Conseqüências*

Captura de Tela 2015-08-26 às 18.24.48

Brincava com o sol. De manhã. Na praia. A mãe despreocupada jazia em seu banho de lagarto. Adorava a praia e não entendia por quê não se estava sempre lá. Neste momento, acabou de descobrir que a sombra projetada pelo seu corpo fazia desaparecer o reflexo do brilho do sol em caquinhos de vidro misturados a areia. Agora tapava e destapava o sol, eufórica pelo poder divino que tinha de criar brilhos.

_ Mãe, tia! Vêm cá vê o que eu fiz!

Tia Ambrósia, relendo uma revista Claudia que está na casa da praia há pelo menos 6 anos, advertiu:

_ Cuidado menina, não tá vendo que aí tem caco?

Leninha não ligava. Corria em volta dos cacos e acompanhava com os olhos o movimento da sua sombra. E os reflexos de luz acendendo e apagando. E ria, ria muito. Tanto que cansava e eufórica se punha do lado da mãe e da tia para contar suas façanhas.

_ Mãe, um brilho de ouro que foge da sombra!

A mãe com o corpo lânguido não se esforçava por entender:

_ Que ótimo amor, depois conta pro papai.

Não gostava quando a mãe fazia pouco de suas descobertas e saiu em busca de novidades ainda chateada com a falta de impacto de sua última noticia:

_ Eu que fiz – Insistiu.

Nada era mais importante do que a aprovação da mãe. Em torno dela seu mundo se organizava. Aliás, poucas coisas tinham importância. Tudo era imediato e efêmero. Leninha aprendia muito rápido, mas não guardava acontecimentos. Podia dizer que o pai gostava de churrasco, porém, não se lembrava mais do churrasco de quinze dias atrás. E não se importava com isso. Tudo era urgente. Sua vida era uma sucessão de necessidades imediatas e passageiras. Iam-se substituindo umas pelas outras, trazendo experiências e descartando recordações. Era só correr na areia, sentir o vento úmido e o sol suave das primeiras horas manhã e já esquecia os brilhos e a indiferença da mãe. Nunca mais sua vida seria tão livre. Nunca o amanhã e o ontem significariam tão pouco.

Agora cansada, pegava os brinquedos de plástico e remexia a areia protegida pelo guarda-sol. A mãe e a tia pouco falavam e Leninha não se interessava pelo que diziam. Moldando a areia com o balde e a pazinha, ficava totalmente alienada, construindo um mundo só seu. De vez em quando interrompia a conversa das adultas.

_Quando o papai vem?

_Depois de amanhã, amor.

_Demora?

_Um pouquinho – Dizia a mãe, com a mesma saudade da filha.

Agora construía um castelo de princesa. Igual dos livrinhos. Ao olhar de um adulto, não passava de um monte disforme de areia, mas Leninha via torres e muralhas. E via uma linda princesa que pareia com ela mesma, correndo pelos corredores a procura de enfeites para o castelo.

Então começava a correr na praia com seu corpinho miúdo sob olhares vigilantes, porém discretos da mãe e da tia. A praia representava o mistério, um conjunto de possibilidades sem fim. Tudo tinha cor, brilho, movimento, cheiro. Sabia que não podia ir para a água, só chegar pertinho, e na areia molhada via bichinhos. Era um ótimo lugar para achar os adereços.

E foi procurando conchas para enfeitar seu castelo que encontrou uma coisa esquisita e imensamente bonita que parecia uma gelatina azul e roxa. Emudeceu, tamanho o fascínio que aquilo exercia. Nem pensou em contar a ninguém. Lançou a mão instintivamente para saber o que era. A sensação de tocar a substância melequenta foi prazerosa por poucos segundos. Os dedos de Leninha começaram a arder na dor mais aguda que sentira até então. Soltou um grito seguido de um choro histérico.

