Nomes de coisas

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Como diria Caetano, adoro nomes. Talvez tenha aprendido esse pequeno prazer com meu amigo Adriano Quadrado e seus textos sobre nomes de gente. Aliás, ele mesmo já é daqueles nomes difíceis de esquecer. Mas os que me impressionam não são os de pessoas e nem são os de coisas. São aqueles nomes que empresas criam para os seus produtos e chegam a comover de tão bonitos.

Alguns desses nomes são sujeitos a modismos que mudam ao sabor dos tempos.

Vejamos alguns para esclarecer melhor o leitor que deve estar me achando mais louco que o habitual:

Nomes de Prédios

Pode procurar por aí e você verá que  os edifícios antigos tinham nome de gente: Edifício Esther, Conde Matarazzo, edifício J. Moreira, Joelma, Edifício Martinelli. Era bem provável que o construtor homenageava o pai, a avó ou alguém que amou.

Com o tempo, o nome dos prédios passa a servir aos interesses comerciais então passamos por diversas fases conforme as necessidades do marketing.

A moda européia: Muitas Piazzas, Places e Maisons, como Piazza Navone, Piazza di Toscana, Places des Vosges, Maison Royale. Eram prédios com nome de buffet de casamento.

Quando jovens executivos começaram a procurar apartamentos funcionais nas regiões das corretoras, agências de publicidade ou escritórios de advocacia, os prédios ganharam nomes que eram ou soavam americanos, que traduziam a praticidade e o modernismo da geração Y: Maxhaus, Sax, Dimension, Indi, One Eleven Home ou Move.

Enquanto isso, nas periferias, as incorporadoras miravam a nova classe C e o programa Minha Casa Minha Vida. Para esse público os nomes eram quase motivacionais: Condomínio Primeiro Passo, Conquista, Nova Esperança ou coisa que o valha.

Nomes de Programas Governamentais

Já falei disso num texto quando o blog ainda era desconhecido, foi uma moda que surgiu de uns 20 anos para cá. Não adianta o político falar que vai construir casas populares ou investir no CDHU, hoje é necessário um nome fofo para a ação, como o já citado “Minha Casa Minha Vida”. Para cuidar de drogados temos o “De Braços Abertos”, para limpar a cidade tivemos o projeto “Belezura”, para restaurantes populares o “Bom Prato” . Hoje, existem mais nomes fofos nos governos do que assessores inúteis no poder legislativo.

Nomes de investigações policiais

A Polícia Federal tem dado muitas alegrias aos brasileiros, mas a mim, uma em especial, chego a ter inveja da criatividade deles nos nomes de operações: Operação Sucuri, Praga do Egito, Medusa, Matusalém, Cavalo de Tróia, Pororoca, Saia Justa, Hipócrates, Woodstock (aposto que essa tem a ver com maconha), Flash Back… Se quiser saber mais, achei essa página na Wikipedia só com nomes de operações da PF, um deleite para este blogueiro.

Nomes de cores:

Tente fazer mentalmente uma lista rápida com os nomes de cores que você conhece: Azul, amarelo, verde, lilás, pensa o leitor apressado, sem imaginar que no catálogo das tintas Coral existem: Rosa Melodia, Rosa boneca, laço de amor, Zepelim, Areia Sirena ou Pelourinho. A última é um azul semelhante ao da igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Salvador.

Mas se quisermos ainda mais tons e nuances, precisamos recorrer às cores de esmalte. Neste ponto seremos obrigados a viajar por pelos caminhos mais ousados que a mente humana ousou se aventurar.

A Risqué tem cores como Besouro, Viúva Negra, Chão de Estrelas, Nuvem de Paetê, Arábia, Cinza Incerto, Relax da Penélope e Apuros em Miami.

A Avon tem uma linha chamada Encantos do Mar com as opções Onda Fashion, Terra à Vista, Homem ao Mar e Amor a Bordo.

São muitas cores, um número incalculável, mas vou recorrer a Colorama em sua linha chamada Brasileirices para encerrar esse texto e provar que em termos de nomes, eles são os campeões: Da Hora, Oxente, Bah, Tchê, Sussa, Uai e Partiu. Isso mesmo, Existe uma cor de esmalte chamada “Partiu” e com ela, parto eu, feliz em catalogar tantos nomes lindos e um pouco triste em saber que minha criatividade ainda está degraus abaixo de alguns marqueteiros que andam por aí.

