Xixi de madrugada

Cartum 89
Charge do Cartunista Edra

Toda madrugada eu levanto para fazer xixi, mas nem sempre foi assim.

Quando era criança, eu tinha um sono muito pesado e provavelmente uma ótima bexiga. Se sentia vontade de fazer xixi não me dava o trabalho de levantar. Apenas sonhava que estava no banheiro e acordava numa poça quentinha e gostosa.

Já adulto, adquiri o hábito de acordar de madrugada para uma visita ao banheiro. Com o tempo, acho que minha bexiga encolheu, pois nem sempre uma visita basta. Fiz uma projeção e se a bexiga continuar diminuindo, em 2029 terei de levantar pelo menos 18 vezes para esvaziá-la todas as madrugadas.

Isso não é tão ruim, já me acostumei. Porém nas últimas semanas vivemos um frio digno da Lapônia e deixar o edredom representou um grande desafio. Nesses momentos difíceis, quando há dois desejos básicos se enfrentando (o desejo de fazer xixi e o de sentir conforto) fui levado a pensar na dura sina de tantos brasileiros que  tem uma condição de vida tão pior que a minha.

Sou um privilegiado. Meu apartamento é ótimo, durmo numa suíte, tenho pijama flanelado e na minha cama há lençóis macios, cobertor e edredom. Ainda assim eu sofro horrores com o frio ao dar poucos passos na direção do banheiro.

Sem a minha sorte, há milhares de pessoas que vivem na rua e outras mais que moram em barracos ou moradias em que o vento gelado entra sem qualquer pudor. Como reclamar dos pequenos desconfortos a que somos submetidos sabendo que tal situação existe e tão perto da gente?

Fiquei pensando que algo deveria ser feito para essas pessoas.

Então resolvi fazer o que a maioria dos brasileiros (tão cheios de boas intenções e cientes dos seus deveres como cidadãos e seres humanos) fazem em situações como essa: Escrevi esse textão e compartilhei nas redes sociais.

Pronto.

Agora não preciso sofrer mais quando vejo que há alguém dormindo num cobertor imundo sob a marquise do Banco do Brasil. Posso dar minhas mijadinhas noturnas e voltar para o quentinho da cama sem qualquer peso na consciência. Afinal, eu já demonstrei nas redes sociais que sou uma pessoa solidária, atuante e digna de admiração.

Só preciso me lembrar de compartilhar também uns posts de campanhas do agasalho e mandar curtidas em quem faz o mesmo. Aí sim serei um exemplo de caridade e um bastião da moral e da igualdade entre os irmãos.

 

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