vem da minha alma.  Cada leitor sensibilizado significa um encontro de almas.

Minha alma se encontrou com a deste estudante da UERJ, eu lhe dei coragem e ele, sem saber, me incentivou  a seguir em frente. Que outras almas meus livros podem ter tocado? Quantas pessoas desconhecidas posso ter emocionado?

Obs. Nada disso teria acontecido sem o incentivo do ilustrador e coautor Pedro Menezes, que deu a ideia para que o personagem Cadu fosse negro.

Meu Bolsominion Favorito

Meu Bolsominion Favorito

De tempos em tempos eu adoto um Bolsominion. Ou ele me adota. “Tu te tornas responsável por tudo aquilo que cativas.”

Inesperadamente cativo um deles e traçamos longas e longas conversas nas redes sociais.

Falo de Bolsominions de verdade, daqueles apaixonados que seguem o presidente tal qual Maomé seguia Alá, não dos bunda moles que ao menor sinal de dúvida dizem ter votado no Amoêdo e saltam para o time do Moro.

Alguns desses Bolsominions são conhecidos, pessoas que tenho algum contato no mundo real. Mas a maioria é estranha, nos esbarramos no Twitter e conversamos por semanas, até um dos dois se aborrecer a abandonar o outro. Já fiquei meses conversando com um monarquista.

Dá certo porque sou educado e respondo com respeito. Há um anjinho no meu ombro direito dizendo que se eu agir dessa maneira posso resgatar uma alma das trevas.

Pobre anjinho, que ingênuo. Não percebe que nada pode ser feito, os memes do WhatsApp fazem um estrago e tanto nesses sujeitos.

O diabinho do ombro esquerdo sussurra em meu ouvido sugerindo grosserias sarcásticas e às vezes me convence, o que é péssimo para a relação.

Há ocasiões em que não sou paciente, nem preciso do diabinho para me tentar. Afinal, gente chata ninguém merece.

Vez ou outra dá até para aprender alguma coisa com eles, mas no geral são repetições de chavões citando o Lula e os trilhões de dólares roubados e investidos na reforma de Atibaia.

Basicamente o pensamento é o seguinte:

  • A esquerda diabólica quer implantar o comunismo no Brasil. Nesse caso esquerda inclui o centro, a direita não bolsonarista, a mídia e o empresariado com exceção do velho da Havan.
  • Como o PT roubou 700 trilhões devemos ignorar todo e qualquer roubo da família Bozonaura.
  • A frase “E o PT?” é reposta para qualquer argumento. Tipo assim. Se você mandar esse texto para um Bolsominion ele responderá “E o PT?” e estará tudo resolvido.
  • Nenhuma fonte de informação fora do WhatsApp é confiável.
  • Uma pessoa de direita é um apoiador do Bozonauro. O Doria e o Amoêdo eram de direita em 2018 pois apoiaram o PSL. Quando passaram a fazer críticas, eles imediatamente se tornaram comunistas, assim como a Disney e a Natura.
  • Defender direitos para os negros ou da comunidade LGBT é também uma forma de comunismo.
  •  A realidade e o fatos não existem, pode-se dizer qualquer coisa desde que ataque os adversários. Hoje aprendi por exemplo que foi o PT e o PSDB que criaram a saúde pública e a educação pública no Brasil, que antes não existiam.
  • Há uma conspiração global envolvendo a grande mídia e vários bilionários como Soros e Bill Gates com o objetivo de implantar o comunismo.
  • Qualquer ato de solidariedade, bondade, carinho, simpatia e educação pode ser um sinal de comunismo.

De tudo o que eu aprendi, o mais importante é que Bolsominions não vão mudar. Eles não precisam do gabinete do ódio para inventar essa realidade paralela. Talvez precisassem no começo. Hoje eles mesmos vão inventando e compartilhando entre si as “verdades” que os satisfazem. Eles não conversam conosco para trocar ideias e aprender algo. Eles não precisam evoluir pois já encontraram a luz.

O anjinho pede que eu pare por aqui, o diabinho está sugerindo um final mais apimentado. Hoje vou frustrar o diabinho e encerrar sem maldades sarcásticas, torcendo para que nunca percamos a paciência para ouvir e a capacidade de aprender.

A Culpa não é da Picanha

A Culpa não é da Picanha

Segunda-feira é o dia de escrever para o blog, mas nem sempre a inspiração acompanha o calendário. Várias vezes me pego sem tema ou com textos que não avançam. Hoje estava acontecendo bem assim, finalizava um texto não tão bacana. Eu odeio quando isso acontece, sinto que  decepciono meus leitores.