* Na ilustração um maluco fez uma montagem com nomes de pubs. Bom saber que em outros países há insensatos com o eu.

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O estranho nu *

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Quando Camila acordou estava ao lado de um corpo masculino nu e desconhecido.

Tentou reconhecer o ambiente e se deu conta que nunca estivera naquele quarto. A porta na parede oposta a cama estava semi-aberta e permitia que a luz entrasse. Ao lado dela havia um armário de compensado, folhado a mogno, nitidamente vagabundo. Na parede a sua direita viu uma estante enorme, do mesmo material, repleta de livros e velharias. Na outra parede, prateleiras abarrotadas de revistas, a maioria parecia ser de histórias em quadrinhos.

Camila saía pelo menos três noites por semana, bebia sempre, fumava maconha com certa freqüência e tomava um exctasy de vez em quando. Não era a primeira vez que esquecia do acontecido na noite anterior. Normalmente se divertia ouvindo as descrições de seus vexames com detalhes picantes que as amigas faziam questão de enfatizar. Algumas vezes já beijara desconhecidos. Experimentara também o desprazer de ser importunada por mensagens de infelizes com quem se engraçava em festas e clubes. Isso a preocupava. Achava que beijar um desconhecido era bastante perdoável, trocar Whatsapps porém, era algo que não aceitava. Preferia continuar sozinha a suportar aquele bando de moleques sem criatividade atrás dela. Com 23 anos, Camila podia prever palavra por palavra o que ouviria de um homem, e isso era muito chato.

Mais chato porém era chegar aonde chegou. Era acordar de calcinha ao lado de um corpo masculino estranho em um local desconhecido. Pelo menos o rapaz não roncava. A cara enfiada no travesseiro não permitia que analisasse melhor a feição. Estava descoberto, tinha uma pele cuidada e lisa, poucos pelos e uma bela bunda. O que de certa forma a consolou. Do jeito que bebera na noite anterior, poderia ter sido pior.

Ainda assim foi a primeira dez que deu para um estranho, a primeira vez que deu para alguém com quem não tinha o menor relacionamento e a primeira vez que não se lembrava de como havia sido. Não sabia sequer se tinham usado camisinha. Foi também a primeira vez que se sentiu infeliz com o próprio comportamento.

Depois de pensar um pouco localizou com os olhos suas roupas espalhadas no chão e decidiu sair de fininho. Tentaria ser discreta para não acordar o rapaz. Enquanto se vestia ele fez um movimento brusco, virando-se com o rosto para cima. Ela se assustou, pensando que ele despertara, depois parou um pouco para analisá-lo. Os olhos estavam inchados e a cara amassada pelo travesseiro mas ainda assim era bonito. Um pouco rude, mas bonito. O Corpo também era ok, não tinha uma forma atlética mas era proporcional. Reparou que era grande, devia ter mais de um metro e oitenta e provavelmente era judeu.

Passado o momento de estudos voltou a vestir-se e checou se nada estava faltando. Ficou feliz ao ver uma embalagem de camisinha aberta jogada ao lado da cama. Aproveitou para reparar nas roupas dele que também estavam no chão. Através delas concluiu que o estranho tinha bom gosto e era informado. Usava roupas modernas, compradas em brechós ou lojas alternativas. Havia livros e revistas de design gráfico na estante, o que, junto com os quadrinhos, poderia denunciar a profissão do sujeito. Camila estava mais calma, pensou que se não tivesse dado para o cara do jeito que deu, seria um bom cara para se dar um dia. E foi saindo de mansinho, antes de calçar os sapatos.

Parou na porta surpreendida por uma voz:

_ Aproveita e traz um copo de Coca pra mim.

Camila ficou paralisada. Estava de costas para ele e não tinha vontade de virar-se. Também não havia como sair correndo e deixar a situação ainda mais ridícula.

_ Camila, o seu nome é Camila, né? Desculpa o mau jeito é que ontem eu tava muito bêbado.

