O Amigo que não me conhecia

O Amigo que não me conhecia

Hoje morreu um amigo que não me conhecia. Ricardo Boechat era para mim o que foi para muita gente, uma companhia constante das manhãs.

Só o rádio é capaz disso. No rádio há uma proximidade mágica com os apresentadores. Ouvimos suas vozes em conversas soltas diariamente como se não houvesse distância nos separando e ninguém sabia se aproveitar disso como Boechat. Era aberto o suficiente para falar bobagens e soltar um palavrão cabeludo de vez em quando, como se estivéssemos com ele numa mesa de bar.

Os últimos tempos estão sendo duros para os fãs do rádio. O grande locutor esportivo Deva Pascovicci morreu no acidente da Chapecoense; Joseval Peixoto e Salomão Esper, ícones do jornalismo se aposentaram e agora o maior dos âncoras se foi. Ouço fielmente a Bandnews por causa dele, dos comentários inteligentes e muitas vezes duros, das brincadeiras soltas, do jeito humano e confessional.

Boechat representa valores opostos aos do novo Brasil.

No país que cultua a mentira, ele era a luta constante pela verdade.

No país que cultua o ódio, ele era a alegria.

No país que cultua a ofensa, ele era o respeito.

Quem sabe as pessoas aprendam um pouco com o seu bom senso e substituam o revanchismo e a fúria por uma postura mais ponderada, mesmo nos momentos de endurecer.

Boechat nos ensinou a rir de nós mesmos e acho que essa alegria foi um de seus maiores legados. Buemba Buemba!

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Fake Nilma

Fake Nilma

Nilma era o sucesso do salão. As clientes diziam que tinha mãos de fada. Em anos de profissão jamais machucara um dedo sequer. Quando pintava as unhas, o esmalte durava uma semana, mesmo que a dona jogasse vôlei de praia ou praticasse jiu-jitsu.

Mas Nilma tinha um defeito. Ela atrasava um pouco. Diariamente chegava esbaforida no salão, cruzando a porta num arroubo e anunciando as notícias que ouvia no Rádio.

– Morreu aquele ator da novela!

– Ceis viram o furacão nos Estados Unidos?

Foi assim por anos. No caminho ouvia as notícias pelo fone de ouvido e durante o dia as compartilhava com as clientes no salão.

_ Deus me livre tanta corrupção!

Porém nos últimos dois anos Nilma passou por uma mudança em sua vida. Ela substituiu seu velho companheiro, o rádio, por um novo amor, o Whatsapp.

Agora, a caminho do trabalho, não ouve mais as notícias. Ela as compartilhava diretamente do celular, junto com imagens de Minions, gatinhos e saudações à sexta-feira.

Desde então, Nilma, continuou chegando esbaforida e atrasada, mas no lugar de anunciar o furacão, passou a mostrar o vídeo do homem de terno que caiu na enxurrada ou de bebês gargalhando.

Com a proximidade das últimas eleições Nilma foi ficando ansiosa. Pelo Zap andava recebendo informações de arrepiar Nunca se importara com política, mas vinha ficando indignada com as notícias, que não podia silenciar.

_ O Lula é o líder do PCC.

_ O Haddad distribui mamadeiras de pinto nas escolas.

_ Os holandeses masturbam nenês.

_ As vacinas são armas comunistas.

Algumas clientes do salão passaram a se incomodar com as notícias sem sentido de Nilma e ao mesmo tempo, ela estava tão desesperada com as novidades terríveis que foi ficando menos cuidadosa. Depois de anos sendo a manicure perfeita, Nilma começou a falhar,  deixando unhas mal cuidadas e ferindo os frágeis dedos das patroas.

Não demorou e Nilma perdeu o emprego.

Agora passa o dia em casa, com o celular nas mãos trêmulas de ansiedade, compartilhando de forma frenética as notícias importantes que recebe:

_ Os cubanos explodiram brumadinho!

_ Jean Wyllys mandou matar o presidente.

_ FHC é comunista!

Nilma agora acredita que está fazendo um importante serviço para o Brasil.

200 posts

200 posts

 

A WordPress acaba de me informar que publiquei 200 posts no Blog. Uau! até eu me assustei agora…

Está sendo bem divertido, conheci gente legal e participei de ótimas conversas. Bora pros 400 posts.

A Prisão de Lula

lula cunha prisao.jpg

Caro leitor, você já ouviu falar em SEO?

Resumindo, é um conjunto de técnicas para aumentar as chances de seu site ou blog ser encontrado no Google.

Imagine que você tenha uma pet shop na Penha. Se alguém procura no Google “pet shop Penha” e sua empresa aparece entre os primeiros na pesquisa, seu potencial de vendas cresce muito.

Você também pode pagar por um anúncio do Google, mas se tiver conhecimento das técnica de SEO, consegue ótimas colocações sem precisar investir nada.

Há um tempo fiz um texto chamado Amanda Nudes, sobre uma moça que fantasiava em mandar nudes para desconhecidos. Até hoje esse texto é visitado por pessoas que pesquisam “manda nudes” no Google.

Há várias técnicas SEO, como o uso de tags, palavras chave, a escolha certa do nome do arquivo de imagem, sua relevância histórica em relação  ao assunto abordado e principalmente, o título da matéria.

Então, nunca se esqueça, se você quer melhorar a posição de seu site ou blog nos mecanismos de busca, use títulos chamativos.

 

Glória Pires e o meu aniversário

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Meu aniversário não foi na segunda-feira porque fevereiro resolveu ter um dia a mais. Assim, no dia em que deveria ser o meu aniversário o grande tema das redes sociais era a Glória Pires.

