Carta ao jovem reacionário

Carta ao jovem reacionário

Caro jovem reacionário,

Você que ainda está na flor da idade e é tão cheio de convicções. Você que berra no Twitter pelos valores cristãos, contra a voz o Pablo Vittar e a favor das armas na mão dos cidadãos de bem. Você que manda para Cuba as feministas e os movimentos em defesa de negros. É com você que estou falando.

Sou de outra geração, sou do tempo em que jovens eram rebeldes e os mais velhos tradicionais. Sou da geração que chegou à adolescência nos anos 80.

Não sei se você ouviu falar dos anos 80, mas vou te contar uma coisa. Tudo isso que te ofende e assusta era muito, muito, muito pior nos anos 80. Talvez por isso, por ter crescido num ambiente excessivamente liberal, eu estranhe a ira do jovem reacionário.

Vamos aos exemplos.

O jovem reacionário fica louco da vida com o Pablo Vittar, um trans (no meu tempo chamava travesti) que faz um baita sucesso. Pois caro reacionário, nos anos 80 tínhamos a Roberta Close, um travesti que era considerada a mulher mais bonita do Brasil, que foi capa da Playboy e musa inspiradora desta linda canção do Erasmo Carlos.

Muitos críticos do Pablo Vittar, dizem que se importam pouco com a sua sexualidade mas não gostam de um cantor desafinado. Eles não sabem que nos anos 80 tínhamos Herbert Viana, Angélica e Xuxa fazendo sucesso. Não me venham falar de desafinação.

Os anos 80 eram muito loucos.

Hoje, quase em 2020, Roger Moreira, um velho reacionário, está preocupado com os maus costumes, como por exemplo, com um homem nu no Museu. Nos anos 80, tínhamos um homem pelado na abertura da novela das 7. Adivinha quem fez a música para o Peladão? Ganha uma fita cassete do Ultraje quem acertar.

Roger ficou indignado com outro museu onde um quadro mostrava zoofilia. O Mesmo Roger nos anos 80 fez sucesso com Mary Lou. Na letra ele dizia que traçava vacas e galinhas.

O jovem reacionário também está preocupado com ascensão das mulheres no mercado de trabalho e com a luta contra o abuso, tão falada hoje em dia. Talvez você gostasse de saber que mulheres eram mostradas na TV nos anos 80 como se fossem pedaços de carne, mas naquela época, por outro lado, Primeira Ministra inglesa era uma mulher conservadora, com cabelos curtos e atitude valente que vocês tanto odeiam nas mulheres.

Nos anos 80, nada era simples.

Os ídolos do rock eram gays como Freddy Mercury, Renato Russo e Cazuza e ninguém se importava com isso. As mulheres usavam cabelos curtos e faziam topless na praia. Sandra de Sá cantava o orgulho dos cabelos sarará e Lobão,  quem diria, fazia campanha para Lula.

Assim jovem reacionário, não consigo ficar escandalizado com as pautas que te assustam. Acho que você também poderia ficar mais tranquilo, o mundo é assim mesmo, cheio de gente diferente e ideias diferentes. Essa de ficar agredindo quem pensa de outra maneira não pega nada. O trem da história caminha na direção das liberdades individuais e sua briga cristã contra mulheres, negros e gays está uns 50 anos atrasada.

 

 

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Pela Vereadora Marielle

Pela Vereadora Marielle

Fiquei muito triste com a morte da Marielle Franco. Eu não a conhecia, mas ao ver sua história, sua trajetória de luta, me comovi como há tempos não me comovia. Indignado, agi como todo brasileiro lutador. Escrevi um post no Facebook lamentando o ocorrido.

Eis que um amigo meu, muito militante de redes sociais me responde: “Não vais falar do motorista, o motorista também morreu”.

Que erro! Meu Deus como sou desatento. Como mostrarei minha posição política nas redes se não defender o motorista. Então fiz mais um post em homenagem ao rapaz que morreu de forma igualemente brutal.

Outro amigo então me abordou: “Não vais falar da médica? Há uma médica que foi assassinada em outro local! Sua indignação é seletiva”.

E me vi fazendo um post para a tal médica, mas meus críticos não cessaram. Queriam que eu falasse dos policiais mortos, do Celso Daniel, dos 60.000 mil assassinados anualmente.

Quase enlouqueci, comecei a me sentir um grande inconsequente. Mas nessa hora, comecei a ver que meus críticos espalhavam mentiras em relação a Marielle Franco, apoiados por figuras públicas sem um pingo de caráter. Inventavam de tudo despidos de qualquer pudor. A ordem era destruir a memória dela.

Então percebi que estas pessoas não estavam preocupadas com o motorista, com a médica, com os policiais ou com os outros mortos. Estavam preocupadas com uma mulher negra sendo homenageada no Jornal Nacional. Estavam preocupados em ver uma mulher gay de esquerda sendo sendo tratada como heroína por ter peitado as milícias e a ala corrupta da PM carioca. Coisa seus ídolos nunca tiveram coragem de fazer. Percebi que nunca defenderiam as famílias dos PM´s mortos como Marielle sempre fez.