_ Tudo bem, é Camila sim – Ela ainda não tinha criado coragem para encará-lo.

_ Então, pega alguma coisa pra você na geladeira, não vai sair assim de barriga vazia. Tem um iogurte, suco, pega o que quiser. E se puder traz um copo de pra pra mim que eu to estragado.

_ Ok.

Ela não sabia onde se enfiar. Foi para a cozinha sentindo-se desarmada. Ainda olhou pela janela do apartamento e viu que não reconhecia o bairro. Estava amedrontada. Não era exatamente medo do estranho ou do lugar. Era uma sensação ruim.

A cozinha era um pouco melhor que a de uma república, embora o bom gosto nos detalhes fosse marcante. No lugar do tradicional pingüim, via-se um boneco “Ken” vestindo smoking.

O vazio da geladeira quebrado apenas por duas caixas de suco de laranja, alguns refrigerantes, cervejas, frutas e um queijo fresco. Camila experimentou o suco mas achou muito ácido e desistiu. Pegou uma fatia de queijo e surpreendeu-se de novo com o dono do apartamento que apareceu nu na cozinha.

_ Eu preciso é de uma Coca-cola.

_ Você não se veste nunca?

_ Foi mal, espera um pouquinho.

Ele pegou uma Coca Zero e foi à lavanderia, de onde voltou usando bermuda e chinelos.

_ Você tem como ir embora? Se quiser eu te levo.

_ Que bairro é esse?

_ Vila Leopoldina. E você, mora onde?

_ Paraíso.

_ Espera só eu tomar banho que eu te levo, dá tempo até de almoçar com a família.  Só vou tomar uma ducha rapidinho.

Ele era bonito. O cabelo estava um horror, as olheiras quase tampavam os olhos mas ainda assim era bonito.

Ficaram um pouco em silêncio enquanto ele pegava uma toalha. Ela queria esquecer o que aconteceu e quanto mais distante ficasse desse cara melhor. Ele, porém, estava a fim de conversar e da forma menos sutil possível.

_ Quer dizer que você nunca tinha transado com um estranho? – Camila ficou de boca aberta olhando a cara dele, foi impossível disfarçar, ele continuou.

_ Pelo menos foi o que você me disse ontem.

_ Olha, eu não acho engraçado, quer saber, eu não lembro nem o seu nome. A última coisa que eu me lembro de ontem é da fila do banheiro da balada.

_ Eu me lembro de tudo.

_ Sorte a sua.

Ela não queria prolongar o papo, ele agora tinha um ar superior como se a memória intacta lhe conferisse algum poder. Talvez estivesse certo, ele sabia coisas sobre as intimidades de Camila que nem ela sabia. Que posições teriam feito? Fizeram sexo oral? Será que ele a amarrou na cama? Ele agora parecia um chantagista.

_ Olha – ela prosseguiu – Parabéns, aposto que a noite foi ótima, espero que você tenha gostado, mas já era, é passado e eu não quero falar disso…

_ Gérson. Meu nome é Gérson.

_ Ótimo Gérson, acabou.

_ Tudo bem – ele disse enquanto se levantava e saía em direção ao banheiro – Mas se quiser continuar me chamando de Ursão não tem problema.

Ela quase perdeu o ar. Ficou quieta para não piorar as coisas. Só faltava ficar ouvindo ironias. Precisava ter uma conversa séria com as amigas, criar um mecanismo para que se protegessem destes trastes folgados. Não podia acordar de novo em quartos estranhos, algo deveria ser feito.

Camila foi para sala esperar o Ursão, quer dizer, o Gérson que estava no banho. Ao passar pelo banheiro percebeu que a porta estava aberta e não havia Box. Ele não se importava.

_ Cê não tem vergonha mesmo, né?

_ Não de você – respondeu enquanto enxaguava os cabelos.

O mau humor de Camila não deixou a conversa ir muito longe. Ele saiu do banho e vestiu-se rapidamente enquanto ela passava os olhos em algumas revistas. Porém, a curiosidade que a fazia acordar as amigas nos domingos de manhã para que contassem suas desventuras alcoólicas começou a afligi-la. Ela conteve-se até a saída do elevador, quando, enfim, voltou a falar.

