Minha doutrinação marxista (e a Escola Sem Partido).

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Eu e meus coleguinhas em 1979

Fui doutrinado no marxismo desde a 5a. série.

Começou no ginásio do Colégio Pirâmide em São Bernardo, mas se agravou mesmo no ensino médio do Singular, com o professor Takara. Ele nos ensinou que a história da humanidade era a história das lutas de classe. Ele disse que essa era a maior lição que tinha a ensinar.

Na Eca-USP, onde estudei publicidade, foi ainda mais radical. Maria Immacolata, Celso Federico e outos nos apresentavam a dialética de Hegel, a escola de Frankfurt e Gramsci.

Porém, parece que meus professores foram um tanto incompetentes em seus intuitos doutrinatórios.

Meus amigos do Pirâmide e do Singular (salvo raras exceções) são todos capitalistas/coxinhas/direitistas e odeiam o PT.

Até entre os egressos da ECA, famosa pelo pensamento de esquerda, há desde petistas fanáticos até colunistas da Veja. Um colega meu escreve blogs para o exército.

E eu?

Juro que não sei em que me transformei. Talvez o leitor fiel do Blog possa me ajudar. No geral acho os dois discursos estúpidos e rasos. Discordo de todo mundo.

Contei essa historia porque há uma discussão no congresso e na sociedade da tal “Escola Sem Partido”. Em que alguns grupos querem tirar a ideologia de esquerda que supostamente permeia nossas escolas.

A “Escola Sem Partido” é também uma Ong e no seu site há a explicação. Diz que a escola não existe para educar as crianças nos que diz respeito a ética, moral, política ou religião, pois desrespeitaria as posições e valores dos pais.

Eu já vi matérias mostrando livros com viés claramente político-partidários indicados pelo MEC e não concordo com seu conteúdo.

Porém, a neutralidade do Escola sem Partido é das maiores mentiras que já vi. A tal neutralidade é a ultra direita disfarçada e o desejo de tirar a visão crítica dos jovens.

Por trás de respeitar a religião está tirar Darwin dos currículos.

Por trás da neutralidade na história, está a defesa da ditadura que começou em  1964.

Por trás de não falar de ética e moral está o fim da defesa da mulher, do gay, do negro…

A doutrinação de esquerda que me foi dada  era ruim, cheia de falácias e utopias bobas. Mas ainda assim, é muito melhor que está sendo proposto. No mínimo, ensinava a contestar, a questionar, a duvidar.

O projeto da Escola Sem Partido é a pior coisa ser introduzida no Brasil desde que os Europeus introduziram seus vírus e bactérias em 1500.

p.s. Esse texto ficou sério e chato, para animar segue uma musiquinha com o coral do exército vermelho:

 

 

 

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Nada de novo sob o sol

O vazio de ideias.pngNormalmente escrevo nas segundas-feiras à noite. Me impus essa rotina para alimentar o blog. Hoje é quarta-feira e só agora decidi fazer o meu texto. Isso aconteceu por um triste motivo.

Não encontrei  assunto.

Minhas crônicas são inspiradas nesse mundinho em que vivemos, com destaque para aquele enorme país que ocupa a costa leste da América do Sul. E o que aconteceu ultimamente?

Um maluco religioso jogou um caminhão contra uma multidão na França. Tentativa de golpe militar num país muçulmano. Republicanos celebram um candidato republicano. Petistas reclamam do golpe. Cunha continua solto.

Tudo segue como sempre.

Diante deste quadro de imensa monotonia, sou obrigado a surrupiar citações de um livro de 3.000 anos em onde o escritor já dizia:

Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.
O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.

O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Também não a nada de novo no blog. Perdoe-me caro leitor. Vamos torcer juntos para que algo diferente aconteça no mundo. Quem sabe como:

  • Fanáticos religiosos comecem a entender que Deus é amor.
  • Pessoas ricas fiquem satisfeitas com suas fortunas.
  • Apareçam políticos honestos com vontade de contribuir para o país.
  • Pessoas respeitam o fato de sermos todos diferentes.

Enquanto isso não acontece, vai ser difícil se inspirar.

Um Guitarrista Estupendo

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Comecei a reparar nos dedos dele, rápidos, precisos e cheios de ginga. Não batiam nas casas de forma mecânica. Cada nota tinha a intensidade que precisava ter.  Fiquei tão hipnotizado pelo som da guitarra que não ouvia mais o que falavam em minha mesa.

Era uma trio que misturava soul, blues e jazz com muito swing e ousadia, mas isso não interessava aos frequentadores do bar. Nossa mesa, formada por quatro economistas jovens que comemoravam mais um bônus polpudo estava mais interessada em escolher rótulos caros de vinho e encontrar no google modelos de carros extravagantes. Não fazia sentido ganhar aquele dinheiro todo e comprar outra BMW.

