Estúpida Retórica

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Lia Mario Benedetti no metrô, um livro sobre os exilados uruguaios nos anos 70, quando pensei em ir ao cinema.

Saltei na Consolação e já no Belas Artes decidi entrar na primeira sessão disponível. Era o filme Chileno Neruda. Eu não sabia, mas o roteiro trata justamente da perseguição e do exílio do poeta comunista em 1948.

Em uma cena, o policial (Gael Garcia Bernal) pilota uma moto me lembrando Diários da Motocicleta, filme com o mesmo ator sobre Che Guevara.

Comecei a tecer uma estranha teia em minha cabeça desocupada.

Artistas de esquerda perseguidos no final dos anos 40 no Chile; Revolucionários argentinos sonhando com uma América Latina Socialista nos anos 50. Uruguaios exilados e perseguidos nos anos 70.

Ainda hoje, as portas da terceira década do século XXI, estamos perseguindo artistas de esquerda ou sonhando com revoluções sem sentido. Como se estivéssemos atolados esse tempo todo, quanto mais aceleramos mais afundamos nos mesmo lugar.

Em 1984 Caetano Veleoso compôs Podres Poderes, em que dizia o seguinte:

Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos

Não sei quanto tempo são zil anos. Mas já passaram 33 anos do lançamento da música e a estúpida retórica continua atual, como se estivesse sido escrita em 2017.

(Se você não conhece a música, olha ela aqui)

O PT, o Corinthians e a Legião Urbana

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Eles dividem opiniões

Sempre me pergunto o motivo pelo qual tantas pessoas odeiam o PT com tamanha intensidade. Se questiono os  meus amigos, as respostas são mais ou menos previsíveis:

_ “Porque o PT rouba” – Dirá alguém que votou inúmeras vezes no Maluf e não se importa quando Cunha, Temer ou Aécio metem a mão no dinheiro público.

_ “O Brasil está em crise” –  Diz o outro que odiava o PT  igualmente nos anos de crescimento do governo Lula.

_ “O PT é autoritário” – Diz ainda um que defende a ditadura militar.

No geral são respostas incoerentes, que não me ajudam a decifrar o mistério.

Creio que há motivos para não se gostar do PT, assim como há motivos parecidos para se odiar qualquer outro partido. Só não entendo por que o ódio ao PT é tão desproporcional.

Isso me lembra o Corinthians*, que inspirava ódio em seus adversários mesmo quando estava no fundo do poço.

Talvez a resposta esteja no fã do Legião Urbana. Aquele que pede que se toque Faroeste Caboclo toda vez que vê alguém carregando um violão. O sujeito que depois de umas cervejas gruda na gente e começa a discursar sobre a força poética do Renato Russo. A moça que chora toda vez que ouve “Pais e Filhos”.

O fã do Legião Urbana é o chato perfeito. Assim como o Corinthiano ou  o Petista. Seu amor vira religião e seu discurso pregação.

Toda vez que alguém diz “Fora Temer” vem na minha cabeça o insuportável “Toca Legião” que ouvia sempre que subia ao palco com minhas bandas de Rock. Não é muito diferente do “aqui é Corintcha”, ou do “Toca Raul” ou do “Em nome de Jesus”, dito por testemunhas de Jeová que nos acordam às oito da manhã num domingo chuvoso.

A garra e a fidelidade dos Petistas chegam a ser comoventes, mas a intensidade do discurso traz mais desafetos que admiradores. Assim como o bando de loucos conquista mais secadores que solidariedade. Uns acreditam no Golpe assim como outros acreditam no Mundial de 2000.

Talvez os três fãs devessem repensar seus erros, analisar sua parcela de culpa na perseguição a seus ídolos.

Ou pode ser que isso tudo seja uma grande viagem minha. Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão?

 

*Talvez essa comparação só faça sentido aos paulistas, mas você pode transportar para o time de sua preferência em seu próprio estado.

As Leis de incentivo e o Isaquias da Canoagem

isaquias queirozSou um defensor das leis de incentivo à cultura. Não que elas sejam perfeitas, precisam melhorar muito, mas é importante que elas existam.

Porém muitos pensam de outra maneira,  nos últimos meses vi milhares de comentários em redes sociais dizendo que o Estado não deveria investir  em cultura pois falta dinheiro para o saúde e a educação.

Nos últimos anos não foi só a Cultura que ganhou verbas de incentivo. O esporte também recebeu milhões via Caixa, Exército, renúncia fiscal ou bolsa atleta.

O baiano de Ubaitaba, Isaquias Queiroz, foi um dos que receberam esses benefícios e retribuiu ao Brasil com medalhas olímpicas. Sem incentivos talvez hoje ele fosse um desempregado na periferia de Salvador.

Não entendo de esportes e não sei se a forma de incentivo adotada pelo Brasil é a mais correta. Só tenho certeza que o país precisa decidir se quer ou não ter esportistas de ponta. Caso queira, precisa colocar a mão no bolso.

O Mesmo acontece com cultura.

