Os Mamonas voltaram

Os Mamonas voltaram

Vou contar a vocês o que houve nos planos espirituais quando os Mamonas morreram há 22 anos. Eles foram recebidos por anjos e querubins muito comovidos com o acidente que acabou com a promissora carreira da banda de forma tão inesperada.

Acontece que Deus também ficou sabendo da história triste (Ele é onisciente) e veio prestar solidariedade à banda. Tamanha era a sensação de injustiça, que o velho decidiu manda-los de volta à Terra.

_ Não gosto de mudar as regras assim, mas vocês merecem. Vão voltar ao Brasil.

Só que as regras do céu não são tão simples. Até fazer os requerimentos, preencher a papelada e conseguir os carimbos, passaram-se 22 anos. Além disso. Deus deu uma condição:

_ Vocês serão totalmente esquecidos pelos brasileiros, ao voltar, terão de começar do zero.

A banda concordou de pronto, afinal, era uma chance única. As músicas já estavam prontas. Era só lançar e refazer a carreira de sucesso. Com as redes sociais seria ainda mais fácil.

E eis que em 2018 os Mamonas estão de volta, como uma banda 100% inédita, pronta a conquistar o coração dos brasileiros.

Logo de cara lançaram o “Vira-Vira”, seu primeiro hit. Tempos modernos, colocaram a música no Spotify, no Youtube e no Twitter.

Para a surpresa de todos, no lugar do sucesso de outrora, a banda foi recebida com uma chuva de críticas.

As feministas disseram que a música era sexista e incitava o estupro. Os evangélicos disseram que estava incentivando sexo grupal. Os portugueses reclamaram de apropriação cultural e o MBL acusou-os de incentivo a zoofilia (Então vai fazer amor com uma cabrita).

Assustados com as críticas, Dinho e seus companheiros optaram por lançar “Pelados em Santos“, era o trunfo da banda, sucesso garantido.

Imediatamente grupos de esquerda acusaram os Mamonas de ridicularizar os pobres. As feministas arrancaram os cabelos pela posição de inferioridade da mulher na letra, o MBL temeu pelos “pelados” e o clube de colecionadores de Brasílias os processou pela forma como o carro foi tratado.

E continuou assim, música após música.

O ator pornô Alexandre Frota dizia que a banda era imoral. O MBL voltava a reclamar de zoofilia em “Mundo Animal” (Comer tatu é bom). A letra de Robocop gay enfureceu gays, católicos, gaúchos e baianos.

Eram tantos ataques, tantas críticas que Dinho não conseguia entender…

Os filhos do Bolsonaro diziam que a banda era comunista, apoiados por Rodrigo Constantino. O Sakamoto fez um texto imenso com uma análise crítica super inteligente mas ninguém teve saco de ler. Chico Pinheiro disse no Twitter que achou a banda engraçada e foi demitido. Reinaldo Azevedo fez um longo editorial falando de Reinaldo Azevedo e suas lutas. Marco Antônio Villa xingou Lula e disse que a banda era coisa do PT.

Desgostosos, os Mamonas correram para o aeroporto, compraram passagens para o vôo mais barato rumo a qualquer lugar e rezaram antes do embarque, pedindo uma queda rápida e indolor.

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Escola de Samba sem Partido

Escola de Samba sem Partido

Desde de que o samba é samba é assim: A chacota, a picardia e a crítica fazem parte do carnaval. Pesquise e verás que havia marchinhas satirizando Getúlio e outros antes dele.

As Escolas de Samba sempre foram cronistas de seu tempo, falando de costumes e política. Quem não se lembra de Joãozinho 30 e seus mendigos escandalizando a Marques de Sapucaí? Coisa mais linda ver um desfile e ainda mais quando esse desfile cativa a plateia como fizeram Beija-Flor e Tuiuti.

Mas nas redes sociais e nas arenas da polarização política, as pessoas não pareciam tão empolgadas como eu.

A Beija-Flor fez uma linda crítica social, mostrou a desigualdade, a corrução, a desesperança do povo. Voltou a colocar mendigos na avenida. Usou uma metáfora de Frankstein absolutamente genial. Tinha tudo para conquistar os corações da galera da esquerda. Mas não conseguiu.

A turma do “Foi Golpe” estava encantada com a Tuiuti que satirizara Temer e os manifestantes da Fiesp. A escola também fez uma crítica inteligente mostrando que a abolição da escravatura era um desafio ainda por vencer.