Enquanto eu dormia, o público que acompanhava a cerimônia do Oscar se divertiu com o fato da atriz não ter resposta para todas as perguntas e não ter visto todos os filmes.

Imediatamente, milhões de memes como o da ilustração acima foram criados.

No nosso mundo contemporâneo onde todos são gênios e sabem profundamente de qualquer assunto, onde as certezas são tão grandes que as pessoas se sentem no direito de ofender umas as outras só porque tem opiniões divergentes e onde qualquer pensamento contrário é motivo para perseguição, eu comecei a admirar aqueles que tem dúvidas.

Glória Pires fez o que todos se recusam a fazer e  foi atacada por isso. E teria sido atacada de qualquer maneira se tivesse agido de outra forma. Os sabichões da internet sempre tem motivo para agredir alguém. Chico Buarque que o diga. Sendo ofendido eternamente embora viva recolhido e escondido das multidões cibernéticas.

Do meu lado, como resolução de ano novo, decidi continuar um ignorante convicto, sem sofrer por ter dúvidas em relação a tudo. Minha única certeza é que Glória Pires será uma nova fonte de inspiração (sem que a Scarlett Johansson perca seu posto).

Sejamos todos incapazes de opinar, não vejamos o filmes, não saibamos as  respostas. Que a solução da crise econômica passe longe das nossas conversas de botequim,  que os culpados da crise política desapareçam de nossas timelines. A ignorância é o novo pretinho básico. E sejamos felizes.

Toda Unanimidade no Oscar

A melhor cobertura feita por quem não viu os filmes e dormiu durante a cerimônia.

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A festa de ontem deve ter sido incrível, pena que dormi. Mas a culpa não foi minha. alguém programou um musical com a chata canção do 007 no começo. A música em português devia se chamar “Boa Noite Cinderella”. Se eu voltar a ser pai prometo que compro o disco. Mas vamos aos fatos.

  • Chris Rock encarou de frente a polêmica da ausência de negros nas indicações de forma divertida. Concordo com a academia nesse caso, o histórico recente não permite acusar Hollywood de racismo.
  •  Eu estava assistindo à festa sem tradução simultânea e só agora descobri pelas redes sociais que os comentários da Glória Pires foram o melhor da transmissão.
  • Fiquei muito feliz em rever a Charlize Theron com os dois braços.
  • Mad Max ganhou quase todos os prêmios técnicos e de arte, menos fotografia e direção. Perdeu para O Regresso. Ambos são filmes de gigantesco desafio técnico e absolutamente admiráveis.

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    Os figurinos que levaram o Oscar

     

  • Dicaprio merecia o Oscar faz tempo.
  • Enio Morricone merecia há bem mais tempo. É como se o Dicaprio esperasse até os 90 anos para ganhar a estatueta. Se eu estivesse acordado eu levantaria do sofá para aplaudir o homem que fez isso.
  • “Divertidamente” bateu nosso “O Menino e o Mundo”. Vou sugerir uma categoria nova no Oscar: “Melhor animação que não seja da Pixar”.
  • A cerimônia sempre se chamou “Oscars”, no plural? O nome mudou ou eu falei errado minha vida inteira?
  • Fecho os comentários com a linda frase dita pela Charlize Theron no palco (será que a tradução simultânea pegou?): Writers are hot (provavelmente ela pensou em nós, blogueiros).

Séries e mais séries

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Lola irritava-se – “Que mania as pessoas tem de falar de séries de TV!”.

Lola trabalhava muito, chegava em casa cansada e tinha que dar atenção ao filho, ao marido, ao cachorro, cuidar de seus afazeres, ligar para a mãe… Nunca teria tempo para assistir uma novela americana sobre zumbis.

O problema é que quando conseguiam marcar um cervejinha no bar  ou um jantar no apartamento de amigos esse era o assunto predileto.

“Eu acho que o House morre no final.”

“Eu sou apaixonada pelo Draper.”

“Essa sexta temporada não está tão boa. O Jake perdeu a graça.”

” Não me conta nada que eu perdi o último episódio.”

E lá ficava Lola calada e cabreira de não lembrar de um personagem desde a Rachel de Friends nos anos 90.

Até que um dia Lola se separou. O filho passou a ficar ora lá, ora cá e o cachorro, traidor, escolhera o ex-marido.

Assim, sem que houvesse pedido, Lola ganhou um bem que há anos perdera, o tempo. Passou a ter algumas noites por semana que pertenceriam apenas a ela. Então presenteou-se com o direito de assistir às séries de TV de que tanto ouvira falar.

Assinou o Netflix e começou com Narcos, já que sempre ficara em silêncio enquanto os amigos elogiavam a atuação do Wagner Moura. Gostou tanto do primeiro episódio que assistiu seis em sequência. Na manhã seguinte chegou atrasada ao trabalho e passou o dia inteiro com sono.

Depois disso a situação piorou. Bastava começar qualquer série que sentia uma angustia imensa que só se resolvia no último episódio. Perdia madrugadas, se irritava quando o filho demorava a dormir. Começou a ter problemas gerados pela falta de atenção no trabalho,  passava o dia ansiosa pelo destino de Walter White ou de Frank Underwood. Chegou a ver um episódio inteiro de Demolidor escondida dentro do banheiro do escritório.

E isso tudo não a ajudou nas conversas com as amigas em bar. Isso porque não havia tempo de  ir a bares ou ver as amigas. Ela desmarcava encontros, perdia compromissos, faltava a eventos. Tinha muito o que assistir, eram séries e mais séries.