Aos quarenta anos, em dias nebulosos, a publicitária Lena Andrade ainda se lembra daquela manhã. Talvez seja a única lembrança mais clara dos seus primeiros anos de vida. Lembra do médico que lhe explicou o que era uma água-viva e lembra da mãe a levando à sorveteria para consolá-la. Lembra até que exibia com orgulho o curativo na mão para as crianças que encontrava. Quantos anos tinha? Três, quatro? Precisava perguntar para à mãe. Aqueles dias eram tão distantes. A vida se tornara cheia de significados e explicações prévias, tudo passou a ter início, meio, fim e principalmente, conseqüências.

*Esse é outro dos contos antigos que encontrei nas catacumbas do meu computador e que publico quando a falta de tempo ou a preguiça me impedem de escrever coisa melhor.

Viver de amor

Amor de avó

Ah, o sonho dos apaixonados! Viver de amor.

“Não precisamos de nada, se estivermos juntos teremos um ao outro e é o que importa”

Quem acredita nisso? Talvez os adolescentes. Nós adultos sabemos que a vida não é bem assim. Ela nos cobra muito mais do que amor e os relacionamentos idem. Passa o tempo e ficamos cínicos. Há quem acredite que um companheiro razoável que divida as contas e seja limpinho valha mais que uma paixão avassaladora.

Acho que até pouco tempo eu tinha uma opinião formada. Acreditava que era impossível “viver de amor”.

Mas mudei de opinião nas últimas semanas observando minha avó que acabou de fazer 90 anos.

Percebi que com o tempo, para ela, a maioria das coisas perdeu importância. Ela não tem força para longas caminhadas e não pode sair andando por aí. Viagens ou compras são muito difíceis e acabam sendo evitadas. Ela quase não ouve, mesmo com o aparelho de audição e é comum que se desinteresse pelas conversas ao seu redor.

Não se importa com as novidades das novelas, não quer saber se o Janot denunciou o Cunha e está se preocupando cada vez menos com os pequenos problemas que povoam as conversas de família em almoços dominicais.

Basicamente, minha avó se interessa em abraçar e beijar as pessoas que ama o máximo possível e em externar o quanto gosta de todos.

Ela não era uma avó particularmente carinhosa na minha infância. Era daquelas que governavam a casa e as panelas com primor, sua torta de maçã e seu Gefilte Fish eram épicos. Gostava de todos e sempre foi uma boa avó. Mas estava mais para uma regente do lar do que para uma ilustração de Norman Rockwell. Super detalhista no orçamento familiar, sempre teve uma calculadora na cabeça e era atenta às necessidades de cada membro da família.

Agora, em seu mundo de silêncio, vive de beijos e abraços, absolutamente feliz com cada contato que tem conosco e com as poucas amigas sobreviventes.

Sorte dela poder viver de amor. Espero que cada um de nós alcance esta etapa da vida com um pouco de saúde e estando próximos aos que realmente importam. Pois tenho certeza que nessa idade, curtidas no Instagram de nada nos valerão.

O pé na bunda perfeito

Captura de Tela 2015-08-13 às 23.40.00

Júlia dedicou-se àquele texto como poucos vezes se dedicara a algo. Os dedinhos finos se apertavam no teclado do celular com habilidade e deles saia o que ela iria considerar sua pequena obra-prima. Era uma carta com o “pé na bunda” que estava para dar em Matheus.

Se Matheus fosse um namorado mesmo, teria que falar com ele ao vivo, porém estavam apenas saindo há algum tempo e uma mensagem pelo Whatsapp parecia mais que suficiente para ocasião. Era daqueles relacionamentos que crescem sem motivo, e como os Baobás do Pequeno Príncipe, precisam ser destruídos antes que suas raízes se finquem demais no chão.

Só não esperava que realizaria um texto tão perfeito. Em nove linhas conseguia ser delicada e ainda assim dar bons recados nas entrelinhas. Era efetiva, não deixava espaços para argumentações, sem ser arrogante. Fazia com que a culpa pelo fim parecesse dos dois e ainda passava a sensação de que também sofria com a separação.

Enviou a mensagem e recebeu de volta, minutos depois, um xororô qualquer do garoto que mal valia a pena ler. Caso encerrado.