O curioso, é que a galera da esquerda ao apoiar a Tuituti, tomou a Beija-flor como rival. Dava a impressão de que zoar o Temer e os coxinhas era mais mais legal do que a crítica social da escola de Nilópolis.

E a direita?

Aparentemente emburrou. Não gostou de uma crítica nem outra. Acho que vai fazer a campanha “Escola de Samba Sem Partido”.

A Jovem Pan, revoltada com críticas sociais, fez imensos editoriais falando como as Escolas são ligadas a bicheiros, como a Tuiuiti sofreu um acidente com o carro alegórico em 2017 e portanto era uma agremiação indigna. Carlos Andreazza dizia até que as fantasias estavam feias. Ninguém se comoveu com a força do samba, com a emoção do público e com o recado bem dado pelas escolas.

Ainda bem que o Brasil é maior que os torcedoes fanáticos da Jovem Pan ou das redes. As duas escolas ganharam o carnaval de 2018 e levaram o povo a cantar seus sambas cativantes.

Vejo as Escolas de Samba como uma metáfora do Brasil.

Elas tem tudo para dar errado. Nasceram em comunidades carentes, são organizadas no chão de barracões sob a influência de bicheiros.

Ainda assim fazem um verdadeiro milagre. Levam 4.000 pessoas fantasiadas, muitas delas turistas que mal sabem sambar para a avenida e desfilam em harmonia. Apresentam carros imensos iluminados, coreografias, luzes e magia.  Desfile da Sapucaí é a vitória do improvável, união de milhares, trabalho e suor que vira o jogo. Tal qual nosso país que faz tantas coisas maravilhosas de forma inesperada, onde menos imaginamos.

No lugar de criticar a satirização dos enredos, no lugar de torcer como num Fla-Flu, sugiro que no ano que vem todos se dispam um pouco de suas ideias pre-estabelecidas e caiam na folia. Antes que até o carnaval fique chato.

É o Record!

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Equipe do Toda Unanimidade na festa de encerramento de 2017

A boa notícia do dia é que o Toda Unanimidade ultrapassou as 7.966 visualizações em 2017,  record histórico. E olha que tive bem menos tempo para escrever.

Sempre achei que o blog seria algo temporário. Que eu enjoaria de esrever ou que um dia iria faltar assunto. Por enquanto vamos bem nos dois itens, não me falta vontade nem tema…

Nesses anos de blog, alguns textos alavancaram a audiência. Resolvi fazer um apanhado dos 10 mais vistos. Vamos lá:

1 – Quando levei minha filha para ver zoofilia na Rouanet    2163 views

2 – Eu não gosto de ver homens se beijando                              1652 views

3 – Tenho 44 anos e nunca peguei ninguém                               887 views

4 – Será que sou Petista                                                                   734 views

5 – Desculpe amigo, mas vou te bloquear                                   526 views

6 – Você ficaria do lado de Jesus?                                                 523 views

7 – O  pé na bunda perfeito                                                           417 views

8 – Adeus Bowie                                                                               386 views

9 – O livro menos vendido da história                                        322 views

10 – O lado bom da ditadura                                                         284 views

Foram textos que fizeram sucesso, mas só porque você, caro leitor, esteve aqui para lê-los. Sem você, suas curtidas, seu compartilhamentos, seus comentários, isso seria muito chato.

O blog é um pacto sem palavras em que eu dou textos para o leitor que me dá em troca seu tempo. Minha responsabilidade é muito gande pois nada é mais precioso que o tempo de alguém. Tempo é vida.

Que o seu tempo em 2018 seja incrível. Espero fazer parte deste ano excelente e que nossas troca sejam cada vez mais ricas.

Feliz 2108

 

Vaca Profana

Vaca Profana

Sempre fui fã de “Vaca profana” do Caetano Veloso, embora nunca entendesse exatamente o que ele quis dizer na letra. Gostava da figura profana, desafiando as leis e costumes com suas divinas tetas. Deusa pagã, mulher, com a cabeça erguida acima da manada.

Caetano pedia que ela derramasse sobre ele o leite bom e deixasse o leite ruim para os caretas.

Pra mim havia arrogância nesse pedido.

Nós, que nos vemos como artistas, como intelectuais, nos achamos especiais, superiores, dignos do leite bom da vaca profana. O leite ruim vai para os caretas, que não entendem Thelonius Monk, que não são torres traçadas por Gaudi.

