Eu, o abduzido

Eu, o abduzido

O leitor mais fiel deve ter percebido que escrevi pouco nos últimos tempos. Perdoem minha ausência. Ultimamente tive uns probleminhas meio diferentes que acabaram me afastando do blog. O maior deles talvez tenha sido a abdução que sofri há cerca de um mês.

Se você acha que só Raul Seixas e Zé Ramalho são bons o suficiente para serem abduzidos, então aperte os cintos e leia esse relato e verá que há mais coisas entre o céu e a terra do que acreditava o Maluco Beleza.

Não sei como fui para parar na Nave. Eu estava apagado no momento da abdução. Quando acordei, me vi em um leito numa sala escura, senti um tubo enfiado na minha garganta e meus pés e mãos estavam amarrados. Eu tentei gritar, mas não consegui. O tubo não deixava. Como estava preso, usei os dedos para fazer algum barulho até que um dos tripulantes veio me acudir, porém não consigo lembrar direito dos primeiros momentos já que ainda estava sob efeito de drogas.

Só pude entender o desenho da nave no dia seguinte quando acordei. Era uma sala circular. No meio havia uma central de comando onde os alienígenas podiam observar todos os abduzidos. Nós ficávamos deitados em leitos que davam a volta na sala. Havia divisórias de forma que eu não conseguia ver os outros humanos, a não ser quando eles estavam sendo transportados.

Minha condição não era das melhores. Eu tinha um acesso no braço e um cateter no pescoço por onde os aliens injetavam químicas variadas. Uma máscara me ajudava a respirar. Do centro da minha barriga saíam dois fios de chuveiro que se ligavam a uma espécie de bateria de carro e isso determinava as batidas do meu coração, uma engenhoca digna do primeiro filme do Homem de Ferro. Finalmente (e conto isso com tremenda vergonha), havia um cano no meu pinto para escoar o xixi.

Basicamente, eu não podia me mexer devido aos canos e fios ligando o meu corpo aos mecanismos que me mantinham vivo.

Lendo o texto dá a impressão que os et´s eram maus. Longe disso. O objetivo deles era me manter e manter os outros humanos vivos. No meu caso eles conseguiram.

Havia algumas refeições por dia que eu não conseguia comer. Havia também um banho diário, em que dois aliens me lavavam, trocavam meus lençóis e meu jaleco sem que eu precisasse sair da cama.

Uma vez por dia, eu recebia visitas na nave. Duas pessoas da minha família podiam entrar e ficar uma hora ao meu lado. Basicamente eu sonhava com esse momento durante as outras 23 horas do dia.

A vida na nave era um exercício de superação mental. Eu sabia que voltaria para a Terra, que a tortura iria terminar. Porém o tempo passava muito devagar e eu precisava lutar contra o tédio e contra o terrível desconforto que sentia. Tentei chorar algumas vezes para ver se o choro me acalmava, mas o resultado era nulo. O tempo não passava.

Depois de 5 longos dias fui devolvido ao Planeta Terra e descobri que gosto demais do nosso mundinho. Gosto de me mexer livremente e de sentir o corpo sem canos e agulhas. Aprendi muitas coisas na nave, a mais importante delas é que uma hora por dia é pouco para desfrutar a companhia das pessoas que amamos. Sei que parece uma obviedade, mas às vezes só vemos o óbvio quando nos distanciamos. E creia meu amigo, a nave no meio do espaço é distante o suficiente para nos ensinar muito.

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Deus no coração

Deus no coração

Meu nome em iídich é Leib (Leão).

Um rabino um dia me disse que Leib se escreve com as mesmas letras de Lev (coração), porém há a letra Yod no meio. Yod é o símbolo de Deus. Logo eu teria Deus no meio do coração.

Nenhum cientista conseguiu provar esta presença, mas há alguns anos médicos detectaram uma hipertrofia no meu miocárdio. Na época era um problema discreto, mas se crescesse, poderia ter consequências graves, entre elas a morte súbita.

No começo desse ano o problema cresceu e depois de estudos e exames decidimos fazer a operação que corrigiria a hipertrofia. Aproveitaríamos e corrigiríamos também um defeitinho no átrio, e faríamos uma ablação, afinal o peito já estaria abertinho, o que custa fazer uma ablação? Retífica completa.

Assim, faz duas semanas que estou no Incor, vivendo aquela rotina básica de hospital que é dividida entre agulhas e esparadrapos.

Quando somos crianças uma única injeção nos tira o sono, quando adultos, nos internam e passam o dia nos espetando como canapés e arrancando tiras a ponto de a gente nem ligar.

