Encerrando 2015 e o melhor presente

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O cartão da Heloiza

Eu estava um pouco triste por não encontrar algo de positivo para o último post do Blog em 2015. Lembro que no começo do ano fiz um texto bem pessimista com as perspectivas que se desenhavam.

Eu falava da possibilidade de uma recessão e da agonia em relação ao atentado contra a Charlie Hebdo. Quem diria que tanto a economia quanto a violência conseguiriam produzir notícias ainda piores do que aquelas.

Mas o ano passou como passará também 2016 e um dia serão lembranças de tempos difíceis.

Para amenizar a nuvem negra que insiste em nos esconder o sol, vou falar do melhor presente que recebi até agora neste natal. O bilhete cuja foto enfeita este post.

Explico:

A Heloiza é a filha adolescente da Daria, que uma vez por semana me ajuda com  limpeza em casa. A Daria me disse que Heloiza que é uma assídua leitora, então emprestei três livros para ela. Um do Philip Roth, um do Stieg Larsson e um da minha amiga Liniane Haag Brum.

O Brasil cresceu nos últimos 20 anos com o consumo e criamos uma sociedade cujo valor mais importante é a ostentação. O culto aos tênis de marca, às camisetas Hollister e ao Red Label são a filosofia da nova classe média.

Eu porém, continuo acreditando que cresceremos de verdade quando os livros forem mais importantes que a marca das roupas. Quando nossos jovens entenderem que os bons autores são mais bacanas que os youtubers.

Heloiza mostra que esse sonho não é apenas uma utopia. Os adolescentes brasileiros são hoje o grande filão a explorar pelas editoras. John Green e Suzanne Collins estão fazendo mais por nossos jovens que anos e anos de investimentos mal feitos em educação.

Então encerro 2015 comemorando que a geração da Heloiza está cada vez mais interessada nesses montes de palavras e páginas que formam um livro. Comemoro que esse é um movimento de mão única e que no futuro teremos jovens e mais jovens com livros sob as axilas andando pelas ruas e que os olhos baixos no metrô estarão devorando páginas e não emojis de rostinhos.

Boas festas e um ótimo 2016 a todos.

p.s. Ressaltei na foto o trecho do bilhete em que a Heloiza diz que preferiu o livro da Liniane ao dos dois consagrados autores.

 

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O Dia em Que o Whatsapp Parou

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Manu acordou e logo puxou o celular que estava no criado mudo para ter certeza de que não era um pesadelo: O Whatsapp não funcionava.

Na noite anterior aguardara com ansiedade o horário previsto para a interrupção do serviço, ainda com esperanças de que tudo não passasse de um boato. Infelizmente era verdade e nada podia fazer.

Chegou a mesa do café sentindo uma angústia difícil de explicar. O rádio dava as notícias da manhã, incluindo a da liminar que proibia o aplicativo. Seus pais conversavam como todos os dias, falando do trabalho ou da programação do final de semana. Manu segurava o celular, com vontade de ler os “bom dias” dos amigos e de ver ícones de rostos sorrindo, mas isso não aconteceu.

Entediada, começou a observar o movimento da cozinha enquanto comia. O pai falava gesticulando, levantava-se para preparar novas torradas, exibia seu sorriso matinal. A mãe limpava migalhas que caiam a mesa e usava o reflexo da garrafa térmica como espelho para ajeitar os cabelos. Era nítido o carinho de um pelo outro e Manu nunca tinha reparado nisso.

Mais tarde, no ônibus a caminho da FAAP, Manu pensou que o tédio ia matá-la. Segurava o celular como se o calor da mão pudesse derrubar a decisão judicial e sem melhores alternativas passou a prestar atenção no caminho. O Pacaembú era um bairro bonito, árvores frondosas, casas antigas e o velho estádio. Percebeu nos prédios alguns estilos arquitetônicos sobre os quais estava estudando.

Na faculdade, a luta contra o tédio continuava, sentiu-se obrigada a acompanhar o que os professores diziam nas aulas.

Mesmo com os amigos, a conversa era diferente. Claro que o assunto era o Whatsapp, mas as pessoas falavam de um jeito esquisito, olhando umas para as outras, respondendo, prestando atenção. Por um momento teve a impressão de que nunca havia visto os olhos de certas pessoas. Fazia parte de um grupo habituado a olhar para baixo.

Na volta pra casa decidiu ler no ônibus, coisa que não fazia há tempos. Estava encalhada no  100 Anos de Solidão. Gostava do livro mas não encontrava muito tempo para ele.