Talvez pela falta desse leite profano/sagrado, os caretas se tornaram perigosos, rancorosos. Agora eles não evitam mais os museus. Vãos aos museus com pedras na mão, tal qual os que apedrejariam Maria Madalena, estão em uma cruzada contra a cultura, contra a arte, contra Caetano.

Estão cegos e raivosos. Querem evitar que crianças vejam exposições. Além de pedras estão armados com mentiras e memes falaciosos. Não servem à Vaca Profana. servem aos homens dos podres poderes.

Caetano sabia que não devíamos ficar com o leite apenas para nós. Mesmo arrogante, ele viu que era preciso dividir o que é bom para todos, assim pede no final da música:

“Gotas de leite bom na minha cara

Chuva do mesmo bom para os caretas”

Mas é tarde demais: Picasso, Maria Bethania, Thelonius Monk, Toms e Miltons ou o som do Tim Maia, nada disso sensibiliza aqueles que vivem do ódio. Eles atacam Adriana Varejão, agridem a tigresa Sônia Braga, seguem sua inquisição particular.

Não vamos lutar com as mesmas armas, não vamos pedir a mordaça ou responder mentiras com mentiras. É hora da arte ser mais arte. Da contestação ser mais verdadeira, dos filmes serem mais contundentes. Vamos aproveitar o leite bom e espalhá-lo para quem quer e quem não quer. Respeitemos nossas lágrimas, mas ainda mais nossa risada. Vamos ressuscitar um refrão que fazia sentido há 50 anos: “É Proibido Proibir”!


 

Livros e mais livros

CONVITE_SP_MF.jpgCaros amigos e leitores,

dia 29/10, às 15h, eu e o Pedro Menezes vamos lançar nossos dois novos livros infantis e ficarei muito feliz em encontrar vocês lá, na Martins Fontes da Paulista.

Os dados e detalhes vocês encontram na arte aqui do Post.

É uma alegria muito grande ver dois filhotes ganhando vida.

Os livros já estão a venda no site da Pólen:

https://polenlivros.lojavirtualnuvem.com.br/

Vejo vocês lá.

Vamos censurar!

Vamos censurar!

Já que está na moda também quero censurar! Vamos preservar a família e valores ímpios das pessoas de bem! Vamos meter a tesoura na música, no teatro e nas artes, vamos acabar com esses cineastas vagabundos que defendem o livre pensamento e com essa elite intelectual doutrinada por Trotsky e Rasputin.

As normas de censura definidas exclusivamente por mim, de forma totalmente democrática, são as seguintes:

1 – Combate ao vilipêndio religioso – Nada que ofenda as religiões será permitido na arte e na comunicação

Os primeiros a terem a língua cortada serão os Titãs por “Igreja”.

Seguidos por Eça de Queiroz e seu Crime do Padre Amaro

Novelas como Roque Santeiro e Tieta assim como toda a obra do Dias Gomes serão banidas.

Não para por aí, também estão proibidos:

O Poderoso Chefão 2

A série Young Pope

O Exorcista

A banda Iron Maiden (por The Number of The Beast)

Black Sabbath

Judas Priest

John Lennon e os Beatles: “Somos mais populares que Jesus Cristo”

Saramago, o ateu.

Quero que vá tudo para o Inferno (Roberto Carlos)

Rolling Stones (banidos do Brasil por Simpathy for the Devil)

A igreja evangélica (por chutarem a santa e por atacarem as religões africanas)

Todos os filmes do Almodóvar mas especialmente “Maus Hábitos”.

O Alto da Compadecida e seu Deus negro e piedoso diante do Bispo corrupto é imperdioável.

2 – Zoofila e todas as práticas de sexo heterodoxas na arte.

Começemos a banir o Ultraje a Rigor e sua ode à zoofilia “Mary Lou”.

Woody Allen será seriamente castigado por “Tudo o Que Você Queria Saber sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar.

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Em filme de Woody Allen, psicólogo se apaixona por ovelha

Vamos proibir Pulp Fiction do Tarantino, onde, nas palavras de Paulo Francis, “dois homens sodomizam um criolo”.

Lulu Santos deve ser impedido de cantar a baixaria de “Toda Forma de Amor”.

Hieronymos Bosch: Encontrem onde esse pilantra mora e vamos colocá-lo atrás das grades!

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Obra do Esquerdopata Bosch

Mandem prender esse tal de Sófocles e aproveitemos para levar junto Nelson Rodrigues, Philip Roth e João Ubaldo Ribeiro!

