Rico que nem o Justus

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As ruas são uma fonte inesgotável de histórias e e essa caiu no meu colo quando eu estava no metrô.

Digo que caiu do céu porque o sujeito milagrosamente falava ao celular no vagão, a 80km/h, no num buraco no centro da terra. Coisa que não consigo fazer parado em meu escritório. Ou seja, trata-se definitivamente de uma intervenção divina.

O personagem da história é um homem de quarenta anos, feição rústica, pele morena e cabelos começando a pratear. Ele se vestia com roupas de qualidade duvidosa mas com inegável vaidade  e algum conhecimento de moda. A mim pareceu ter mais informação que dinheiro.

Ao telefone falava com uma mulher e pelo que deduzi ela encontrava-se numa situação econômica muito pior que há poucos anos.

Nosso personagem a consolava citando um determinado pastor e passagens do livro de Jó. Falava com firmeza e eloquência e eu cheguei a desconfiar que ele próprio pudesse ter experiência em apresentar-se em público, quem sabe na sua igreja.

Num determinado momento, para consolá-la, usou a si mesmo de exemplo:

_ Veja o meu caso, eu era muito rico, mas perdi tudo com bebida, drogas e mulheres.

E continuou:

_ Nos tempos em que trabalhei com o Lombardi, eu ganhei muito dinheiro, foi entre os nove e os catorze anos. Eu comprei casa, BMW, tudo… Eu era assim que nem o Justus.

Nesse ponto, para o meu azar e o azar de quem chegou aqui lendo atentamente e curioso em relação a este misterioso personagem, tive de descer do vagão.

Assim, sua fascinante  história ficará sem fim. Cada um que use sua imaginação para concluir a trama como quiser. Embora a conclusão da história pouco me interesse. O que me move é a alegria de cruzar a cidade com ouvidos atentos, prontos a captar os dramas de cada uma das caras anônimas que circulam por aí.

Se bem que secreta e paradoxalmente, eu sonhe com esse cidadão visitando meu blog, se reconhecendo no personagem e revelando quem foi esse pré adolescente. Rico que nem o Justus.

Certo dia na repartição

Burocracia

Olavo chegou, como todos os dias, pontualmente às oito horas, ligou seu computador e enquanto a máquina começava a funcionar pegou um café na garrafa térmica. Era bom ser um dos primeiros e tomar o café mais fresquinho de todos. Depois, sentou-se a mesa pronto a enfrentar a pilha de papéis que repousava a sua frente.

Ele era Analista de Projetos Pleno no Ministério do Desenvolvimento e tinha muito orgulho do cargo conquistado em um concurso há nove anos.

Olavo e seus colegas aprovavam ou não projetos de saneamento básico enviados por prefeituras. Eles decidiam a liberação de verbas para tais projetos desde que estes cumprissem as regras impostas pelo edital.

Eram regras bastante precisas detalhando como deveria ser projeto técnico, a apresentação do orçamento, o cronograma e a documentação apresentada. Cada projeto enviado ficava com aproximadamente sessenta páginas e o departamento tinha trinta e seis analistas para avaliar de dois a três projetos recebidos por dia. Em geral, as prefeituras esperavam de seis meses a um ano pela resposta de um pedido de verba para obra de saneamento básico.

Só que naquela manhã, Olavo começou a ter ideias enquanto carimbava alguns papeis. Pensou muito sobre os detalhes do que fazia e resolveu conversar com Margarete, uma das seis gerentes do departamento.

_ Margarete, estive pensando, por que o responsável técnico não precisa assinar todas as páginas do projeto? Ele só assina as seis últimas.

Margarete que tomava um café e passava os olhos numa revista concordou de imediato.

_ Tem razão. É muito mais lógico. Assinaturas com firma reconhecida em cartório?

_ Evidentemente. E creio que poderíamos também pedir dados demográficos do município.

_ Em quantas vias?

_ Três vias, cópias autenticadas.

Margarete elogiou a iniciativa de Olavo e tomou providências para que um adendo ao edital fosse redigido e publicado o quanto antes.

Olavo continuou seu dia carimbando e verificando documentos com o peito cheio de orgulho pelo bem que fizera ao país.