Só que estava tão orgulhosa do feito que precisou ligar para Mirela e contar o ocorrido. Mirela acabou recebendo o texto como prova do brilhantismo de Júlia e foi obrigada a concordar. Era o melhor “fora” que já tinha lido. Tão bom, tão bom, que ela mesma usou para dispensar o Beto dias depois. Estava louca para fazê-lo mas não sabia como e o texto da Júlia veio a calhar.

Nas semanas seguintes, outras amigas que souberam da história acabaram por usar emprestado o tal texto com igual sucesso e depois disso, fatos curiosos começaram a ocorrer.

Primeiro foi na faculdade, Júlia encontrou Carla chorando com o celular na mão. Tinha acabado de ser dispensada por Miguel, o melhor amigo de Matheus. Mostrou a mensagem para Júlia que reconheceu imediatamente a sua criação literária sendo usada indevidamente.

Nos dias seguintes, houve um onda de relacionamentos encerrados na PUC. Todos por Whatsapp.

Júlia estava assustada, no ônibus percebeu uma moça começando a soluçar com o telefone na mão. Olhou sobre seu ombro e novamente estava lá o texto.

A coisa saíra do controle. Todos que não terminavam seus namoros por medo de enfrentar a chata situação de dispensar o outro passaram a usar o texto de Júlia. Era comum ver pessoas chorando na rua segurando seus celulares e a fama da carta cresceu.

O medo fez com que muitas pessoas apaixonadas deixassem de usar o Whatsapp e posteriormente, outros aplicativos de mensagens e e-mails. Mas era tarde demais. O texto podia ser entregue em cartas, telegramas ou manuscritos. E o amor nunca mais foi mesmo.

Júlia ficou confusa e assustada com a repercussão, tinha dúvidas se fizera a coisa certa e se devia arrepender-se. Sua única certeza era que escrevera uma obra-prima.

O Melhor Jogador de Todos os Tempos

goat_2162061b

Essa discussão do melhor de todos os tempos não existia na minha infância. Naquela época (e os mais velhos defendem isso até hoje) o melhor do mundo era o Pelé e pronto. Sem discussão. Só depois da Copa de 1986 alguns argentinos quiseram colocar o Maradona no posto, acirrando a já famosa rivalidade regional. Hoje ainda, para apimentar a conversa,  há um novo Argentino na parada, que encanta aos fãs da arte e surge como recordista de qualquer coisa, o Messi. Aos mais novos, esse é a grande referência.

Mas estão todos errados. Nem Pelé, nem Maradona e nem Messi merecem o título. O melhor jogador de todos os tempos é o “Ganso Imaginário”.

Poucos perceberam que  existem três Gansos. O Ganso do Santos, que era uma jovem revelação ao lado do Neymar, o Ganso do São Paulo, um sujeito de grande talento e preguiça ainda maior e o maior deles o “Ganso Imaginário”, que une todos os predicados que um jogador pode ter. Ele finaliza como ninguém, é inteligente e seu chute da entrada da área supera a Didi, Cristiano Ronaldo ou Nelinho. Como passador, então, faz Zidane corar de vergonha. Ele corre, marca, ataca, defende, tem vigor físico. E se há alguma dúvida de seu reinado, é só lembrar que muitos diziam ser ele bem superior a Neymar.

Fico até com pena do Ganso real, deve ser muito difícil ser comparado a todo o momento com Ganso Imaginário e saber que nunca será ele.

Isso faz pensar em como a memória das coisas boas nos engana.

Quantas vezes revemos um filme que nos encantou no passado e ficamos decepcionados com ele hoje em dia? E quando voltamos a um restaurante que foi especial em um momento da vida e nos decepcionamos com o filet à parmegiana que nos enchia de alegria?

A música de nossa juventude, os craques da infância, a casa de praia em que fomos com a primeira namorada, as roupas, os cheiros, qualquer coisa envolvida em boa nostalgia se transforma em algo difícil de superar.