Não se esqueçam da Netflix com seu Sense 8 dirigido pelos irmãos travecos.

Game of Thrones, meu Deus, quase ia me esquecendo: Tem incesto, deuses falsos, sexo de todos os tipos, prostituição, pederastia, nu masculino. Censurem já!

 

3 – Combate à doutrinação Comunista

Vamos atacar esses livros e filmes que ensinam valores deturpados para nossas crianças passando a pior de todas as doutrinas: O comunismo!

Agora me lembro de um livro perigoso, só que esqueci o nome, será que vocês conhecem?

Tem um personagem rebelde que enfrenta o sistema e os líderes religiosos da época. Lembro-me de uma frase desse livro, dita pelo tal desajustado:

“_Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico subir ao reino dos céus”.

No mesmo livro esse personagem divide pães e peixes, sem perguntar qual o mérito das pessoas que recebem o alimento.

Numa passagem, ele salva uma mulher adúltera do apedrejamento que as pessoas de bem estavam prestes a executar.

Se alguém puder me lembre o nome desse livro. Precisamos impedir que a sua mensagem comuna chegue aos ouvidos das inocentes criancinhas. E principalmente, evitar que um livro desse chegue às escolas!

 

*Não falei de pedofilia no texto porque acho um tema muito pesado para piadas e ironias.

**Para quem não conhece o tom sarcástico do Blog, deixo um aviso que aqui tudo e nada são verdades ao mesmo tempo. “Toda Unanimidade” é um espaço de provocação e incentivo ao pensamento crítico.

 

 

Quando levei minha filha para ver Zoofilia na Rouanet

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No ano passei levei minha filha, então com 10 anos, para o Anima Mundi, o maior Festival de Animação do Brasil na Cinemateca. Patrocinado pela IBM através da lei Rouanet. O Anima Mundi tem diversas sessões de curtas metragens do mundo inteiro e oficinas onde as famílias fazem mini filmes com animação de massinha. Um programa gostoso, cultural e gratuito.

Porém eu cometi um erro. Entrei com a minha filha numa sessão sem ler de que se tratavam os filmes. Eram 6 curtas. 4 sobre morte e 2 sobre sexo. Não era uma sessão infantil.

Os filmes sobre morte eram lindíssimos. Os filmes eróticos eram totalmente inapropriados para minha filha. Um deles terrivelmente inapropriado. Envolvia zoofilia. Pra piorar, convidei um casal de amigos para o programa e eles levaram um filho de 10 anos.

Durante a sessão, as crianças fecharam os olhos enquanto eu, coberto de culpa, me ajoelhava no milho pedindo perdão aos amigos. Fiquei chateado.

Depois tive uma conversa com a minha filha e expliquei que o filme era inadequado para a idade dela e tratava de uma pessoa com desequilibrio sexual. Dito isso, as crianças continuaram brincando e a vida seguiu normalmente.

Evidentemente a organização errou ao não deixar um aviso sobre o conteúdo adulto da sessão. Pensei em mandar um e-mail com uma reclamação. Acabei esquecendo.

Quem vai a muitas exposições acaba correndo alguns riscos.

No Museu Dorsay, em Paris, fiquei constrangido ao entrar com minha filha na sala onde estava a obra “A Origem do Mundo” de Coubert. Algumas obras da mostra de Marina Abramovic também exibiam nus. Mas minha filha nunca se importou.

Ontem visitamos o Sesc 24 de Maio e havia uma instalação lembrando a operação Camanducaia, que eu nem sabia ter existido. Eis aqui na foto que fiz, um resumo da operação.

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Em 1974 o exército e a PM prenderam 300 crianças e adolescentes (alguns com 9 anos). 93 deles, depois de torturados, foram levados de ônibus a Camanducaia – MG e soltos à beira da estrada, no meio da noite, nus e sem um tostão. 55 crianças desapareceram para sempre.

Minha filha ficou muito assustada. É difícil explicar para uma criança que adultos agem assim. Seria mais difícil explicar que há brasileiros sonhando com a volta ao poder dos assassinos dessas crianças.

Eu mesmo não entendo como a operação Camanducaia ofende menos do que o peladão do Museu.

Um dia, ela vai aprender que o amor ofende mais do que as armas e que a verdadeira guerra do mundo é entre ódio e amor. Prefiro não procurar entender. Me limito defender o amor  sempre. Mesmo sabendo que os militantes do ódio estão ganhando a guerra.