Ainda assim estava me esforçando quando fui interrompido por uma chamada de Whatsapp. Eram dois amigos, Pereira e Quadrado, também solitários querendo matar o tempo juntos numa conversa por vídeo. Desisti de escrever para entrar num embate filosófico.

Os amigos em questão não são de falar de futebol e cerveja como a maioria dos portadores de cromossomos XY. Falamos de maturidade e de como apesar da famosa marca dos 50 anos se aproximar, ainda nos sentimos frágeis muitas vezes infantis. De repente alguém sugere que um livro com dicas para de como ser  adulto seria um best seller instantâneo.

Minha geração tem como modelo a geração de meus pais, de homens que viveram pelo família, foram grandes provedores e externavam segurança e bom senso.

Quantas vezes me cobro por não me ver encaixado nesse modelo ideal?

Por outro lado, amigos que reproduzem mais fielmente o modelo tradicional de maturidade esbanjam segurança mas parecem precisar provar isso de alguma forma, publicando fotos de suas conquistas sempre que possível. Deve ter algo de errado em tantos posts de picanhas na brasa quanto os que recebo.

_ A culpa não é da picanha – esclarece Pereira sabiamente.

Não, a culpa não é da picanha e nem da referência que tivemos das gerações anteriores. No fundo somos todos assim, homens fortes do lado de fora escondendo criaturas muitas vezes assustadas com os desafios que a vida nos impõe. Seguimos em frente nas rotinas tentando fazer o melhor possível e lutando com as ferramentas que temos, mas de vez um quando a vida nos surpreende com uma doença, um divórcio ou uma pandemia, espalhando as peças aleatoriamente no tabuleiro e nos lembrando da verdadeira condição humana.

Enquanto nosso best seller explicando as agruras da vida adulta não sai, recorro a Erasmo Carlos que em suas palavras descreve meu sentimento.

Hoje só com meus problemas
Rezo muito, mas eu não me iludo
Sempre me dizem quando fico sério:
“Ele é um homem e entende tudo”

Por dentro com a alma atarantada
Sou uma criança, não entendo nada

O Novo Normal

O Novo Normal

“O novo normal”  é daquelas expressões que ouvimos milhões de vezes em um período curto da vida, para depois desaparecerem no “limbo das expressões perdidas” onde vivem termos como “Não Vai Ter Copa”,  “Pedaladas Fiscais”, “Gatilho salarial” ou “Fundo Monetário Internacional”.

De qualquer forma, no ano de 2020, todos só falam disso e tentam apostar em como será o mundo daqui pra frente.

Sou menos pretensioso, prefiro estudar o presente a imaginar o futuro. Para mim, o novo normal é o agora e continuará sendo assim até que outro normal venha substitui-lo.

Para mim o novo normal é ficar preso no apartamento, saindo pouco e com medo desse maldito vírus

O novo normal é ouvir notícias de pessoas que estão doentes ou que se foram, sem poder fazer visitas ou despedir-me decentemente.

O novo normal é ter dívida no banco, é acordar de madrugada pensado em como será o futuro.

O novo normal é publicar um monte de besteira nas redes sociais e estar sempre com os amigos no Whatsapp para tentar disfarçar a sensação de solidão.

O novo normal é uma pilha de louças que nunca acaba, é planejar lavagens de roupas, é achar que tem pó em tudo. O novo normal é pensar em como a faxineira dava conta do meu apartamento em um único dia e como eu não valorizava seu trabalho.

O novo normal é perder a vontade de bater panelas, perder a vontade de assistir ao jornalismo. É não se interessar mais pelas manifestações que parecem todas iguais e sem sentido. É achar que a única notícia que importa é a descoberta da tal vacina. Até lá, melhor ficar alheio ao que acontece no mundo.

O novo normal é fechar os olhos para os números de mortes porque a gente se acostuma com eles. Quando 1000 mortes por dia é o novo normal, você descobre que a vida vale muito pouco e então percebe que fechar os olhos é a única forma de não enlouquecer.

O novo normal é enjoar das séries, não ter paciência com os livros, não ver graça mais nas redes sociais e perceber que qualquer momento do passado é melhor do que o presente, porque o passado pode ser compartilhado e, como escreveu Christopher McCandless, a felicidade só é real quando compartilhada.”

O novo normal é o mesmo dia se repetindo mil vezes, com as mesmas notícias, as mesmas conversas e a mesma angústia martelando na nossa cabeça. É pensar que estamos presos numa caverna e que não sabemos que mundo vamos encontrar quando finalmente acharmos a saída. Pior que isso, é o medo de que algumas pessoas amadas não consigam sair da caverna.

