Vamos censurar!

Vamos censurar!

Já que está na moda também quero censurar! Vamos preservar a família e valores ímpios das pessoas de bem! Vamos meter a tesoura na música, no teatro e nas artes, vamos acabar com esses cineastas vagabundos que defendem o livre pensamento e com essa elite intelectual doutrinada por Trotsky e Rasputin.

As normas de censura definidas exclusivamente por mim, de forma totalmente democrática, são as seguintes:

1 – Combate ao vilipêndio religioso – Nada que ofenda as religiões será permitido na arte e na comunicação

Os primeiros a terem a língua cortada serão os Titãs por “Igreja”.

Seguidos por Eça de Queiroz e seu Crime do Padre Amaro

Novelas como Roque Santeiro e Tieta assim como toda a obra do Dias Gomes serão banidas.

Não para por aí, também estão proibidos:

O Poderoso Chefão 2

A série Young Pope

O Exorcista

A banda Iron Maiden (por The Number of The Beast)

Black Sabbath

Judas Priest

John Lennon e os Beatles: “Somos mais populares que Jesus Cristo”

Saramago, o ateu.

Quero que vá tudo para o Inferno (Roberto Carlos)

Rolling Stones (banidos do Brasil por Simpathy for the Devil)

A igreja evangélica (por chutarem a santa e por atacarem as religões africanas)

Todos os filmes do Almodóvar mas especialmente “Maus Hábitos”.

O Alto da Compadecida e seu Deus negro e piedoso diante do Bispo corrupto é imperdioável.

2 – Zoofila e todas as práticas de sexo heterodoxas na arte.

Começemos a banir o Ultraje a Rigor e sua ode à zoofilia “Mary Lou”.

Woody Allen será seriamente castigado por “Tudo o Que Você Queria Saber sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar.

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Em filme de Woody Allen, psicólogo se apaixona por ovelha

Vamos proibir Pulp Fiction do Tarantino, onde, nas palavras de Paulo Francis, “dois homens sodomizam um criolo”.

Lulu Santos deve ser impedido de cantar a baixaria de “Toda Forma de Amor”.

Hieronymos Bosch: Encontrem onde esse pilantra mora e vamos colocá-lo atrás das grades!

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Obra do Esquerdopata Bosch

Mandem prender esse tal de Sófocles e aproveitemos para levar junto Nelson Rodrigues, Philip Roth e João Ubaldo Ribeiro!

Não se esqueçam da Netflix com seu Sense 8 dirigido pelos irmãos travecos.

Game of Thrones, meu Deus, quase ia me esquecendo: Tem incesto, deuses falsos, sexo de todos os tipos, prostituição, pederastia, nu masculino. Censurem já!

 

3 – Combate à doutrinação Comunista

Vamos atacar esses livros e filmes que ensinam valores deturpados para nossas crianças passando a pior de todas as doutrinas: O comunismo!

Agora me lembro de um livro perigoso, só que esqueci o nome, será que vocês conhecem?

Tem um personagem rebelde que enfrenta o sistema e os líderes religiosos da época. Lembro-me de uma frase desse livro, dita pelo tal desajustado:

“_Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico subir ao reino dos céus”.

No mesmo livro esse personagem divide pães e peixes, sem perguntar qual o mérito das pessoas que recebem o alimento.

Numa passagem, ele salva uma mulher adúltera do apedrejamento que as pessoas de bem estavam prestes a executar.

Se alguém puder me lembre o nome desse livro. Precisamos impedir que a sua mensagem comuna chegue aos ouvidos das inocentes criancinhas. E principalmente, evitar que um livro desse chegue às escolas!

 

*Não falei de pedofilia no texto porque acho um tema muito pesado para piadas e ironias.

**Para quem não conhece o tom sarcástico do Blog, deixo um aviso que aqui tudo e nada são verdades ao mesmo tempo. “Toda Unanimidade” é um espaço de provocação e incentivo ao pensamento crítico.

 

 

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Estúpida Retórica

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Lia Mario Benedetti no metrô, um livro sobre os exilados uruguaios nos anos 70, quando pensei em ir ao cinema.

Saltei na Consolação e já no Belas Artes decidi entrar na primeira sessão disponível. Era o filme Chileno Neruda. Eu não sabia, mas o roteiro trata justamente da perseguição e do exílio do poeta comunista em 1948.

Em uma cena, o policial (Gael Garcia Bernal) pilota uma moto me lembrando Diários da Motocicleta, filme com o mesmo ator sobre Che Guevara.

