Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 630 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 11 viagens para as transportar.

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Coincidências

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Estava quase dando férias ao “Toda Unanimidade” quando tive uma ideia: Vou escrever um pouco sobre cada livro que terminar. Não tenho pretensões nem capacidade para a crítica literária, faço isso porque escrevendo prolongo o prazer e a reflexão trazidos pelo livro e ao mesmo tempo, de forma elegante e discreta, faço um pouco de apologia ao ato de ler.

Ontem terminei o “Caderno Vermelho” de Paul Auster (Cia das Letras). Paul Auster conta pequenas estórias vividas por ele ou alguém de seu círculo de amizades em que aconteceram incríveis coincidências. Como o caso do curador de uma exposição de Matisse que procurou um quadro por seis meses até descobrir que a obra estava em um dos quartos do hotel onde morava.

Embora Paul Auster não se arrisque a filosofar sobre o significado destas coincidências, estes relatos que nos fazem pensar na existência de um plano superior onde nossas vidas estariam encaixadas, discussão também muito comum nos filmes do Woody Allen.

Pensando nessas coincidências, vasculhei por situações assim em minha vida e lembrei de uma história do meu tio-avô, Issac. No começo dos anos 50 ele tinha 19 anos e o Estado de Israel acabara de ser criado. Ele leu “Ladrões na noite”, de Arthur Koestler, que narrava a saga dos pioneiros que fundaram os primeiros Kibutzim, antes mesmo da independência de Israel. Ao ler o livro meu tio se inspirou e migrou para o jovem país, ingressando no exército onde chegou a ser tenente.

Alguns anos depois, quando cruzava uma estrada sentado em cima de um caminhão (ele não lembra de detalhes da história), o veículo capotou e ele ficou a beira da morte com uma grave amnésia. A família no Brasil não tinha notícias dele e minha bisavó foi obrigada a penhorar sua casa para comprar uma passagem de navio e procurá-lo em Israel.

É uma história bastante impressionante: O acidente que quase o matou, o tempo que ficou internado em um “hospital de loucos”, o desespero da família que não conseguia contatá-lo, a memória que ia e voltava e a saga da minha bisavó para tentar encontrá-lo em um país distante.

Depois de curado, meu tio decidiu voltar para o Brasil onde casou e seguiu sua vida. Ele me contou essa história em 2006 quando eu fiz um pequeno documentário com a história da família.

Inspirado por ele comprei o “Ladrões na noite” e eis a frase que abre o livro: “Se tiver que morrer hoje não será caindo do alto de um caminhão”.

Ódio Eterno ao Futebol Moderno

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Ainda acompanho futebol e não acredito que vá deixar de fazê-lo. O futebol entrou em minhas veias quando eu era pequeno e não consigo viver sem ele. Simples assim.

Por um bom tempo em minha vida também gostei de boxe e Fórmula 1, mas abandonei os dois por diferentes motivos. O Boxe porque as TV’s, jornais e rádios desistiram dele e assim, não há nada que eu possa fazer para me inteirar no esporte. Aliás, a mídia oferece UFC como substituto, mas eu não gosto do UFC. Cada vez que vejo uma chamada mostrando aqueles moços se socando no octógono eu me sinto como se estivesse num restaurante onde o garçom me diz “Só tem Pepsi”. Não me venham com fortões agarrados no chão. A luta que eu assistia era em pé.

Quanto à fórmula 1, na minha singela (e desimportante) opinião, ela ficou bem chata, embora as pessoas me digam que ela voltou a ser competitiva e emocionante. Parei de ver quando percebi que o Galvão vibrava demais nas trocas de pneus onde estava a única emoção da corrida. Se for pra vibrar numa troca de pneus eu prefiro assistir aos borracheiros na DPaschoal, onde ainda tem café de graça. Além de trocar os pneus eles também alinham. Muito mais emocionante.

Nos meu tempo os mecânicos se enchiam de graxa, os carros quebravam e a habilidade do piloto também contava.

Hoje, a F1 está muito mais rica, as equipes principais tem rios de dinheiro para investir e tem computadores que auxiliam o piloto na aceleração, frenagem, saída de curvas. Tudo é perfeito, os carros andam como em um autorama e eu acho de uma monotonia enfadonha. Além disso, os alto custos e tecnologia envolvidos tornam a atividade proibitiva para pequenas escuderias. Jamais teremos um novo Colin Chapman. Enfim, por mais paradoxal que pareça. O dinheiro estragou a F1.