Só que não conseguiu ler nem duas páginas. Um aviso sonoro vindo do Iphone revelou que a liminar havia sido cassada. O Whatsapp ressuscitara. Guardou o livro na mochila e começou a mandar rostinhos felizes para todos os grupos.

Sugestão de trilha para o post:

8 Coisas

Caros leitores,

A MorgauseDS, do Blog de mesmo nome,  me colocou nesse Tag/desafio.

Sou um pouco desatualizado do mundo dos blogs e nunca tinha visto um destes.

Falar de mim me parece um tanto egomaníaco e desinteressante (há tantas coisas mais importantes sobre as quais as pessoas podem aprender), mas não quero quebrar a corrente, então vamos lá:

8 coisas pra fazer antes de morrer

  • Fazer trilha no Alasca;
  • Conhecer Israel;
  • Publicar um romance;
  • Dirigir ao menos um documentário Longa-Metragem;
  • Ver um show do Neil Young;
  • Assistir na TV a série Joãozinho Quero-Quero;
  • Morar um tempo no exterior (não pra sempre);
  • Cozinhar bem

8 coisas que amo

  • Ler;
  • Namorar;
  • Futebol, especialmente quando se trata do São Paulo;
  • Cinema;
  • Comer bem;
  • trabalhar (parece besteira mas sempre fiz o que gosto, então…;
  • Tocar;
  • Escrever

8 coisas que falo

  • Meu caro;
  • Meu;
  • Você fica no Whatsapp na hora de atender os clientes? (falo para todo garçon que tira os pedidos usando aplicativo);
  • Repito o que qualquer pessoa falou como se fosse ideia minha;
  • Hora de dormis, vamos escovar os dentes, já penteou o cabelo? (para minha filha);
  • Vai filha, como só mais um pouquinho (na hora da minha filha comer;
  • E tem mais uma coisa! (lembrado pelo Guto Klecz)
  • Falta um…

8 makes/roupas:

  • Camisetas que ganho de presente porque nunca compro;
  • Calça Jeans com corte dos anos 90;
  • Camisa xadrez;
  • Polos;
  • Nada que tenha marcas aparentes e grandes;
  • Tênis;
  • Cardigan;
  • Malha de meia estação fininha;

  8 coisas/objetos que não vivo sem (vi que alguns misturaram com pessoas mas achei coerente manter objetos inanimados)

  • Violão;
  • celular;
  • Computador;
  • Baixo;
  • Livros, livros e mais livros;
  • Wi-fi;
  • Caderno e caneta;
  • Mochilas.

  8 blogs para responder essa tag:

O Escambo de Emoções, que trata de pensamentos positivos e lições de vida;

Eu, nós dois e o Mundo lembra o Toda Unamimidade, tem um ponto de vista masculino e crônicas sobre tudo;

Vale mais é um Blog de dicas de compras com cara de revista de variedades;

O meu amigo e parceiro Pedro Menezes transformou a observação cotidiana de seu filho do tocante Caderno de Observação de um Filho.

A jornalista Claudia Giudice que nos ensina a mudar de vida em A Vida sem Crachá.

Eurico Gomes faz Obervações Aleatórias Sobre Livros;

Loucuras de Julia escreve sobre tudo e de um jeito divertido.

Duas jovens falam sobre relacionamentos de forma deliciosa em Santas e Loucas

Ética ou resultado?

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Meu nome é Luciano e eu tenho uma loja de sapatos. Como não posso cuidar dela, a cada 4 anos coloco um administrador que se me agradar deixo lá mais 4 anos.

De 2002 a 2010 tive um administrador chamado Inácio. Ele era falastrão, egomaníaco e divertido. Embora não tivesse muito estudo formal, me convenceu com seu jeito seguro e foram 8 anos em que loja foi bem. Tinha ótima relação com a equipe, as vendas foram excelentes e os clientes estavam felizes.

Ele tinha seus defeitos. Dava pra ver que de vez em quando metia a mão no dinheiro do caixa e também fazia vista grossa quando um funcionário levava um sapato. Contratou mais gente para a loja do que era necessário e muitas dessas pessoas não eram qualificadas para suas funções e também roubavam sapatos. Mas no fim, como a loja lucrava bastante, acabei deixando que concluísse seu contrato.

Em 2010, a Vilma assumiu a administração da loja. Ao contrário do bonachão Inácio, Vilma era muito séria e compenetrada. Parecia uma sargenta do exército alemão. Falava em rigor e eficiência e eu confiei nela.

