A Reforma

A Reforma

A reforma é simples: troca de azulejos dos banheiros e cozinha, troca de parte do encanamento que é antigo, aumento no número de tomadas, troca dos boxes e pintura geral. Sinteco.

Dia 1 – Chamo todos os especialistas (pedreiro, pintor, encanador, etc) e estabelecemos juntos um cronograma. Assim, o trabalho de um não vai atrapalhar o do outro e todos me passam a lista de materiais. A obra deve durar 45 dias.

Dia 3 – Já com todo o material comprado o encanador começa a quebrar as paredes dos banheiros.

Dia 5 – O encanador avisa que faltaram 2 conexões.

Dia 6 – Vou a obra levar as conexões às 7h da manhã. O encanador não aparece. Eu liguei 6 vezes até encontrá-lo. Ele disse não dava para trabalhar sem o material. Eu disse que o material estava comprado. Ele perguntou se eu também havia comprado o sifão.

Dia 7 – O eletricista começa a quebrar as paredes, mas o trabalho do encanador está atrasado.

Dia 9 – O eletricista avisa que comprei cabos de 4mm e ele precisava de 6mm. O encanador está com o trabalho quase pronto, mas não aparece há dois dias.

Dia 11 – Termina o trabalho do encanador.

Dia 14 – O eletricista, ao furar a parede do banheiro para passar um fio estoura um cano. Chamo o encanador desesperado. Ele está em outra obra. Fecho o registro.

Dia 18 – O encanador só aparece dias depois e precisa quebrar a parede para arrumar o cano estourado. Chamamos o pedreiro que só chega no dia 20. O eletricista está atrasado porque a pequena inundação prejudicou algumas instalações elétricas.

Dia 21 – O encanador começa a trocar o cano estourado e me liga pedindo mais dois cotovelos.

Dia 22 – Chego na obra com os dois cotovelos, mas o encanador não aparece. Por telefone ele pergunta se comprei o novo registro. No mesmo dia o eletricista me informa que o quadro não está bom e é preciso trocá-lo. A planilha de gastos sobe de maneira infernal.

Dia 26 – O encanador reaparece. O eletricista descobre que a casa não tem fio terra. O pedreiro me pressiona pois precisa iniciar a troca dos azulejos, minha obra está atrapalhando a agenda dele.

Dia 30 – Aparentemente elétrica e hidráulica estão resolvidas. Uma van do depósito chega com o material do pedreiro, mas o pedreiro não podia esperar e está em outra obra.

Dia 33 – O pedreiro começa seu trabalho. Precisa quebrar os azulejos do banheiro. Ao fazer isso estoura um cano dos que eu não havia trocado. O encanador está cansado das minhas reclamações e não quer vir. O Pedreiro indica seu cunhado.

Dia 36 – O cunhado do pedreiro finalmente aparece e mostra que os canos do banheiro que não foram trocados estão todos em estado deplorável. Acusa o encanador anterior de fazer um péssimo serviço e sugere corrigir os defeitos deixados pelo antecessor.

Dia 37 – Não consigo falar com o primeiro encanador.

Dia 42 – Depois de dias sem conseguir falar com o primeiro encanador aceito a proposta do cunhado do pedreiro.

Dia 45 – Recomeça a troca de canos.

Dia 47 – O novo encanador precisa parar a obra pois faltam dois cotovelos.

Dia 51 – A obra hidráulica está quase pronta, mas os canos devem passar bem por onde estava parte da nova fiação. Preciso chamar o eletricista, mas este está no Paraná, trocando a cabeação de uma fazenda. O Encanador me indica seu primo.

Dia 56 – O Pedreiro falece devido a um problema renal, ele nem havia começado a sua parte. O encanador, cunhado do defunto precisa ir ao enterro em Botucatu. O eletricista também vai.

Dia 63 – Depois de dois meses morando na casa da sogra, meus filhos estão estressados. Meu sogro não disfarça mais que nossas presenças incomodam e minha mulher começa a me tratar mal.

Dia 75 – A obra está praticamente recomeçando e já gastei 140% do que havia previsto.

Dia 91 – Já não sei mais quem é o eletricista, quem é o encanador e quem é o pedreiro, os problemas não param de chegar e ainda faltam 2 cotovelos.

Dia 95 – Minha mulher não fala mais comigo, estou devendo no banco. Ouvi meu sogro reclamar com a empregada que não tem que sustentar marmanjo.

Dia 105 – O Pedreiro terminou a parte dele. Diz que está muito confiante com a hidráulica, pergunta se pode me apresentar um primo encanador.

Dia 116 – O Instalador do box avisa que as medidas estão erradas, precisa rever o orçamento.

Dia 141 – Estou morando num hotel. Minha mulher mora com as crianças no meu sogro e ninguém fala mais comigo. Não atendo aos telefonemas do gerente do banco. Tive um ataque de nervos no trabalho. Estou pensando em comprar uma arma.

Dia 157 – O encanador me liga, faltam dois cotovelos.   

Bolsomiriam

Bolsomiriam

Miriam saiu do culto emocionada. Mal sentia o peso da bojuda bíblia na bolsa, muito menos se incomodava com o aperto entre outros fieis no ônibus. As palavras do pastor ecoavam em sua cabeça – “Cada um de nós tem uma missão de Deus! O Senhor nos dá uma tarefa única e um talento especial para cumpri-la”.

Miriam nunca havia pensado ser importante. Fora sempre uma coadjuvante em sua própria vida. Era a faxineira do salão de beleza. Ajudou as 3 irmãs a preparar seus casamentos, mas ela mesma jamais vivera um grande amor. Sempre costurou lindos vestidos de festa, mas suas roupas eram velhas e feias.

Na saída do Culto ainda abordou o pastor.

_ O senhor acha mesmo que Deus me escolheu para uma missão importante.

_ Tenho certeza. Se ele ainda não revelou a missão para você, em breve vai revelar.

Miriam sonhava em receber a missão de Deus, mas a única coisa que recebia eram Zaps sobre o Bolsonaro. Diversas fotomontagens do político. Em algumas ele estava vestido de super-herói, em outras, estava ao lado de Jesus e com uma aparência celestial. Numa terceira o texto era inspirador.

_ Deus me deu a missão de livrar o Brasil do Satanás do comunismo. Ao seu lado vencerei.

Miriam percebeu a importância daquele homem. Ele iria enfrentar o Satanás do Comunismo! Isso sim era uma missão importante. O Satanás do comunismo. Miriam começou a pensar que ela poderia também ter uma missão: ajudar o Bolsonaro na luta quase impossível que ele travaria contra o mal. “Esse homem deve ser uma espécie de santo, nem a facada matou ele”.

No mesmo dia ela organizou as dezenas de memes que havia recebido com mensagens políticas. Apagou as bobagens em homenagens a outros políticos e estudou o que podia sobre o Capitão e sua luta messiânica.

A primeira mensagem ela mandou para o pastor. Era uma imagem de Bolsonaro pilotando um tanque e atropelando alguns negros vestidos como assaltantes.  “Vamos metralhar os vagabundos”, ela ainda complementou com um toque pessoal: “Cumprindo a missão!”

O pastor respondeu com um emoji de piscadinha que Miriam imediatamente interpretou como um incentivo. O pastor havia apoiava sua missão. Imediatamente começou a soltar dezenas de mensagens para amigos e parentes. A maioria começava com “Isso a Globo não mostra”. Quanto mais mensagens mandava, mais recebida de volta, num nítido sinal da providência divina.