_ Escuta, você lembra como a gente se conheceu? Quer dizer, você que me abordou?

_ Na verdade a gente já se conhecia de vista.

Ela tapou o rosto com a mão direita, pelo jeito o mico ainda seria maior.

_ Eu era o namorado da Betinha, da faculdade, você não lembra.

Agora ela lembrava, já tinha visto este cara algumas vezes mas nunca tinham conversado. Meu Deus que vergonha, eles tinham amigos em comum. Ele certamente já tinha mandado mensagens espalhando a notícia, os homens sempre fazem isso, as mulheres também. Sorte que a Betinha estava em Londres. Esta noite ficaria como uma mancha negra na história de Camila e o cara ainda era arrogante. Pelo menos até o comentário seguinte.

_ Tudo bem, não precisa ficar com essa cara. Aconteceu. Eu prometo que vou esquecer tá bom? Não falo prá ninguém.

_ O que tem a minha cara?

_ Ué, parece que você acabou de amputar um braço.

_ Olha. Desculpa, mas é que eu acho um puta mico fazer o que eu fiz ontem, entende. Foi a primeira vez que eu perdi a consciência desse jeito e eu não to legal. Além disso ainda to de ressaca.

Depois de algum silêncio, já no carro, ela não agüentou e perguntou:

_ Só mais uma coisa, a gente se protegeu direito?

_ sim.

_ É só isso que você pode dizer?

_ Você quer os detalhes?

_ Não. Tudo bem.

_ Mais alguma dúvida?

_ A história do Ursão é verdade?

_ É.

_ Tem algo mais que eu preciso saber?

_ Não sei, talvez seja importante saber que você me disse que nunca tinha gozado daquele jeito ou que eu deveria dar um curso para os seus ex-namorados.

_ É verdade?!?

_ Não. Essa parte é brincadeira.

Camila sorriu pela primeira vez no dia e recordou-se da impressão positiva que tivera ao ver o corpo daquele estranho nu dormindo ao seu lado.

Depois da pequena piada Gérson ficou em silêncio novamente. Talvez estivesse chateado com o fato dela não lembrar de nada. Talvez, para ele, não tenha sido tão sem sentido. Pelo menos havia algo realmente interessante na conversa, ele não era óbvio.

_ Última pergunta, ok? E a gente muda de assunto.

_ Manda.

_ Você gostou?

Ele pensou um pouco e respondeu sem olhar para ela.

_ Muito. E qual o novo assunto?

_ Hum… Cinema! O que você achou do último filme do Wes Anderson.

_ Eu gostei mas prefiro “O Moonrise Kingdom”.

Eles não falaram mais do que ocorreu na noite anterior. Depois trocaram mensagens, ele ligou e ela gostou. Eles voltaram a se encontrar e ela voltou a vê-lo nu muitas vezes, porém não mais como um estranho.

 

 

*Achei uma série de contos que escrevi muitos anos atrás e decidi por preguiça e curiosidade publicar um. É bem diferente do que tenho colocado no blog.

Homens em demasia

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“_Sim, há homens em demasia na Terra. Antes a gente não se dava conta disso. Mas agora, quando as pessoas não se contentam em respirar e querem também ter um automóvel, a coisa se nota mais.”

Trecho de o Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, escrito em 1927

As mulheres da minha vida

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Eu já escrevi sobre muitas coisas, algumas mais, outras menos importantes. Já critiquei, já sugeri, já analisei, mas hoje, vou fazer diferente. Vou abrir meu coração e expor para os queridos leitores as mulheres da minha vida. Portanto, se você gosta de fortes emoções está no lugar certo, pegue um lenço e venha comigo.

Minha primeira paixão aconteceu de forma precoce em 1977. Eu colecionava o álbum de figurinhas do filme King Kong quando vi uma foto da Jessica Lange na mão do Gorila. Aquilo aquilo mexeu comigo. Foi a primeira uma mulher me provocou alguma espécie de desejo, tanto que nunca me esqueci desse fato tão distante.

Hoje revendo a foto, entendo o apelo da fragilidade dela diante daquela criatura selvagem. É uma imagem sensual o suficiente para apaixonar um garoto de seis anos ou um gorila de 20 metros de altura.

