O Tempo do Amor

O Tempo do Amor

Quando minha filha tinha 5 ou 6 anos levei-a a uma reza em memória de uma tia recém falecida. Para distraí-la, uma prima deu-lhe papel e lápis. Quando saímos da reza, minha filha mostrou o que fizera.

A obra era o desenho de uma ampulheta em forma de dois corações, não toda bonita como essa da ilustração, mas num traço bem infantil. Logo abaixo, ela escreveu a frase.

Rápido, o tempo do amor está correndo.

Provavelmente o ambiente triste serviu de inspiração. Minha filha não tinha passado perto de experiências de morte até então. Eu perguntei sobre as suas motivações, mas ela se recusou a falar.

Creio que ao ver as pessoas se lembrando e ao sentir o clima de despedida, ela intuiu a finitude da vida. O tempo nos faz órfãos, o tempo corre indiferente aos nossos desejos e frustrações.

O pai babão fez o que qualquer pai babão faria: Enquadrei a obra e a pendurei na parede.

Acontece que agora, passados alguns anos, reparei neste quadro e para minha surpresa, o desenho e o texto se apagaram. Na parede havia uma folha em branco, mas no vazio pude ler uma mensagem subliminar.

Rápido, o tempo do amor está correndo.

Novamente e de uma forma inesperada o destino deu seu recado. Nada é perene. Nem os recados. O tempo do amor é finito como somos nós e por isso ele é tão importante. Não podemos parar a areia que cai da ampulheta, mas podemos usar o tempo da melhor forma possível. Quem está ao nosso lado hoje pode não estar na semana que vem e isso não é uma revelação incrível, é a maior das obviedades. Até uma criança de 5 ou 6 anos sabe.

Deus no coração

Deus no coração

Meu nome em iídich é Leib (Leão).

Um rabino um dia me disse que Leib se escreve com as mesmas letras de Lev (coração), porém há a letra Yod no meio. Yod é o símbolo de Deus. Logo eu teria Deus no meio do coração.

Nenhum cientista conseguiu provar esta presença, mas há alguns anos médicos detectaram uma hipertrofia no meu miocárdio. Na época era um problema discreto, mas se crescesse, poderia ter consequências graves, entre elas a morte súbita.

No começo desse ano o problema cresceu e depois de estudos e exames decidimos fazer a operação que corrigiria a hipertrofia. Aproveitaríamos e corrigiríamos também um defeitinho no átrio, e faríamos uma ablação, afinal o peito já estaria abertinho, o que custa fazer uma ablação? Retífica completa.

Assim, faz duas semanas que estou no Incor, vivendo aquela rotina básica de hospital que é dividida entre agulhas e esparadrapos.

Quando somos crianças uma única injeção nos tira o sono, quando adultos, nos internam e passam o dia nos espetando como canapés e arrancando tiras a ponto de a gente nem ligar.

Já fiz a retífica do motorzinho, umas coisas tiveram que ser ajustadas no meio do caminho, mas pelo jeito a máquina vai ficar boa. Entretanto, ainda estou no hospital, sendo espetado e tendo esparadrapos arrancados do meu corpo a toda hora.

Tive meus momentos de medo, me perguntei se Deus esquecera de mim. Numa madrugada na UTI lembrei do sofrimento dos judeus nos campos de concentração. Eles aguentaram tanto, por que não eu?

Não sei se sou forte, não consegui provas da existência de Deus no meu coração. Assim como eu, milhares passaram as mesmas noites de angústia em hospitais de todo Brasil, isso faz deles especiais? Na cabeceira da cama, Guimarães Rosa, que eu não consigo acabar nunca, me ensina: ”O que a vida quer da gente é coragem.”

Eu, Flavio Bolsonaro e um coco

Eu, Flavio Bolsonaro e um coco

As pessoas que me conhecem, assim como o leitor mais fiel do blog, devem estar achando que enlouqueci. Afinal, não é grande segredo que tenho sérias divergências de ponto de vista com os membros da família Bolsonaro. Assim, optei por contar em detalhes as condições em que esta foto aconteceu, por favor leia até o fim antes de me julgar.

