Toda Unanimidade no Oscar

A melhor cobertura feita por quem não viu os filmes e dormiu durante a cerimônia.

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A festa de ontem deve ter sido incrível, pena que dormi. Mas a culpa não foi minha. alguém programou um musical com a chata canção do 007 no começo. A música em português devia se chamar “Boa Noite Cinderella”. Se eu voltar a ser pai prometo que compro o disco. Mas vamos aos fatos.

  • Chris Rock encarou de frente a polêmica da ausência de negros nas indicações de forma divertida. Concordo com a academia nesse caso, o histórico recente não permite acusar Hollywood de racismo.
  •  Eu estava assistindo à festa sem tradução simultânea e só agora descobri pelas redes sociais que os comentários da Glória Pires foram o melhor da transmissão.
  • Fiquei muito feliz em rever a Charlize Theron com os dois braços.
  • Mad Max ganhou quase todos os prêmios técnicos e de arte, menos fotografia e direção. Perdeu para O Regresso. Ambos são filmes de gigantesco desafio técnico e absolutamente admiráveis.
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    Os figurinos que levaram o Oscar

     

  • Dicaprio merecia o Oscar faz tempo.
  • Enio Morricone merecia há bem mais tempo. É como se o Dicaprio esperasse até os 90 anos para ganhar a estatueta. Se eu estivesse acordado eu levantaria do sofá para aplaudir o homem que fez isso.
  • “Divertidamente” bateu nosso “O Menino e o Mundo”. Vou sugerir uma categoria nova no Oscar: “Melhor animação que não seja da Pixar”.
  • A cerimônia sempre se chamou “Oscars”, no plural? O nome mudou ou eu falei errado minha vida inteira?
  • Fecho os comentários com a linda frase dita pela Charlize Theron no palco (será que a tradução simultânea pegou?): Writers are hot (provavelmente ela pensou em nós, blogueiros).
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Séries e mais séries

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Lola irritava-se – “Que mania as pessoas tem de falar de séries de TV!”.

Lola trabalhava muito, chegava em casa cansada e tinha que dar atenção ao filho, ao marido, ao cachorro, cuidar de seus afazeres, ligar para a mãe… Nunca teria tempo para assistir uma novela americana sobre zumbis.

O problema é que quando conseguiam marcar um cervejinha no bar  ou um jantar no apartamento de amigos esse era o assunto predileto.

“Eu acho que o House morre no final.”

“Eu sou apaixonada pelo Draper.”

“Essa sexta temporada não está tão boa. O Jake perdeu a graça.”

” Não me conta nada que eu perdi o último episódio.”

E lá ficava Lola calada e cabreira de não lembrar de um personagem desde a Rachel de Friends nos anos 90.

Até que um dia Lola se separou. O filho passou a ficar ora lá, ora cá e o cachorro, traidor, escolhera o ex-marido.

Assim, sem que houvesse pedido, Lola ganhou um bem que há anos perdera, o tempo. Passou a ter algumas noites por semana que pertenceriam apenas a ela. Então presenteou-se com o direito de assistir às séries de TV de que tanto ouvira falar.

Assinou o Netflix e começou com Narcos, já que sempre ficara em silêncio enquanto os amigos elogiavam a atuação do Wagner Moura. Gostou tanto do primeiro episódio que assistiu seis em sequência. No manhã seguinte chegou atrasada ao trabalho e passou o dia inteiro com sono.

Depois disso a situação piorou. Bastava começar qualquer série que sentia uma angustia imensa que só se resolvia no último episódio. Perdia madrugadas, se irritava quando o filho demorava a dormir. Começou a ter problemas gerados pela falta de atenção no trabalho,  passava o dia ansiosa pelo destino de Walter White ou de Frank Underwood. Chegou a ver um episódio inteiro de Demolidor escondida dentro do banheiro do escritório.

E isso tudo não a ajudou nas conversas com as amigas em bar. Isso porque não havia tempo de  ir a bares ou ver as amigas. Ela desmarcava encontros, perdia compromissos, faltava a eventos. Tinha muito o que assistir, eram séries e mais séries.

 

Da leitura

Ninguém como Pedro Menezes para nos lembrar do que é importante.

