Invasão Zumbi

Invasão Zumbi

O ano é 2030, uma década depois da última tragédia global, o mundo se vê diante da maior ameaça de sua história, uma invasão zumbi.

Aparentemente tudo começou com um vazamento numa  instalação nuclear do Irã. A crise evoluiu muito rápido, em pouco tempo havia zumbis em todos os continentes. Cada pessoa atacada por um zumbi logo se transformava em um comedor de cérebros, as autoridades demoraram a responder à ameaça.

Algumas cidades estavam conseguindo conter a invasão construindo muros imensos, mas no Brasil a solução ainda era contestada e como vocês podem imaginar, uma imensa polêmica se instaurou.

Eu separei alguns posts do Twitter de 2030 e  através deles vocês poderão entender o que se passa e os diferentes pontos de vista.

Presidente Felipe Neto – Estamos em processo adiantado no projeto de construção de muros, em breve se iniciam as obras, será um enorme investimento. Até termos os muros pedimos que os brasileiros fiquem em casa.

Ex-ministro Paulo Guedes – A melhor forma de conter os zumbis é reduzir os salários e cortar as férias.

Veja São Paulo –  Confira os melhores bares em bunkers para sair em São Paulo.

João Amoedo – É um absurdo o Estado gastar com a construção de muros. Precisamos diminuir os impostos que meu banco paga.

Eduardo Bolsonaro (em prisão domiciliar) – Se todo mundo tivesse armado nada disso teria acontecido.

Ex-presidente Lula – O PT não aceita qualquer união para conter essa crise de zumbis, podemos resolver isso sozinhos.

Marco Feliciano – Deus me avisou que só o dízimo pode conter os zumbis do diabo. Deposite agora mesmo na minha conta número XXXX-X

Ciro Gomes – Se os muros custarem até 11% do PIB, considerando uma taxa Selic de 2,25%, podemos calcular um déficit primário de 14,7 bilhões mais o abono do salario mínimo, desde que o imposto sobre dividendos não ultrapasse o teto de gastos, descontada a inflação de 1984.

Doria – Precisamos privatizar os muros.

Léo Dias – A Anitta é falsa e não tem talento.

Folha de São Paulo – Infográfico explica a invasão Zumbi

Uol – Bruna Marquezine posta fotos de seu bunker

G1 – Mulher mata marido bêbado com paneladas e diz que o confundiu com um zumbi

Carlos Bolsonaro – O velho teatro das tesouras volta a agir mais descarado: Os traíras vermelhos alinhados com os tucanos e com os gulosinhos biografados.

Malafaia – Deus me avisou que só o dízimo pode conter os zumbis do diabo. Deposite agora mesmo na minha conta número XXXX-X

Véio da Havan – Não dá para parar a economia por um ataquezinho de zumbis.

Augusto Nunes – E o PT?

Caio Copolla – Nos EUA morre mais gente engasgada do que devorada por zumbis.

Gilberto Gil – A questão da zumbilização da sociedade, tem a ver com a tropicalização da cultura enquanto manifestação do morto e do vivo. É o ser baiano encontrando seu caminho no vácuo da sociedade de consumo. Ou não.

Estado de São Paulo – Zumbis ou PT, uma escolha difícil

Edir Macedo – Deus me avisou que só o dízimo pode conter os zumbis do diabo. Deposite agora mesmo na minha conta número XXXX-X

Boulos – O verdadeiro Zumbi é o capitalismo de devora o cérebro do trabalhador

Abraham Weintraub – Esses zoombes devem ser coiza de xinês ou de comunizta

Datena – Tem matar tudo esses zumbis vagabundo aí!

Guga Chakra – A região de Marcazi, onde surgiram os primeiros zumbis é de etnia Naari, com uma população 16% sunita.

Cabo Daciolo – Glória a Deuxx

Ricardo Salles – Só a destruição da Amazônia e das populações indígenas pode conter os zumbis

Felipe Mello – Pode vir atacante, pode vir zumbi que por mim não passa

Craque Neto – Pelo que entendi os mortos vivos são como o Ganso, só que com fome.

Manuela Dávila – As zumbis mulheres são 50% da população, mas só devoram 10% dos cérebros.

Roberto Jefferson – O PTB só vota a favor da construção dos muros se minha filha virar ministra da dezumbinação.

