Hino nas escolas

Hino nas escolas

Eu sou do tempo em que se cantava semanalmente o hino no pátio das escolas. As crianças formavam filas duplas para cada classe. De um lado os meninos, do outro as meninas, em ordem de tamanho. Eu, na condição de minúsculo, sempre era o primeiro da fila, o que de certa forma me constrangia.

Éramos lindos patriotas enfileirados em frente à bandeira nas manhãs de segunda-feira.

Porém, assim que terminava a cerimônia fazíamos nossas próprias versões dos hinos, bastante diferentes das originais.

No Hino da Independência o “Já podeis da pátria filhos” virava “Japonês tem 4 filhos”. No Hino da Bandeira, o pendão da esperança virava peidão.

Já o hino nacional tinha seguinte versão:

Ouviram do Ipiranga a Barra Funda
Dom Pedro abaixa a calça e mostra a bunda
Deitado eternamente numa cama
João e Joana sem pijama

Pinto cresce, barriga cresce,
E depois de nove meses aparece
Uma criança cheia de vida,
Com a bunda toda cheia de ferida

Tentaram nos transformar em patriotas mirins mas minha geração envelheceu sonegando impostos, furando filas, molhando a mão do guarda e transferindo multas para os nomes de terceiros. Somos contraventores natos, desrespeitando o próximo e a pátria sempre que preciso.

Parece que vai voltar a moda de cantar o hino. Acho muito bonito mas tenho poucas ilusões em relação ao resultado prático da empreitada. Continuo desconfiando que valorizar o professor ainda é mais importante.

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O Amigo que não me conhecia

O Amigo que não me conhecia

Hoje morreu um amigo que não me conhecia. Ricardo Boechat era para mim o que foi para muita gente, uma companhia constante das manhãs.

Só o rádio é capaz disso. No rádio há uma proximidade mágica com os apresentadores. Ouvimos suas vozes em conversas soltas diariamente como se não houvesse distância nos separando e ninguém sabia se aproveitar disso como Boechat. Era aberto o suficiente para falar bobagens e soltar um palavrão cabeludo de vez em quando, como se estivéssemos com ele numa mesa de bar.

Os últimos tempos estão sendo duros para os fãs do rádio. O grande locutor esportivo Deva Pascovicci morreu no acidente da Chapecoense; Joseval Peixoto e Salomão Esper, ícones do jornalismo se aposentaram e agora o maior dos âncoras se foi. Ouço fielmente a Bandnews por causa dele, dos comentários inteligentes e muitas vezes duros, das brincadeiras soltas, do jeito humano e confessional.

Boechat representa valores opostos aos do novo Brasil.

No país que cultua a mentira, ele era a luta constante pela verdade.

No país que cultua o ódio, ele era a alegria.

No país que cultua a ofensa, ele era o respeito.

Quem sabe as pessoas aprendam um pouco com o seu bom senso e substituam o revanchismo e a fúria por uma postura mais ponderada, mesmo nos momentos de endurecer.

Boechat nos ensinou a rir de nós mesmos e acho que essa alegria foi um de seus maiores legados. Buemba Buemba!