Comecei a tecer uma estranha teia em minha cabeça desocupada.

Artistas de esquerda perseguidos no final dos anos 40 no Chile; Revolucionários argentinos sonhando com uma América Latina Socialista nos anos 50. Uruguaios exilados e perseguidos nos anos 70.

Ainda hoje, as portas da terceira década do século XXI, estamos perseguindo artistas de esquerda ou sonhando com revoluções sem sentido. Como se estivéssemos atolados esse tempo todo, quanto mais aceleramos mais afundamos nos mesmo lugar.

Em 1984 Caetano Veleoso compôs Podres Poderes, em que dizia o seguinte:

Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos

Não sei quanto tempo são zil anos. Mas já passaram 33 anos do lançamento da música e a estúpida retórica continua atual, como se estivesse sido escrita em 2017.

(Se você não conhece a música, olha ela aqui)

Minha doutrinação marxista (e a Escola Sem Partido).

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Eu e meus coleguinhas em 1979

Fui doutrinado no marxismo desde a 5a. série.

Começou no ginásio do Colégio Pirâmide em São Bernardo, mas se agravou mesmo no ensino médio do Singular, com o professor Takara. Ele nos ensinou que a história da humanidade era a história das lutas de classe. Ele disse que essa era a maior lição que tinha a ensinar.

Na Eca-USP, onde estudei publicidade, foi ainda mais radical. Maria Immacolata, Celso Federico e outos nos apresentavam a dialética de Hegel, a escola de Frankfurt e Gramsci.

Porém, parece que meus professores foram um tanto incompetentes em seus intuitos doutrinatórios.

Meus amigos do Pirâmide e do Singular (salvo raras exceções) são todos capitalistas/coxinhas/direitistas e odeiam o PT.

Até entre os egressos da ECA, famosa pelo pensamento de esquerda, há desde petistas fanáticos até colunistas da Veja. Um colega meu escreve blogs para o exército.

E eu?

Juro que não sei em que me transformei. Talvez o leitor fiel do Blog possa me ajudar. No geral acho os dois discursos estúpidos e rasos. Discordo de todo mundo.

Contei essa historia porque há uma discussão no congresso e na sociedade da tal “Escola Sem Partido”. Em que alguns grupos querem tirar a ideologia de esquerda que supostamente permeia nossas escolas.

A “Escola Sem Partido” é também uma Ong e no seu site há a explicação. Diz que a escola não existe para educar as crianças nos que diz respeito a ética, moral, política ou religião, pois desrespeitaria as posições e valores dos pais.

Eu já vi matérias mostrando livros com viés claramente político-partidários indicados pelo MEC e não concordo com seu conteúdo.

Porém, a neutralidade do Escola sem Partido é das maiores mentiras que já vi. A tal neutralidade é a ultra direita disfarçada e o desejo de tirar a visão crítica dos jovens.

Por trás de respeitar a religião está tirar Darwin dos currículos.

Por trás da neutralidade na história, está a defesa da ditadura que começou em  1964.

Por trás de não falar de ética e moral está o fim da defesa da mulher, do gay, do negro…

A doutrinação de esquerda que me foi dada  era ruim, cheia de falácias e utopias bobas. Mas ainda assim, é muito melhor que está sendo proposto. No mínimo, ensinava a contestar, a questionar, a duvidar.

O projeto da Escola Sem Partido é a pior coisa ser introduzida no Brasil desde que os Europeus introduziram seus vírus e bactérias em 1500.

p.s. Esse texto ficou sério e chato, para animar segue uma musiquinha com o coral do exército vermelho:

 

 

 

Pessach e a Liberdade

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Chegamos a festa de Pessach, a Páscoa judaica, quando lembramos a fuga do Egito, evento que definiu os judeus como povo.

O tema central da festa é a liberdade e por coincidência, este ano, Pessach cai praticamente junto com o feriado de Tiradentes, o mártir assassinado quando lutava pela independência do Brasil.

Talvez haja algo em comum entre os dois libertadores além  das espessas barbas e do fato de ambos estarem em novelas no horário nobre.

Eles representam um conceito tão intuitivo, mas ao mesmo tempo de significado tão amplo.