Enquanto isso, no país do homem cordial

gauleses - briga

  • Garotos pobres avançam contra turistas e moradores da Zona Sul com furtos e violência nas praias de Copacabana.
  • Na mesma região garotos de classe média arrancam possíveis agressores dos ônibus para fazer justiça com as próprias mãos.
  • Ex-presidente faz discurso enraivecido, atacando as classes dominantes golpistas.
  • Pessoas da classe média pedem nas redes sociais que o país seja dividido entre sul e norte.
  • Filósofa famosa brada seu ódio a classe média.
  • Pastor chama ativistas gays de nazistas.
  • Deputado diz que ativista dos direitos humanos não é bonita suficiente para ser estuprada.
  • Motoristas de táxis agridem os motoristas do Uber.
  • Corintianos e Palmeirenses agendam brigas pela internet.
  • Índios invadem fazendas no Sul do Mato Grosso.
  • Fazendeiros contratam pistoleiros para matar índios.
  • Policiais matam assaltantes depois de rendidos.
  • Adolescentes põe fogo em índio pensando tratar-se “apenas” de um mendigo.
  • Imigrantes do Haiti atingidos com balas de chumbinho.
  • Apresentadora de TV negra recebe ofensas racistas pela internet.
  • Grupo de cidadãos lincha até a morte dona de casa por “engano”, ela se parecia com uma suspeita mostrada na TV.
  • Homens criam página na internet para compartilhar experiências de “encoxadas no trem”.
  • Black blocs vandalizam lojas, vitrines e bancas de jornais.
  • Cidadãos espalham tachinhas em ciclofaixas.
  • Assaltantes põem fogo em vítimas rendidas.

Se você espera uma conclusão, eu sinto muito, não tem.

Apenas listei alguns atos que lembrei de cabeça. A internet e os jornais já tem pessoas inteligentes o suficiente para analisar e concluir. Eu apenas observo e lamento. Muito.

Vote em Mim

SAO PAULO, SP, 15.03.2015 - PROTESTO CONTRA GOVERNO - SAO PAULO - Manifestantes pedem o impeachment da presidente, Dilma Rousseff na tarde deste domingo, (15) no v¿o livre do MASP, na Avenida Paulista, regi¿o central de S¿o Paulo. (Foto: Vanessa Carvalho/ Brazil Photo Press).

Estou bastante convicto que a popularidade da Granda  Presidenta Dilma está em baixa nas redes sociais. Pelo menos entre as pessoas que acompanho.

São posts em geral bastante mal educados com palavras que não posso reproduzir no blog. Pelo menos não nesse horário.

Mas mostrar os defeitos é fácil. Quero ver quem apresente soluções consistentes que efetivamente despertem o tal gigante adormecido. Quem traga propostas sérias, comprometidas com o futuro das massas e com o bom andamento da democracia e do mercado.

A única pessoa nessa nação capaz de tal façanha sou eu, o candidato ideal, o futuro Roosevelt tropical, o Napoleão das conquistas do povo, o líder impávido deste colossal país.

Lanço então aqui minha candidatura com as propostas que revolucionarão a nação, reerguendo nosso orgulho e deixando uma herança indelével para as futuras gerações:

1 – Fim do CPF (não confundir com CPMF)

A partir do meu governo você terá apenas um número de identificação. É o fim da chatice de ter um número para a portaria do prédio e outro para a fila do supermercado.

2 – Unificação dos números

O número do RG será o mesmo para a carteira de motorista, para o título de eleitor, para o PIS e para o reservista.

3 – Lei da redução de documentos

Sabe quando você tira a carteira de motorista, ou o passaporte ou abre uma empresa, ou se inscreve num concurso e você precisa entregar RG, CPF, Comprovante de residência, carteirinha de vacinação, certidão nascimento, declaração do imposto de renda e mais doze documentos em duas vias com cópia autenticada e firma reconhecida?

Agora cada órgão terá de pedir no máximo três documentos para qualquer processo. O burocrata pode até escolher a xerox que gosta mais, desde que não passem de três.

4 – Lei dos direitos iguais no futebol

Agora cada vez que acontecer um pênalti para o Corinthians todos os outros clubes que disputam o mesmo campeonato ganham um vale-pênalti para usar no jogo e no momento que lhes for mais apropriado.

5 – Dobramos a meta de Master Chefs

Sancionarei a lei que obriga o Master Chef a ter duas temporadas por ano. E em todas as edições teremos a participação da Jiang.

6 – Decreto presidencial autoritário

Desde já fica proibida a venda de Fondue de Carne em todos os restaurantes em território nacional. Os infratores, tanto cozinheiros como comensais, terão as mãos e línguas decepadas.

E não reclamem pois já estou sendo muito generoso em permitir a picanha no rechaud.

7 – Fim dos discursos na TV

Acabou aquela história de presidente, ministro ou senador interromperem a novela para discursar. Querem falar asneiras, façam como eu, criem um blog.

8 – Livros com capa de livro

Não dá para aguentar a cara do Di Caprio na capa do Grande Gatsby, um dos maiores clássicos da literatura americana. Fica proibido colocar imagens de filmes nas capas dos livros.

9 – Fim dos nomes terminados em “on”.

Quer que seu filho seja jogador de futebol? Escolha nomes normais para ele. Ninguém aguenta mais falar Cleverson, Uótson, Carlison, Jaimeson, Athirson…

10 – Nomes femininos não podem ter as letras K e Y. Também ficam proibidas letras dobradas.

Afinal, o nome certo é Catarina e não Kattariny. É Catia e não Kathya. Deu prá entender?