Sem leis de incentivo enterramos o Chorinho, manifestações regionais, a música clássica, a dança e tudo o que não dá grande bilheteria.

No meu caso, recebi um apoio para desenvolver uma série de animação. Se tudo acontecer como eu e a Ancine esperamos, no futuro terei uns 30 colaboradores para fazer a série e pagarei em impostos muito mais do que recebi. Poderei exportar o minha produção e o Fundo Setorial do Audiovisual levará parte dos meus lucros para incentivar novos formatos e produções. Tenho plena convicção que essa fórmula só tem benefícios.

Estamos discutindo diariamente novos rumos para o Brasil. Nessa discussão cabe perguntar: Esporte e cultura são importantes para a nossa população?

A abertura das Olimpíadas mostrou a qualidade que nossa cultura pode ter. Isaquias mostrou que com o incentivo correto Ubaitaba gera uma lenda do esporte.

Eu acredito nesse caminho. Sonho que a arte de Fernando Meirelles, Deborah Colker e tantos brilhantes anônimos possa chegar a mais gente, assim como sonho que o esporte seja um instrumento de transformação social.

Um Guitarrista Estupendo

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Comecei a reparar nos dedos dele, rápidos, precisos e cheios de ginga. Não batiam nas casas de forma mecânica. Cada nota tinha a intensidade que precisava ter.  Fiquei tão hipnotizado pelo som da guitarra que não ouvia mais o que falavam em minha mesa.

Era uma trio que misturava soul, blues e jazz com muito swing e ousadia, mas isso não interessava aos frequentadores do bar. Nossa mesa, formada por quatro economistas jovens que comemoravam mais um bônus polpudo estava mais interessada em escolher rótulos caros de vinho e encontrar no google modelos de carros extravagantes. Não fazia sentido ganhar aquele dinheiro todo e comprar outra BMW.

Eles falavam em relógios exclusivos, restaurantes em Boston e mulheres siliconadas. Eu estava distante, atento a uma versão magnífica de “Nothing But a Woman”. Acho que só eu sabia que aquele guitarrista era extraordinário.

E por que eu sabia isso? Por que que tinha tanta certeza?

Porque sou um ótimo guitarrista. Toco desde a adolescência. Eu tirei Starway to Heaven e Sultans of Swing de ouvido e não tinha mais de 15 anos. Ainda hoje muitos ficam impressionados com minha versões de Highway Star ou Back To Black. Porém conheço os meus limites e sei a diferença do ótimo para o extraordinário e o que via era verdadeiramente especial.

No intervalo, quando os músicos pararam para descansar um pouco, abordei o tal guitarrista no fumódromo. Reparei de perto que suas roupas estavam em péssimo estado. Os sapatos imprestáveis. Chamava-se Samuel.

Obviamente, falamos de música, listando os guitarristas e bandas que mais admirávamos. Ele deu uma aula sobre George Benson e Steve Lukather, me indicou alguns álbuns deles. Era culto, estudioso do assunto. Tive de controlar minha prepotência habitual e apenas ouvir.

Quando esperava o manobrista trazer meu carro ele apareceu com a guitarra nas costas. Ofereci uma carona. Ele disse que ia para a Giovanni Gronchi, era perto de casa.

No carro voltamos a falar de música, arranjos, do prazer que é trabalhar com aquilo que se gosta. De repente ele pediu que eu parasse o carro em um posto de gasolina e o deixasse lá. Eu disse que podia levá-lo em casa mas ele insistiu em ficar no posto. Nos despedimos e ainda o vi pelo retrovisor caminhando sozinho com seus sapatos desgastados.

Quando cheguei no meu apartamento saí para fumar o último cigarro no terraço. Eu moro num andar alto e tenho uma boa vista da zona sul. Deixei Samuel num ponto próximo a prédios muito luxuosos e a favela do Paraisópolis. As roupas gastas e o fato dele ter preferido ficar no posto de gasolina me fizeram pensar que mora na favela. Ele ficou constrangido em  me dizer.

Ainda tragando e olhando a neblina que surgia na madrugada pensei no meu potencial como economista. Sou igual a meus pares. Estudei bastante, trabalho direito, mas jamais serei brilhante. Samuel era diferente tinha algo de único, era especial no que fazia, tinha um talento que sonhei em ter. Com os acordes de Robert Cray ainda ecoando na cabeça, apaguei o cigarro e deitei-me confortavelmente no lençol de algodão egípcio que comprei com o bônus do ano passado.

 

 

 

Pornografia e política

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Aviso: Não leia se você tem menos de 18 anos.

Sempre me diverti com os títulos que produtores de filmes pornô escolhem para suas paródias de cinema. “Despedida em Las Vegas” vira “Despedida em Las Pregas” e “Senhor dos Anéis” se transforma em “Senhor dos Anais”.

Lembrei disso ao ler na Folha que uma produtora brasileira lançou um filme pornô parodiando a atual situação política brasileira: Operação Leva-Jato.

Imagino que o filme deva ser bem realista. Afinal, se tem suruba, sacanagem, troca-troca e um tentando “foder” o outro, qual a diferença em relação ao nosso atual cenário político?