Quando os judeus deixaram o Egito eles não precisavam mais obedecer as normas do Faraó opressor, nem trabalhar carregando pedras nas obras das pirâmides. Porém, logo na saída receberam a Torah, seu código de conduta com uma infinidade de leis a serem seguidas (se fossem só os 10 mandamentos seria moleza).  Não se pode comer um monte de coisas gostosas e não se pode fazer tatuagem. Há regra para se vestir, para casar, para criar os filhos, há inúmeras restrições. Que raio de liberdade é essa?

Tiradentes não viu o Brasil livre da opressão de Portugal. Foi executado trinta anos antes da Independência quando o Brasil livrou-se das amarras lusitanas. Ainda hoje, quando eu vejo as pessoas se amontoando nos trens para viajarem duas horas e chegar a um emprego que detestam, eu me pergunto – “Essas pessoas são livres”?

Será que somos livres quando trabalhamos mais de 4 meses no ano só para pagar impostos? E quando nos metemos em prestações que restringem nosso orçamento?

Questões difíceis. Não pensem que trago a resposta no bolso.

Talvez a verdadeira liberdade seja um estado de espírito, seja encontrar no mundo cheio de regras nosso valor individual, o que nos diferencia, o que nos completa. Talvez encontremos a liberdade dando sentido a tudo o que fazemos, lutando para manter a dignidade e nossos valores mesmo quando a situação nos leva na direção contrária.

Os judeus acreditam que nunca saímos do Egito completamente. Dentro de nós há sempre um faraó louco para nos escravizar e que a festa de Pessach é uma ocasião para enfrentarmos esse faraó e avançarmos na nossa libertação individual.

Hoje, 3.500 anos depois da saída do Egito e 220 anos depois da morte de Tiradentes, o mundo continua cheio de armadilhas contra a liberdade. Gente que mata quem pertence a tradições diferentes. Gente que tenta restringir nosso direito de pensar. Atire a primeira pedra quem nunca viu um censor nas redes sociais.

Continuemos nossa luta. Uma luta árdua e individual pelo direito de escolher nossos caminhos e para entender pelo menos um pouco mais o significado dessa palavra aparentemente tão clara: Liberdade.

 

 

Sim aos refugiados

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Vou usar esse espaço para um pequeno manifesto que nada tem em comum com as crônicas que gosto de escrever.

O Brasil devia se oferecer para receber um número determinado de refugiados sírios e afins. Outros países da América Latina também deveriam fazer isso.

Quantos? Não sei, com certeza uns milhares.

Hoje já tempos essa política de receber refugiados, mas devemos ir mais longe, o mundo vive uma emergência.

Recebemos anteriormente fugitivos de guerras e fome: Italianos, espanhóis, libaneses, bolivianos, judeus, alemães, poloneses, coreanos, japoneses e outros ajudaram a criar o que temos de mais bonito, o nosso multiculturalismo.

Dilma, faça o que é certo, abra as nossas portas e tente convencer nossos vizinhos a fazer o mesmo.

O dia em que atirei meu carro contra um adolescente maneta

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Agora, lendo o título da crônica, me sinto um tanto culpado. Me sinto uma pessoa má. Mas tenho alguns atenuantes, prefiro contar a minha história e deixar que o leitor me julgue.

Isso aconteceu há umas duas semanas. Eram pouco mais de sete da noite e já estava totalmente escuro. Parei em um semáforo de uma importante e movimentada rua de Santo André. É uma rua de três faixas eu estava na do meio e era o primeiro carro antes da faixa de pedestres.

Aliás, preciso contar que desde que sofri um sequestro relâmpago há uns vinte anos, eu evito parar próximo a faixa ou ao carro da frente. Eu sempre paro de forma em que consiga visualizar uma hipotética rota de fuga. Claro que nunca pensei que efetivamente ia precisar usá-la.

Pois bem, voltando ao incidente, eu acabava de parar meu carro na faixa do meio, longe da faixa de pedestres e sem ninguém a minha frente, quando surge um daqueles famosos malabaristas de farol e suas inseparáveis bolinhas. Chamou-me a atenção o fato dele ter apenas um braço e fiquei curioso em saber como executaria a peripécia. Mas não tive tempo para isso. Um homem se aproximou rapidamente do meu carro, gesticulando na minha direção. Assustado, engatei primeira e saí cantando pneu. Quase atropelei o jovem malabarista (que se esquivou) e cruzei o sinal arriscando bater em quem viesse.

A história durou poucos segundos. Não tive tempo de entender qual a intenção do homem que me assustou. Pensando agora com mais calma, não posso nem ter certeza de que se tratava de um assalto. Mas eu deveria ficar esperar para saber?