Já fiz a retífica do motorzinho, umas coisas tiveram que ser ajustadas no meio do caminho, mas pelo jeito a máquina vai ficar boa. Entretanto, ainda estou no hospital, sendo espetado e tendo esparadrapos arrancados do meu corpo a toda hora.

Tive meus momentos de medo, me perguntei se Deus esquecera de mim. Numa madrugada na UTI lembrei do sofrimento dos judeus nos campos de concentração. Eles aguentaram tanto, por que não eu?

Não sei se sou forte, não consegui provas da existência de Deus no meu coração. Assim como eu, milhares passaram as mesmas noites de angústia em hospitais de todo Brasil, isso faz deles especiais? Na cabeceira da cama, Guimarães Rosa, que eu não consigo acabar nunca, me ensina: ”O que a vida quer da gente é coragem.”

O ódio venceu

O ódio venceu

Caros amigos, lamento informar que o ódio é maior e mais forte que o amor. Sei que isso vai entristecer a maioria dos leitores, mas devo dizer que somos exceções. Poucos ainda cultivam o esse sentimento tão ultrapassado como o amor. A maior parte dos brasileiros escolheu o ódio e está muito feliz com ele.

Não adianta um sujeito proferir mil palavras de amor, o ódio acaba com ele em um único disparo. John Lennon cantou Love, Love, Love e vejam o que foi feito. Martin Luther King pregou a igualdade e teve o mesmo destino,  assim como Gandhi ou aquele barbudo da Palestina que disse “amai ao próximo”.

Esse merece um parágrafo só para ele. Jesus ofereceu a outra face, perdoou seus algozes, conteve os apedrejadores. Mas no Brasil tem conservador dizendo que Jesus mandava matar vagabundo. São milhares de pessoas guiadas pelo novo profeta Olavo de Carvalho, que prega o ódio diariamente nas redes sociais.

Não importa que milhões de brasileiros dancem e brinquem o carnaval com suas famílias e amigos. Para o presidente do Brasil é necessário desmoralizar a festa e para isso basta colocar a imagem de dois degenerados nas redes. Pronto, o lindo trabalho das escolas de samba, a alegria da população brasileira, nada disso tem valor. Motivo suficiente para a horda cheia de ódio pedir a cabeça de gays e atacar a tudo e a todos.

Mas a cereja do bolo foi a morte de uma criança de 7 anos na semana passada. Muitos comemoram efusivamente nas redes sociais. Até o filho de um famoso presidente. Afinal, a criança era neta de um político de outro partido então sua morte mereceu fogos.

Agora, se você acha que a situação está feia e quer ingressar no time do amor para evitar o 7×1 do ódio, então atenção: Não adianta combater ódio com ódio. Comemorar facada, torcer por doença e festejar a desgraça alheia conta como gol contra. Cuidado, às vezes, parece que você está lutando pelo que é certo e quando se toca, acaba indo parar no outro time.

Não se iludam, estamos perdidos e seremos sempre minoria. A não ser que o mundo mude muito, as coisas são como são. Nossa única alegria é ter o coração leve por saber que estamos no time certo. Muito amor para vocês e muito amor para quem nos odeia. Um dia quem sabe, eles entenderão.

Um Lula para chamar de seu

Um Lula para chamar de seu

A Esquerda tem umas manias engraçadas.

Talvez a principal delas seja o fetiche por hashtags. Para a Esquerda, qualquer questão da humanidade pode ser resolvida por uma boa palavra de ordem precedida pelo jogo da velha. Depois é só colocar a dita na fotinho do perfil e pronto, cumpriu-se o dever cívico.

#golpe    #foratemer    #mariellevive   #lulalivre   #elenão

Mas há um fetiche talvez ainda maior da esquerda que é o fetiche pelo Lula. A esquerda é como aquela moça apaixonada que não importa o que faça o namorado ela sempre perdoa. Mesmo diante de todas as evidências, ouvimos entre suspiros – Me traiu? Duvido, ele é tão #fofo! 

Já a direita é uma moça que não tem namorado e inveja o amor da Esquerda por Lula. Não que ela queira o Lula para ela, muito pelo contrário. O que a direita queria era um namorado de verdade, alguém para se entregar do fundo do coração.

Primeiro tentou o namoro com o Aécio, mas durante o primeiro encontro ele deixou o celular na mesa do restaurante enquanto ia ao banheiro. Lá estavam gravadas mensagens desagradáveis de propinas de 2 milhões, de assassinato do primo. A Direita saiu do encontro correndo para que Aécio não pudesse ver suas lágrimas.