Ex-presidente Jair Bolsonaro (em prisão domiciliar) – E daí se morrer gente no tocante a isso aí de zumbis?

Rubens Barrichelo – Fiquem em casa, lavem as mãos e só saiam de máscara.

Estranhamente feliz

Estranhamente feliz

O mundo não vive um bom momento. Milhares de famílias estão  enlutadas graças à covid-19. Nos hospitais faltam leitos para tantos doentes, as pessoas estão desempregadas, empresários quebrando e o país vive uma sensação de caos total. O mundo nos assusta com notícias terríveis dessa doença enquanto os EUA estão em convulsão depois de um assassinato racista. Para piorar, como diria Frejat, quem nos governa não presta.

Eu mal saio de casa. Só vou ao mercado e à farmácia. Não vejo meus pais, meus irmãos, meus amigos. Sinto falta das pessoas que amo. Às vezes minha filha fica uns dias aqui, noutras estou completamente sozinho. Trabalho com projetos culturais, setor que foi duramente atingido pela crise.

Enfim, tenho todos os motivos para estar no buraco. Mas, pelo contrário, tenho estado estranhamente feliz. Bate até um sentimento de culpa.

Eu sei que é difícil de entender, mas alguns fatos ajudam a explicar essa anomalia.

Apesar crise estou trabalhando, produzindo e editando em casa, com algumas boas perspectivas de futuro. Isso já é um alívio. Ao mesmo tempo, por estar em casa, sobra-me bastante tempo que tenho usado de forma criativa. Escrevo, estudo música, gravo com minha banda (cada um da sua casa) e com minha filha. Nossos covers são sucesso entre os amigos nas redes sociais

Como já contei num texto anterior, tornei-me um especialista em tarefas domésticas. Passo as cuecas, lavo panos de prato, limpo o fogão, cozinho, faço bolos à tarde e panquecas no café da manhã. Nos últimos 60 dias não pedi comida uma única vez. Cozinho todas as minhas refeições, algumas caprichadas, outras bem simples, mas isso me dá uma sensação boa, como se eu tivesse um super poder.

Não é a vida dos meus sonhos, nem quero que seja assim para sempre. Mas em nenhum momento eu me sinto triste. Meus dias estão sempre ocupados com tarefas agradáveis, trabalhando,  cuidando da casa e nos horários que me dedico à música e à escrita.

Não preciso me preocupar com o que vestir. Na verdade, escolho sempre o que é mais fácil de lavar. Não uso perfume e não cuido do meu cabelo. Meus dias são gastos com aquilo que me faz sentir bem.

Fico em contato com os amigos pelo Whatsapp, participo de encontros no Zoom e minha família organizou algumas festas bem boas através de chats. Deito cedo em lençóis que eu mesmo lavei, leio Philip Roth na cama e durmo muito bem.

Enfim, desejo que essa pandemia passe logo e que todos fiquem bem. Talvez seja errado estar feliz no meio do inferno, mas no futuro, quando lembrar desses dias, creio que serão lembranças doces. Temos pouco espaço para mudar o mundo a nossa volta, mas podemos mudar a forma com que reagimos a ele. Talvez esse seja o segredo para encontrar a felicidade mesmo nos piores momentos.

Termino deixando de brinde uma das invencionices da quarentena:

Toca Raul!

Um país em pedaços

Um país em pedaços

O que é um país? Parece uma pergunta simples, mas não é. Sabemos que o Brasil é um pais, mas sabemos por que?

Pensem comigo. A cultura uruguaia tem muito em comum com a cultura do Rio Grande do Sul. Eles adoram churrasco e chimarrão, são vaqueiros dos pampas. Ainda assim, os gaúchos não são compatriotas dos uruguaios e são compatriotas de índios do Acre, que falam outra língua e tem costumes totalmente diferentes.

A Itália é um país muito tradicional, não é mesmo? Pois há menos de 200 anos aquilo era um punhado de pequenos reinos, frequentemente em conflito, que só se unificaram de verdade no começo do século XX. 

Isso é comum na Europa e fora dela. Reinos menores se uniram para formar países e até hoje há briga entre esses povos. Muitos bascos e catalães não se consideram espanhóis, os curdos não se consideram nem sírios, nem turcos e nem iraquianos. E o que dizer da África e suas inúmeras guerras civis?