O Ganso paga por isso até hoje. Jogou bem num time em que tudo dava certo, as peças se encaixavam, todos eram jovens e encantavam. E ainda estava ao lado do Neymar, o único craque brasileiro de sua geração. Seria melhor que as pessoas parassem de compará-lo com “aquele” Ganso, que só existe na fantasia romântica das nossas memórias distorcidas pela nostalgia. Deixem o jogador ser o mediano talentoso que é.

E que as nossas boas lembranças continuem nos traindo, enchendo de doçura e sentido este mundinho amargo em que vivemos.

Que ódio

angry-employee

Já experimentou falar com os dentes cerrados? Tente. Veja que falando assim parecemos vilões de novela. Ainda mais se a frase for agressiva. Faça um teste com a clássica fala de folhetim televisivo: “Vou acabar com aquela vigaristazinha de subúrbio”. Você perceberá que ficou uma perfeita Carminha ou uma Odette Roitman (para os mais velhos).

Não usamos esse tom de voz no nosso cotidiano. Em geral ele é reservado para brigas especiais como naquela hora em que seu gato aparece com um rato morto na cozinha ou o maridão com batom brega na cueca. Se você fala com os dentes cerrados todos dias, recomendo enfaticamente que busque um psicólogo (e um dentista).

Só que em nossas queridas redes sociais (e não só nelas) a fala com dentes cerrados e caixa alta virou regra.

O que fez com que o pacato brasileiro, aquele a quem Sério Buarque de Holanda chamava cordial, ficasse assim? É um tal de xingar a invejosa, de responder ao Palmeirense, de atacar a opinião do outro, de bloquear o velho amigo…

Ou as pessoas estão com a paciência no nível “Michael Douglas em Dia de Fúria” ou a cordialidade e a passividade tupiniquins não passam de uma lenda.

Acho que as duas explicações tem um punhado de verdade.

Depois de 500 anos sendo mal tratados pelos sujeitos que usam carro oficial, depois de aguentar desmandos e incompetência que vão desde o palácio presidencial até a atendente do posto de saúde, o brasileiro perdeu o bom humor.

Agora piadinhas sobre a situação não bastam, sofrer o ano inteiro para se divertir no carnaval não é suficiente e, portanto, nossos amigos dos gabinetes precisam começar a caprichar, caso contrário (e isso já está acontecendo), enfrentarão uma população com a faca entre os dentes.

Por outro lado, a história do brasileiro cordial, passivo, povo que caminha bovinamente para seu destino infeliz não é (e nunca foi) real. A história do Brasil é feita de revoltas e muito sangue. Guerras regionais, levantes e cangaços mostram que nosso povo tem sim o seu limite.

Agora me pergunto onde o ódio vai nos levar? Vejo petistas torcendo para a água acabar de vez e assim prejudicar o Alckimin. Vejo Tucanos torcendo para a economia do Brasil se escangalhar para que o PT afunde no lodo.

Eu não gosto dessa ideia. Penso que os políticos vem e vão e por pior que sejam quero continuar pagando minhas contas e tomando banho de chuveiro.

Penso também que no fundo, o que todos querem é um sociedade com mais oportunidades, respeito, segurança, saúde e aquela coisa toda que os políticos nos prometem nas propagandas de TV. Penso que todos concordam que o funcionário público, seja ele atendente do balcão da prefeitura, policial, juiz ou senador, trabalha para nos servir e para isso não precisa de carros especiais ou mordomias.

Em outras palavras, quem joga tachinhas na ciclofaixa não vai prejudicar o Haddad, mas pode machucar uma criança. Quem põe fogo na Banca de jornais não vai derrubar o Beto Richa, mas vai acabar com o sustento de um jornaleiro.

Nós brasileiros, que andamos bradando uns contra os outros cada vez mais, deveríamos tentar encontrar o verdadeiro motivo de nossas indignações e soluções positivas para os nossos problemas.

Dentes cerrados são importantes e inevitáveis nos dias de hoje. Mas se apertar demais é capaz de termos dentes quebrados e nada ganharemos com isso.