Enfim, com essa plataforma moderna, antenada com os anseios das novas gerações e rica em propostas, me coloco a disposição do país, sabendo todo o sacrifício que isso representa. Seu voto significara uma nova era para o nosso povo e um futuro garantido para meus descendentes.

E tenho Dito!

Shaná Tová

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Domingo começa o ano novo judaico, entramos em 5776.

Como o ano novo em qualquer tradição, é uma data que marca a esperança no começo de um novo ciclo.

E faz tempo que a necessidade de um recomeço não era tão urgente e sentida como hoje.

Então acho que vale a pena incluir nas nossas orações e desejos (cada um reza na língua e do jeito que sabe) alguns pedidos especiais.

– Que o mundo entenda que somos todos seres humanos, sejamos sírios, americanos, japoneses ou do Sudão. Há 70 anos havia crise de refugiados judeus sobreviventes de campos de concentração. Hoje são outros povos sofrendo a mesma dor. Sejamos solidários como muitos foram conosco no passado.

– Que os brasileiros entendam que a nossa opinião sobre as coisas não é mais importante do que a opinião do outro. Que as discordâncias sejam tratadas com respeito.

–  Que nossos governantes, sabe-se lá como, encontrem caminhos melhores para nos livrar do nó que eles mesmos nos enfiaram.

–  Que a gente saiba cobrar deles com firmeza, mas com respeito à democracia e às pessoas que pensam diferente da gente.

– Que o mundo encontre um jeito de se livrar do fanatismo que tenta apagar com tiros de metralhadora ideias contrárias. Ideias não morrem com tiros. Aliás, cada vez que alguém morre defendendo uma ideologia, ela se fortalece.

– Que as pessoas entendam que somos cada vez menores e mais interligados, não adianta pensar em benefícios locais ou de grupos. As ideias tem de trazer benefícios globais.

– Que cada um saiba que a responsabilidade de cuidar do planeta é de todos. Não adianta postar uma foto do urso polar esfomeado se você joga as pilhas velhas no lixo comum.

Enfim, espero que me perdoem a pieguice, sou assim ás vezes, especialmente nesses datas especiais. Sinto vontade de abraçar os amigos e dizer coisas que vem do coração, quase consigo ouvir “Imagine” tocando como a trilha sonora de um filme.

Na foto, um casal de refugiados se beija comemorando a chegada em segurança a uma ilha grega. Achei uma boa forma de mostrar que mesmo nos momentos de maior dificuldade, precisamos manter a esperança e a ternura.

Shaná Tová Umetuká

Que seja um ano bom e doce

Uma família em crise

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Uma família que conheço enfrenta uma terrível crise de relacionamento. Se o leitor tiver uma dica de como ajudá-los pode me mandar que prometo que chegará a eles.

A mãe, dona Coxinha tem dois filhos, o Esquerdinha e o Direitinha. Esquerdinha é casado com a Petê e Direitinha casado com Debê.

Acontece que dona Coxinha nunca gostou da Petê, implicava com ela desde os tempos de namoro.

_ Essa moça não presta meu filho, ela não é de boa família. Ela só está ao seu lado por interesse.

_ Mãe, estamos casados há mais de 10 anos e ela me ajudou a prosperar e nunca fez nada que te atrapalhasse. Você só implica!

Era fato, por anos Petê trabalhou e o patrimônio de Esquerdinha só crescia. Ele argumentava:

_ Ela me faz feliz. Você tem preconceito, mãe. Você não gosta dela porque ela não é de família tradicional como a Debê.

Até que um dia, dona Coxinha flagrou Petê traindo esquerdinha. Ela até fotografou a mulher aos beijos com seu amante. Isso aconteceu na mesma época em que Esquerdinha entrava numa enorme crise financeira, totalmente endividado pelos gastos excessivos da esposa. Petê comprava carros a prestação, roupas e fazia muitas doações, sem se preocupar com o orçamento familiar.

Dona Coxinha não perdoou:

_ Tá vendo meu filho, eu sempre disse que ela não prestava.

_ Mas mãe, ela me fez feliz por muitos anos, ela trabalhou e me ajudou a prosperar. E além disso a senhora também viu a Debê trair o Direitinha e não está falando nada.

_ Não muda de assunto menino!

E assim chegamos a situação atual desta família. Esquerdinha está brigado com a mãe, com o irmão e com a cunhada. Ele defende a esposa por quem ainda é apaixonado. Direitinha está morrendo de raiva da cunhada. Tanto ele como dona Coxinha sabem das puladas de muro de Debê, mas só se importam com os erros da Petê. Esquerdinha vê preconceito nisso e no fim ninguém se entende. A única coisa certa é que nenhuma das noras quer abrir mão do casamento.

Enfim, se alguém conhecer um bom conselheiro amoroso ou um pai de santo daqueles, eles aceitam indicações. Pois nesse caso, nem terapia familiar resolve.