Velhice

Velhice

Contribuição do amigo Eduardo Tironi

Acordou pela manhã e, como primeiro ato, deu aquela passeada no Instagram pra ver as novidades. Viu uma, outra, outra e outra fotos de amigos e parentes mais velhos do que são. Demorou um pouco pra descobrir que tratava-se do aplicativo da moda. Você tira uma foto e ele te mostra como você poderá ser com mais 20 anos, mais 30, mais 40… a gosto do freguês.

Começou a se divertir. Olhou uma ex-namorada velha e comemorou ter terminado a relação dizendo que “o problema não é você, sou eu”. Olhou o amigo de infância com um jeito de avô.

Riu com piadas que relacionavam velhice ao futebol. Foto do craque do time rival todo enrugado com a legenda: “Fulano esperando o título mundial do Palmeiras”. Sicrano quando o São Paulo voltar a ganhar um clássico” “Beltrano quando o Corinthians terminar de pagar o estádio”…

Baixou o aplicativo, tirou uma foto e também projetou sua velhice para o mundo ver. Ficou ansioso pela repercussão.

Mas ele tinha de trabalhar. Pulou da cama e sentiu aquela dor incômoda de sempre no joelho. Tomou banho e, como todo dia, viu uns cabelos no ralo do chuveiro. Nem ligou.

Tomou café e evitou leite e muita manteiga porque vem sentindo uma azia logo depois que come alguma coisa. Está achando que pode ser intolerância à lactose.

Entrou no carro, ligou o rádio e passou os dez primeiros minutos do trajeto ouvindo músicas que nunca tinha ouvido antes. Sintonizou na Antena 1, que ali sim toca músicas boas.

A cada parada no farol, olhava o instagram para ver a repercussão de sua foto como velho. Coraçõezinhos, risadas, emojis de espanto… Numa das paradas reparou pela primeira vez que não vai ser um velho bonito.

Ao contrário: nariz caído, olhos tristes, cabelo ralo…

No meio da tarde sentiu uma fisgada nas costas que o incomoda há tempos. “Essa cadeira do escritório tá ruim, preciso trocar.”

Pouco depois, recebeu notificação no celular. Saiu o resultado do exame de sangue. O colesterol está alto. Tem de voltar ao médico.

Checou de novo a repercussão dele velho no Instagram. Muita gente comentou, legal! Olhou as fotos de outros amigos e amigas velhos tbem.

Se espantou com alguns tamanha a perfeição das montagens.

Terminou o dia saindo mais tarde do que tinha planejado. Muita coisa pendente no escritório e ele não conseguiu fazer metade do que tinha planejado. Sentiu dor de cabeça por isso desistiu de voltar à academia. Segue pagando o plano semestral, mas há cinco meses não vai porque anda sem tempo.

O tempo anda passando muito rápido, ele pensou ao chegar em casa. Já estamos no meio de agosto!

Abriu a geladeira, pegou o que tinha, pôs no micro-ondas e empurrou pra dentro. Entrou no  banho, saiu do banho, vestiu o calção do pijama e foi escovar os dentes. Se olhou no espelho e por um momento pareceu que olhava o Instagram. Voltou à realidade. Deitou, olhou sua foto de velho novamente. Pulou da cama, foi pro banheiro correndo e se olhou no espelho mais uma vez. Voltou pra cama ofegante. Apagou.

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Eu, o abduzido

Eu, o abduzido

O leitor mais fiel deve ter percebido que escrevi pouco nos últimos tempos. Perdoem minha ausência. Ultimamente tive uns probleminhas meio diferentes que acabaram me afastando do blog. O maior deles talvez tenha sido a abdução que sofri há cerca de um mês.

Se você acha que só Raul Seixas e Zé Ramalho são bons o suficiente para serem abduzidos, então aperte os cintos e leia esse relato e verá que há mais coisas entre o céu e a terra do que acreditava o Maluco Beleza.

Não sei como fui para parar na Nave. Eu estava apagado no momento da abdução. Quando acordei, me vi em um leito numa sala escura, senti um tubo enfiado na minha garganta e meus pés e mãos estavam amarrados. Eu tentei gritar, mas não consegui. O tubo não deixava. Como estava preso, usei os dedos para fazer algum barulho até que um dos tripulantes veio me acudir, porém não consigo lembrar direito dos primeiros momentos já que ainda estava sob efeito de drogas.

Só pude entender o desenho da nave no dia seguinte quando acordei. Era uma sala circular. No meio havia uma central de comando onde os alienígenas podiam observar todos os abduzidos. Nós ficávamos deitados em leitos que davam a volta na sala. Havia divisórias de forma que eu não conseguia ver os outros humanos, a não ser quando eles estavam sendo transportados.

Minha condição não era das melhores. Eu tinha um acesso no braço e um cateter no pescoço por onde os aliens injetavam químicas variadas. Uma máscara me ajudava a respirar. Do centro da minha barriga saíam dois fios de chuveiro que se ligavam a uma espécie de bateria de carro e isso determinava as batidas do meu coração, uma engenhoca digna do primeiro filme do Homem de Ferro. Finalmente (e conto isso com tremenda vergonha), havia um cano no meu pinto para escoar o xixi.

Basicamente, eu não podia me mexer devido aos canos e fios ligando o meu corpo aos mecanismos que me mantinham vivo.

Lendo o texto dá a impressão que os et´s eram maus. Longe disso. O objetivo deles era me manter e manter os outros humanos vivos. No meu caso eles conseguiram.

Havia algumas refeições por dia que eu não conseguia comer. Havia também um banho diário, em que dois aliens me lavavam, trocavam meus lençóis e meu jaleco sem que eu precisasse sair da cama.

Uma vez por dia, eu recebia visitas na nave. Duas pessoas da minha família podiam entrar e ficar uma hora ao meu lado. Basicamente eu sonhava com esse momento durante as outras 23 horas do dia.

A vida na nave era um exercício de superação mental. Eu sabia que voltaria para a Terra, que a tortura iria terminar. Porém o tempo passava muito devagar e eu precisava lutar contra o tédio e contra o terrível desconforto que sentia. Tentei chorar algumas vezes para ver se o choro me acalmava, mas o resultado era nulo. O tempo não passava.

Depois de 5 longos dias fui devolvido ao Planeta Terra e descobri que gosto demais do nosso mundinho. Gosto de me mexer livremente e de sentir o corpo sem canos e agulhas. Aprendi muitas coisas na nave, a mais importante delas é que uma hora por dia é pouco para desfrutar a companhia das pessoas que amamos. Sei que parece uma obviedade, mas às vezes só vemos o óbvio quando nos distanciamos. E creia meu amigo, a nave no meio do espaço é distante o suficiente para nos ensinar muito.