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Essa foi uma situação isolada. Continuei sendo indiferente aos encantos femininos até a minha adolescência nos anos 80, época em que a TV e as revistas nos vendiam musas inesquecíveis. Elas surgiam nos programas e novelas e terminavam na Playboy. Nós, garotos, dávamos um jeito de pegar escondido o exemplar de algum pai menos cuidadoso e assim nos inteirávamos antes da internet facilitar as coisas.

Na época, Xuxa e Luiza Brunet eram as musas do Brasil, porém havia outras cujas famas não duraram tanto, mas que eram igualmente importantes em nosso imaginário, como a Magda Cotrofe, a Matilde Mastrange ou a Isis de Oliveira (a irmã mais velha da Luma).

Preciso fazer aqui uma interrupção para que os mais novos entendam que as fotos da Playboy naquela época eram muito diferente das de hoje. Quem for mais velho e estiver familiarizado com estas informações pode pular este trecho.

Como eram as Playbloys dos anos 80 (especialmente para a geração Y)

1 – As mulheres era diferentes umas das outras.

Cada qual tinha o corpo de um jeito. Umas tinham seios menores, outras seios maiores, umas tinham um bumbum mais empinado e outras tinham um bumbum rechonchudo. Algumas eram mais cheinhas, outras magrinhas. Enfim, elas não eram essa mistura de silicone com photoshop das revistas de hoje em dia.

2 – Havia uns negócios chamados pelos pubianos.

Isso talvez assuste os jovens, mas as mulheres tinham pelos no entorno da genitália e acima dela, assim como os homens tem (ou costumavam ter). Aliás, os pelos também eram diferentes em cada mulher e podiam surgir em outras partes como nas axilas.

3 – Nas fotos não se podia ver a genitália, apenas os pelos que a cercavam.

Para ver mais do que isso era preciso recorrer a revistas pornográficas, mas estas não exibiam nossas musas.

Terminada a interrupção, preciso confessar que nessa década me apaixonei algumas vezes: Pela beleza singela da Tássia Camargo, por uma morena andrógena chamada Cláudia Egito e no final da década, provavelmente dividindo a paixão com a maioria dos meus amigos, pela ingênua e delicada Luciana Vendramini.

Os anos 90 foram curiosos para mim. Eu comecei a trabalhar numa empresa de moda, uma rede que fazia muitos desfiles e catálogos e passei a conviver com algumas destas modelos que até então pareciam intocáveis. Mesmo a Gisele Bundchen estava começando na época. Ao ver de perto aquelas moças altas, magras e supostamente perfeitas, passei a me interessar menos por elas. As mulheres de verdade, que tomam cerveja e falam pelos cotovelos eram mais legais.

Acredito que a realidade nunca supere a fantasia e essas mulheres perfeitas cabem apenas no mundo da idealização, vistas assim de perto, embora sejam muito bonitas, não me provocaram a deslumbre que a Kelly LeBrock provocava nas telas. É preciso dizer também que nessa época eu não era mais um adolescente e minha visão das coisas deixara de ter o fascínio juvenil.

Com o passar do tempo, as novas beldades só pioravam. O Photoshop e o silicone deixaram as mulheres cada vez mais parecidas. Panicats, Hucketes, dançarinas do Faustão e suas similares passaram a ser todas iguais. Peitos esculpidos, coxas como as do Lateral Roberto Carlos, longos cabelos loiros, lábios de botox e nenhuma marca na pele.

Eu teria me desligado dos meus amores distantes se as terras estrangeiras não fossem tão eficientes em criar mulheres de sonho. Agora, cada vez mais velho e crítico, ainda consigo me apaixonar por tipos muitos diferentes do que temos aqui.

Troco um punhado de coxas atléticas da Marques de Sapucaí pela generosidade das curvas da Scarlett Yohansson. Troco todas as barrigas negativas de Ipanema pelas imperfeições de Cristina Hendricks, ainda mais se ela vier com a força e a determinação da Joan Holloway, sua personagem na série Mad Men.