Para você entender a história, é preciso que saiba de informações prévias:

1 – Além de escrever no Toda Unanimidade sou um profissional do setor audiovisual.

2 – O audiovisual está ameaçado pelo congelamento das fontes de financiamento (detalhes aqui), colocando em riscos milhares de empresas e empregos.

3 – Semana passada aconteceu o Rio2C, o maior encontro de negócios do setor.

Pronto, agora já posso contar a história.

Passei a semana na correria da Rio2C. Agenda cheia, ia de um lado para o outro em reuniões e mais reuniões. Em todas elas, um tema se repetia: Conseguiremos realizar novos projetos se o sistema de financiamento não se reestabelecer? Qual será a consequência da paralização. Quantos milhares de empregos serão perdidos? Quantos bilhões em negócios deixarão de acontecer?

Nesse clima de apreensão caminhava com minha colega Cris quando fomos informados que um dos filhos do Bolsonaro havia sido convidado para visitar o evento. A associação das produtoras queria sensibilizá-lo mostrando o tamanho e a importância do setor audiovisual para a economia. A presença de um membro da família mais assustadora do Brasil nos surpreendeu, mas logo achei que era uma boa ideia. Era preciso salvar o audiovisual.

E foi justamente quando paramos para tomar uma água de coco, brinde tradicional do SBT, que ele apareceu. Caminhava cercado de assessores e seguranças e passou ao nosso lado nos ignorando. Assim como eu, ele foi buscar um coco.

Por alguns minutos ficamos próximos, cada um com seu coco. Ele e seus seguranças com ar de poucos amigos. Eu e Cris assustados pela empáfia e a arrogância que nunca vira em outros políticos.

Quando ele matou a sede, se levantou e passou novamente ao meu lado, mas desta vez resolvi enfrentar aquele olhar ameaçador. Assim que a distância permitiu, estendi a mão e o sorriso.

_ Bom dia deputado.

Ele, meio sem graça repetiu o gesto, mas não dei tempo para que pensasse e perguntei:

– Deputado, sabe o que todos as pessoas aqui no evento querem? – Falei com firmeza, mas sem desarmar o sorriso, deixando uma pausa dramática, que colocou todo o staff em alerta – Nós queremos fazer negócios, vender projetos. Nós queremos gerar empregos. O senhor está aqui para nos ajudar, deputado? O senhor vai nos ajudar a gerar empregos?

A essa altura ele estava mais calmo e respondeu como um bom político.

_ Pode contar comigo! Estou aqui para ajudar. Temos a melhor pessoa para isso: O Marcos Pontes!

Levei alguns segundos tentando entender a relação do Ministro da Ciência e Tecnologia com o contexto, mas fui rápido o suficiente para sugerir a foto e distraído o suficiente para não largar do coco.

Percebi que os seguranças estavam mais relaxados, os assessores também sorriam e o parlamentar saiu orgulhoso, bem menos arrogante do que estava antes de passar por mim.

Logo depois a Cris me corrigiu dizendo que o Flavio Bolsonaro era senador e não deputado.

_ Era o Flavio?!?! – Me espantei – pensei que fosse o Eduardo!

Gafes acontecem. Se até um senador pode confundir as funções dos ministros, quem sou eu para acertar tudo?

E assim foi feita essa foto.

Se o problema da Ancine for resolvido, levarei comigo um orgulho secreto por ter contribuído com a solução, sendo isso verdade ou não. Muitas vezes temos de ser duros, outras vezes, um bom sorriso e a mão estendida podem ser o caminho mais eficiente para convencer o outro. Nós Brasileiros estamos cada vez mais craques em construir muros. Seremos mais felizes quando aprendermos a fazer pontes.

(O encontro com o senador me inspira reflexões mais profundas que virão no próximo texto)

Eu, meu pai e o Lollapalooza

Eu, meu pai e o Lollapalooza

Semana passada, passei diante de uma fila de jovens rockeiros que veriam um show na Audioclub. Fiquei curioso em saber a atração. Era uma das Lolla Partys que acontecem antes do Lollapalooza.

