A Carta do seu Lúcio

Prezado Parreira,

Visto que você leu com tanto amor a carta da Dna. Lúcia, brasileira agradecida pelo trabalho que você e seu colega Scolari fizeram na seleção brasileira, resolvi também mandar minha e espero que seja lida da mesma forma. Quem sabe, essa carta não faça tão bem para vocês quanto fez a carta da minha quase xará?

Assisti à entrevista coletiva depois do jogo em que perdemos vergonhosamente da Alemanha e fiquei muito impressionado com a preparação de vocês para atender as dúvidas dos jornalistas. A cada pergunta, Felipão puxava de sua pilha de de folhas A4 garantindo que a preparação da seleção estava bem feita. Era um repórter perguntar sobre preparação física e lá estavam tabelas e tabelas provando que fisiologistas cuidaram dos craques, que os estudos psicológicos foram feitos, que a dieta estava balanceada. Era alguém falar de tática e Scolari puxava outra prova irrefutável de que tudo foi bem feito.

Até a carta da dona Lúcia foi evocada como evidência de que a população brasileira não via a comissão técnica com a mesma censura que expressava a imprensa esportiva, indignada com o revés raro do dia anterior.

Ao ver a entrevista não pude deixar de lembrar dos debates eleitorais, quando os candidatos puxam de pastas as provas tanto de ataque quanto de defesa. – “O Senhor desviou verba da educação” – Braveja o opositor, empunhando uma matéria de jornal. – “Calúnia”, reponde o situacionista com folhas na mão que atestariam sua inocência.

Pois é caro Parreira, e estendo meu comentário ao Scolari, imagino que vocês tenham feito uma ótima preparação para esta entrevista. Quase consigo ver os assessores de imprensa da CBF tentando antever as perguntas. Equipes de assistentes e estagiários separando as tabelas, provas e estudos, juntando tudo tal qual um advogado juntas as provas antes do julgamento.

Eu só sugiro, que na próxima Copa, este tipo de preparação também seja feita antes dos jogos. Quem sabe com os mesmo estagiários selecionando trechos de vídeos para se entender melhor como jogam os adversários, treinos de opções táticas, essas coisas sabe.

Espero que vocês não confundam isso com falta de respeito pelo passado brilhante que ambos tem no futebol. Eu não seria ingênuo de contestar suas conquistas. Mas tenho medo de receber as respostas que muitos jornalistas brasileiros recebem nos dias quentes depois de eliminações. Vai alguém e pergunta: – “Os laterais não subiram demais” – e o treinador responde: -“Eu tenho trinta anos de futebol, o senhor não gosta do Brasil”! Não precisamos disso não, é?

Vocês adoraram a carta da Dna Lúcia. Fizeram a mulher famosa. Quem sabem não leem a minha também e quem sabe adotem minhas sugestões,. Embora humildade não seja o seu forte, orgulho e empáfia não combinam com as derrotas que vocês acabaram de sofrer.

Atenciosamente

Lúcio Goldfarb

Torcedor

Brasil, o país do comentarista esportivo

Desde criança aprendi que éramos um país com cento e vinte milhões de técnicos de futebol. Se no resto do mundo as pessoas tem um pouco de médico e louco, no Brasil éramos todos Telês Santanas.
Disse “Éramos” porque nestes poucos anos que me separam da minha infância a população cresceu, as redes sociais surgiram e mudamos de profissão. Assim como os craques aposentados, nos tornamos duzentos milhões de comentaristas esportivos.
Agora, com o teclado em punho e nosso conhecimento ampliado por milhões de compartilhamos nos lançamos a tarefa de analisar os esquemas táticos, comparar os técnicos, eleger os craques da rodada e tecer considerações profundas:
_ “Se o Falcão tivesse na Copa O James não teria aparecido”.
_ “A Espanha envelheceu”.
_ “Di Maria está melhor que o Messi”.
_ “Quando o Pelé se machucou o Amarildo deu conta”.
_ “Esse Robben lembra muito o Caçapava”.
Se fosse só isso até que estaria bom, mas vamos mais longe, nos tornamos misturas de sociólogos com cientistas políticos (que bicho isso daria?) e começamos a filosofar sobre o que a Copa significa na nossa sociedade, sobre a forma com que as vitórias Brasileiras influem na popularidade da Dilma. Prevemos esquemas fraudulentos que envolvem a Fifa, os jogadores de algumas seleções, um árbitro da Noruega e a cúpula do PT:
_ “A Copa está comprada”.
_ “Tá tudo armado para favorecer a Dilma”.
_ “Você não viu que o bandeirinha errou um impedimento no jogo de Gana? Isso é esquema dos Tucanos!”
E assim vai, o rebelde prefere que tudo dê errado para desmascarar a grande farsa da Copa, o Petista exalta as maravilhas do nosso país e da perfeita organização qda competição, o Hipster se mostra indiferente, prefere comentar um festival de música no interior da Irlanda e o patriota está extasiado com o hino a Capela, a emoção dos jogadores e a narração empolgante do Galvão.
Mas a festa está acabando, vamos nos despedir dos gringos, esquecer o carnaval da pegação da Vila Madá e descer do nosso pedestal de comentaristas esportivos para nossa pequenês habitual. E não nos esqueçamos dos vencedores: Entreguemos a taça as redes sociais, que nos elevaram ao nosso novo status de produtores de conteúdo! Selfie para comemorar!