Isso tudo foi um a introdução para o assunto dessa matéria, o que eu quero mesmo dizer é que o dinheiro está fazendo o mesmo com o futebol. Podem me falar que a Copa foi legal (e foi mesmo), que os times do Real Madrid, Barcelona e Bayern são supertimes (também verdade), mas o fato é que quem acompanhava o futebol nos anos 80 precisa se esforçar para gostar do futebol hoje. Para quem acompanhou os anos 60 e 70, a frustração deve ser ainda maior.

Os mais novos não viram o futebol romântico do qual eu falo e podem achar o esporte de hoje bacana, cheio de craques, com super transmissões, arenas multiuso, videogames realistas e etc. Mas acreditem, não é.

Para ficar apenas no Brasil, César Maluco, Serginho Chulapa, Biro-Biro, Dinamite, Adílio, Bonamigo e Reinaldo fizeram mais pelo futebol que qualquer dos (pseudo) craques que ganham caminhões de dinheiro hoje.

Quando os jogadores não eram tratados como deuses, eles bebiam cervejas em botecos, comiam em restaurantes do bairro e gostavam do que faziam. Ganhar cada jogo era importante, até porque tinha o bicho, um premiozinho em dinheiro que se dava a cada um por uma vitória. Mas como incentivar um moleque de 23 anos que ganha 400 mil por mês e comprou um Porche antes de ganhar qualquer título na vida?

Hoje o futebol é um grande negócio. As vezes penso que tudo não passa de um caminho e que o objetivo final é o jogo de Fifa Soccer ou o PES. Os jogadores jogam o necessário para terem bons avatares no Game e depois desencanam.

Uma geração inteira de garotos brasileiros frustrou-se com a seleção cujos jogadores eles conheciam apenas no videgame. Eles descobriram da pior forma possível que o Oscar e David Luiz não jogam tão bem no mundo real como no virtual.

Agora o Corinthians enfrenta um dilema porque o Guerreiro pede 17 milhões para renovar seu contrato. Você consegue imaginar Sócrates, Ronaldo (o goleiro) ou Zenon agindo dessa maneira? Por que a Fiel iria ter alguma empatia com um cara que age assim? E será que depois de embolsar essa grana ele vai querer suar a camisa num jogo  de futebol?

E assim como na F1, os valores estratosféricos que passaram a girar no mundo da bola estão destruindo os clubes pequenos e toda a sua tradição. Na Espanha, praticamente só há dois clubes fortes, o resto tenta sobreviver. Na Inglaterra os times dependem de xeiques do Petróleo ou magnatas Russos.

Lava-se dinheiro, os jogadores médiocres já são milionários e a graça de quem gostava de um esporte divertido, com ídolos de verdade desapareceu. Enfim, trocamos o esporte mais legal do mundo por Arenas com Wi-fi onde os torcedores esquecem de ver o jogo porque estão fazendo selfies.

p.s. Arena é o catzo, quem gosta de bola vai ao estádio.

p.s. 2 Não sou o único a ter essa opinião, há movimentos de torcedores na Europa e aqui pregando o fim do futebol moderno.

Hora de mudar?

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Na loja de vinhos do bairro, aquela pequenininha que sabemos, jamais será grande, o dono, um sujeito fino com menos de 50 anos explica com carinho os rótulos que possui. Minha curiosidade é grande e pergunto se ele sempre trabalhou com vinhos. A resposta é não. Acabou de largar o mercado financeiro para se dedicar ao que gosta e fugir do estresse. “Vou ganhar um décimo do que ganhava”.

Nem todo mundo pode abrir mão de um emprego seguro e 90% dos rendimentos, mas curiosamente tenho visto muita gente agindo de forma parecida. A amiga que diz que vai parar de trabalhar um tempo e estudar para se tornar roteirista. A outra que abandonou a publicidade para terminar um mestrado e se tornar professora. O executivo que marca reuniões com os amigos empreendedores atrás de novas ideias porque não aguenta mais a empresa onde trabalha. O diretor de criação que larga uma agência multinacional para fazer hambúrgueres.

Me pergunto se isso é uma tendência, coincidência ou se eu, por estar vivendo a mesma inquietude existencial, comecei a reparar mais nestes movimentos.

Pode ser também que ao passar dos 40 anos isso aconteça mais comumente. Como meus amigos estão todos nessa faixa etária, então passa a ser normal que vários estejam em crise de meia idade, começando a gastar suas fichas na busca de uma realização não encontrada em vinte anos de vida profissional.

Não sei as respostas. Quem sou eu para saber?