Então o que faz um país? Será a língua? Se for isso, a China tem centenas de países. Quantos índios brasileiros não sabem o português?

Será que a bandeira, o hino ou a fronteira que fazem um país?

Se negociarmos uma mudança de fronteira com nossos vizinhos o Brasil deixará de ser Brasil? E se mudarmos nosso hino e a nossa bandeira? O que aconteceria se esses símbolos, outrora tão queridos, fossem diferentes? O Brasil deixaria de ser o mesmo país?

Creio que se formos apenas bandeira, um hino, um idioma e um traçado no mapa, não seremos nada.

Então o que faz um país?

O que une um povo são ideias e uma cultura em comum. O que une um povo, é a crença no país e nos valores que ele representa.

Os EUA são um país muito diverso. O que tem em comum um caipira de Ohio com um executivo de Chicago? É a crença nos valores de democracia e liberdade da “América”. Outros países são unidos através da religião ou através da crença em um rei absoluto (as vezes com direitos divinos).

Há também a Cultura como amálgama. Os italianos podem ter sido formados por vários reinos mas estão unidos por sua arte, sua música, a moda, o cinema e principalmente, a gastronomia. Há diferenças regionais, mas alguém duvida que os italianos podem se reconhecer em qualquer lugar do mundo?

Não adianta criar fronteiras, hinos e bandeiras quando o povo não se enxerga como uma unidade. Foi o que aconteceu com a Iugoslávia nos anos 90. Cristãos, muçulmanos e os demais grupos entraram em guerra civil e hoje a Iugoslávia não existe mais.

E o Brasil? Será que tão divididos como estamos podemos nos reconhecer como nação?

Em 2016, quando Aécio perdeu a eleição, milhares entre seus eleitores pediram a separação do Brasil, queriam que os Estados do Norte e Nordeste se transformassem em outro país, pois tinham muitos eleitores do PT. De lá pra cá, as diferenças só aumentaram.

A direita Bolsochavista não suporta a existência da esquerda e de pessoas com pensamento progressista. A recíproca é verdadeira. A imensa nação evangélica deseja o fim do Estado Laico. A elite sonha com o liberalismo absoluto enquanto o povo ainda sonha com um Estado Mãe, ao estilo Getúlio Vargas.

Índios querem a floresta para viver enquanto capitalistas veem a floresta como área para cultivo de soja. Grupos sonham com a volta do imperador e outros com o parlamentarismo. Uns querem a renda mínima e outros o Estado mínimo e não há nenhuma boa vontade entre esses grupos para dialogar.

Eu posso falar por mim. Não tenho nenhuma paciência com os bolsochavistas e não tenho vontade de interagir com eles. Eu gostava de nossa bandeira, mas hoje para mim, virou símbolo na mão de fascistas e falsos patriotas. Pessoas que defendem a bandeira enquanto atacam o povo, atacam a nossa cultura, a natureza e querem destruir tudo o que o Brasil tem de bom ou belo. Tenho vergonha de dizer que estes são meus compatriotas e não acredito que as feridas abertas têm chances de cicatrizar. O Brasil está em pedaços

Me pergunto se um dia a nação poderá se curar. Ou mesmo se esse amontoado de gente cheio de raiva pode ser chamado de país.

A história de um bigode

A história de um bigode

Faz uns dez anos que decidi deixar minha barba crescer. Pouco antes de virar modinha. Logo depois os hipsters passaram a me imitar e com o tempo, jogadores de futebol e cantores sertanejos fizeram o mesmo. Devo confessar que não esperava esse sucesso todo, eu só queria disfarçar a papada.

Minha barba era bastante conservadora, quase reacionária. Eu procurava ajeitar diariamente com a maquininha, manter a altura certa, deixar um desenho tradicional. Se minha barba fosse um eleitor, ela votaria no Alckmin ou no Amoedo.

Vivi 10 anos feliz com minha barba quase reacionária quando fui surpreendido por uma das maiores pandemias da história da humanidade. Vocês devem estar sabendo. Fui obrigado a abrir mão do trabalho e do contato social e passei a viver trancado em casa.

Pois para me distrair resolvi deixar a barba crescer livremente. Eu não teria reuniões, não precisaria passar a imagem de bom moço em qualquer círculo social, pois então qual a necessidade de manter a barba cortada como se fosse o jardim do palácio da rainha?