Por um lado fiquei orgulhoso do meu reflexo e destreza, por outro, envergonhado em ter agido como um monstro em relação ao adolescente.

Depois de me acalmar pensei no nosso pobre e amedrontado país, que está se acostumando a ver mais de 50.000 cidadãos serem assassinados todos os anos. Pensei em nossas ruas repletas de muros com arame farpado, cada casa transformada em prisão. Pensei nas pessoas simples que são assaltadas todos os dias os pontos de ônibus da periferia e pensei na minha infância, livre nas ruas de São Bernardo.

Pensei no medo nos tornando cada vez mais egoístas.

Queria ter uma sugestão de solução para oferecer e tornar este texto um pouco mais otimista, mas não tenho. Apenas torço para não viver situações como esta de novo.

Morte

Death pathway

Estou lendo “Um Dia”, best seller do inglês David Nicholls. E esse simpático livrinho de amor me deu vontade de escrever sobre a morte.

Provavelmente não seguiria em frente se ontem não fossem noticiadas três mortes que me chamaram a atenção.

_ O Filho do Governador Alckmin, muito jovem, que morreu num acidente de helicóptero

_ Ricardo Della Rosa, um diretor de fotografia brasileiro brilhante e admirado por todos, levado pelo câncer aos 41 anos.

– Manoel de Oliveira, cineasta português que faleceu aos 106 anos de idade (isso mesmo, 106).

Até que um analista prove o contrário, a morte não é uma preocupação que me ataca em especial, não há ninguém em minha família doente ou que inspire maiores preocupações. Foi realmente a soma dessas situações que acabou me despertando para o tema.

Pensando nos mortos de ontem, dois provocaram imensa comoção. Eram jovens, se esperava que fizessem muito, que aproveitassem da vida mais do que aproveitaram. Eles perderam anos em potencial e as pessoas que os conheciam ficaram sem o prazer de seu convívio. No caso do Della Rosa, o mundo perdeu imagens maravilhas que ele certamente faria.

Quando falamos porém do Manoel Oliveira, a dor é menor. Por mais que isso pareça insensível, era de se esperar que ele partisse e não há como dizer que o tempo que tinha para criar, fazer o que gosta ou conviver com quem amava tenha sido pouco.

Mesmo assim, sua família e os mais próximos devem ter sofrido. Quem está preparado para morte? Quem pode aceitá-la com serenidade?

No livro de David Nicholls, que inspirou essa crônica, o personagem Dexter pensava justamente isso, não estar preparado para a grave doença da mãe:

“…Sempre imaginou que aos quarenta e cinco ou talvez cinquenta anos ele teria algum tipo de equipamento mental que o ajudasse a lidar com a iminente morte de um dos pais, se ao menos tivesse esse equipamento, estaria tudo bem. Poderia se mostrar nobre e altruísta, sábio e filosófico. Talvez pudesse ter seus próprios filhos, usufruindo assim da maturidade que vem junto com a paternidade, a compreensão da vida como um processo.

Mas ele não tem quarenta e cinco anos, tem vinte e oito. E a mãe tem quarenta e nove. Houve um terrível engano. A sincronia não funcionou, e como ele poderia lidar com isso, a visão extraordinária da mãe minguando daquele jeito?…”

Caro Dexter, se você tivesse filhos e os tais quarenta e cinco anos, nada adiantaria, somos sempre crianças diante da morte.

Creio que até o moribundo seja mais preparado para enfrentar a própria sina do que os que ficam.

No Brasil poucos conheciam Levon Helm, vocalista e baterista do “The Band”. Ele morreu de câncer em 2012. Em 2011 ele fez uma pequena apresentação ao lado de amigos num evento. É interessante ver no vídeo ele tocando banjo, muito rouco e numa magreza assustadora. Enquanto seus companheiros fazem força para conter as lágrimas, Levon está muito feliz, soltando o pouco da voz que sobrou, aproveitando o momento. Enquanto todos olham para ele e pensam na morte, Levon curte o que lhe resta da vida.

Agradeço a Levon Helm pela pequena lição. Vamos aproveitar o que temos, curtir o momento, ficar próximos daqueles que nos fazem bem. Afinal, jamais saberemos se vamos comemorar os cem anos, como fez Manoel de Oliveira, ou se sucumbiremos de repente, como infelizmente acontece com tantos.

Para quem se interessar, o vídeo de que falei: