Eu, meu pai e o Lollapalooza

Eu, meu pai e o Lollapalooza

Semana passada, passei diante de uma fila de jovens rockeiros que veriam um show na Audioclub. Fiquei curioso em saber a atração. Era uma das Lolla Partys que acontecem antes do Lollapalooza.

_ Quem vai tocar hoje? – Perguntei.

_ çkfjadçfkjaslkdjf. – Foi o que entendi.

_ Oi?

_ fdjksaçlkjfasdkjfasdj, uma banda nova.

Saí de lá abalado. Há alguns anos eu era o cara que conhecia as bandas novas. Cheguei a ter um blog onde comentava as novidades do Rock. Daí parei para pensar que White Stripes, Kings of Leon e Franz Ferdinand estão indo para as duas décadas. Mesmo o que era novo já envelheceu.

Quando eu era adolescente achava engraçado o desinteresse do pai pela música contemporânea, para ele New Order, Iron Maiden, Seal ou Prodigy eram a mesma coisa e nenhum valia nada. Ele conseguia guardar o nome de um ou outro artista que lhe agradava como Bee Gees ou Michael Jackson, afinal eram artistas que tocavam nas rádios 1600 vezes por dia, mas essas eram as exceções. De resto, podia-se dizer que ele ficou surdo em 1969.

Hoje, sei que virei meu pai. Consigo guardar o nome de algumas novidades que me agradam como Greta Van Fleet ou The Struts, de resto,  sou incapaz de dizer uma única música do Kendrick Lamar. Um gênio segundo a jovem que trabalha comigo.

Vendo os melhores momentos do Lollapalooza senti um tédio tremendo. Rappers, DJ´s, bandas e tais me pareciam igualmente chatas. Ao contrário do público em êxtase, eu lutava contra o sono.

Só velharias me animavam como  Lenny Kravitz e os quase velhos Arctics Monkeys.

Sem perceber, num momento de desatenção, virei meu pai.

Agora não tem como voltar. Vou consumir alucinadamente os discos do Led Zeppelin e dos Mutantes que é o que me resta. Lollapalooza não é para mim. Aguardo ansioso quando shows de verdade como Ray Conniff ou Julio Iglesias. Opa, tem especial do Roberto Carlos na Globo em dezembro. Ainda estou salvo.

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Adeus dia da mentira

Adeus dia da mentira

Escrevo esse texto em primeiro de abril, que antigamente era chamado de dia da mentira.

Nesse dia costumávamos enganar nossos amigos com pequenos trotes, dizíamos ao mais tímido da escola que a gata da classe havia se apaixonado por ele ou fingíamos acreditar no mundial do Palmeiras. Qualquer coisa que rendesse risadas ingênuas.

Mas isso foi no passado, no tempo que havia mentiras. Hoje o próprio conceito de mentira morreu e com ele, a celebração do primeiro de abril.

Tudo começou quando a mentira (ou paia como chamávamos nos anos 70) mudou de nome e ganhou a alcunha de Fake News. Isso deu uma aura americana e sofisticada à velha paia. Agora, o sujeito que é pego com batom na cueca passou a culpar a lavanderia e a namorada não pode mais chamá-lo de mentiroso, afinal, isso é apenas fake News.

O próprio termo Fake News já está ficando ultrapassado. Afinal, inventam também mentiras sobre o passado. Dizem que o nazismo era de esquerda e que o Golpe de 64 foi democrático. Podemos dizer que são fake olds.

Porém, nada disso tem sentido. Em 2019 não há mais verdade ou mentira. Cada um acredita no que quer.

Uns dizem que o Cristiano Ronaldo joga mais que Pelé, outros acreditam que a Terra é plana; uns dizem que vacinas são uma arma comunista para destruir o cristianismo e Olavo de Carvalho diz que cigarros fazem bem. Cada um de nós está livre para acreditar no que quiser: Nas explicações complexas do Tite, na pureza do Lula, na inteligência do Bolsonaro e nas boas intenções do MBL.

A reforma trabalhista vai criar 6 milhões de empregos, Lulinha é dono da JBS, a Globo é comunista,  o Alexandre Frota é um exemplo de moralidade, Doria ficará 4 anos na prefeitura, Haddad distribui mamadeiras de piroca, Trump não é fantoche do Putin, a Scarlett Johansson é feia… Verdade ou mentira?  Tanto faz, quem se importa?

Hino nas escolas

Hino nas escolas

Eu sou do tempo em que se cantava semanalmente o hino no pátio das escolas. As crianças formavam filas duplas para cada classe. De um lado os meninos, do outro as meninas, em ordem de tamanho. Eu, na condição de minúsculo, sempre era o primeiro da fila, o que de certa forma me constrangia.

Éramos lindos patriotas enfileirados em frente à bandeira nas manhãs de segunda-feira.

Porém, assim que terminava a cerimônia fazíamos nossas próprias versões dos hinos, bastante diferentes das originais.

No Hino da Independência o “Já podeis da pátria filhos” virava “Japonês tem 4 filhos”. No Hino da Bandeira, o pendão da esperança virava peidão.