Assim, minha barba passou a crescer livre e selvagem, abandonando o conservadorismo, ela avançava a seu modo, uns pelos eram brancos, outros castanhos, uns era lisos, outros enrolados, cada um indo para uma direção diferente…

Me transformei numa mistura de líder sindicalista dos anos 70 com rabino chassídico. Assustaria as crianças mas provocaria aplausos nos hippies de São Francisco e nos joalheiros da rua 47.

Porém, meus amigos começaram a alertar sobre os perigos da barba na pandemia. Quanto maior a barba, pior o funcionamento da máscara. Teoricamente ela seria um ótimo ambiente para desenvolvimento de vírus e bactérias.

Então resolvi mudar o visual e fiz vários testes. Tentei os modelos Dom Pedro I, Lemmy do Motorhead, Sam Elliot, Nigell Mansel, Hercule Poirot…

No fim, adotei um bigode tão conservador como minha antiga barba e estou feliz com ele. Lembra um pouco o do meu pai nos anos 70, tem uma pegada vintage. Por enquanto fico assim, até os rumos da saúde mundial ou da moda me inspirarem para novas mudanças.

As pequenas saudades

As pequenas saudades

(O Texto de hoje é uma contribuição do amigo Eduardo Tironi do canal Arnaldo e Tironi)

O confinamento por causa do coronavírus traz grandes saudades. Saudade dos pais, dos irmãos, do filho, dos sobrinhos, dos amigos, de viagens, de momentos especiais.

Mas à medida que o tempo vai passando esse tipo de saudade vai se acomodando dentro da gente, de modo que segue sendo angustiante e torturante, mas vamos de alguma forma nos acostumando. Como aquela torcida de tornozelo mal curada que você sente em dias mais frios, mas de forma resiliente convive com ela.

Mas aí surge ao lado desta uma outra saudade, passado mais de um mês entre sala, quarto, cozinha e banheiro. É a pequena saudade.

É a saudade do vento na cara. Fenômeno meteorológico que na normalidade serve só para desmanchar o penteado e jogar algum cisco no olho. Mas que agora faz uma falta danada sair na rua e sentir a brisa passando.

É a saudade do não-papo com o cara da quitanda da esquina que a gente nem sabe o nome. Tudo bem? Tudo bem. Só isso mesmo? Só. E o Palmeiras, vai ou não vai? Agora vai… Obrigado! De nada.

É a saudade particular de uma brincadeira que faço desde os tempos da faculdade com uns amigos. Olhar para qualquer pessoa na rua e pensar com quem ela se parece. Hoje as pessoas na rua não têm rosto, todas usam máscara.

É a saudade de ver a cara do desconhecido e viajar sobre quem é ele. O que faz? Trabalha no banco? é professor? É encanador? Está feliz ou está triste?

É a saudade da coisa miúda, dos momentos pequenos e desimportantes. A gente não percebia, mas a maior parte da nossa vida é formada por isso. E como faz falta.

Eu, a faxineira

Eu, a faxineira

Sou um privilegiado. Faço parte da elite. Desde a minha tenra infância, nas distantes terras de São Bernardo do Campo, havia uma empregada doméstica na minha casa.

Isso fez de mim um mimado. Meu trabalho era levar os copos e pratos da mesa para a pia e, de vez em quando, fazer a cama. Sempre achei um milagre que a roupa suja que eu largava no cesto aparecesse limpa nas gavetas dias depois.

Já na vida adulta as coisas deixaram de ser tão simples e comecei a perceber que as tarefas domésticas eram muitas e complexas. Cheguei a contratar uma empregada nos tempos de casado, mas a maior parte da vida optei pela ajuda de uma faxineira uma vez por semana.

Esse sistema era bastante eficiente. Eu moro sozinho, fico fora o dia todo. A casa não suja muito. Normalmente almoço perto do trabalho e à noite como um lanche. Minhas roupas são casuais e fáceis de passar, meu apartamento é relativamente pequeno.

Eis que para nossa surpresa aparece uma pandemia mundial e da noite para o dia nos encontramos em prisão domiciliar, sem empregada e sem faxineira.