Depois tentou Cunha. Kataguri fez uma caminhada de mil quilómetros a pé para expressar seu apoio ao ex-deputado que acabou na cadeia. Novo engano.

Sem Cunha e Aécio surgiu uma rápida paixão pode Temer. Mas de novo fitas gravadas estragaram a paixão.

Daí veio Dória, o namorado perfeito, bem vestido, chic, falava francês. Um verdadeiro luxo. A direita acreditou nas suas mentiras por um tempo, mas ele resolveu dar o fora, renunciando ao amor que recebeu.

Luciano Huck desistiu do namoro antes de beijar, Geraldo parecia um bom moço mas faltava-lhe sex appeal, Amoedo beijou mas faltou pegada.

Eis que surge Bolsonaro, forte, másculo, macho alpha de verdade. Arma na cintura e dedo em riste, Bolsonaro pode ser para direita aquilo que o Lula representa para a Esquerda. O namorado dos sonhos.

E seus defeitos? A ignorância, a falta de projetos, burrice, corporativosmo, ausência de planos para o Brasil, o autoritarismo?

Ora, ninguém é perfeito. Afinal, o amor perdoa tudo.

Será que a direita finalmente achou um Lula pra chamar de seu?

 

Uma guitarra muda

Uma guitarra muda

Conheci o Velhinho quando tínhamos 11 anos. Nossos pais contruíram casas de campo no mesmo condomínio e caímos na mesma classe na escola. Em pouco tempo éramos inseparáveis, nos encontrando 7 dias por semana.

Logo veio a adolescência e começamos a crescer juntos.

Éramos CDF´s e competíamos pelas melhores notas na escola e essa era a única competição em que eu era páreo para ele. O Velhinho era o melhor em qualquer esporte, fazia um sucesso incrível com as meninas e ainda era um fenômeno no violão.

Quando éramos adolescentes, decidimos ser roqueiros. Cada um se esforçou para aprender um instrumento. Eu era o baixista da banda (aquele que ninguém dá bola). O Velhinho era o vocalista e guitarrista solo. Ele brilhava.

Com todas as diferenças, havia harmonia entre nós. Eu fazia as letras, ele musicava.

Levou uns 3 anos para percebermos que não podíamos tocar juntos, ele era muito talentoso. Tanto que largou o Direito para fazer faculdade música. Eu segui a carreira de “não músico”, mantendo o baixo e o violão ao meu lado por toda a vida, mas nunca estudei. Não sei a diferença de um colchete para um sustenido.

Por toda juventude compartilhamos sonhos e projetos, estivemos juntos em inúmeros momentos mas fomos atropelados pela vida. Cada qual com sua rotina, com sua família, nos víamos cada vez menos. Mas as aventuras que vivemos na adolescência haviam criado um amálgama que nos unia. Não importa quanto estávamos distantes, éramos sempre os velhos amigos de infância.

Creio ter faltado nos últimos dois ou três encontros da velha turma, ele também não pôde ir ao último aniversário da minha filha. É a vida, não é mesmo? Tantos compromissos, trabalho, filhos… Nossas últimas conversas  aconteceram por Whatsapp.

Às vezes pensava nele quando ouvia algo musicalmente muito bom ou quando tirava no violão uma música difícil – “O Velhinho ia gostar dessa aqui“. Eu queria mostrar para ele um arranjo que fiz para “Love of My Life”, mas isso não será possível.

Um estúpido acidente de moto levou o Velhinho embora dois dias atrás, deixando uma guitarra muda e um mundo de pessoas petrificado.

Meu violão continuará tocando mais triste até que o tempo permita aceitar essa perda e lembrar com carinho do velho amigo. Até lá, cada nota, cada acorde, cada vibração das cordas vai trazer o vazio deixado por alguém cuja missão de vida foi espalhar harmonia. Missão cumprida lindamente.

O suicídio de Janaína

O suicídio de Janaína

Muitos dirão que a decisão radical de Janaína foi intempestiva, passional. Algo deve ter se passado com ela. Porém, o que Janaína estava prestes a fazer havia sido planejado há algum tempo e seria executado com toda a tranquilidade.

Ela estava sozinha em casa. Era a noite em que o namorado ia à pós-graduação. Janaína decidiu abrir uma garrafa de Pinot Noir para saborear o momento. Baixou a luz para um tom suave e se acomodou na chaise long do terraço. Do 18o. andar, em seu apartamento, as luzes da cidade pareciam distantes.

Ela abriu o notebook. Antes do ato final, resolveu rever sua vida registrada no Facebook, primeiro passando os olhos no feed.

