Auxílio-moradia

Auxílio-moradia

Caro leitor, não sei se você está ciente, mas sou o presidente-vitalício e o Juiz supremo da Todaunanimilândia. País pouco conhecido mas muito bem administrado por mim.

Ocorre que recebi um pedido de dois funcionários por Auxílio-Moradia e estou na dúvida, sobre qual deles vou favorecer. Só tenho o dinheiro para ajudar um.

Peço que o leitor aja como um juiz-assistente e me ajude nesta questão. Lembrando que o valor do Auxílio-Moradia é de 4.377,00Luc$. (Luc é a moeda corrente em Todaunanimilândia. Tem o câmbio de 1×1 com o Real).

Funcionário 1 – Rafael (nomes fictícios)

Rafael tem um cargo muito importante e ganha 33.900,00Luc$. Ele já tem Auxílio-Livro, Auxílio-Alimentação e Auxílio-Filho.

Rafael argumenta que seu salário está baixo e não tem reajuste há dois anos. A inflação em  Todaunanimilândia é de 3% ao ano.

Funcionário 2 – Eduardo

Eduardo é professor de literatura numa escola pública e mora de aluguel. Ele ganha 1.467,00Luc$ por mês. Ganha também Vale-Refeição e passagens de ônibus.

Ele diz que a sua situação financeira é tão ruim que ele não consegue nem se concentrar na aula.

O que eu faço leitor? Para qual dos dois dou o auxílio? Pode deixar seu voto nos comentários.

Aqui vou fazer um exercício de futurologia e aposto que a maioria dos leitores vai votar no Eduardo. Aposto ainda que se o Rafael tiver apoiadores, todos eles serão juízes brasileiros.

Fiz esse texto procurando entender por que aí no Brasil, os juízes tem valores e visão de mundo tão diferentes da grande maioria da população. São eles que tem a honrosa e difícil tarefa de julgar as pessoas, não deveriam ter uma valores éticos e morais mais próximos ao valores da população? O que faz com que tantos juízes acreditem que determinadas classes mereçam privilégios e outras não?

*PS. Após escrever o texto senti um certo remorso. Subi o salário do Eduardo e cortei todos os auxílios do Rafael. Em Todaunanimilândia só eu mereço privilégios. E não são poucos.

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Escola de Samba sem Partido

Escola de Samba sem Partido

Desde de que o samba é samba é assim: A chacota, a picardia e a crítica fazem parte do carnaval. Pesquise e verás que havia marchinhas satirizando Getúlio e outros antes dele.

As Escolas de Samba sempre foram cronistas de seu tempo, falando de costumes e política. Quem não se lembra de Joãozinho 30 e seus mendigos escandalizando a Marques de Sapucaí? Coisa mais linda ver um desfile e ainda mais quando esse desfile cativa a plateia como fizeram Beija-Flor e Tuiuti.

Mas nas redes sociais e nas arenas da polarização política, as pessoas não pareciam tão empolgadas como eu.

A Beija-Flor fez uma linda crítica social, mostrou a desigualdade, a corrução, a desesperança do povo. Voltou a colocar mendigos na avenida. Usou uma metáfora de Frankstein absolutamente genial. Tinha tudo para conquistar os corações da galera da esquerda. Mas não conseguiu.

A turma do “Foi Golpe” estava encantada com a Tuiuti que satirizara Temer e os manifestantes da Fiesp. A escola também fez uma crítica inteligente mostrando que a abolição da escravatura era um desafio ainda por vencer.

O curioso, é que a galera da esquerda ao apoiar a Tuituti, tomou a Beija-flor como rival. Dava a impressão de que zoar o Temer e os coxinhas era mais mais legal do que a crítica social da escola de Nilópolis.

E a direita?

Aparentemente emburrou. Não gostou de uma crítica nem outra. Acho que vai fazer a campanha “Escola de Samba Sem Partido”.

A Jovem Pan, revoltada com críticas sociais, fez imensos editoriais falando como as Escolas são ligadas a bicheiros, como a Tuiuiti sofreu um acidente com o carro alegórico em 2017 e portanto era uma agremiação indigna. Carlos Andreazza dizia até que as fantasias estavam feias. Ninguém se comoveu com a força do samba, com a emoção do público e com o recado bem dado pelas escolas.

Ainda bem que o Brasil é maior que os torcedoes fanáticos da Jovem Pan ou das redes. As duas escolas ganharam o carnaval de 2018 e levaram o povo a cantar seus sambas cativantes.

Vejo as Escolas de Samba como uma metáfora do Brasil.

Elas tem tudo para dar errado. Nasceram em comunidades carentes, são organizadas no chão de barracões sob a influência de bicheiros.

Ainda assim fazem um verdadeiro milagre. Levam 4.000 pessoas fantasiadas, muitas delas turistas que mal sabem sambar para a avenida e desfilam em harmonia. Apresentam carros imensos iluminados, coreografias, luzes e magia.  Desfile da Sapucaí é a vitória do improvável, união de milhares, trabalho e suor que vira o jogo. Tal qual nosso país que faz tantas coisas maravilhosas de forma inesperada, onde menos imaginamos.

No lugar de criticar a satirização dos enredos, no lugar de torcer como num Fla-Flu, sugiro que no ano que vem todos se dispam um pouco de suas ideias pre-estabelecidas e caiam na folia. Antes que até o carnaval fique chato.

12 anos e os Playmobils

12 anos e os Playmobils

Minha filha fez 12 anos. Idade de mudanças físicas, hormonais e psicológicas. Para mim será um desafio. Mudo meu status de “pai de criança” para “pai de adolescente”.