E finalmente, troco todas as namoradas de pagodeiros e jogadores de futebol pela quarentona Penélope Cruz, especialmente se ela prometer cantar pra mim um trecho do tango Volver. E agradeço todos os dias por não existir Photoshop e nem silicone para a voz.

Enquanto isso, no Mercado

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Agora há pouco no Extra (aquele pequenininho de bairro), duas funcionárias que trabalham repondo produtos nas gôndolas conversavam sobre livros. Senti-me impelido a entrar na conversa.

Elas me disseram que são viciadas em livros, conhecem novos autores, acompanham blogs de escritores e citaram vários de quem nunca ouvi falar.

Não vou dizer que ver duas moças simples, tão cultas e interessantes, me reacendeu a esperança de que este país tem futuro. Isso seria clichê, exagero e quase mentira.

Mas quando saí do estabelecimento estava mais feliz do que quando entrei.

Na minha opinião

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Como minha opinião é importante. Nada é mais valioso do que ela. independentemente do que falem, pensem ou escrevam, nada é completo sem minha opinião. Mas nem sempre foi assim.

Antigamente, coitada, a minha opinião vivia guardada. Morava calada na cachola, saindo vez ou outra nas aulas da faculdade quando o professor apontava pra mim, minutos depois de eu ter levantado a mão.

Era tímida, precisava de umas doses para tomar coragem nos botecos, onde convivia com opiniões de amigos também bêbados, nas discussões infindáveis regadas a cerveja barata.

Mas recentemente, vejam só, minha opinião ganhou armas.

Primeiro foram os e-mails. Minha opinião podia confrontar suas companheiras a qualquer hora, em qualquer lugar, ela começava a gostar de viajar transformada em códigos binários, confrontando a opinião dos meus amigos. O boteco tornara-se virtual.

Minha opinião ficou ainda mais sóbria quando surgiram os blogs. O que se escrevia em um blog era público, qualquer um podia ler, portanto, minha opinião lá parecia importante, ela precisava ser cuidadosa, fazer sentido, ser bem exposta. No meu blog*, minha opinião chegara ao seu auge até então.

Mas nada se comparava ao que viria a seguir.

De repente a evolução nos leva às redes sociais e minha opinião se assanha. Agora sim ela é a rainha do baile! Ela pode confrontar todas as opiniões e aparecer como nunca antes.

Alguém comenta o cardápio de um restaurante e lá está a minha opinião para dizer que conheço outro melhor.

Alguém diz que foi pênalti contra o São Paulo e minha opinião contesta com veemência.

Um jornalista defende a ação de um determinado político e minha opinião aparece para atacá-lo.

Qual o melhor meio de transporte em São Paulo?

Com quantos anos um jovem pode ser condenado a prisão?

A pena de morte na Tailândia é justa?

O Rogério Ceni deve se aposentar?

Qual a posição da população Grega na crise?

O Cunha respeitou o regimento?

Terceirização, atualização do Iphone, Lava a Jato, ajuste fiscal, racismo, feminismo, sexismo, terrorismo… Agora eu entendo de tudo, eu falo de tudo e ninguém sabe mais do que eu. Sim, existem outras opiniões, mas só me interesso pelas iguais as minhas. As outras são ideias de pulhas, pessoas sem caráter, aproveitadores ou imbecis. Viva a minha opinião, a onipresente, a preponderante, a melhor e única com a qual eu concordo em todas as situações.

PS. Gostou do texto? Compartilhe com os amigos. Não gostou? Problema é seu, sua opinião não importa mesmo…

* Meu blog há uns 10 anos se chamava Quatro Acordes, foi criado pelo Adalberto “Azalba” Martins e tinha outros colaboradores como o Adriano “Picareta” Fernandes, o Marcelo “Psycho” Junqueira e o Edson “Coke” Júnior.

Fiquei curioso e googuei o Quatro Acordes e ele está lá, preservado no espaço virtual, com nossas opiniões discordantes congeladas há uma década. Para vê-lo é só clicar aqui.

Das Ideias Decrépitas

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“É sabido que ninguém escreve pior do que os partidários das velhas ideologias, das ideias decrépitas: Ninguém exerce sua profissão de jornalista com menos dignidade e consciência.”

Trecho de o Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, escrito em 1927