Havia  fotos de lugares distantes e mapas indicando viagens aéreas. Pessoas felizes fazendo selfies em Paris, na Disney e em Inhotim. Havia gente colocando fotos de gatos e reclamando do governo. Muita fake new sobre diversos assuntos e alguns textos pedindo a liberdade do Lula e investigações sobre Marielle. Janaína sentiu um tédio profundo, tomou mais um gole do vinho  e voltou novamente a atenção para o Facebook, deste vez passou a rever as inúmeras fotos que já havia publicado.

Lembrou sua viagem para a Califórnia, o curso de patisserie em São Francisco e os amigos que fez na época. Tinha fotos ainda mais antigas, do tempo em que fora casada. Jorge, o ex-marido aparecia em algumas exibindo seu sorriso que um dia fora sincero e depois tornou-se sarcástico. Ele ainda curtia um ou outro post de Janaína, mandava felicitações frias em seu aniversário. Era um homem bonito, apesar de tudo, tinha de admitir.

Reviu fotos de diversas fases profissionais. Da carreira infeliz no departamento contábil de uma construtora, das tentativas de se estabelecer como chefe até abrir a loja de bolos personalizados. Havia muitas fotos de bolos. Em formatos diversos. Bolos com noivinhos, com cachorros esculpidos em glacê, bolos que comemoraram nascimentos, aniversários, bodas de ouro. Não podia negar, seus bolos fizeram muitas pessoas felizes. Porém, o talento culinário era maior que o administrativo e Janaína, endividada, teve de fechar a loja.

Ao rever as fotos do Facebook, muitas emoções vinham à tona, muitas coisas boas. Mas  isso não seria suficiente para mudar sua decisão. Ainda assim, como sabia que era a última vez que fuçava a rede, voltou-se novamente ao feed. Tantas pessoas, tantos posts, tão pouco que a interessava. Egos e mais egos, mentiras e polêmicas inúteis. Mesmo os amigos e amigas de coração, pareciam menos interessantes na rede. Novamente a sensação de tédio.

Chegou a hora de desligar, iria seguir os passos que planejara.

***

Uma hora depois, quando Miguel chegou da faculdade, encontrou Janaína no terraço, ainda bebendo o vinho. Ele pegou uma taça e se dirigiu à garrafa.

“Alguma celebração especial?”

“Cometi meu suicídio social.”

“Oi?”

Ela levou a taça a boca antes de explicar.

“Apaguei minha conta no Facebook.”

Ele respondeu desinteressado.

“Fez bem.”

 

Kids committing suicide

Kids committing suicide

O título do post foi tirado de uma música do Pink Floyd – The Post War Dream – que eu idolatrava na adolescência. Na época, a frase era tão terrível como distante. Hoje, tantos anos depois, é ainda mais terrível, justamente por estar tão próxima.

Minha filha estuda na escola onde dois adolescentes cometeram suicídio nas últimas duas semanas. É impossível ficar indiferente.

Se a morte de crianças e adolescentes nos assombra, o suicídio é mais assustador. Afinal, parece que ser algo que nós pais deveríamos e poderíamos ter evitado.

Não sei dizer se isso é possível e muito menos se eu seria capaz de identificar em minha filha os sinais do desespero que afligiu esses garotos. Afinal, somos todos companheiros de barco nessa sociedade de infelizes e desesperados. Como poderia ser diferente com os adolescentes?

Tudo vira competição, motivo para nos compararmos, para exibicionismo. Até nossa diversão.

_ “Ei eu tenho 50 anos e vou a todos os Shows de Rock!”

_ “Estou na praia em plena quarta-feira! Como sou feliz!

_ “Vejam, eu tenho uma família funcional perfeita”.

_ “Eu supero todos os limites da preparação física”!

_ “Olhem para mim! Minhas opiniões políticas são maduras e irrepreensíveis!”

Tantos adultos carentes implorando por joinhas nas redes sociais. Enquanto isso, na reunião da família funcional perfeita, todos comem em silêncio, cada um com os olhos grudados na tela do celular”.

Não há que se culpar os pais, nem os conheço e rezo para que Deus os conforte. É preciso olhar no espelho e tentarmos ser pessoas melhores para ajudar essa geração de jovens.

Convivo com muitos adolescentes e me surpreendo com garotos e garotas maravilhosos, bem educados e muito mais informados do que minha turma era no passado distante. Não podemos perder pessoas tão boas. simplesmente não podemos.

Para encerrar, deixo vocês com um clássico do Renato Russo: “Ela se jogou da janela do quinto andar, nada fácil de entender”.