_ Quem vai tocar hoje? – Perguntei.

_ çkfjadçfkjaslkdjf. – Foi o que entendi.

_ Oi?

_ fdjksaçlkjfasdkjfasdj, uma banda nova.

Saí de lá abalado. Há alguns anos eu era o cara que conhecia as bandas novas. Cheguei a ter um blog onde comentava as novidades do Rock. Daí parei para pensar que White Stripes, Kings of Leon e Franz Ferdinand estão indo para as duas décadas. Mesmo o que era novo já envelheceu.

Quando eu era adolescente achava engraçado o desinteresse do pai pela música contemporânea, para ele New Order, Iron Maiden, Seal ou Prodigy eram a mesma coisa e nenhum valia nada. Ele conseguia guardar o nome de um ou outro artista que lhe agradava como Bee Gees ou Michael Jackson, afinal eram artistas que tocavam nas rádios 1600 vezes por dia, mas essas eram as exceções. De resto, podia-se dizer que ele ficou surdo em 1969.

Hoje, sei que virei meu pai. Consigo guardar o nome de algumas novidades que me agradam como Greta Van Fleet ou The Struts, de resto,  sou incapaz de dizer uma única música do Kendrick Lamar. Um gênio segundo a jovem que trabalha comigo.

Vendo os melhores momentos do Lollapalooza senti um tédio tremendo. Rappers, DJ´s, bandas e tais me pareciam igualmente chatas. Ao contrário do público em êxtase, eu lutava contra o sono.

Só velharias me animavam como  Lenny Kravitz e os quase velhos Arctics Monkeys.

Sem perceber, num momento de desatenção, virei meu pai.

Agora não tem como voltar. Vou consumir alucinadamente os discos do Led Zeppelin e dos Mutantes que é o que me resta. Lollapalooza não é para mim. Aguardo ansioso quando shows de verdade como Ray Conniff ou Julio Iglesias. Opa, tem especial do Roberto Carlos na Globo em dezembro. Ainda estou salvo.

Adeus dia da mentira

Adeus dia da mentira

Escrevo esse texto em primeiro de abril, que antigamente era chamado de dia da mentira.

Nesse dia costumávamos enganar nossos amigos com pequenos trotes, dizíamos ao mais tímido da escola que a gata da classe havia se apaixonado por ele ou fingíamos acreditar no mundial do Palmeiras. Qualquer coisa que rendesse risadas ingênuas.

Mas isso foi no passado, no tempo que havia mentiras. Hoje o próprio conceito de mentira morreu e com ele, a celebração do primeiro de abril.

Tudo começou quando a mentira (ou paia como chamávamos nos anos 70) mudou de nome e ganhou a alcunha de Fake News. Isso deu uma aura americana e sofisticada à velha paia. Agora, o sujeito que é pego com batom na cueca passou a culpar a lavanderia e a namorada não pode mais chamá-lo de mentiroso, afinal, isso é apenas fake News.

O próprio termo Fake News já está ficando ultrapassado. Afinal, inventam também mentiras sobre o passado. Dizem que o nazismo era de esquerda e que o Golpe de 64 foi democrático. Podemos dizer que são fake olds.

Porém, nada disso tem sentido. Em 2019 não há mais verdade ou mentira. Cada um acredita no que quer.

Uns dizem que o Cristiano Ronaldo joga mais que Pelé, outros acreditam que a Terra é plana; uns dizem que vacinas são uma arma comunista para destruir o cristianismo e Olavo de Carvalho diz que cigarros fazem bem. Cada um de nós está livre para acreditar no que quiser: Nas explicações complexas do Tite, na pureza do Lula, na inteligência do Bolsonaro e nas boas intenções do MBL.