Não sou ninguém comparado a Marielle. Enquanto eu discutia a corrupção em botecos, ela colocava o dedo em riste na direção de milicianos. Enquanto eu escrevia no meu Blog, ela dava esperança a mulheres negras. Vou esquecer os críticos e prestar minhas homenagens com todas as letras. Tenho muito orgulho de ter marchado na Paulista por ela (eu não ia a uma manifestação desde 1992).

Se você quiser criticá-la, antes me diga o que fez de melhor que Marielle.

Eu nada fiz.

Keep Up With The Kataguiris

Keep Up With The Kataguiris

Kim é linda, Kim está na moda, Kim arrasa e junto com sua família e amigas, Kim vai aprontar todas nos ambientes mais sofisticados de Brasília.

Acompanhe a vida da família mais amada de Bervely Hills  nas terras Tupiniquins.

Kim Kataguiri e seu marido Ferkanye Holiwest são os líderes dessa turma chique que arrasa nas colunas sociais, nas fake news e nas redes sociais.

Elas atacam as inimigas, atacam os artistas, os gays e as femininas. Elas defendem o Temer, amam o Doria e amam a Escola de Etiqueta sem Partido.

Kim e Kanye
kim e Kanye arrasam nos figurinos

Muito bafo, muita intriga, muito xingamento pra galera da esquerda, venha você também curtir a família mais amada da Fiesp em Keep Up With Kataguiris.

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Kim Kataguiri, essa turma arrasa

Os Mamonas voltaram

Os Mamonas voltaram

Vou contar a vocês o que houve nos planos espirituais quando os Mamonas morreram há 22 anos. Eles foram recebidos por anjos e querubins muito comovidos com o acidente que acabou com a promissora carreira da banda de forma tão inesperada.

Acontece que Deus também ficou sabendo da história triste (Ele é onisciente) e veio prestar solidariedade à banda. Tamanha era a sensação de injustiça, que o velho decidiu manda-los de volta à Terra.

_ Não gosto de mudar as regras assim, mas vocês merecem. Vão voltar ao Brasil.

Só que as regras do céu não são tão simples. Até fazer os requerimentos, preencher a papelada e conseguir os carimbos, passaram-se 22 anos. Além disso. Deus deu uma condição:

_ Vocês serão totalmente esquecidos pelos brasileiros, ao voltar, terão de começar do zero.

A banda concordou de pronto, afinal, era uma chance única. As músicas já estavam prontas. Era só lançar e refazer a carreira de sucesso. Com as redes sociais seria ainda mais fácil.

E eis que em 2018 os Mamonas estão de volta, como uma banda 100% inédita, pronta a conquistar o coração dos brasileiros.

Logo de cara lançaram o “Vira-Vira”, seu primeiro hit. Tempos modernos, colocaram a música no Spotify, no Youtube e no Twitter.

Para a surpresa de todos, no lugar do sucesso de outrora, a banda foi recebida com uma chuva de críticas.

As feministas disseram que a música era sexista e incitava o estupro. Os evangélicos disseram que estava incentivando sexo grupal. Os portugueses reclamaram de apropriação cultural e o MBL acusou-os de incentivo a zoofilia (Então vai fazer amor com uma cabrita).

Assustados com as críticas, Dinho e seus companheiros optaram por lançar “Pelados em Santos“, era o trunfo da banda, sucesso garantido.

Imediatamente grupos de esquerda acusaram os Mamonas de ridicularizar os pobres. As feministas arrancaram os cabelos pela posição de inferioridade da mulher na letra, o MBL temeu pelos “pelados” e o clube de colecionadores de Brasílias os processou pela forma como o carro foi tratado.

E continuou assim, música após música.

O ator pornô Alexandre Frota dizia que a banda era imoral. O MBL voltava a reclamar de zoofilia em “Mundo Animal” (Comer tatu é bom). A letra de Robocop gay enfureceu gays, católicos, gaúchos e baianos.

Eram tantos ataques, tantas críticas que Dinho não conseguia entender…

Os filhos do Bolsonaro diziam que a banda era comunista, apoiados por Rodrigo Constantino. O Sakamoto fez um texto imenso com uma análise crítica super inteligente mas ninguém teve saco de ler. Chico Pinheiro disse no Twitter que achou a banda engraçada e foi demitido. Reinaldo Azevedo fez um longo editorial falando de Reinaldo Azevedo e suas lutas. Marco Antônio Villa xingou Lula e disse que a banda era coisa do PT.

Desgostosos, os Mamonas correram para o aeroporto, compraram passagens para o vôo mais barato rumo a qualquer lugar e rezaram antes do embarque, pedindo uma queda rápida e indolor.