Marli ´n Kedin

Captura de Tela 2017-03-15 às 18.36.36.png

Marli estava ansiosa, precisava chegar em casa a tempo de ver Camila acordada. A menina, em fase de tirar as fraldas, não via a mãe todas as noites.

Era comum Marli ficar até mais tarde no banco. Verificava planilhas, refazia cálculos. Quando tinha uma apresentação importante passava horas revendo o Power Point e treinando suas falas.

Miguel, o marido, estava acostumado. Dono de uma loja de pneus, sofreu um pouco no começo com as ausências da esposa. Depois, porém, passou a se acostumar com o conforto material que os bônus de Marli proporcionavam.

A primeira vez que o bônus superou os cem mil reais foi comemorada em Paris, na segunda vez, Marli já estava grávida.

Camila crescia menos rápido do que a fama da mãe no banco. Impiedosa com a equipe e obcecada por detalhes, Marli brilhou em todos os projetos que se envolveu.

Ao chegar em casa naquela noite, deu com Miguel saindo do quarto de Camila. A menina acabara de dormir. Ele fez sinal de silêncio com o dedo indicador em frente aos lábios e a chamou para comer algo. Ela o beijou na bochecha e disse que precisava trabalhar um pouco. Pegou um pacote de Pringles e abriu o notebook.

Ele, cansado de esperar por companhia, ficou em pé ao lado observando-a entrar no LinkedIn.

_ Faz duas semanas  que você faz isso toda a noite.

_ É importante. Preciso saber o que está acontecendo no mundo. No banco eu não tenho tempo para nada.

_ O LinkedIn não é o mundo – Retrucou Miguel contrariado.

_ O mundo é o que você vai conhecer se eu não perder o foco.

Miguel saiu de mansinho, pegou outro pacote de Pringles e foi ver futebol na TV.

Sexo aos 40

Estou sem tempo para escrever. Então fica difícil administrar dois blogs. Decidi então para o “Sexo aos 40”, onde eu usava o personagem Marco Aurélio para tratar das agruras de relacionamentos de quarentões e quarentonas.

Só para que não se percam pra sempre, nas próximas semanas replicarei uns textos que escrevi por lá:

 

O Alter Ego

Captura de Tela 2016-09-26 às 18.28.44.png

Quando nos separamos somos obrigados a enfrentar um mundo dos solteiros e enfrentar o mundo dos solteiros significa voltar  a paquerar e a ser paquerado.

Para um homem que manteve-se casado por muitos anos há alguns obstáculos para isso.

1 . Não nos sentimos preparados.

2 . A sensação de que fazemos algo moralmente errado.

3. Estamos fora de forma (Se você é casado tente se imaginar abordando uma mulher numa paquera, a gente nem sabe por onde começar).

4 . Há muitas tecnologias novas com as quais não estamos familiarizados (leia-se aplicativos).

Apesar dos obstáculos, estando no mundo dos solteiros, as paqueras e encontros acabam por ocorrer.

Acontece que eu também não tinha amigos solteiros ou separados, então contava as histórias que começava a viver para os amigos casados, nas noites em que eles tinham seus habeas corpus etílicos.

Foi quando percebi o impacto que minhas histórias tinham sobre eles.

Os casados queriam saber de tudo, se seu havia saído com alguém, como era a mulher, o que tinha acontecido. Qualquer relato sem graça parecia uma uma nova versão do 50 Tons de Cinza. Eles pediam especialmente que eu mostrasse as fotos das pretendentes nas redes sociais e qualquer uma, aos seus olhos, era uma musa digna de filme do 007.

Até que um me pediu:

_ Marco Aurélio, você não pode namorar nunca, você é o nosso Alter Ego. Você vive as aventuras que não podemos viver.

De certa forma, esse interesse dos amigos em minha aventuras ajudou a levantar a auto-estima que é sempre afetada nas separações.

No final acabei decepcionando meus amigos e voltei a me envolver seriamente em um relacionamento. Afinal, não se pode viver apenas de aplausos.

Sexo aos 40

marcoaurelio.png
Amigos, criei um novo blog, o “Sexo aos 40”, para tratar de questões envolvendo relacionamento entre pessoas da nossa geração.
Estou usando um personagem como se fosse o autor do blog (esse da ilustração), para deixar bem claro que as histórias contadas não são necessariamente minhas.
No Sexo aos 40 teremos histórias reais e inventadas. Se tiver um relato divertido e quiser me mandar, sinta-se a vontade.

O Adeus de dona Nenê

Dona Nenê acordou com a luz discreta que fazia brilhar o entorno da cortina do quarto. Sentia-se leve e jovem, nem a eterna dor nas costas a incomodava. Porém, ao tentar mover o corpo percebeu que nenhuma parte obedecia. Assustada, tentou chamar o marido, seu Gaspar, mas a voz também não saía.

Fez um enorme esforço e conseguiu se levantar. Mas para sua surpresa, ao olhar para a cama, viu que ainda estava lá, inerte, ao lado do marido. Novamente quis gritar e a voz não saiu. Ficou parada, olhando para o casal deitado, ouvindo o ronco suave do Gaspar.

Quando se casaram, há quase cinquenta anos, teve dificuldades para dormir devido aos ruídos que o Gaspar fazia, mas foi se acostumando e agora precisava desse som todas as noites, era a sua segurança.

