Quando troquei Nietzche por 50 Tons de Cinza

Salome

Tenho como lema nunca largar um livro depois de começado. Isso já me causou problemas. Fui obrigado a terminar alguns muito ruins. Porém, masoquismo tem limite e às vezes eu quebro minha própria regra.

Foi o que aconteceu com “Assim Falou Zaratrustra”, do Nietzche.

Já havia lido “O Anti-Cristo”, outra obra importante do filósofo alemão e também não gostei. Nietzche defende com paixão (muita paixão) que somos apenas um estágio intermediário da evolução do ser humano. O estágio final desta evolução é o “Super-homem”, ou seja, o homem mais íntegro, mais puro e melhor.

Até aí parece bem bonito, concordo, mas em sua argumentação Nietzche explica que características como solidariedade ou caridade são empecilhos para a chegada do “Super-Homem”. Ele defende que sejamos guerreiros, que tenhamos inimigos e um monte de coisas esquisitas.

Separei alguns trechos para exemplificar:

“Quem conhece o leitor não faz nada mais por ele. Um século de leitores e o próprio espirito há de feder.

Se a todos for permitido aprender a ler, irão estragar, a longo prazo, não apenas a escrita mas também o pensamento”.

“Não vos aconselho a trabalhar, mas sim a guerrear. Não vos aconselho a paz, mas a vitória.”

“Tudo na mulher é um enigma, e tudo na mulher só tem uma solução, chama-se gravidez.”

Pois bem, depois de 100 páginas com essas frases de efeito das quais discordo completamente, desisti de Nietzche para me embrenhar nos 50 Tons de Cinza”, best seller de anos atrás que voltou à fama graças ao filme.

Fiquemos inteirados do assunto do momento.

A primeira impressão é bastante negativa, não gostei do texto da moça, um verdadeiro festival de frases feitas e clichês, tanto estilísticos como na trama. Qual a originalidade em Anastácia se levantar da cama de madrugada e encontrar o príncipe encantado tocando uma linda música ao piano? Verdadeiro festival do lugar comum.

Só que não posso largar de dois livros em seguida, isso é demais para minhas regras, então sigo em frente na tarefa masoquista (aliás duplamente masoquista) de ir até o fim.

E eis que pego surpreendido por encontrar coisas positivas, ou que me fizeram pensar. A trama é no primeiro momento a típica história da Cinderela, da mocinha pobre que encontra o príncipe encantado, se apaixonam e etc.

Só que o príncipe encantado da história é inseguro, dominador e sadomasoquista. O moço adora espancar a Cinderela.

Então imaginamos que Anastácia deveria se mandar e achar um bom moço, não? Não. Ela fica e isso nos incomoda. Não fica pelos presentes, nem pela beleza do Grey. Ela fica porque está morrendo de tesão. Ela goza até quando apanha e isso nos agride.

Confesso que não terminei o livro, não tenho a menor vontade de ler as continuações ou de ver o filme. Mas E.L. James transgrediu os contos de fadas e sou sempre a favor de transgressões. Fora que apimentar as cabeças cansadas de donas de casa no mundo todo é um mérito.

Meu caro Nietzche, mulheres não existem apenas para engravidar. Elas tem muitos desejos e podem ler fantasias masoquistas, podem sonhar com quartos cheios de equipamentos exóticos e podem exigir mais dos seus maridos na cama.

*Na foto uma moça segura o chicote enquanto Nietzche posa no lugar do cavalo. Espero que ela lhe dê umas boas chibatadas.

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