Caderno de Observação de um Filho

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Albert Einstein was asked once how we could make our children intelligent. His reply was both simple and wise. “If you want your children to be intelligent,” he said, “read them fairy tales. If you want them to be more intelligent, read them more fairy tales.”

Perguntaram uma vez ao Albert Einstein como tornar nossas crianças inteligentes. Sua reposta foi ao mesmo tempo simples e genial: “Se você quiser que as crianças se tornem inteligentes, leia contos de fadas para elas. Se você quiser que elas se tornem ainda mais inteligentes, leia mais contos de fadas.” (Desculpem a tradução canhestra.)

Do discurso do Neil Gaiman, na Reading Agency (Londres, 2013)

Ver o post original

Eu, o Crente

 

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O mundo comemora, os jornais noticiam, cientistas confirmaram a teoria de Einstein que trata de ondas gravitacionais.

Eu até explicaria para o leitor o que isso significa, mas não o farei porque não consegui minimamente compreender o fenômeno mesmo, lendo o infográfico do UOL.

Fiquei tão excitado como no dia em que o CERN provou que existem partículas minúsculas que são ainda menores que as partículas minúsculas que já se conhecia.

Ao que parece, estão tentando entender o Universo e suas origens.

Antes dos cientistas, os religiosos explicavam essa origem de outra forma. A bíblia, por exemplo, diz o seguinte:

No princípio criou Deus o céu e a terra.
E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Já segundo os Gregos, Caos era um Deus solitário que reinava sobre o nada e ele, cansado da solidão, criou Gaia. Gaia criou Eros, Urano e os deuses foram brigando, transando e comendo (literalmente) uns aos outros e em algum momento criaram a Terra.

Para os astecas, no princípio, tudo era negro e morto. Um dos deuses, Nanahuatzin, se lança a uma fogueira, convertendo-se no Sol. Ao ver isto, outro deus joga-se na mesma fogueira transformando-se em Lua. Os deuses vão se sacrificando e virando elementos até a Terra nascer.

E para os Cientistas toda a energia do universo estava concentrada em um único ponto, não havia nada fora dele e não existia o tempo. Esse ponto explodiu e formou o sol, a lua, a galáxia de Orion, os buracos negros, o tempo, as ondas gravitacionais e a Scarlett Johansson.

Coloquei os mitos e a explicação científica em sequência de propósito, para mostrar que em relação ao surgimento do mundo,  acreditar nos cientistas exige a mesma dose de fé do que acreditar no deus Nanahuatzin.

Não vou dizer que eles estão errados, mas minha mente não consegue ver lógica em um ponto que explode e gera tudo. Eu assisti a série Cosmos, li explicações  e continuo achando tudo isso tão excitante como a descoberta de partículas menores que as outras partículas.

Se é para não entender uma explicação ou outra, então prefiro as versões mitológicas. Prefiro acreditar no deus Caos, no sacrifício de Nanahuatzin ou discutir o significado de “O espírito de Deus se movia sobre a face das águas”.

Cansei da ciência, cansei da lógica, as mil matérias sobre ondas gravitacionais me fizeram sentir falta dos deuses pagãos. Que voltem todos eles, Baco, Eros, Mercúrio, Tutatis, Belenos, Baal, Tupã, Afrodite e Iara. Façamos rituais nus dançando entre fogueiras, pedindo chuva.  Nosso Deus único está muito solitário e não consegue evitar que seus filhos se matem aos montes. A frieza da exploração científica não evitou que se criasse a bomba atômica. Quem sabe as cores e nuances dos seres elementais venham nos redimir.

 

 

 

 

Vou beijar-te agora, não me leve a mal, sou um assediador

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Linda foto de Eduardo Knapp publicada na Folha, mostrando um beijo consentido e carnavalesco

Quanto riso, ó quanta alegria.

Sempre gostei do carnaval. E desde que me conheço por gente, relaciono a festa aos beijos. Não é nehuma surpresa, as pessoas beijam muito no carnaval.

A letra de Máscara Negra do Zé Keti (feita em 1967) não me deixa mentir. Os dois estranhos que se encontram no carnaval encobertos por suas fantasias de arlequim e colombina se lembram dos beijos trocados no ano anterior.