Já o hino nacional tinha seguinte versão:

Ouviram do Ipiranga a Barra Funda
Dom Pedro abaixa a calça e mostra a bunda
Deitado eternamente numa cama
João e Joana sem pijama

Pinto cresce, barriga cresce,
E depois de nove meses aparece
Uma criança cheia de vida,
Com a bunda toda cheia de ferida

Tentaram nos transformar em patriotas mirins mas minha geração envelheceu sonegando impostos, furando filas, molhando a mão do guarda e transferindo multas para os nomes de terceiros. Somos contraventores natos, desrespeitando o próximo e a pátria sempre que preciso.

Parece que vai voltar a moda de cantar o hino. Acho muito bonito mas tenho poucas ilusões em relação ao resultado prático da empreitada. Continuo desconfiando que valorizar o professor ainda é mais importante.

Dois Negros Cadus

Dois Negros Cadus

O primeiro negro Cadu é um menino que nasceu na minha cabeça e ganhou vida através dos traços de Pedro Menezes e da aposta da Lizandra Almeida, da editora Pólen. É o personagem do meu livro infantil “Cadu e o Mundo Que Não Era”.

O Segundo negro Cadu é um adolescente que nasceu na cabeça de Mauro Paz, jovem e brilhante escritor cujo livro “Entre Lembrar e Esquecer” inspirou este texto.

É uma boa coincidência dois escritores brancos escolherem o nome Cadu para os seus personagens negros e maior coincidência é a dupla se aproximar depois dos livros serem lançados.

Meu Cadu é um menino sonhador, provavelmente de classe média, cuja cor da pele não interfere na criatividade incontrolável. Ele aprende que a imaginação exagerada pode ser um problema como pode ser um dom.

Já o Cadu do Mauro Paz já começa o livro morto. Um adolescente de classe média fera no Skate que é assassinado numa festa da elite de Porto Alegre. O Cadu do Mauro é inspirado por um menino real, um negro encontrado morto numa festa chique, e cujo crime ninguém quis investigar.

Meu Cadu é o sonho. Um negro que poderia ser branco, poderia ser japonês, poderia ser o que quisesse porque no meu livro a cor de Cadu não importa. Fosse como fosse, sua história seria a mesma.

O Cadu do Mauro era um negro entre brancos e talvez essa tenha sido a causa da sua morte.

No mundo real, o meu Cadu poderia virar o Cadu do Mauro ao chegar na adolescência e descobriria que nem toda a imaginação o afastaria de olhares estranhos, de gente assustada na rua quando ele passa à noite, de batidas policiais, de piadinhas sussurradas na faculdade.

Conheço Mauro o suficiente para saber que ele vai continuar escrevendo sobre este duro mundo real, onde Cadu vive no fio da navalha, e me conheço o bastante para saber que continuarei sonhando com mundos onde a cor do Cadu não seja relevante para a história.

p.s. Quando escrevi Cadu ele não tinha cor nem cara, era só um amontoado de letras num documento de Word. Cadu tornou-se negro por sugestão do Pedrão, o ilustrador e coautor.

A Velha e o Mar

A Velha e o Mar

Para os cinéfilos é fácil descrever o Hotel Argentino. Pensem no filme “Hotel Budapeste” e imaginem como seria o “Budapeste” hoje, absolutamente decadente, muito diferente dos dias de glória.

Pois bem, o Hotel Argentino, que fica na praia de Piriápolis é exatamente assim. Construído em 1930, era o orgulho do povo uruguaio. Um prédio majestoso com estátuas gregas, cassino, spa e todo o luxo que atraiu a alta sociedade rio-platense dos anos dourados.

Porém, quando visitei o hotel no mês passado, não vi glamour. A construção continua majestosa, mas a cidade de Piriápolis a sua volta cresceu sem graça, nada tem de balneário turístico, pelo menos que mereça uma visita. Tudo no Hotel Argentino revela sua decadência: Azulejos gastos, tapetes mofados, janelas descascadas e os hóspedes, bem, há muito o que dizer sobre eles.

Todos os hóspedes haviam nascido antes morte de Evita Perón. Exibiam suas bengalas nos salões mofados, nas roletas e aulas de hidroginástica. Entre as maçanetas douradas corrimões de madeira, eu observava seus movimentos lentos e confusos, como se a decadência do hotel acompanhasse o ocaso de seus corpos.

De repente, ao abrir a porta do elevador, vejo sair uma senhora muito idosa empurrada em sua cadeira de rodas por uma cuidadora. A mulher não falava, tinha a expressão distante de quem tem algum tipo de demência. A cuidadora conduziu a cadeira até uma janela e a velhinha ficou ali, com seu olhar perdido em direção ao mar.

Há quantos anos ela frequenta o Hotel Argentino? Que histórias teria vivido para continuar circulando por seus salões mesmo quando lhe escapa a sanidade?

