Bolsonaro, Tubarão e Chernobyl

Bolsonaro, Tubarão e Chernobyl

No começo do filme Tubarão, corpos começam a aparecer nas praias. Um oceanógrafo avisa ao prefeito de que um tubarão assassino está na região. O prefeito tem outras preocupações. É temporada de turistas, as praias estão cheias assim com os hotéis.

_ Não podemos atrapalhar a economia da cidade. Você vai causar pânico!

No fim o tubarão come um monte de gente, numa tragédia que poderia ser evitada.

Esse tipo de história tornou-se clichê no cinema. A estrutura é:

1. Um cientista descobre um vulcão para explodir, uma avalanche eminente ou uma invasão zumbi.

2. Ele avisa as autoridades.

3. Os políticos (ou empresários) ignoram para:

3.a. Não causar pânico;

3.b. Não prejudicar as eleições;

3.c. Não prejudicar a economia;

4. A catástrofe acaba acontecendo.

Seria bom se isso ficasse restrito só ao cinema mas esses erros se repetem no mundo real.

O filme Titanic mostra como o engenheiro que construiu o navio pediu que não se usasse a velocidade máxima na primeira viagem, era melhor testar a embarcação. O empresário dono do barco recusou, queria bater todos os recordes para ganhar as manchetes dos jornais. O resultado todos sabemos.

Em Chernobyl, quando a usina explodiu, os cientistas tentavam alertar para a gravidade da situação, por outro lado, burocratas comunistas não queriam alarde, diziam que os cientistas estavam exagerando. No final tivemos um dos mais graves acidentes do século XX.

O erro se repetiu em Wuhan, onde surgiu a Covid-19. Os médicos alertaram a chegada de uma nova doença altamente contagiosa. As autoridades locais ignoraram os alertas e o vírus se alastrou.

Como você estava esperando, chegou a hora de falar do Brasil.

Bolsonaro repete aquilo que fizeram todos os vilões de filme, age como os o prefeito da cidade do tubarão e como comunistas de Chenobyl e Wuhan. Ele ignora a gravidade de uma das piores ameaças da humanidade. O resultado é inevitável. Quem vai julgá-lo é a história. Mas a vida não é filme, milhares de mortes acontecerão no Brasil devido a sua irresponsabilidade. Serão pessoas de verdade, pessoas que amamos.

Eu torço que seus crimes também sejam julgados pelos homens. A atitude do presidente tem nome, chama-se assassinato em massa.

Quando acabar a pandemia

Quando acabar a pandemia

Quando acabar a Pandemia

Ah meu Deus que alegria

Quantos eu vou abraçar!

Hei de correr todas ruas

Deixarei minhas palmas nuas

Quando a pandemia acabar

.

Quando acabar a pandemia

Será num lindo dia

De céu azul outonal

A turba virá às praças

Em estado de graça

Como fosse carnaval

.

Quando acabar a pandemia

Será assim por magia

Todos vão saber

Que este escritor sozinho

Nem por um segundinho

Deixou-se entristecer

.

Pois sabia que separadas

Nas janelas e sacadas

Estavam a lhe esperar

Tantas pessoas amadas

Também desesperadas

Para lhe abraçar

.

Quando acabar a pandemia

Imagine a euforia

Imagine o fervor

Cantaremos juntos

E seremos muitos

Emanando amor

.

Quando acabar a pandemia

 Ah meu Deus que alegria

Que mundo vamos encontrar?

Será que o duro aprendizado

Nos terá modificado

Quando a pandemia acabar?

Quero Um Abraço

Quero Um Abraço

Caro Leitor, serei um pouco confessional, vou compartilhar detalhes picantes da minha vida. Moro sozinho, sou um sujeito um tanto solitário. Além disso, sou freelancer. Chego a passar dias seguidos aqui em casa.

Quando o noticiário começou a falar da necessidade de isolamento social em função da pandemia de coronavírus (ou covid-19 para os íntimos), eu não me preocupei. Imaginei que pouco mudaria na minha vida e efetivamente, até agora, pouco mudou.

Porém há uma diferença importante. Quando encontro amigos e colegas de trabalho, não nos tocamos mais. Nossos cumprimentos são dados a distância. Quando muito, tenho encostado o cotovelo no cotovelo das pessoas que amo.

Não me considero um sujeito particularmente carinhoso. Não sou chegado a exageros, mas sou brasileiro. É comum abraçar amigos, amigas, parentes e colegas de trabalho. Até nossos apertos de mão costumam ser carinhosos. Chego a beijar as bochechas de velhos amigos.

Agora sinto-me um lutador de sumô, minha intimidade máxima é curvar as costas em sinal de respeito.

Quando sem querer aperto a mão de alguém, o ato acaba gerando enorme constrangimento e muitos pedidos de desculpas, todos eles com os dois metros protocolares de segurança.

Não aguento mais. Estou virando o Olaf, o que eu mais quero são abraços quentinhos. Quero pousar a mão no ombro das pessoas que amo, sentir o calor da amizade.

Senhores cientistas, inventem logo essa tal vacina. Não quero mais entrevistas coletivas do Paulo Guedes, não quero mais quedas da bolsa, choro de jornalistas ou matérias com imagens de homens metidos em escafandros. Eu quero sentir o toque da pele, a energia do corpo humano. Eu quero um abraço!!!!!!

(Nem que seja do Drauzio Varella)

Formigas no transatlântico

Formigas no transatlântico

O mundo está um caos. Bolsas caindo, chuvas devastadoras, vírus mortal, ódio vencendo, pessoas assustadas. Uma excelente hora para filosofar.

É justamente quando o mundo está uma confusão, quando sentimos a esperança nos abandonar que pensamos em Deus, que desejamos uma ajuda da providência divina. Em geral essa ajuda não vem.

Estaria Deus insensível a tanto sofrimento? Estaria ele nos testando justamente agora que nos sentimos tão frágeis, tão desamparados?

Nossa aflição vem da incapacidade de compreendermos Deus. Eu também sou assim. Somos tão pequenos diante d’Ele que não podemos concebê-Lo então reduzimos Deus ao tamanho da nossa compreensão. Como se Ele fosse uma criatura parecida com o homem, capaz de pensamentos com a moral humana.

Deus gosta de preces e não de aborto; Deus ajudou um sujeito a fazer um gol e atrapalhou o goleiro do outro time; Deus salvou uma criança no desabamento. Ou seja, deixou que as outras crianças morressem no mesmo acidente. Isso faz sentido?

Para tentar compreender sua grandeza, pensei numa metáfora.

Pensem em formigas que moram na cozinha de um gigantesco transatlântico. Elas Vivem das migalhas que caem no chão ou dos alimentos que os cozinheiros esquecem sobre uma bancada.

São tão pequenas, que acreditam que a cozinha e as salas no seu entorno são o universo. Acreditam que os homens são as maiores criaturas existentes, poderosos como deuses que podem as matar com um dedo apenas.

As formigas não conseguem conceber o transatlântico que as transporta, as abriga, as protege e as alimenta. Se elas pensassem em Deus, talvez o vissem como uma criatura espiritual na forma de uma formiga.

Nós somos as formigas. Deus é o transatlântico.

Os ateus devem estar achando o texto uma grande perda de tempo. Mas ele vale também para o universo. Nossos super telescópios nos desertos chilenos nos revelam galáxias e buracos negros, nebulosas distantes e explosões de estrelas. Tudo isso é fascinante, mas não passa da cozinha do navio. Não conseguimos imaginar a embarcação como um todo, muito menos o oceano que a cerca.

Somos formigas no transatlântico, preocupadas porque hoje não há bolo e caíram poucas migalhas para roubar.

Minha Palestra no TEDx Talks

Minha Palestra no TEDx Talks

Muitas pessoas tem sonhos. Uns sonham em ser ricos, outros sonham com a fama.  Há quem tenha como meta encontrar o amor perfeito.

Meu sonho é dar uma palestra no TEDx Talks. Acho chique.

Fecho os olhos e consigo me ver vestido em calças jeans escuras quase tão justas como as de cantores sertanejos e com um pulôver preto que imita os do Steve Jobs. Em minha cabeça uma tiara com microfone estilo Madonna completa o visual.

Entro no palco esbanjando confiança, peito erguido e faço gestos calculados, falando de forma pausada, cheio de emoção e com sorriso no rosto. Me apresento e logo conto que me aconteceu algo curioso no caminho da palestra. A história é mentirosa, é apenas um gancho para chegar no assunto do qual vou tratar, de qualquer forma entretém a plateia, aumentando a curiosidade sobre o meu discurso.

Ando de um lado para outro do palco, uso pausas dramáticas e de repente começo a fechar o rosto, passando a usar um tom mais grave na minha voz. Agora falo de um momento tenso da minha vida, quando tudo parecia que ia dar errado.

O público está comigo. Riram no começo, mas agora, diante da gravidade do que estou contando há um silêncio absoluto. Eu conduzo a narrativa, sou o maestro da emoção. Depois de criar o suspense, conto da minha superação. Agora minha voz está quase trêmula. Eu tive muitas dificuldades porém superei os problemas e posso compartilhar com a plateia a estratégia para vencer os obstáculos.

Na minha mão, um pequeno controle remoto comanda o data show. O telão exibe fotos incríveis, gráficos esclarecedores e algumas piadas inesperadas.

Vejo que no público todos balançam suas cabeças em aprovação. Estão encantados e motivados e colocar em prática meus ensinamentos.

No final, despeço-me sentindo como se tivesse hipnotizado uma multidão. Se eu pedisse, eles pulariam de um pé só ou assobiariam o hino do Botafogo.

Ao sair do palco, a missão está cumprida, mais uma vez meu conhecimento atingiu os mortais.

E qual foi o tema da palestra? Bom, nisso ainda não pensei, mas depois eu  improviso qualquer coisa. Quem se importa…