Curvem-se diante do rei

Curvem-se diante do rei

Amigos leitores, esqueci de comentar mas mudei minha visão política. Decidi a aderir ao golpe. Não esse golpezinho parlamentar que tirou a Dilma. Esse é pouco para mim. Quero o golpe grande, aquele que vai acabar de vez com a democracia para colocar um ditador cruel em seu lugar. Aquele golpe que é carinhosamente apelidade de intervenção pelos seus defensores.

Intervenção Já! É a hora de colocar um nome forte, confiável e São Paulino no poder.

Quem? – Pergunta o leitor que chegou até aqui.

Querem saber quem é o cara que vai resolver a zorra toda? Eu respondo com uma música do Roberto Carlos:

Essa cara sou eu!

Sim meus caros, chegou a hora da volta da ditadura, ou melhor ainda, do Império. Me declaro Imperador Lúcius I, Primeiro de seu nome, Quebrador de correntes de Whatsapp, Pai dos dragões, Protetor do reino.

Eu dei um tempo antes de assuimr meu destino, esperei para ver as propostas da concorrência, mas as ideias dos candidatos são tão invisíveis quanto a Marina Silva em anos não eleitorais. O Brasil não pode viver mais sem minhas propostas.

Aliás, serei um regente tão generoso, que vou antecipar aqui algumas das minhas ações de governo. Não que eu me preocupe com vossas opiniões. Muito pelo contrário. Sou um monarca autoritário e pouco me importa o que vocês pensam sobre a prisão do Lula ou sobre as decisões do Gilmar Mendes. Deixo ainda claro que se forem comentar esse post, que seja com elogios pois qualquer outro comentário será sumariamente apagado.

Dadas as explicações, seguem as propostas:

1 – Fica instituído que qualquer parlamentar seja de que esfera for, só poderá ter até 2 assessores, ambos concursados e funcionários de carreira.

2 – Fica proibido o Metrô de São Paulo de quebrar.

3 – A Copa do Mundo do Qatar será transferida para o Brasil.

4 – No meu governo (vitalício) comida gostosa e cerveja não vão engordar. Quem disser o contrário será preso e terá sua língua arrancada.

4 – Uma estátua da Scarlett Johansson substituirá o Borba Gato.

5 – Kim Kataguri e seus comparsas serão obrigados a lavar a boca com sabão todas as manhãs, até aprenderem que mentir é feio.

6 – Dória será promovido a varredor de rua pelos próximos 5 anos para aprender que não pode se fantasiar de gari e em casa não lavar a louça (ele também terá de lavar a boca com sabão).

7 – Distribuirei livros em todos os lugares. Nos trens, nas prisões, nas escolas e nas praças. E não será só auto-ajuda. Teremos distribuição de Guimarães Rosa, Caio Fernando Abreu, Érico Veríssimo, livros da Pólen. Coisa boa disponível para toda a população.

8 – Bolsonaro será colaborador do governo. Darei um revólver para ele e ele ficará responsável por acabar com o crime na baixada Fluminense. Se conseguir resolver o problema em 6 meses eu deixo ele seguir carreira na polícia. Já os filhos dele serão todos convocados para ajudar o Dória na varrição de rua. Eles precisam aprender o valor do trabalho.

9 – A maconha estará liberada. Vamos incentivar os consumidores a plantarem seus próprios pés de maconha. Os traficantes, o PCC e os políticos mineiros terão de arranjar outra forma de ganhar a vida.

10 – Todos os laçamentos legais do Telecine deverão passar também na Netflix.

11 – As homorróidas serão banidas.

12 – O São Paulo terá de contratar outro goleiro (não vale o Dênis).

13 – Todas as ruas terão calçadas largas e bancos de praça para vocês sentarem e baterem papo na hora do almoço.

14 – Fica proibido o fundue de carne.

15 – Proíbo também as pessoas darem bom dia no Whatsapp. o aplicativo só funcionará a partir das 11h da manhã.

16 – Todos estão proibidos de chutar a quina da cama com o dedinho.

17 – Cada Brasileiro será obrigado a compartilhar pelo menos um texto do “Toda Unanimidade” a cada semana.

18 – Liberação das armas só para mulheres.

Enfim meus caros, paro por aqui, senão a lista dos que precisam lavar a boca com sabão vai crescer demais. Se tiverem pedidos ou reivindicações, podem me encaminhar. Não que eu me importe.

(Espaço para o carimbo real)

 

 

 

 

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Uma guitarra muda

Uma guitarra muda

Conheci o Velhinho quando tínhamos 11 anos. Nossos pais contruíram casas de campo no mesmo condomínio e caímos na mesma classe na escola. Em pouco tempo éramos inseparáveis, nos encontrando 7 dias por semana.

Logo veio a adolescência e começamos a crescer juntos.

