O Prefeito e o Presidente

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No começo foi fácil, dava certo para o prefeito e para o presidente.

Diga que vai mudar as velocidades das Marginais e lá estavam as manchetes, estavam os fãs entusiastas e os desesperados opositores.

Fale de um muro no México, crie uma crise internacional pelo Twitter, ponha as redes sociais aos seus pés e fature artigos e mais artigos no mundo inteiro exibindo o topete arrogante.

Meus Deus como é fácil, dá pra fazer todo dia.

Pinte os grafites de cinza, ofenda os muçulmanos,  fantasie-se de lixeiro, proponha leis absurdas, tire do site da CET informações sobre queda de acidentes, apague do site da Casabranca matérias sobre aquecimento global, ofenda os grafiteiros, ofenda os latinos.

As dificuldades começaram no segundo ano, quando o prefeito se vestiu de veterinário  numa visita ao zoológico e não havia nenhum repórter para fazer o registro.

Enquanto isso, no hemisfério norte, o presidente usou as redes para chamar o Papa de maricas, mas nem os seguidores nem a imprensa se impressionaram. Sequer o Vaticano enviou qualquer resposta.

Foi quando o presidente e o prefeito perceberam que para manter a atenção do público e da imprensa precisavam se esforçar mais.

O presidente começou a ofender mais gente e de forma ainda mais gratuita. Chamou Steve Wonder de “porco cegueta”, disse que o Abraham Lincoln tinha uma barba ridícula e que planejava fechar a Disney para evitar a gritaria infernal daqueles pirralhos.

O prefeito se fantasiou de macaco, de Incrível Hulk, de Lula (ele até se esforçou para imitar a voz rouca) e baixou um decreto autorizando à Guarda Civil jogar tinta cinza nos tatuados que andavam pelas ruas. Nada adiantou.

No final de seus mandatos os dois estavam irreconhecíveis, silenciosos e exibindo sintomas de depressão. O prefeito fantasiou-se de mendigo e passou dias na cracolândia sem ser reconhecido. O presidente saiu pelas ruas e xingou um caminhoneiro que fazia seu lanche numa barraca de cachorro-quente. Apanhou como nunca.

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A biblioteca que se incendeia

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Semana passada fui ao enterro de uma senhora que morreu aos 100 anos.

Pensei nas infinitas histórias que morriam com ela. Nas lembranças da infância na Alemanha em crise, na viagem de navio que a trouxe ao Brasil, no quanto deve ter sido estranho trocar a Europa por um país distante, tão diferente. Pensei nas histórias que ouviu de seus pais, de seus avós, histórias passadas no século XIX. Com certeza daria para escrever um livro, ou mais que um livro.

Diz um ditado que cada velho que morre é uma biblioteca que se incendeia.

Nas últimos meses tive a sorte de ouvir muitas histórias de pessoas com mais de 80 anos. Retratos do passado.

Ouvi histórias de como um viaduto de Santo André tem o nome de um pedreiro competente ou de como um médico presenteou seu paciente com um pato (e isso era normal na época). Histórias de como minha avó comprava carpas e as mantinha vivas em sua banheira antes de prepará-las. Histórias de um rico fazendeiro em Minas que levava uma marmita dupla para o trabalho pois se sentia na obrigação de dividir a refeição com quem necessitasse. Histórias do meu tio avô que foi soldado em Israel e participou de terríveis batalhas no começo dos anos 50.

Conversei com uma senhora com Mal de Alzheimer que perdeu a memória recente e consegue se agarrar a lembranças dos anos 30 e 40, como se estas lembranças fossem suas únicas conexões com o mundo. Com certeza ela já se esqueceu de mim, mas ainda se recorda de como subia nos sacos empilhados no armazém do pai.

Enquanto caminhava no cemitério, cruzando o mar de de granito, eu lia os anos de nascimento nas lápides: 1919, 1922, 1913, 1931. Fazia um estranho frio para a época do ano e a garoa começava a nos gelar. Eu porém, sentia calor, um calor vindo do imenso incêndio, de milhares de bibliotecas, de milhões de livros. Havia reflexo das chamas, havia brasas brilhando em cada túmulo.

Estúpida Retórica

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Lia Mario Benedetti no metrô, um livro sobre os exilados uruguaios nos anos 70, quando pensei em ir ao cinema.

Saltei na Consolação e já no Belas Artes decidi entrar na primeira sessão disponível. Era o filme Chileno Neruda. Eu não sabia, mas o roteiro trata justamente da perseguição e do exílio do poeta comunista em 1948.

Em uma cena, o policial (Gael Garcia Bernal) pilota uma moto me lembrando Diários da Motocicleta, filme com o mesmo ator sobre Che Guevara.

Comecei a tecer uma estranha teia em minha cabeça desocupada.

Artistas de esquerda perseguidos no final dos anos 40 no Chile; Revolucionários argentinos sonhando com uma América Latina Socialista nos anos 50. Uruguaios exilados e perseguidos nos anos 70.

Ainda hoje, as portas da terceira década do século XXI, estamos perseguindo artistas de esquerda ou sonhando com revoluções sem sentido. Como se estivéssemos atolados esse tempo todo, quanto mais aceleramos mais afundamos nos mesmo lugar.

Em 1984 Caetano Veleoso compôs Podres Poderes, em que dizia o seguinte:

Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos

Não sei quanto tempo são zil anos. Mas já passaram 33 anos do lançamento da música e a estúpida retórica continua atual, como se estivesse sido escrita em 2017.

(Se você não conhece a música, olha ela aqui)