A Inspiração

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Na matéria da TV, o  menino pergunta ao escritor de onde vem a inspiração. Ele coça os cabelos brancos antes da resposta e diz que vem das coisas que vê na rua e principalmente da sua cabeça, onde vivem suas lembranças.

A inspiração é um sopro que nos pega de surpresa, uma criatura elemental que nos sussurra aos ouvidos. Surge através de uma cena banal, que testemunhamos sem querer, ou através da arte de outro que, por sua vez, foi inspirada Deus sabe como.

Embora venha como quem nada quer, nos pegue desprevenidos às vezes, a inspiração precisa de uma contribuição fundamental do criador: O radar ligado. Nada adiantariam as vitórias régias dos jardins de Giverny se Monet não tivesse os olhos atentos a luz que provoca no lago diferentes nuances de cor ao longo dos dias e das estações.

O mundo físico é repleto de beleza e feiura, de encontros e armadilhas, de bondade e política. Pessoas andam por aí exibindo tiques, ansiedades e desejos. Trocam abraços carinhosos nas saídas dos cinemas, cuidam para que os filhos atravessem a rua direito, falam com carinho em seus telefones no metrô. E a cada ato, a ninfa mágica da inspiração está a espreita, pronta para tocar o felizardo observador e iluminá-lo com com o clique da tão esperada ideia.

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Em algum momento pareceu correto para um bando cidadãos comuns punir uma suposta transgressora com socos e pauladas. A multidão enfurecida, portando barras e pedras não descansou até que a moça estivesse praticamente disforme. Embora ainda não se saiba com certeza quem eram os agressores, não é difícil imaginar que entre eles havia donas de casa, trabalhadores e estudantes que até esse ato torpe, poderiam ser consideradas boas pessoas.

Em outro lugar do Brasil, um médico acha que seu filho, do primeiro casamento, é um empecilho para seu novo relacionamento. Ele e a atual mulher decidem matar a criança contanto com a ajuda de uma amiga. Do casal assassino, podemos imaginar  uma insanidade, alguma irracionalidade doentia que os tenha conduzido ao odioso ato. Mas e a amiga? Como alguém aparentemente correta, com vida integrada à sociedade, com um bom emprego aceita participar de um crime destes sem estar emocionalmente envolvida?

Em uma rua do centro do Rio, transeuntes acorrentam e espancam um trombadinha adolescente. Uma apresentadora de TV apoia e louva o ato. Ou seja, uma pessoa respeitada, no conforto do ar condicionado, com tempo para meditar sobre o assunto, defende a agressão irracional.

Eu não me espanto que existam pessoas más. Elas simplesmente existem. Pessoas que não sofrem pelo outro, não sentem empatia. Pessoas com diversos tipos de psicopatia e que manifestam este mal em seus crimes absurdos. Pessoas simplesmente capazes de matar sem remorsos. O que me espanta é saber que existem humanos aparentemente normais que ao verem o mal se tornam solidários a ele. Amigos que no lugar de dissuadirem a intenção psicopata se tornam comparsas dos crimes.

Essa solidariedade assassina, que leva o cidadão aparentemente pacato ao crime me assusta mais que o mal cometido pelo psicopata propriamente dito. Sem esse apoio do homem comum, o nazismo ou a Klu Klux Klan não seriam possíveis. Estaria o mal voltando? Ou sempre esteve aí, habitando nossos vizinhos e quem sabe,  em um ponto escondido, nossas próprias almas.