Eles falavam em relógios exclusivos, restaurantes em Boston e mulheres siliconadas. Eu estava distante, atento a uma versão magnífica de “Nothing But a Woman”. Acho que só eu sabia que aquele guitarrista era extraordinário.

E por que eu sabia isso? Por que que tinha tanta certeza?

Porque sou um ótimo guitarrista. Toco desde a adolescência. Eu tirei Starway to Heaven e Sultans of Swing de ouvido e não tinha mais de 15 anos. Ainda hoje muitos ficam impressionados com minha versões de Highway Star ou Back To Black. Porém conheço os meus limites e sei a diferença do ótimo para o extraordinário e o que via era verdadeiramente especial.

No intervalo, quando os músicos pararam para descansar um pouco, abordei o tal guitarrista no fumódromo. Reparei de perto que suas roupas estavam em péssimo estado. Os sapatos imprestáveis. Chamava-se Samuel.

Obviamente, falamos de música, listando os guitarristas e bandas que mais admirávamos. Ele deu uma aula sobre George Benson e Steve Lukather, me indicou alguns álbuns deles. Era culto, estudioso do assunto. Tive de controlar minha prepotência habitual e apenas ouvir.

Quando esperava o manobrista trazer meu carro ele apareceu com a guitarra nas costas. Ofereci uma carona. Ele disse que ia para a Giovanni Gronchi, era perto de casa.

No carro voltamos a falar de música, arranjos, do prazer que é trabalhar com aquilo que se gosta. De repente ele pediu que eu parasse o carro em um posto de gasolina e o deixasse lá. Eu disse que podia levá-lo em casa mas ele insistiu em ficar no posto. Nos despedimos e ainda o vi pelo retrovisor caminhando sozinho com seus sapatos desgastados.

Quando cheguei no meu apartamento saí para fumar o último cigarro no terraço. Eu moro num andar alto e tenho uma boa vista da zona sul. Deixei Samuel num ponto próximo a prédios muito luxuosos e a favela do Paraisópolis. As roupas gastas e o fato dele ter preferido ficar no posto de gasolina me fizeram pensar que mora na favela. Ele ficou constrangido em  me dizer.

Ainda tragando e olhando a neblina que surgia na madrugada pensei no meu potencial como economista. Sou igual a meus pares. Estudei bastante, trabalho direito, mas jamais serei brilhante. Samuel era diferente tinha algo de único, era especial no que fazia, tinha um talento que sonhei em ter. Com os acordes de Robert Cray ainda ecoando na cabeça, apaguei o cigarro e deitei-me confortavelmente no lençol de algodão egípcio que comprei com o bônus do ano passado.

 

 

 

Cinco Brasileiros

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1.

Pirulito é o apelido de Clairyson Silva. Prestes a completar dezoito anos ele recebeu uma oferta para trabalhar no estoque de um supermercado. Os novecentos reais de ordenado ajudariam a família e lhe renderiam umas sobras para a baladinha do final de semana.

Pirulito queria mais e trocou as duas horas de ônibus até o centro e a carteira assinada por um trampo de olheiro na boca.

Agora ele exibe um tênis de mil reais para as novinhas do baile funk.

2.

Jorge Fernando Machado tinha orgulho do cargo  – Analista de Compras II – em uma indústria de auto-peças. Dava para pagar as prestações do apartamento juntando o salário com o da esposa, professora numa escola do bairro. Só não sobrava para luxos. A viajem à Disney era adiada ano após ano.

Jorge queria mais e fez alguns acertos com certos fornecedores que precisavam garantir contratos melhores.

Agora ele vai todo ano para o exterior. A família nunca posta as fotos das viagens em redes sociais.

3.

Priscila Cortez jamais vai se esquecer do dia em que passou no concurso da magistratura. Ela adora dizer no clube que é juíza. Só que nas mesmas conversas, quando as amigas contavam sobre casas em Aspen, ela se sentia inferiorizada.

Priscila queria mais e combinou com um advogado amigo que facilitaria a vida de alguns dos seus cliente.

Agora Priscila também tem uma casa em Aspen.

4.

Eduardo Becker só começou a trabalhar aos 30 anos na construtora do pai. Antes, estudou e curtiu a vida. Escolheu fazer a pós-graduação em Berna, para estar bem no Centro da Europa. Ao voltar, tornou-se CEO da empresa.

Eduardo queria mais e fez um plano de crescimento que envolvia a construção de obras públicas. Contava para isso com o apoio de Miguel, seu velho amigo, atual governador de Santa Catarina.

Agora a construtora da família detém alguns bilhões em contratros de obras com o governo e Eduardo é padrinho do neto do Presidente da República.

5.

Maria de Lourdes Rosário está desempregada há anos e vive de faxinas ocasionais. Ela nunca pegou nada de ninguém.

Maria de Lourdes quer mais e por isso faz aulas noturnas para ser manicure.

Agora, ela está na fila de um hospital qualquer na periferia, rezando para que a dor no peito não seja nada demais.