Vejo pessoas saindo se São Paulo em busca de uma vida mais saudável e menos dispendiosa em cidades menores. Gente largando os carros para andar de bicicleta. Sinto mudanças e dúvidas.

Como viveremos numa das cidade mais caras do mundo se não acumularmos riqueza hoje? Como pagaremos nossos planos de saúde se vamos viver até os 85 anos e o mercado não se interessa por trabalhadores com cabelos brancos?

Por outro lado, será que aguentaremos 4 décadas de um trabalho que não nos satisfaz em nome das garantias para o futuro? Por quanto tempo pode-se repetir um trajeto diariamente, seja no aperto do metrô, seja na lentidão dos engarrafamentos para se sentir miserável em uma mesa de escritório por 10 horas e depois retornar pelo mesmo trajeto?

Como já disse, não tenho respostas. A única coisa que sei é que o caminho para a solução desta equação passa por tirar das costas certos pesos financeiros que se tornaram imprescindíveis nos dias de hoje.

Enquanto nossos pais, nos anos 70 pagavam a conta de luz, água e telefone, nós pagamos, além dessas, canais a cabo, celular, 3G, 4G, 4G do Ipad. Os smartphones custam mais que um aparelho de televisão e as pessoas os trocam anualmente, fora o que gastam com as capinhas.

As mulheres do mercado de trabalhos pagam verdadeiras fortunas para ter seus cabelos cortados, unhas feitas e para adquirir a infinidade de produtos de beleza que precisam.

Compramos carros a prestação que custam o dobro do que poderíamos bancar e ostentamos roupas pagando muito mais por isso do que americanos e europeus, com situações econômicas bem melhores que as nossas.

A conta simplesmente não vai fechar. Não sei quais as repostas para essa angústia que vejo nos olhos de tanta gente, mas uma coisa é certa, chegou a hora de repensar.

Pra que servem as coxas da Andressa Urach

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Andressa Urach é uma moça razoavelmente bonita e costuma ser vista seminua em programas de TV, revistas de celebridades e portais de internet.  Essa semana quase morreu graças a uma reação alérgica a um produto chamado Hidrogel, que aplicara nas coxas para ficar mais gostosa.

O pouco que conheço de Andressa me faz pensar que ela é um tipo de garota bastante comum na mídia. Cultiva os peitões e os exibe o mais que pode. Consegue uma capa de revista masculina, aparece num programa de auditório, namora um jogador de futebol, samba no carro alegórico e depois desaparece, dando lugar a uma substituta mais nova.

Andressa rezou a cartilha da subcelebridade com esmero, conseguiu até boquinha em Reality Show e se orgulha de ter traçado Cristiano Ronaldo, o troféu mais cobiçado das Marias-chuteiras.

Fisicamente, é daquelas opulências exageradas dignas das melhores oficinas mecânicas. Longe da magreza sofisticada que oprime as mulheres chiques. Sua opressão é oposta e para realizá-la implanta-se silicone, Hidrogel e o que mais inventarem para tornar uma mulher maior do que é.

Não sei o que Andressa ganha vivendo como vive. Mas sei que ao tirar a roupa sempre que pode, ao exibir o bumbum e os peitos aos fotógrafos em falsos flagrantes, ela faz a festa dos programas de fofoca e dos portais da internet.

Portais adoram peitos de mulher. Se uma moça do Femen protesta contra o preço do Arenque na Lituânia, pode apostar que seus peitos serão destaque na página inicial do Uol, do G1 e do Terra. Peitos rendem pageviews.

Então imagine quantos pageviews os peitões e coxonas da Andressa já renderam a esses sites. E agora, ela internada, rende outros milhões de pageviews.

Se acabasse falecendo, enquanto familiares e amigos estivessem chorando, os portais publicariam fotos do enterro e painéis retrospectivos dos peitões. Isso também daria audiência para os programas de fofoca. Discussões pseudo-sérias sobre os limites da cirurgia plástica nos programas femininos garantiriam alguns pontos extras no Ibope.

Dias depois, novos peitos siliconados e outras coxas repletas de Hidrogel surgiriam para ocupar a vaga deixada por ela. Outras moças cujo sucesso rápido lhes renderia algum trocado que mal paga as plásticas e o bronzeamento artificial.

Longe delas, nos prédios envidraçados da Vila Olímpia, pageviews e pontos de audiência movimentam milhões em mesas de reunião onde executivos se vestem muito bem e não precisam tirar a roupa para garantir o bônus no final do ano.