Mas esse carnaval teve uma movimento diferente.

As mulheres começaram a externar seu desconforto em relação ao comportamento de homens que no afã de beijar muitas bocas, passam dos limites e as agridem, seja de forma física, seja por intimidação.

Hoje sou um homem de cabelos prateados, não pulo mais o carnaval. Minhas lembranças vem dos tempos de farras em clubes no interior. Os bloquinhos eram raros.

Ainda assim, creio que tanto eu como muitos conhecidos fomos inconvenientes com garotas em mais de uma ocasião.

Acho que eu não seria capaz de intimidar, visto que naqueles tempos eu era minúsculo em tamanho e massa (ainda sou baixinho mas a massa já é bem maior). Apesar disso, posso ter assediado e incomodado.

Engraçado é que hoje a fronteira entre paquera e assédio é muito clara para mim. Se eu fosse jovem com a consciência que tenho agora, jamais cometeria os mesmo erros.

Mas e os jovens de hoje? Será que são capazes de ver essa diferença? Me parece que não. Se fossem, a revista “Az Mina” não precisaria publicar um manual que diferencia paquera de assédio.

Não devo beijar mais ninguém nos carnavais futuros. Acompanhar os blocos me daria dor nas costas e pressão alta. Não há mais necessidade usar essas regras. Mas peço desculpas às garotas dos anos 80 e 90 a quem devo ter importunado. Aquele baixinho magrela não sabia o que estava fazendo.

 

Lili, a engajada

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Lili sempre foi assim e ninguém sabe dizer a origem desse comportamento. Desde criança defendia os fracos e oprimidos. Uma vez bateu num menino que havia atirado uma bombinha num gato. E ela nem gostava de bichanos.

A família de Lili era muito tradicional, o pai, funcionário da Câmara Municipal, a mãe, dona de casa. Os dois frequentavam a igreja e deram uma educação católica exemplar para os filhos. Porém, Lili, para desespero de todos, já na adolescência repetia que a religião era o ópio do povo.

Depois veio o curso de Ciências Políticas na PUC, a participação na UNE, na juventude do PCB, o concurso que a colocou na secretaria de habitação do Estado, o casamento com um colega de partido, o divórcio e o apartamento em Santa Cecília, onde nas noites depois do trabalho, enfrentava batalhas nas redes sociais.

No Facebook atacava os pais das amigas que compartilhavam frases do Bolsonaro e pediam a cabeça de Dilma. Depois publicava textos defendendo índios do Mato Grosso, a agricultura familiar e os palestinos.

Porém, seu ambiente predileto era o Twitter. Lá passava noites de insônia replicando as análises do Luis Nassif e batendo boca com os reacionários. Adorava discordar de tudo o que diziam Ricardo Amorim, Danilo Gentile, o Antagonista e principalmente o Lobão.

Seus amigos e colegas de trabalho sabiam de seu engajamento virtual mas não se incomodavam, até porque fora das redes Lili não se mostrava tão exaltada e era uma ótima companheira de bar.

Até por isso todos se preocuparam quando ela faltou ao trabalho sem avisar. Não atendia as ligações, não respondia às mensagens. O desespero só não foi completo porque o irmão percebeu que ela continuava publicando textos e entrando em discussões nas redes sociais.

Só que ela não respondia qualquer mensagem direta nas mesmas redes. Só respondia provocações .

Para testar, o pai colocou uma charge do triplex do Lula e ela defendeu o ex-presidente imediatamente. A irmã postou um texto sobre o direito dos refugiados trangêneros e lá estava ela compartilhando.

Porém, como não respondia diretamente a ninguém, tentaram ir ao seu apartamento. Lili ignorou o interfone e as batidas na porta. Assustados os familiares e amigos recorreram à polícia.

Dias depois, na clínica onde foi internada, o psiquiatra ainda tentava entender o tipo de surto que a atacou. Quando arrombaram sua porta ela agia como um zumbi diante do computador e não respondia a nenhum estímulo que não fosse de natureza política.

Na ambulância, antes dos remédios a apagarem por completo, ainda falava de forma confusa:

_ Pelo empoderamento da mulher negra, cotas nas universidades, ocupem as escolas, direito ao aborto, maldito eucalipto transgênico…