Aliás uma das figuras que mais apareceu no movimento pró impeachment foi o ator pornô Alexandre Frota.

Mas não consegui deixar de imaginar qual seria o roteiro do filme. Sem ter acesso ao original, resolvi criar uma sinopse, ou pelo menos, um apanhado de ideias, usando alguns personagens reais num ambiente onde elogiar a mandioca tem um significado totalmente diferente.

O Filme tratará do embate entre o MBL e o MST. Ou seja Movimento da Bunda Livre contra o Movimento dos Sem Teta.

Tudo começa com uma grande suruba na Petrobras, porém as tramoias são descobertas pelo Teori Xavasca e pelo Lavandorolowski.

O ator principal é um japonês que prende Delcídio Amapau,  Jorge Luiz Pelada e Marcelo Odeprexecat.

O diálogo mais marcante acontece entre um deputado e um juiz:

_ Pode liberar o CUnha, não precisa Temer.

No final, todos vão presos (até o Felicianus) e continuam suas orgias atrás das grandes enquanto Tirapica, o único deputado remanescente, assume a presidência.

P.S. Contribuíram involuntariamente com esse texto Caetano Scatena e Adriana Brunstein, em um almoço regado a molho Shoyo e abobrinhas.

 

 

 

Poesia de pai para a filha 2

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O último texto que publiquei ficou muito bonito, falava de minha filha e de poemas que eu escrevia e que ela escreve.

 Porém escolhi um título tão ruim que quase ninguém leu. Decidi alterá-lo mas era tarde demais, o post ficou no passado.

Então reciclarei o título e vou publicar um soneto que escrevi dias antes do nascimento dela em 2006.

A Espera de Esther

Antes a vida tão certa e clara

O dia, a casa, o tudo saber

Em um dado momento o medo de ser

Depois a surpresa que se depara.

Antes o sonho, a esperança, o ideal

A confirmação, o cuidado e a fé

Em amar-se o que ainda não é

O que depois será tudo afinal.

Antes a espera, o torcer, a ansiedade

de pais e avós, de tios e amigos

O tempo, os meses, o aviso e o alarde

Um universo em ti resumido

Antes o silêncio encobrindo a cidade

Depois o teu choro rompendo o infinito

P.S. Há uma baita discussão no país sobre o papel da Cultura em tempos de crise. Eu me posiciono aqui, como besta e sonhador: A cultura e a arte podem nos salvar da crise, nos levar a outros mundos onde não há escassez de recursos, de gentileza, de entendimento e de moral. Podem ainda ajudar-nos a ver este mundo sobre outros prismas. Quem sabe assim possamos compreender o incompreensível e romper as barreiras invisíveis que nos dividem.

Poesia, de pai para filha

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Quando eu tinha 12 anos fiz esse poema para a escola:

 

O Duelo

 

Tirei minha espada, olhei para o céu 

Começa o Duelo, duelo cruel

 

E vendo sentada, de arquibancada,

a morte

 Ali o Eterno, esperando alguém

pra levar para o inferno

 

Dei um golpe no ouvido e ainda duvido

Como ele ficou apenas ferido

 

Tirou minha espada num golpe audaz

Jogou-a para longe, deixou-me incapaz

 

Termina o duelo e dois machões 

dormem ao lado em seus caixões

 

Era um texto pueril, dava pra perceber que eu me esmerava em escrever porém minhas preocupações eram fantasiosas e superficiais.

Lembrei deste texto ao ler uma poesia escrita pela minha filha de 10 anos (espero que ela não se ofenda pela reprodução sem pagamento de royalties). Foi feita para a escola e o tema eram os contos de fadas:

 

Caminho para a Liberdade

 

Quando você for caminhar

Menina do vestido vermelho como o fogo

Lembre-se do conselho que vou te dar

 

Quando estiver assustada 

Com medo e se sentindo assombrada

Menina que caminha pela floresta

não tente ficar parada

 

Quando estiver em um momento

Que se resume apenas em sofrimento

Menina do rosto sorridente 

Saiba que estará sempre em meu pensamento

 

E quando decidir no fundo do teu coração

que não precisa mais segurar minha mão

nem ouvir os meus tantos conselhos 

inimiga de lobos traiçoeiros

saiba que não terei receios.

 

O poema me emocionou. Minha filha aos 10 anos mostrou profundidade e maturidade que eu estava longe de alcançar aos 12. Isso para não falar da qualidade do texto em si.

Eu me coloquei no lugar do narrador dos versos dela e a vi como essa chapeuzinho valente que caminha clamando por liberdade.

Ela pertence a uma nova geração, mais avançada que a nossa. Creio que ser superado pelos filhos é o sonho de todo pai. Sinto que isso vai acontecer.

Será que sou corajoso como esse personagem ou como o espadachim que sonhei ser na infância? Em breve chegará o dia em que ela largará minha mão e não ouvirá mais os meus conselhos. Sei que desbravará inúmeras florestas e que estará em meu pensamento. Como não ter receios?