Quando Gaspar acordou, chacoalhou o corpo ao seu lado e o abraçou enquanto chorava em desespero. Foi aí que Dona Nenê percebeu que estava morta.

Ela contemplou com candura a cena que envolvia seu marido. Estava comovida com a tristeza dele, era bonito ver tamanho amor.

De repente, a casa foi ficando cada vez mais clara. Era uma luz tão forte que não se podia distinguir mais os móveis e objetos. Tudo virou um imenso branco e um homem feito de luz surgiu.

_ Vamos Nenê. Chegou a hora de você subir.

_ Eu morri?

_ Digamos que você venceu uma etapa. Sua jornada continuará em outra dimensão.

_ É como se eu tivesse passado de fase no Candy Crush?

A entidade não entendeu a pergunta. Dona Nenê continuou.

_ Mas e as coisas que eu tinha, as pessoas…

_ Tudo ficará pra trás. Vamos seguir um novo caminho.

_ E não tem como ver meu Facebook?

A entidade novamente ficava confusa.

_ Meu Facebook. Vai ter um monte de gente falando de mim. Eu quero ler as homenagens.

_ No lugar onde a gente vai, nada disso será importante.

_ Moço, como não é importante? É onde minhas filhas colocam as fotos, eu vejo as viagens das amigas. Hoje vão falar de mim o dia inteiro. Vai ter um monte de textos emocionantes.

_ Dona Nenê, a senhora está apegada.

_ Eu queria tanto levar meu celular…

Os apelos eram inúteis, a própria entidade havia desaparecido e do alto surgia um túnel de luz multicolorida sugando dona Nenê que começava a se misturar à energia do universo. Em seu último esforço humano, ela ainda balbuciou:

_ E a minha cidadezinha do CityVille, tava tão bonita…

Malditas Havaianas

havaianas

_ “Nada mais lindo que um casamento”.  Pensam as mulheres do alto do seu romantismo clássico.  O Amor, a decoração, os vestidos novos, os docinhos, as lindas palavras ditas no altar, o choro da noiva ao abraçar a mãe.

Mas a nós,  homens, criaturas desprovidas de sensibilidade, nós que bocejamos impacientes mesmo na hora dos votos, a nós interessam outros detalhes, por diferentes motivos.

Sim, nas festas de casamento há muito que nos agrade. Tem uísque, vodka, amigos dividindo o uísque e a vodka…

A mim, particularmente, me agradam os montes e montes de batatas das pernas femininas desfilando enrijecidas por poderosos saltos agulha. Podem chamar de fetiche ou seja lá o que for, não há evento social que reúna tantos saltos, sandálias, pés com esmaltes absolutamente ilibados, vestidos revelando pernas e panturrilhas, lindas panturrilhas.

Lembra da moça sem graça do departamento pessoal? A que aparece em jeans, tênis, olheiras todo santo dia. Quem diria que ao calçar seus tacones e num vestido preto, colado ao corpo, se tornaria uma verdadeira musa roliudiana dos anos 50, uma espécie de Lana Turner de Osasco.

É mais ou menos assim, as mulheres  no dia a dia são todas “Clark Kents”, escondendo por trás dos óculos as verdadeiras identidades. O vestido está para elas como o traje está para o super herói. Ao vesti-lo, revelam seus poderes, suas armas e principalmente seus saltos altos e dedinhos vermelhos.

Pois nossas heroínas estão deslumbrantes. Cruzam os salões tremulando o tecido de seus vestidos enquanto tomamos nossos uísques e vodkas. E a festa está apenas começando. Sabemos que sentaremos em mesas de oito pessoas e falaremos com estranhos sobre futebol, economia e política. Mostraremos que somos inteligentes o suficiente para vestir o terno bem cortado que vestimos e esperamos o grande momento quando, com os buchos cheiros de molho madeira e álcool, as garotas invadem a pista aos primeiros acordes de Bizarre Love Triangle.

Percebemos a magia enebriados pelo uísque e a vodka. Proseccos circularam livremente nas mãos e bocas delicadas das moças. O salão está escuro. O tio avô do noivo chacoalha como se estivesse num baile de carnaval. Uma prima do interior dança com a irmã. Enfim o amor está no ar, e com ele a testosterona.

E quando o clímax da cena se aproxima, quando pensamos estar no céu, baixamos o olhar e vemos abismados que os lindos sapatos de salto sumiram. Isso mesmo, aquela plataforma encantada que havia transformado tia Adelaide na Sharon Stone simplesmente desapareceu. Sob os pés femininos surgem como pragas as famosas sandálias Havaianas. Aquelas que não deformam, não tem cheiro e não soltam as tiras.

Olhamos assustados. Cadê as panturrilhas durinhas? Cadê as moças altas a minha volta? Cadê a magia?

Não há mais nada. As musas-heroínas voltaram a ser as primas, amigas, esposas e tudo aquilo com o que já nos acostumamos. Os pés voltam a ter joanetes, as pernas estrias, o mundo problemas. Somos jogados de forma dura e imediata à realidade, ao concreto, ao amigo que passou do ponto e nos oferece um pedaço cortado da gravata do noivo.

É hora de ir, antes que apareça alguém de Crocs.