Éramos CDF´s e competíamos pelas melhores notas na escola e essa era a única competição em que eu era páreo para ele. O Velhinho era o melhor em qualquer esporte, fazia um sucesso incrível com as meninas e ainda era um fenômeno no violão.

Quando éramos adolescentes, decidimos ser roqueiros. Cada um se esforçou para aprender um instrumento. Eu era o baixista da banda (aquele que ninguém dá bola). O Velhinho era o vocalista e guitarrista solo. Ele brilhava.

Com todas as diferenças, havia harmonia entre nós. Eu fazia as letras, ele musicava.

Levou uns 3 anos para percebermos que não podíamos tocar juntos, ele era muito talentoso. Tanto que largou o Direito para fazer faculdade música. Eu segui a carreira de “não músico”, mantendo o baixo e o violão ao meu lado por toda a vida, mas nunca estudei. Não sei a diferença de um colchete para um sustenido.

Por toda juventude compartilhamos sonhos e projetos, estivemos juntos em inúmeros momentos mas fomos atropelados pela vida. Cada qual com sua rotina, com sua família, nos víamos cada vez menos. Mas as aventuras que vivemos na adolescência haviam criado um amálgama que nos unia. Não importa quanto estávamos distantes, éramos sempre os velhos amigos de infância.

Creio ter faltado nos últimos dois ou três encontros da velha turma, ele também não pôde ir ao último aniversário da minha filha. É a vida, não é mesmo? Tantos compromissos, trabalho, filhos… Nossas últimas conversas  aconteceram por Whatsapp.

Às vezes pensava nele quando ouvia algo musicalmente muito bom ou quando tirava no violão uma música difícil – “O Velhinho ia gostar dessa aqui“. Eu queria mostrar para ele um arranjo que fiz para “Love of My Life”, mas isso não será possível.

Um estúpido acidente de moto levou o Velhinho embora dois dias atrás, deixando uma guitarra muda e um mundo de pessoas petrificado.

Meu violão continuará tocando mais triste até que o tempo permita aceitar essa perda e lembrar com carinho do velho amigo. Até lá, cada nota, cada acorde, cada vibração das cordas vai trazer o vazio deixado por alguém cuja missão de vida foi espalhar harmonia. Missão cumprida lindamente.

Neymar, a corrupção e o vizinho funkeiro

Neymar, a corrupção e o vizinho funkeiro

Alguém aqui já teve um vizinho funkeiro? Daqueles que adoram  fazer festona de madrugada tocando Funk Proibidão num volume suficiente para demolir o Maracanã?

Muitos  convivem com isso. Pois eu creio que o odiável funkeiro do bairro é um tipo que ajuda a entender a alma do brasileiro. Ele é o sujeito que para alcançar o prazer pessoal, a sua própria satisfação, não se importa em detonar o sono de todos vizinhos. É que o brasileiro sempre se acha pertencente a um grupo especial, que não precisa seguir as regras de civilidade que os outros seguem.

Não é muito diferente do cidadão que para fazer sucesso perante os amigos assedia as moçoilas no carnaval ou do sujeito que passa do limite de velocidade para curtir o carrão, arriscando a vida de uma galera.

No fundo ou nem tão no fundo assim, esse traço de personalidade que une essas pessoas tem um nome muito conhecido, egosímo. Por algum motivo, vivemos num país onde boa parte das pessoas tem muita dificuldade em pensar no outro, em se preocupar com o que possa estar causando a um terceiro, imagine então como é difícil as pessoas trabalharem juntas para conseguir um bem coletivo.

Daí se explica a corrupção. Ao atingir o esferas de poder, brasileiros continuam sendo brasileiros, pensando em seu prazer pessoal não se importando com as consequência de suas ações para os outros. Não preciso me aprofundar nisso, né? O  resultado já sabemos. Até juízes que investigam a corrupção se unem para ter privilégios que o resto da população não tem, fingindo não saber que o dinheiro do auxílio-moradia faz falta no posto de saúde.

Agora chegamos ao Neymar. Muitas das vezes que se atirou no chão fingindo ter sofrido uma agressão ele conseguiu seu intento. Zagueiros foram expulsos injustamente, gols foram marcados de forma ilegal. Neymar jamais pensou que sua atitude prejudica profissionais sérios que estão lá trabalhando tanto quanto ele.

O esforço para conseguir tudo o que quer leva ao sucesso. Empresários que sonegam geralmente ficam ricos, assaltantes e traficantes também. Corruptos tem vidas cheias de prazer e vereadores conseguem se destacar com seus pequenos poderes, só que no final, nossa sociedade virou uma porcaria completa.

Neymar foi pego pelas câmeras do mundo e virou piada global. Alguns políticos e empresários brasileiros foram pegos pela justiça e estão presos. Mas nada disso resolverá nosso problema. Precisamos criar um país onde a preocupação com o próximo seja mais importante que o prazer imediato e pessoal. Um país onde o vizinho funkeiro por respeito e educação, abaixe o volume espontaneamente às 22h.