No começo isso não me assustou. Adoro cozinhar, estou acostumado a lavar louça e há muito tempo deixei de ser o garoto mimado. Eu sei usar a máquina de lavar e me viro para passar roupas. Vai ser tranquilo.

Meu Deus, que engano…

Um mês depois, trancado em casa e sem poder trabalhar, meu mundo virou um grande e interminável dia da faxina. O chão nunca está limpo. Quando o quarto está bom a cozinha já está cheia de gordura e quando a cozinha está aceitável as janelas estão horríveis. A louça se tornou infinita, faz trinta dias que a pilha de pratos na pia não diminui.

Além disso, me falta know-how. Para que servem tantos produtos? Eu sempre comprei o que a faxineira pediu, agora tenho Sapólio, Pinho Sol, Veja, Multiuso concentrado, Cândida, Desinfetante e não sei qual eu uso para o box, qual para o fogão e qual para o vaso sanitário. Dobrar o lençol com elástico está totalmente fora das minha possibilidades.

Já derrubei cloro na minha camisa favorita, bebi Diabo Verde e enquanto escrevia esse texto, caiu um pano que tampou o ralo do tanque. A água da máquina de lavar transbordou e transformou a área de serviços no Ceagesp em dia de enchente.

Eu deixei a minha barba crescer para parecer um intelectual. Queria aproveitar o tempo de reclusão para escrever novos livros e ter o reconhecimento mundial pelas minhas opiniões brilhantes. No lugar disso acabei aprendendo o a separar as roupas brancas e coloridas na hora da lavagem, a colocar panos de molho, a usar a esponja para limpar os interruptores. Também inventei blends de cloro, Lisoform e álcool em Gel para desinfetar o piso do banheiro.

Se serve de consolo, posso dizer que desenvolvi novas habilidades e levando em consideração a tragédia do mercado audiovisual nos últimos tempos, em breve vocês poderão me chamar para novos tipos de freelancer, longe das claquetes e das lentes, perto de vassouras e esfregões.

Previsões para o futuro próximo

Previsões para o futuro próximo

Dizem que é muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro.

Imagine em 2013, quantos diriam que o deputado fascista que só tinha espaço no programa da Luciana Gimenez seria um dia o presidente do Brasil. Quem imaginaria que o Ator pornô Alexandre Frota seria um deputado de destaque e que Aécio frequentaria o baixo clero? Poucos especialistas tem uma visão futurista apurada e para a alegria de vocês eu sou um deles.

Vamos às previsões para o futuro próximo. Anotem, imprimam, tudo vai se cumprir.

Abril de 2020 – Com o agravamento da epidemia do coronavírus, a paciência da população se esvai. O povo está economicamente arrasado e não aguenta mais ouvir notícias de conhecidos que são internados ou pior ainda, morrem.

Alguns políticos importantes acabam morrendo também, um ou outro ministro, parlamentares e nomes conhecidos de Brasília.

Maio de 2020 – Moro dá uma entrevista na Globonews, Bolsonaro fica com ciúmes da exposição do Ministro e o demite, como já havia feito com Mandetta.

A popularidade de Bolsonaro vai para  o chinelo. Os vídeos dos corpos empilhados em galpões editados com a fala da “gripezinha” acabam com o que sobrou dele. O Impeachment é desnecessário, Braga Neto dá uma dura tão forte em Bolsonaro que assustado, pede para sair. Como caridade o exército deixa que ele faça a visita diária ao cercadinho do Palácio onde os mesmos imbecis ainda oram por ele.

Junho de 2020 – O Brasil está desolado com os mortos e com as idas e vindas da quarentena. O governo Mourão está segurando a onda até as eleições marcadas para outubro. Os partidos estão desacreditados, não há esperança. Até os possíveis candidatos estão mais assustados do que entusiasmados.

Neste mesmo mês este texto é redescoberto nas redes e espanta a todos pela precisão das previsões. Ele é compartilhado por milhões e todos querem saber quem é o autor, dono de tamanha perspicácia.

Em Julho já sou uma celebridade, dou entrevistas nos blogs e TV’s. Minha live é vista até por cantores sertanejos, sou o centro do Roda Viva.

Nesse mesmo mês alguns partidos começam a me ligar.

Julho de 2020 – Minha candidatura é lançada, Átila Iamarino é o vice. Fico orgulhoso da capa da Istoé: A Solução Lúcio.