O novo normal é se prender na fé e lutar com todas as forças para mantê-la pois a esperança é a última que morre, o que não significa que ela seja imortal.

Invasão Zumbi

Invasão Zumbi

O ano é 2030, uma década depois da última tragédia global, o mundo se vê diante da maior ameaça de sua história, uma invasão zumbi.

Aparentemente tudo começou com um vazamento numa  instalação nuclear do Irã. A crise evoluiu muito rápido, em pouco tempo havia zumbis em todos os continentes. Cada pessoa atacada por um zumbi logo se transformava em um comedor de cérebros, as autoridades demoraram a responder à ameaça.

Algumas cidades estavam conseguindo conter a invasão construindo muros imensos, mas no Brasil a solução ainda era contestada e como vocês podem imaginar, uma imensa polêmica se instaurou.

Eu separei alguns posts do Twitter de 2030 e  através deles vocês poderão entender o que se passa e os diferentes pontos de vista.

Presidente Felipe Neto – Estamos em processo adiantado no projeto de construção de muros, em breve se iniciam as obras, será um enorme investimento. Até termos os muros pedimos que os brasileiros fiquem em casa.

Ex-ministro Paulo Guedes – A melhor forma de conter os zumbis é reduzir os salários e cortar as férias.

Veja São Paulo –  Confira os melhores bares em bunkers para sair em São Paulo.

João Amoedo – É um absurdo o Estado gastar com a construção de muros. Precisamos diminuir os impostos que meu banco paga.

Eduardo Bolsonaro (em prisão domiciliar) – Se todo mundo tivesse armado nada disso teria acontecido.

Ex-presidente Lula – O PT não aceita qualquer união para conter essa crise de zumbis, podemos resolver isso sozinhos.

Marco Feliciano – Deus me avisou que só o dízimo pode conter os zumbis do diabo. Deposite agora mesmo na minha conta número XXXX-X

Ciro Gomes – Se os muros custarem até 11% do PIB, considerando uma taxa Selic de 2,25%, podemos calcular um déficit primário de 14,7 bilhões mais o abono do salario mínimo, desde que o imposto sobre dividendos não ultrapasse o teto de gastos, descontada a inflação de 1984.

Doria – Precisamos privatizar os muros.

Léo Dias – A Anitta é falsa e não tem talento.

Folha de São Paulo – Infográfico explica a invasão Zumbi

Uol – Bruna Marquezine posta fotos de seu bunker

G1 – Mulher mata marido bêbado com paneladas e diz que o confundiu com um zumbi

Carlos Bolsonaro – O velho teatro das tesouras volta a agir mais descarado: Os traíras vermelhos alinhados com os tucanos e com os gulosinhos biografados.

Malafaia – Deus me avisou que só o dízimo pode conter os zumbis do diabo. Deposite agora mesmo na minha conta número XXXX-X

Véio da Havan – Não dá para parar a economia por um ataquezinho de zumbis.

Augusto Nunes – E o PT?

Caio Copolla – Nos EUA morre mais gente engasgada do que devorada por zumbis.

Gilberto Gil – A questão da zumbilização da sociedade, tem a ver com a tropicalização da cultura enquanto manifestação do morto e do vivo. É o ser baiano encontrando seu caminho no vácuo da sociedade de consumo. Ou não.

Estado de São Paulo – Zumbis ou PT, uma escolha difícil

Edir Macedo – Deus me avisou que só o dízimo pode conter os zumbis do diabo. Deposite agora mesmo na minha conta número XXXX-X

Boulos – O verdadeiro Zumbi é o capitalismo de devora o cérebro do trabalhador

Abraham Weintraub – Esses zoombes devem ser coiza de xinês ou de comunizta

Datena – Tem matar tudo esses zumbis vagabundo aí!

Guga Chakra – A região de Marcazi, onde surgiram os primeiros zumbis é de etnia Naari, com uma população 16% sunita.

Cabo Daciolo – Glória a Deuxx

Ricardo Salles – Só a destruição da Amazônia e das populações indígenas pode conter os zumbis

Felipe Mello – Pode vir atacante, pode vir zumbi que por mim não passa

Craque Neto – Pelo que entendi os mortos vivos são como o Ganso, só que com fome.

Manuela Dávila – As zumbis mulheres são 50% da população, mas só devoram 10% dos cérebros.

Roberto Jefferson – O PTB só vota a favor da construção dos muros se minha filha virar ministra da dezumbinação.

Ex-presidente Jair Bolsonaro (em prisão domiciliar) – E daí se morrer gente no tocante a isso aí de zumbis?

Rubens Barrichelo – Fiquem em casa, lavem as mãos e só saiam de máscara.