Vilma é extremamente honesta, jamais desviou um centavo do meu caixa e isso é admirável. Mas ainda sim estou tendo muitos problemas. Ela grita com a equipe e não tem talento para administrar pessoas. Colocou o melhor vendedor para atender nos horários mais vazios da loja, transformou a faxineira em caixa e o estoquista em vendedor. Também contratou assistentes para todos os funcionários e estagiários para todos os assistentes. Ela não rouba mas a confusão na loja é tão grande que todos estão roubando.

Ela também se mostrou incompetente na gestão do dinheiro e na escolha dos produtos.

Os clientes sumiram, os fornecedores não querem entregar a mercadoria e o lucro da loja se transformou em imenso prejuízo.

Isso me levou a um dilema moral:

  • Se mando ela embora, me sentirei uma pessoas extremamente antiética, já que suportei tantos funcionários sem caráter quando o resultado me interessava.
  • Se deixo ela no comando, estarei respeitando o contrato e o caráter da mulher, mas ela me afundará no lodo até o pescoço.

Não sei se o leitor já passou por uma situação parecida, mas agradeceria conselhos e sugestões.

Respeito meu lado justo e fico com a Vilma ou respeito meu lado prático e dispenso a coitada?

Rogério Ceni e o fim da infância

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Rogério cercado de fãs. Não parece, mas sou um deles.

Há poucas coisas mais imbecis do que homens discutindo futebol.

_ Foi pênalti.

_ Não foi.

_ Meu time ganhou o Paulista de 79.

_ Meu time ganhou do seu por 5 x 0 em 82.

Vivo me perguntando a razão pela qual agimos assim e me arrisco a dizer que isso acontece porque na infância nos tornamos fãs de futebol e é nessa época que moldamos o nosso modo de torcer.

Crianças não tem o mesmo senso crítico que nós, não tem como comparar os jogadores que conhecem com craques do passado, por exemplo. Para as crianças os ídolos parecem maiores e mais importantes do que realmente são.

Na minha infância, jogadores do São Paulo hoje quase esquecidos tinham uma enorme peso. Eram figuras míticas, cada uma com super poderes. O lateral Getúlio (Gegê da Cara Grande) tinha o poder do chute atômico; Waldir Perez era um Globe Trotter que defendia pênaltis e fazia micagens divertidíssimas; Renato (Pé Mucho) tinha o poder do drible.

Naqueles tempos os boleiros eram fiéis aos clubes e por consequência, às suas torcidas. Biro-Biro e Zenon eram do Corinthians, Andrade era do Flamengo, Gatãozinho, do Juventos da Moóca. Isso reforçava a ligação que tínhamos com eles, nós garotos e eles ídolos.

Mas hoje crescemos e o futebol mudou. Guerrero, o ídolo do Corinthians joga no Flamengo, o são paulino Danilo é do Corinthians e o Santista Ganso está no São Paulo. Essa ligação entre atleta e torcida é frágil, poucos sabem o que é ter um craque para chamar de seu.

Rogério Ceni foi o último desta estirpe no Brasil. Foi são paulino a carreira toda, portanto, daqueles ídolos que fazem sentir que ainda somos crianças, torcendo por ele com carinho e ingenuidade. Sua parada fará com que olhemos para o São Paulo com olhos frios de adultos que somos. Iremos analisar as novas contratações pelo que realmente valem, iremos definir a atuação de um goleiro pelo que ele fez em campo. Sem Rogério, acreditaremos no comentarista da tv quando ele disser que o goleiro falhou.

Na condição de otimista doentio, sempre acredito que poderemos ter novos ídolos assim, mas o adulto em mim diz que depois de Ceni, restará o pragmatismo no futebol, com sua movimentação de dinheiro colossal e a triste declaração a cada compra e venda de jogador – “Sou profissional, preciso pensar na carreira…”

Há muito que falar de Rogério Ceni, pode-se tratar dos recordes , dos gols, das defesas. Eu porém, não estou preocupado com os resultados, com o índice de aproveitamento ou com o fim da liderança. Me preocupo menos ainda com o profissionalismo. Eu estou triste pois perco o último ídolo que me fazia torcer como criança.

Escolhi esse vídeo para ilustrar a matéria. É um jogo em que Rogério tinha 40 anos e tomou 3 gols. Ele estava voltando de contusão e longe da melhor forma.