A partir deste dia, Miriam não era mais a faxineira quase invisível do Salão, não era mais a moça do bairro que costurava vestidos a preços baixos. Miriam era uma missionária do Senhor, era uma soldada que empunhava o celular tal qual uma espada, distribuindo a mensagem divina. Eis uma mulher com uma missão! O Satanás do comunismo que se cuide…

Velhice

Velhice

Contribuição do amigo Eduardo Tironi

Acordou pela manhã e, como primeiro ato, deu aquela passeada no Instagram pra ver as novidades. Viu uma, outra, outra e outra fotos de amigos e parentes mais velhos do que são. Demorou um pouco pra descobrir que tratava-se do aplicativo da moda. Você tira uma foto e ele te mostra como você poderá ser com mais 20 anos, mais 30, mais 40… a gosto do freguês.

Começou a se divertir. Olhou uma ex-namorada velha e comemorou ter terminado a relação dizendo que “o problema não é você, sou eu”. Olhou o amigo de infância com um jeito de avô.

Riu com piadas que relacionavam velhice ao futebol. Foto do craque do time rival todo enrugado com a legenda: “Fulano esperando o título mundial do Palmeiras”. Sicrano quando o São Paulo voltar a ganhar um clássico” “Beltrano quando o Corinthians terminar de pagar o estádio”…

Baixou o aplicativo, tirou uma foto e também projetou sua velhice para o mundo ver. Ficou ansioso pela repercussão.

Mas ele tinha de trabalhar. Pulou da cama e sentiu aquela dor incômoda de sempre no joelho. Tomou banho e, como todo dia, viu uns cabelos no ralo do chuveiro. Nem ligou.

Tomou café e evitou leite e muita manteiga porque vem sentindo uma azia logo depois que come alguma coisa. Está achando que pode ser intolerância à lactose.

Entrou no carro, ligou o rádio e passou os dez primeiros minutos do trajeto ouvindo músicas que nunca tinha ouvido antes. Sintonizou na Antena 1, que ali sim toca músicas boas.

A cada parada no farol, olhava o instagram para ver a repercussão de sua foto como velho. Coraçõezinhos, risadas, emojis de espanto… Numa das paradas reparou pela primeira vez que não vai ser um velho bonito.

Ao contrário: nariz caído, olhos tristes, cabelo ralo…

No meio da tarde sentiu uma fisgada nas costas que o incomoda há tempos. “Essa cadeira do escritório tá ruim, preciso trocar.”

Pouco depois, recebeu notificação no celular. Saiu o resultado do exame de sangue. O colesterol está alto. Tem de voltar ao médico.

Checou de novo a repercussão dele velho no Instagram. Muita gente comentou, legal! Olhou as fotos de outros amigos e amigas velhos tbem.

Se espantou com alguns tamanha a perfeição das montagens.

Terminou o dia saindo mais tarde do que tinha planejado. Muita coisa pendente no escritório e ele não conseguiu fazer metade do que tinha planejado. Sentiu dor de cabeça por isso desistiu de voltar à academia. Segue pagando o plano semestral, mas há cinco meses não vai porque anda sem tempo.

O tempo anda passando muito rápido, ele pensou ao chegar em casa. Já estamos no meio de agosto!

Abriu a geladeira, pegou o que tinha, pôs no micro-ondas e empurrou pra dentro. Entrou no  banho, saiu do banho, vestiu o calção do pijama e foi escovar os dentes. Se olhou no espelho e por um momento pareceu que olhava o Instagram. Voltou à realidade. Deitou, olhou sua foto de velho novamente. Pulou da cama, foi pro banheiro correndo e se olhou no espelho mais uma vez. Voltou pra cama ofegante. Apagou.

Fake Nilma

Fake Nilma

Nilma era o sucesso do salão. As clientes diziam que tinha mãos de fada. Em anos de profissão jamais machucara um dedo sequer. Quando pintava as unhas, o esmalte durava uma semana, mesmo que a dona jogasse vôlei de praia ou praticasse jiu-jitsu.

