Coisas da Bahia

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Paulo é um rapaz de 21 anos que atende num café no Quadrado de Trancoso. Zeloso do trabalho, é suficientemente humilde para não se considerar um barista, embora trate da bebida  carinho e esmero. Fala de alguns tipos de café enquanto usa a balança de precisão para fazer uma infusão diferente, 30g de café, 175g de água e muita prosa.

Herdei do meu pai o hábito de conversar com estranhos e Sílvia sofre do mesmo mal, então, quando viajamos, conhecemos muitos tipos, mas Paulo é um tipo mais que raro.

Fala do pais com veneração e trata seu chefe e tutor como o mesmo respeito. Do pai, mestre capoeirista, herdou a arte, com a mãe morou em muitos locais, inclusive navios de Cruzeiro.

Me conquistou ao contar que as pessoas tinham pouco acesso a livros em Trancoso. Incomodado com isso, criou uma biblioteca itinerante. Ele adaptou na bicicleta um carrinho e conseguiu os livros através de doações.

Seu dia é dividido em três partes: De manhã dá aulas de capoeira para as crianças, à tarde roda com sua bici-biblioteca oferecendo livros a quem precise, à noite serve café com rigor matemático.

Conheço muita gente que reclama da vida, gente que aos 21 anos estudava nas melhores faculdades e já tinha ido a Disney mais vezes que o Pateta. Paulo por sua vez, não tem do que reclamar. Ele trilha o seu caminho e melhora a vida das pessoas a sua volta. Ainda faz parecer que somos velhos amigos nos primeiros minutos de conversa.

Creio que há algo a se aprender com gente assim.

 

p.s. Eu peguei o cartão loja Cheia de Graças onde fica o café para enviar a ele meu livro e queria sugerir que o leitor generoso fizesse o mesmo. Sonhei com centenas de livros chegando de surpresa pelo correio para ajudar a bici-biblioteca. Só que a loja não tem endereço no cartão e nem nos sites. Só aparece assim: Loja Cheia das Graças, Quadrado – Trancoso. Aqui está a foto dela. Só tenho o telefone: 73 3668-1492

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Amanda Nudes

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Amanda ouviu a expressão por acaso no rádio e não deu muita bola:

Manda nudes

Depois leu alguma coisa na internet, uma matéria que falava de uma atriz que fez fotos nuas com seu celular e teve sua imagem exposta indevidamente.

A expressão ficou na cabeça mas não entendia direito.

No almoço com duas colegas mais novas do trabalho, ela pediu explicações.

_ Que negócio é esse de manda nudes que o povo anda falando?

Amanda tinha 35 anos e uma vida social muito regrada. Morava desde a faculdade em São Paulo e sabia que nunca voltaria a Goiás. Passou boa parte desse período namorando mas agora estava sozinha.

_ Manda nudes, ué? É mandar foto pelada no Snapchat. – Claudia respondeu com uma imensa naturalidade.

Talvez isso fosse fácil de compreender para uma garota de 23 anos como a Claudia, mas Amanda ficou ainda mais confusa.

_ Devagar, o que é snapchat? Como assim mandar foto pelada?

As meninas riram da aflição da colega e explicaram. As pessoas, quando se paqueram ou estão saindo, agora trocam fotos nuas e fazem isso através de um aplicativo chamado Snapchat, em que as mensagem desaparecem sozinhas logo depois de abertas.

_ E vocês fazem isso? – Amanda estava horrorizada.

_ Claro que não. – As duas responderam em uníssono mas o olhar da Claudia era oblíquo, deixando Amanda com dúvidas em relação a veracidade da resposta.

As noites seguintes foram de angústia para Amanda. Ela não se lembrava de ter alguma fantasia sexual até então, mas a ideia de trocar fotos do corpo despido com um estranho a excitou.

Num dia vasculhou a internet até achar sites com imagens vazadas de nudes feitos por pessoas de todo o mundo e contemplou as fotos com fascinação.

Outra noite, despiu-se diante do espelho admirando as imperfeições do seu corpo.

Sempre sozinha, substituiu as novelas pela obsessão em relação a nova moda. Queria encontrar alguém para compartilhar os nudes. Baixou o Tinder, baixou o Snapchat, maquiou-se, colocou uma lingerie e testou várias poses.

Fez algumas fotos, não gostou, descartou. Fez novas fotos, algumas sensuais, outras quase pornográficas e as guardou com medo e esperança.

A noite avançava, ela entrou nos dois aplicativos ao mesmo tempo e desesperadamente procurou por um par. Marcou uma série de homens que lhe agradaram e até alguns que não lhe agradaram tanto. Atrapalhou-se com o funcionamento do Snap. Lembrou-se que não tinha amigas a quem podia pedir dicas. Também não havia homens no mundo real com quem pudesse trocar esse tipo de sacanagem.

Passadas algumas horas, não conseguiu um único contato no Tinder ou no Snapchat.

A madrugada engoliu a noite, ela ainda olhou sem muita esperança para o Whatsapp onde o único movimento vinha do grupo da família que compartilhava rostinhos felizes. Não havia quem pudesse se interessar pelas suas fotos nua. Amanda jogou-se na cama e chorou compulsivamente.

Sexo aos 40

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Amigos, criei um novo blog, o “Sexo aos 40”, para tratar de questões envolvendo relacionamento entre pessoas da nossa geração.
Estou usando um personagem como se fosse o autor do blog (esse da ilustração), para deixar bem claro que as histórias contadas não são necessariamente minhas.
No Sexo aos 40 teremos histórias reais e inventadas. Se tiver um relato divertido e quiser me mandar, sinta-se a vontade.