Outubro de 2020 – Sou eleito e aclamado por um movimento que une o Brasil. A confiança é tanta que os empresários investem bilhões em novos projetos. A economia está salva. O Veio da Havan tatua o meu nome em seu glúteo esquerdo.

Outubro de 2040 – Levo meus netos para ver minha estátua no lugar onde ficava o Borba Gato. Uso a mascará do Groucho Marx para não ser reconhecido pelos fãs. O Brasil está salvo.

P.S. Semana que vem publico os próximos números da mega-sena e a lista de títulos do Diniz pelo São Paulo.

Formigas no transatlântico

Formigas no transatlântico

O mundo está um caos. Bolsas caindo, chuvas devastadoras, vírus mortal, ódio vencendo, pessoas assustadas. Uma excelente hora para filosofar.

É justamente quando o mundo está uma confusão, quando sentimos a esperança nos abandonar que pensamos em Deus, que desejamos uma ajuda da providência divina. Em geral essa ajuda não vem.

Estaria Deus insensível a tanto sofrimento? Estaria ele nos testando justamente agora que nos sentimos tão frágeis, tão desamparados?

Nossa aflição vem da incapacidade de compreendermos Deus. Eu também sou assim. Somos tão pequenos diante d’Ele que não podemos concebê-Lo então reduzimos Deus ao tamanho da nossa compreensão. Como se Ele fosse uma criatura parecida com o homem, capaz de pensamentos com a moral humana.

Deus gosta de preces e não de aborto; Deus ajudou um sujeito a fazer um gol e atrapalhou o goleiro do outro time; Deus salvou uma criança no desabamento. Ou seja, deixou que as outras crianças morressem no mesmo acidente. Isso faz sentido?

Para tentar compreender sua grandeza, pensei numa metáfora.

Pensem em formigas que moram na cozinha de um gigantesco transatlântico. Elas Vivem das migalhas que caem no chão ou dos alimentos que os cozinheiros esquecem sobre uma bancada.

São tão pequenas, que acreditam que a cozinha e as salas no seu entorno são o universo. Acreditam que os homens são as maiores criaturas existentes, poderosos como deuses que podem as matar com um dedo apenas.

As formigas não conseguem conceber o transatlântico que as transporta, as abriga, as protege e as alimenta. Se elas pensassem em Deus, talvez o vissem como uma criatura espiritual na forma de uma formiga.

Nós somos as formigas. Deus é o transatlântico.

Os ateus devem estar achando o texto uma grande perda de tempo. Mas ele vale também para o universo. Nossos super telescópios nos desertos chilenos nos revelam galáxias e buracos negros, nebulosas distantes e explosões de estrelas. Tudo isso é fascinante, mas não passa da cozinha do navio. Não conseguimos imaginar a embarcação como um todo, muito menos o oceano que a cerca.

Somos formigas no transatlântico, preocupadas porque hoje não há bolo e caíram poucas migalhas para roubar.

Minha Palestra no TEDx Talks

Minha Palestra no TEDx Talks

Muitas pessoas tem sonhos. Uns sonham em ser ricos, outros sonham com a fama.  Há quem tenha como meta encontrar o amor perfeito.

Meu sonho é dar uma palestra no TEDx Talks. Acho chique.

Fecho os olhos e consigo me ver vestido em calças jeans escuras quase tão justas como as de cantores sertanejos e com um pulôver preto que imita os do Steve Jobs. Em minha cabeça uma tiara com microfone estilo Madonna completa o visual.

Entro no palco esbanjando confiança, peito erguido e faço gestos calculados, falando de forma pausada, cheio de emoção e com sorriso no rosto. Me apresento e logo conto que me aconteceu algo curioso no caminho da palestra. A história é mentirosa, é apenas um gancho para chegar no assunto do qual vou tratar, de qualquer forma entretém a plateia, aumentando a curiosidade sobre o meu discurso.

Ando de um lado para outro do palco, uso pausas dramáticas e de repente começo a fechar o rosto, passando a usar um tom mais grave na minha voz. Agora falo de um momento tenso da minha vida, quando tudo parecia que ia dar errado.