Adolescente? Não é bem assim. O amadurecimento não é um processo linear. Minha filha é prova disso. Parece que dentro dela há uma criança lutando contra a adolescente que está nascendo.

Sei disso porque me lembro exatamente do meu aniversário de 12 anos, de como sofri por um Playmobil.

Eu tinha um caixa cheia deles. Playmobils de índio, de circo, mecânicos, cowboys… Eram meus brinquedo favorito e viviam amontoados numa grande caixa.

Pouco antes do meu aniversário a Playmobil lançou carros de corrida. Eram lindos, com rodinhas de borracha que podiam ser trocadas. Um sonho.

Porém, algo me dizia que eu não tinha mais idade para isso. Já começava a frequentar bailinhos e sonhar com as gatinhas da 6a. série ouvindo True, do Spandau Ballet. Eu queria muito os carrinhos de corrida, mas não queria parecer criança. Não queria parecer um boboca.

No fim, o Lúcio-criança falou mais alto e eu pedi o brinquedo. Acho que deve ter sido meu último.

No Ano seguinte, em meu bar-mitzva, ganhei envelopes de dinheiro e canetas-relógio. Depois disso vieram as roupas e minha vida foi degringolando até o dia que eu me vi feliz ganhando meias e pijamas – “Era exatamente o que eu precisava”.

Acontece com todo mundo, não há como evitar.

Por isso, torço para que ela prolongue ao máximo a infância, para que continue gargalhando vendo desenhos animados e fingindo ser Harry Potter na brincadeira com as amigas. Amadurecer é um processo de idas e voltas, mas uma vez que amadurecemos, a criança dentro de nós se vai. Fica para trás, torna-se uma lembrança.

Deus do céu, como sentirei saudades dessa criança.

Das tecnologias para o divórcio

Das tecnologias para o divórcio

 

Desde os tempos das cavernas o homem desenvolve tecnologias para diversos usos. Começou com pedras afiadas, tacapes e o fogo, até chegar no videocassete Betamax, no Zoom da Microsoft e no Google Glass.

Hoje, praticamente não há ação humana que se faça sem o uso de tecnologias. Das nossas tarefas mais biológicas como comer e ir ao banheiro às mais sofisticadas, que envolvem relações pessoais e profissionais, dependemos de invenções humanas.

Com o divórcio, não poderia ser diferente, anos e anos de evolução não poderiam deixar pra trás uma matéria tão importante.

Aliás, como o divórcio é uma invenção moderna, que começou a ser usada com mais frequência nos últimos 50 anos, as tecnologias associadas a ele também são recentes.

A primeira delas é a união de duas invenções anteriores: O batom e o colarinho branco, que juntos, deram muito trabalho a advogados de família.

Depois vieram ótimas invenções com o mesmo uso, como a secretária eletrônica, o extrato do cartão de crédito via correio e o e-mail.

Porém nenhuma tecnologia ajudou tanto o divórcio como o celular. Aliás, com a chegada do Smartphone, o celular passou a ser um único dispositivo que comporta várias invenções poderosas para acabar com um casamento: O Whatsapp, o e-mail, a secretária eletrônica, o SMS, o cartão do banco, o localizador do GPS e o Tinder.

Posso usar um fato ocorrido comigo, nos tempos de casado, como exemplo da maléfica associação das tecnologias pró-divórcio.

Aconteceu quando passei um dias fora, viajando a trabalho. Ao contrario do que vossas mentes sujas podem pensar, passei os tempo trabalhando sem cometer um único ato ilícito. Se a Scarlett Johansson tivesse passado ao meu lado naqueles dias eu não teria nem reparado.

Porém, na minha primeira noite em casa, fui acordado de madrugada por um telefonema misterioso, cujo número de chamada eu não conhecia. Só aqui já temos duas tecnologias assassinas, o celular e o Bina. Eu não atendi a chamada misteriosa porque era tarde, não sendo o número de meus pais ou de alguém da família, não tenho obrigação de atender.  Minha Ex resmungou semi acordada – “Estranho tocar seu celular a essa hora logo depois de você passar uns dias fora”.

Ela tinha razão e mais estranho ainda foi o que ocorreu em seguida, uma nova tecnologia contra mim, um SMS vindo do mesmo número com um texto que não cheguei a ler até o fim, mas a parte que li dizia mais ou menos assim:

“Meu gostoso, quero te chupar inteiro. Minha @#$%$^ está te esperando. Quero pegar o seu $%ˆ&%** e te $%$@#$ até cansar…”

Apaguei a mensagem na velocidade da luz e tive uma DR na mesma hora. Minha Ex, mesmo sem ver o conteúdo do SMS falou um monte e eu, despreparado e assustado, dei a seguinte explicação:

_ Hum, ergh, quer dizer. Eu não sei… hum, engano. Acho que era… argh… 

No dia seguinte, no trabalho, o telefone tocou e era o mesmo número misterioso, atendi aflito, ansiando por respostas. Era uma voz feminina, lânguida, cheia de desejo. Eu interrompi e disse que deveria ser engano, que não a conhecia e ela se defendeu:

–  Mas ontem a gente estava conversando no MSN.

– Eu não tenho MSN.

_ Então desculpa.

Pois é, o MSN, mais uma tecnologia criada para acabar com o matrimônio e eu nunca a havia usado. Pensei na fragilidade das relações e em como estamos expostos ao acaso. Apaguei o número da memória do celular para o desgosto de alguns amigos para quem contei a história:

– “Pô, então me passa o número dela!”.

Meu casamento ainda resistiu um tempo mas acabou como acabam tantos outros. Não há como vencer a modernidade.