Provavelmente, olhando para o mar, vinham-lhe memórias de tempos magníficos. Um dia ela foi uma jovem e elegante senhora que circulou altiva por aqueles corredores. Minha imaginação faz pensar que foi lá que conheceu seu marido, talvez num baile de ano novo. Fecho os olhos e a vejo num lindo vestido, rodando pelo salão ao som de La Barca.

O tempo não foi gentil com o majestoso prédio assim como não será com cada um de nós. Lentamente o lugar que atraía presidentes foi sendo esquecido como muitos seremos no futuro. Suas paredes permanecem em pé, mas as histórias desaparecem, perdidas como o olhar de uma velha senhora diante da janela que revela tempos distantes.

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O Hotel Argentino, charmoso apesar da idade.

12 anos e os Playmobils

12 anos e os Playmobils

Minha filha fez 12 anos. Idade de mudanças físicas, hormonais e psicológicas. Para mim será um desafio. Mudo meu status de “pai de criança” para “pai de adolescente”.

Adolescente? Não é bem assim. O amadurecimento não é um processo linear. Minha filha é prova disso. Parece que dentro dela há uma criança lutando contra a adolescente que está nascendo.

Sei disso porque me lembro exatamente do meu aniversário de 12 anos, de como sofri por um Playmobil.

Eu tinha um caixa cheia deles. Playmobils de índio, de circo, mecânicos, cowboys… Eram meus brinquedo favorito e viviam amontoados numa grande caixa.

Pouco antes do meu aniversário a Playmobil lançou carros de corrida. Eram lindos, com rodinhas de borracha que podiam ser trocadas. Um sonho.

Porém, algo me dizia que eu não tinha mais idade para isso. Já começava a frequentar bailinhos e sonhar com as gatinhas da 6a. série ouvindo True, do Spandau Ballet. Eu queria muito os carrinhos de corrida, mas não queria parecer criança. Não queria parecer um boboca.

No fim, o Lúcio-criança falou mais alto e eu pedi o brinquedo. Acho que deve ter sido meu último.

No Ano seguinte, em meu bar-mitzva, ganhei envelopes de dinheiro e canetas-relógio. Depois disso vieram as roupas e minha vida foi degringolando até o dia que eu me vi feliz ganhando meias e pijamas – “Era exatamente o que eu precisava”.

Acontece com todo mundo, não há como evitar.

Por isso, torço para que ela prolongue ao máximo a infância, para que continue gargalhando vendo desenhos animados e fingindo ser Harry Potter na brincadeira com as amigas. Amadurecer é um processo de idas e voltas, mas uma vez que amadurecemos, a criança dentro de nós se vai. Fica para trás, torna-se uma lembrança.

Deus do céu, como sentirei saudades dessa criança.

Previsões do pai Lucião para 2018

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Eu, desvendando o futuro, bunito que só.

Já contei que além de escritor, blogueiro e sãopaulino também tenho visões do futuro?

Sim, sou uma espécie de oráculo do subúrbio, recebo meus guias, jogos os búzios, leio as cinzas da galinha queimada e analiso astros e linhas da mão.

Portanto, compartilharei com você fiel leitor, revelações  bombásticas para o ano de 2018. Novidades que deixarão a todos estarrecidos. Podem salvar o link pois será ainda mais impressionante reler o texto daqui uns meses, diante da concretização das profecias.

Vamos a elas:

  • 2018 será um ano tenso no Brasil, os ânimos políticos estarão exaltados e as pessoas travarão intensos debates na redes sociais.
  • No dia 14 de fevereiro o Jornal Hoje fará uma matéria sobre o bloco do Bacalhau com Batata.
  • O MBL vai ofender muitas pessoas em suas redes sociais e nenhuma delas será o Temer ou o Dória.
  • Ainda em São Paulo, várias estações de metrô que estão atrasadas há anos ficarão prontas e terão animadas inaugurações comandadas pelo Alckimin.
  • Lula sofrerá novas condenações.
  • Marina Silva vai desapareecer depois da eleição.
  • A campanha da seleção na Copa será melhor que a de 2014.
  • O Corinthians será beneficiado pela arbitragem.
  • Haverá pelo menos 16 trocas de técnicos no Brasileirão.
  • Os eleitores do Bolsonaro xingarão muitas pessoas no Twitter.
  • Trump escandalizará o mundo com frases arrogantes e inadequadas para um homem público.
  • Você vai cair pelo menos 5 vezes no gemidão do Zap.
  • Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar serão indicados para a Bola de Ouro.
  • Anitta lançará alguns clipes sensuais.
  • Dilma se elege deputada.
  • Gilmar Mendes vai soltar o Jacob Barata umas 12 vezes.
  • A classe média paulistana vai recorrer a empréstimos de bancos para pagar ingressos de shows.
  • Marco Polo del Nero não vai à Copa.
  • Trivago vai anunciar bastante na TV a cabo.
  • O blog Toda Unanimidade vai virar mania nacional, tornando seu autor mais popular que o MC Guiné e o Felipe Neto juntos. Isso provará que o que todos querem mesmo é ler textão na internet.

Pode imprimir e colar na parede. A cada previsão concretizada faça um X. Posso ver na bola de Cristal a sua cara de espanto com os resultados.