O público está comigo. Riram no começo, mas agora, diante da gravidade do que estou contando há um silêncio absoluto. Eu conduzo a narrativa, sou o maestro da emoção. Depois de criar o suspense, conto da minha superação. Agora minha voz está quase trêmula. Eu tive muitas dificuldades porém superei os problemas e posso compartilhar com a plateia a estratégia para vencer os obstáculos.

Na minha mão, um pequeno controle remoto comanda o data show. O telão exibe fotos incríveis, gráficos esclarecedores e algumas piadas inesperadas.

Vejo que no público todos balançam suas cabeças em aprovação. Estão encantados e motivados e colocar em prática meus ensinamentos.

No final, despeço-me sentindo como se tivesse hipnotizado uma multidão. Se eu pedisse, eles pulariam de um pé só ou assobiariam o hino do Botafogo.

Ao sair do palco, a missão está cumprida, mais uma vez meu conhecimento atingiu os mortais.

E qual foi o tema da palestra? Bom, nisso ainda não pensei, mas depois eu  improviso qualquer coisa. Quem se importa… 

Conversas alheias

Conversas alheias

Se eu pudesse dar um único conselho a quem quer escrever livros ou roteiros, este conselho seria: abandone seu carro. Use o transporte público.

Opa, tem um segundo conselho: Abandone também o fone de ouvido.

Amigo criativo, a vida acontece nas ruas, nos botecos, no vagão do metrô, no ônibus e não nas redes sociais, nos bares descolados e muito menos no ar condicionado de um carro.

É na rua entre o movimento dos transeuntes que encontramos histórias e diálogos, percebemos como as pessoas agem, como elas falam. Esse deve ser o combustível de nossa criatividade.

Eu chego ao extremo de anotar as conversas mais interessantes para não esquecer. E como sou muito generoso, vou compartilhar algumas destas conversas com vocês.

E se algum dia uma história minha tiver alguma semelhança com o que você viveu, não estranhe. Provavelmente eu estava ouvindo quando você a contou para sua tia no metrô.

Um adolescente aparentemente pouco instruído explica para o seu amigo – Eu não fui desumilde. Fui um pouco arrogante, mas desumilde, nunca.

No Banheiro do Metrô o faxineiro se apoia na vassoura qual Moisés com seu cajado e aconselha um homem bem vestido que parece estar se preparando para entrevista de emprego – Não pode baixar a cabeça. A vida é uma roda gigante – o faxineiro fala dos maus momentos pelos quais passou até chegar no bom emprego que conseguiu.

Conversa no Metrô:

Mulher: Na cela que eu fiquei tinha traficante, tinha assassina. Era pra ficar três dias fiquei quase um mês

Homem: É bom que descansa.

No trem, um grupo de meninas de 18 anos, muito simples, debate sobre uma nota de 10.000 Guaranis Paraguaios querendo saber o valor da nota em reais. Não aguentei e entrei na conversa. Queria saber como elas haviam conseguido a nota – Nóis trampa de palhaço no sinal – Elas haviam ganho a nota ao pedir dinheiro e imaginavam que era um dinheirão.

Eu acabei de fazer a conta no Gloogle e pelo câmbio atual a nota vale seis reais.

Duas amigas conversando – Não aguento roupa sem passar. Meu marido quer sair de casa todo amassado. Parece que não tem mulher…

Outras mulheres conversando no metrô sobre um marido problemático.  Ele é indiscreto olhando para “as partes” de outras mulheres:

_ Eu é que não fico na rua olhando para o pinto dos homem, olhando para as saliências…

Peguei também o desabafo de dois cozinheiros de um restaurante japonês. Um dizia que se o dono do restaurante não aumentar seu salario para R$2.000,00 ele vai embora.

Uma mulher ao telefone transborda sinceridade – Eu falei pra ela, você é tão podre que quando você morrer nem urubu vai querer te comer.

Duas enfermeiras são mais singelas. Depois de um dia de trabalho que conviveram com pacientes em estado terminal falam da finitude de vida e da importância de fazer tudo o que sonhamos hoje. 

Pode parecer bobo, mas essas conversas nos aproximam do mundo, de outros mundos, outros tipos de problemas, dramas de pessoas de verdade. Também valem as conversas com motoristas de taxi e de aplicativos. Cada um é uma enciclopédia da vida real. Agora é carregar o seu bilhete único e manter os ouvidos bem atentos. Depois é só colocar no papel e comemorar os “Prêmios Jabuti”.