A reforma trabalhista vai criar 6 milhões de empregos, Lulinha é dono da JBS, a Globo é comunista,  o Alexandre Frota é um exemplo de moralidade, Doria ficará 4 anos na prefeitura, Haddad distribui mamadeiras de piroca, Trump não é fantoche do Putin, a Scarlett Johansson é feia… Verdade ou mentira?  Tanto faz, quem se importa?

Hino nas escolas

Hino nas escolas

Eu sou do tempo em que se cantava semanalmente o hino no pátio das escolas. As crianças formavam filas duplas para cada classe. De um lado os meninos, do outro as meninas, em ordem de tamanho. Eu, na condição de minúsculo, sempre era o primeiro da fila, o que de certa forma me constrangia.

Éramos lindos patriotas enfileirados em frente à bandeira nas manhãs de segunda-feira.

Porém, assim que terminava a cerimônia fazíamos nossas próprias versões dos hinos, bastante diferentes das originais.

No Hino da Independência o “Já podeis da pátria filhos” virava “Japonês tem 4 filhos”. No Hino da Bandeira, o pendão da esperança virava peidão.

Já o hino nacional tinha seguinte versão:

Ouviram do Ipiranga a Barra Funda
Dom Pedro abaixa a calça e mostra a bunda
Deitado eternamente numa cama
João e Joana sem pijama

Pinto cresce, barriga cresce,
E depois de nove meses aparece
Uma criança cheia de vida,
Com a bunda toda cheia de ferida

Tentaram nos transformar em patriotas mirins mas minha geração envelheceu sonegando impostos, furando filas, molhando a mão do guarda e transferindo multas para os nomes de terceiros. Somos contraventores natos, desrespeitando o próximo e a pátria sempre que preciso.

Parece que vai voltar a moda de cantar o hino. Acho muito bonito mas tenho poucas ilusões em relação ao resultado prático da empreitada. Continuo desconfiando que valorizar o professor ainda é mais importante.

Dois Negros Cadus

Dois Negros Cadus

O primeiro negro Cadu é um menino que nasceu na minha cabeça e ganhou vida através dos traços de Pedro Menezes e da aposta da Lizandra Almeida, da editora Pólen. É o personagem do meu livro infantil “Cadu e o Mundo Que Não Era”.

O Segundo negro Cadu é um adolescente que nasceu na cabeça de Mauro Paz, jovem e brilhante escritor cujo livro “Entre Lembrar e Esquecer” inspirou este texto.

É uma boa coincidência dois escritores brancos escolherem o nome Cadu para os seus personagens negros e maior coincidência é a dupla se aproximar depois dos livros serem lançados.

Meu Cadu é um menino sonhador, provavelmente de classe média, cuja cor da pele não interfere na criatividade incontrolável. Ele aprende que a imaginação exagerada pode ser um problema como pode ser um dom.

Já o Cadu do Mauro Paz já começa o livro morto. Um adolescente de classe média fera no Skate que é assassinado numa festa da elite de Porto Alegre. O Cadu do Mauro é inspirado por um menino real, um negro encontrado morto numa festa chique, e cujo crime ninguém quis investigar.

Meu Cadu é o sonho. Um negro que poderia ser branco, poderia ser japonês, poderia ser o que quisesse porque no meu livro a cor de Cadu não importa. Fosse como fosse, sua história seria a mesma.

O Cadu do Mauro era um negro entre brancos e talvez essa tenha sido a causa da sua morte.

No mundo real, o meu Cadu poderia virar o Cadu do Mauro ao chegar na adolescência e descobriria que nem toda a imaginação o afastaria de olhares estranhos, de gente assustada na rua quando ele passa à noite, de batidas policiais, de piadinhas sussurradas na faculdade.

Conheço Mauro o suficiente para saber que ele vai continuar escrevendo sobre este duro mundo real, onde Cadu vive no fio da navalha, e me conheço o bastante para saber que continuarei sonhando com mundos onde a cor do Cadu não seja relevante para a história.

p.s. Quando escrevi Cadu ele não tinha cor nem cara, era só um amontoado de letras num documento de Word. Cadu tornou-se negro por sugestão do Pedrão, o ilustrador e coautor.