O Adeus de dona Nenê

Dona Nenê acordou com a luz discreta que fazia brilhar o entorno da cortina do quarto. Sentia-se leve e jovem, nem a eterna dor nas costas a incomodava. Porém, ao tentar mover o corpo percebeu que nenhuma parte obedecia. Assustada, tentou chamar o marido, seu Gaspar, mas a voz também não saía.

Fez um enorme esforço e conseguiu se levantar. Mas para sua surpresa, ao olhar para a cama, viu que ainda estava lá, inerte, ao lado do marido. Novamente quis gritar e a voz não saiu. Ficou parada, olhando para o casal deitado, ouvindo o ronco suave do Gaspar.

Quando se casaram, há quase cinquenta anos, teve dificuldades para dormir devido aos ruídos que o Gaspar fazia, mas foi se acostumando e agora precisava desse som todas as noites, era a sua segurança.

Quando Gaspar acordou, chacoalhou o corpo ao seu lado e o abraçou enquanto chorava em desespero. Foi aí que Dona Nenê percebeu que estava morta.

Ela contemplou com candura a cena que envolvia seu marido. Estava comovida com a tristeza dele, era bonito ver tamanho amor.

De repente, a casa foi ficando cada vez mais clara. Era uma luz tão forte que não se podia distinguir mais os móveis e objetos. Tudo virou um imenso branco e um homem feito de luz surgiu.

_ Vamos Nenê. Chegou a hora de você subir.

_ Eu morri?

_ Digamos que você venceu uma etapa. Sua jornada continuará em outra dimensão.

_ É como se eu tivesse passado de fase no Candy Crush?

A entidade não entendeu a pergunta. Dona Nenê continuou.

_ Mas e as coisas que eu tinha, as pessoas…

_ Tudo ficará pra trás. Vamos seguir um novo caminho.

_ E não tem como ver meu Facebook?

A entidade novamente ficava confusa.

_ Meu Facebook. Vai ter um monte de gente falando de mim. Eu quero ler as homenagens.

_ No lugar onde a gente vai, nada disso será importante.

_ Moço, como não é importante? É onde minhas filhas colocam as fotos, eu vejo as viagens das amigas. Hoje vão falar de mim o dia inteiro. Vai ter um monte de textos emocionantes.

_ Dona Nenê, a senhora está apegada.

_ Eu queria tanto levar meu celular…

Os apelos eram inúteis, a própria entidade havia desaparecido e do alto surgia um túnel de luz multicolorida sugando dona Nenê que começava a se misturar à energia do universo. Em seu último esforço humano, ela ainda balbuciou:

_ E a minha cidadezinha do CityVille, tava tão bonita…

Vida Simples

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Como ficou simples a nossa vida.

Não precisamos ir ao correio levar uma carta quando temos saudades de alguém, basta um toque num botão e temos essa pessoa a nossa frente, não importa se ela more no Turcomenistão ou na Penha.

Não precisamos rasgar folhas de sulfite a cada erro da máquina de escrever ou empilhar montes de livros quando fazemos uma pesquisa.

Comparamos de preço sem sair de casa, deixamos que o celular escolha o caminho da festa. Ouvimos o disco que sempre sonhamos na hora e lugar que quisermos. Assistimos a filmes que antes eram apenas disponíveis aos ratos do cineclube.

Porém tudo tem um preço e o preço que pagamos hoje é alto, não sei se o homem primitivo, aquele que anotava os telefones em cadernetas, mandava telegramas e estudava caminhos no Guia, seria capaz de pagar.

Nossa liberdade é limitada por senhas. Sim, temos que ter milhares delas e elas mudam a todo momento. Nos obrigam a ter senhas que misturam letras maiúsculas e minúsculas, números e asteriscos. E quando começamos a confundir as senhas apertamos o link “Recuperar senha” e nos enviam um e-mail com o caminho para habilitar uma senha provisória para finalmente conseguir a nova senha.

E as atualizações? Quando estamos quase nos acostumando com o aplicativo uma atualização é lançada para nos dar conforto e melhorar nossa experiência (palavras do release copiado e colocado em todos os sites especializados). Atualizações que mudam tudo de lugar que nos enlouquecem enquanto procuramos pelos botões com os quais estávamos acostumados.

Enquanto isso, os softwares e aplicativos vão ficando incompatíveis com os novos sistemas operacionais, isso a gente só sabe depois de ligar para o SAC via telefone (lembra dele?).

Discamos os 8 números, depois digitamos nosso CPF e número do assinante e assim chegamos a um menu com 600 opções de caminhos até ouvir a reconfortante voz de um ser humano:

_ Kleisson, em que posso ajudar?

Depois de repetirmos o CPF e o número de assinante ele começa a nos explicar como e onde clicar para que tudo funcione exatamente como funcionava a dias atrás, antes da atualização

_ É tudo uma questão de UX – explica o especialista. – User Experience ou experiência do usuário. Tudo tem que ser o mais fácil e confortável para nós, os tais usuários.

Assim criam-se nuvens, back-ups virtuais, drives, ligações, aparelhinhos, aplicativos com novas e novas senhas, cadastros, nomes de usuário e muitas atualizações. Sabe pra quê?

Para simplificar a nossa vida.