Mas Nilma tinha um defeito. Ela atrasava um pouco. Diariamente chegava esbaforida no salão, cruzando a porta num arroubo e anunciando as notícias que ouvia no Rádio.

– Morreu aquele ator da novela!

– Ceis viram o furacão nos Estados Unidos?

Foi assim por anos. No caminho ouvia as notícias pelo fone de ouvido e durante o dia as compartilhava com as clientes no salão.

_ Deus me livre tanta corrupção!

Porém nos últimos dois anos Nilma passou por uma mudança em sua vida. Ela substituiu seu velho companheiro, o rádio, por um novo amor, o Whatsapp.

Agora, a caminho do trabalho, não ouve mais as notícias. Ela as compartilhava diretamente do celular, junto com imagens de Minions, gatinhos e saudações à sexta-feira.

Desde então, Nilma, continuou chegando esbaforida e atrasada, mas no lugar de anunciar o furacão, passou a mostrar o vídeo do homem de terno que caiu na enxurrada ou de bebês gargalhando.

Com a proximidade das últimas eleições Nilma foi ficando ansiosa. Pelo Zap andava recebendo informações de arrepiar Nunca se importara com política, mas vinha ficando indignada com as notícias, que não podia silenciar.

_ O Lula é o líder do PCC.

_ O Haddad distribui mamadeiras de pinto nas escolas.

_ Os holandeses masturbam nenês.

_ As vacinas são armas comunistas.

Algumas clientes do salão passaram a se incomodar com as notícias sem sentido de Nilma e ao mesmo tempo, ela estava tão desesperada com as novidades terríveis que foi ficando menos cuidadosa. Depois de anos sendo a manicure perfeita, Nilma começou a falhar,  deixando unhas mal cuidadas e ferindo os frágeis dedos das patroas.

Não demorou e Nilma perdeu o emprego.

Agora passa o dia em casa, com o celular nas mãos trêmulas de ansiedade, compartilhando de forma frenética as notícias importantes que recebe:

_ Os cubanos explodiram brumadinho!

_ Jean Wyllys mandou matar o presidente.

_ FHC é comunista!

Nilma agora acredita que está fazendo um importante serviço para o Brasil.

O suicídio de Janaína

O suicídio de Janaína

Muitos dirão que a decisão radical de Janaína foi intempestiva, passional. Algo deve ter se passado com ela. Porém, o que Janaína estava prestes a fazer havia sido planejado há algum tempo e seria executado com toda a tranquilidade.

Ela estava sozinha em casa. Era a noite em que o namorado ia à pós-graduação. Janaína decidiu abrir uma garrafa de Pinot Noir para saborear o momento. Baixou a luz para um tom suave e se acomodou na chaise long do terraço. Do 18o. andar, em seu apartamento, as luzes da cidade pareciam distantes.

Ela abriu o notebook. Antes do ato final, resolveu rever sua vida registrada no Facebook, primeiro passando os olhos no feed.

Havia  fotos de lugares distantes e mapas indicando viagens aéreas. Pessoas felizes fazendo selfies em Paris, na Disney e em Inhotim. Havia gente colocando fotos de gatos e reclamando do governo. Muita fake new sobre diversos assuntos e alguns textos pedindo a liberdade do Lula e investigações sobre Marielle. Janaína sentiu um tédio profundo, tomou mais um gole do vinho  e voltou novamente a atenção para o Facebook, deste vez passou a rever as inúmeras fotos que já havia publicado.

Lembrou sua viagem para a Califórnia, o curso de patisserie em São Francisco e os amigos que fez na época. Tinha fotos ainda mais antigas, do tempo em que fora casada. Jorge, o ex-marido aparecia em algumas exibindo seu sorriso que um dia fora sincero e depois tornou-se sarcástico. Ele ainda curtia um ou outro post de Janaína, mandava felicitações frias em seu aniversário. Era um homem bonito, apesar de tudo, tinha de admitir.

Reviu fotos de diversas fases profissionais. Da carreira infeliz no departamento contábil de uma construtora, das tentativas de se estabelecer como chefe até abrir a loja de bolos personalizados. Havia muitas fotos de bolos. Em formatos diversos. Bolos com noivinhos, com cachorros esculpidos em glacê, bolos que comemoraram nascimentos, aniversários, bodas de ouro. Não podia negar, seus bolos fizeram muitas pessoas felizes. Porém, o talento culinário era maior que o administrativo e Janaína, endividada, teve de fechar a loja.

Ao rever as fotos do Facebook, muitas emoções vinham à tona, muitas coisas boas. Mas  isso não seria suficiente para mudar sua decisão. Ainda assim, como sabia que era a última vez que fuçava a rede, voltou-se novamente ao feed. Tantas pessoas, tantos posts, tão pouco que a interessava. Egos e mais egos, mentiras e polêmicas inúteis. Mesmo os amigos e amigas de coração, pareciam menos interessantes na rede. Novamente a sensação de tédio.

Chegou a hora de desligar, iria seguir os passos que planejara.

***

Uma hora depois, quando Miguel chegou da faculdade, encontrou Janaína no terraço, ainda bebendo o vinho. Ele pegou uma taça e se dirigiu à garrafa.

“Alguma celebração especial?”

“Cometi meu suicídio social.”

“Oi?”

Ela levou a taça a boca antes de explicar.

“Apaguei minha conta no Facebook.”

Ele respondeu desinteressado.

“Fez bem.”

 

Meu sucesso no Whatsapp

Meu sucesso no Whatsapp

Acordei e levantei-me com cuidado para não atrapalhar a moça que dormia ao meu lado. O nome dela é Karen e eu a conheci numa festa na noite anterior. Tomei uma ducha rápida e passei um café. Ela apareceu na porta da cozinha, vestindo minha camiseta com um sorriso sem graça.

Conversamos melhor na padaria, onde fizemos um brunch juntos. Ela é simpática e extrovertida e me surpreendeu com uma afirmação.

“Estava louca pra te conhecer”

“Como assim? Alguém falou de mim pra você?”

“No meu grupo de Whatsapp, o Viúvas do Grey. Todas te achamos fofo”.

Eu quis entender melhor a história. Como virei assunto no grupo de Whatsapp dela? Que grupo é esse?

Ela explicou que é um grupo de mulheres e uma tal de Vanessa (amiga da amiga) me compartilhou de um outro grupo que ela participava. Aparentemente ganhei alguma competição de solteiro mais interessante da semana. Assim, quando Karen me viu na festa, já estava interessada em mim.

Ela me mostrou a foto da Vanessa e eu não a conhecia. Mas, guardei o sobrenome para procurar no Facebook. Nada de amigos em comum.

Na noite seguinte fui jantar com dois casais de amigos e contei a história que me intrigava. Carolina, esposa do Rogério, trouxe luz ao caso.

“Uma amiga do meu grupo Advogadas PUC 98 se divorciou e eu te indiquei pra ela. Eu postei uns links das suas fotos do Face. Acho que eu dei uma exagerada nos elogios. Falei que você era pra casar.”

A confissão da Carol era um bom começo para entender o que se passara. Ainda assim, havia um gap entre as Advogadas da PUC 98 e as Viúvas do Grey. Será que os grupos tinham alguém em comum?

Mal tive tempo de ter dúvidas. Carolina com os dedos ligeiros já havia perguntado às amigas e descobriu que Karine havia compartilhado minhas fotos em outro grupo, o Runner do Tatuapé e que Carmem havia me sugerido para sua prima Ana Lúcia, que acabara de chegar de Cuiabá.

Em dois dias, Carolina, absolutamente curiosa e engajada, conseguira remontar a linha que separava a mensagem que ela enviara até o grupo da simpática Karen, o Viúvas do Grey. Minhas fotos e elogios cada vez mais exagerados sobre meu charme circulavam como piadas velhas em grupos de família.

Eu devia ter desconfiado.

Antes mesmo de conhecer Karen, desconhecidas começaram a pedir amizade no Facebook e a me seguir no Instagram. Eu ignorei o fenômeno no começo, mas não pude ignorar quando atingiu proporções épicas. Diziam já haver grupos de Viúvas do Marco Aurélio no Whatsapp. No Twitter, #marcoaureliofofo virou TT. Criaram memes com minhas fotos. Recusei um convite para ir ao programa da Luciana Gimenez.

Agora, quando entro em um restaurante, tenho a impressão que há olhos me fitando. Mesmo na rua, sinto dedos a me apontar. Percebo que sou assunto nas conversas em voz baixa no metrô.

Nunca mais fui a uma balada. Saí das redes sociais. Não quero ser celebridade, muito menos por um motivo tão estranho. Só não consigo evitar uma ou outra abordagem na rua quando respondo de forma seca.

“Não minha querida, apenas pareço com o Marco Aurélio, não sou fofo, não sou pra casar”.

Selfie Sophia

Selfie Sophia

A palavra ecoava nos ouvidos de Sophia:

“Influencer”

Aparentemente, era um termo usado pelo mundo inteiro, menos por ela.

Compreendido o significado, Isabela passou a tarde toda no Instagram vendo as mais diversas influencer de moda. Algumas tinham milhões de seguidores.

Elas viviam fazendo selfies. Começavam no closet (e que lindo closet) mostrando o look do dia. Depois iam para  restaurantes estrelados, encontros com outras influencers, viagens magnificas. Eram lindas, estavam sempre alinhadas, perfeitamente maquiadas e ganhavam presentes das marcas.

Influencers!

Era tudo o que Sophia sempre sonhou.

No dia seguinte, assim que deixou os filhos na escola Sophia voltou para casa e passou uma hora na penteadeira se arrumando. Tinha bastante experiência para  disfarçar as linha de expressão e um excepcional gosto para se vestir, pelo menos as outras mães sempre elogiavam.

Não tinha closet, mas com um espelho e as portas do armário abertas fez um cenário digno e mandou ver na selfie “look do dia”.

Postou no Instagram, “linkou” no Facebook e foi cuidar da vida. Planejando a foto da tarde.

Dias depois o marido começou a ficar preocupado. Eram selfies de manhã, tarde e noite. Fotos dos pratos bacanas que comiam e algumas frases inspiradoras.

A vida da família não foi muito afetada, apenas deixaram de comer hamburgueres e passaram a frequentar restaurantes com opções mais fotogênicas como sushis e ceviches.

Sophia passou a gastar com roupas e se apertou o cartão, mas explicou para o marido que isso era apenas um investimento, em breve, quando ficasse famosa, haveria um compensador retorno financeiro.

Assim, família e amigos foram se acostumando com as inúmeras selfies: Looks do dia, pratos, pezinhos na praia, tbt´s, biquinhos de pato, olhos perdidos no infinito ou procurando algo no chão. O guarda-roupa de Sophia enriquecia na proporção inversa de sua conta bancária e os seguidores cresciam, mas não no ritmo esperado.

Depois de quase dois anos como influencer, Sophia não conseguia ultrapassar as 30 curtidas por foto. Uma vez viralizou, quando pediu para fazer uma selfie ao lado  da Bruna Marquezine num Shopping Center, mas nem a Bruna lhe trouxe seguidores.

Sophia continua tentando, afinal, só os fracos desistem. Ela tem certeza que é questão de tempo e capricha cada vez mais nas selfies. O marido não reclama. Curte todas as fotos para dar uma força, mas sabe que o tal retorno financeiro nunca virá. Só que não divide a opinião com Sophia, deixa que ela continue acreditando. Afinal, é o que a faz feliz e pensando bem, não é isso que importa?