Hino nas escolas

Hino nas escolas

Eu sou do tempo em que se cantava semanalmente o hino no pátio das escolas. As crianças formavam filas duplas para cada classe. De um lado os meninos, do outro as meninas, em ordem de tamanho. Eu, na condição de minúsculo, sempre era o primeiro da fila, o que de certa forma me constrangia.

Éramos lindos patriotas enfileirados em frente à bandeira nas manhãs de segunda-feira.

Porém, assim que terminava a cerimônia fazíamos nossas próprias versões dos hinos, bastante diferentes das originais.

No Hino da Independência o “Já podeis da pátria filhos” virava “Japonês tem 4 filhos”. No Hino da Bandeira, o pendão da esperança virava peidão.

Já o hino nacional tinha seguinte versão:

Ouviram do Ipiranga a Barra Funda
Dom Pedro abaixa a calça e mostra a bunda
Deitado eternamente numa cama
João e Joana sem pijama

Pinto cresce, barriga cresce,
E depois de nove meses aparece
Uma criança cheia de vida,
Com a bunda toda cheia de ferida

Tentaram nos transformar em patriotas mirins mas minha geração envelheceu sonegando impostos, furando filas, molhando a mão do guarda e transferindo multas para os nomes de terceiros. Somos contraventores natos, desrespeitando o próximo e a pátria sempre que preciso.

Parece que vai voltar a moda de cantar o hino. Acho muito bonito mas tenho poucas ilusões em relação ao resultado prático da empreitada. Continuo desconfiando que valorizar o professor ainda é mais importante.

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Fake Nilma

Fake Nilma

Nilma era o sucesso do salão. As clientes diziam que tinha mãos de fada. Em anos de profissão jamais machucara um dedo sequer. Quando pintava as unhas, o esmalte durava uma semana, mesmo que a dona jogasse vôlei de praia ou praticasse jiu-jitsu.

Mas Nilma tinha um defeito. Ela atrasava um pouco. Diariamente chegava esbaforida no salão, cruzando a porta num arroubo e anunciando as notícias que ouvia no Rádio.

– Morreu aquele ator da novela!

– Ceis viram o furacão nos Estados Unidos?

Foi assim por anos. No caminho ouvia as notícias pelo fone de ouvido e durante o dia as compartilhava com as clientes no salão.

_ Deus me livre tanta corrupção!

Porém nos últimos dois anos Nilma passou por uma mudança em sua vida. Ela substituiu seu velho companheiro, o rádio, por um novo amor, o Whatsapp.

Agora, a caminho do trabalho, não ouve mais as notícias. Ela as compartilhava diretamente do celular, junto com imagens de Minions, gatinhos e saudações à sexta-feira.

Desde então, Nilma, continuou chegando esbaforida e atrasada, mas no lugar de anunciar o furacão, passou a mostrar o vídeo do homem de terno que caiu na enxurrada ou de bebês gargalhando.

Com a proximidade das últimas eleições Nilma foi ficando ansiosa. Pelo Zap andava recebendo informações de arrepiar Nunca se importara com política, mas vinha ficando indignada com as notícias, que não podia silenciar.

_ O Lula é o líder do PCC.

_ O Haddad distribui mamadeiras de pinto nas escolas.

_ Os holandeses masturbam nenês.

_ As vacinas são armas comunistas.

Algumas clientes do salão passaram a se incomodar com as notícias sem sentido de Nilma e ao mesmo tempo, ela estava tão desesperada com as novidades terríveis que foi ficando menos cuidadosa. Depois de anos sendo a manicure perfeita, Nilma começou a falhar,  deixando unhas mal cuidadas e ferindo os frágeis dedos das patroas.

Não demorou e Nilma perdeu o emprego.

Agora passa o dia em casa, com o celular nas mãos trêmulas de ansiedade, compartilhando de forma frenética as notícias importantes que recebe:

_ Os cubanos explodiram brumadinho!

_ Jean Wyllys mandou matar o presidente.

_ FHC é comunista!

Nilma agora acredita que está fazendo um importante serviço para o Brasil.

A pistola do Benê

A pistola do Benê

Benê nunca havia ficado tão feliz numa eleição.

Ao longo dos anos sempre votara no PSDB como antídoto contra o PT, mas agora, em 2018, pela primeira vez votou num candidato por quem tinha verdadeira admiração. Bolsonaro era seu sonho de consumo e ele é o nosso presidente.

Benê amava tudo a respeito do Bolsonaro: a história, as frases polêmicas, a esposa, os filhos, o partido e os amigos. Porém, entre todas as propostas do velho político, o que mais deixava Benê feliz era a facilidade para a posse de  armas.

_ Quando liberar a posse compro uma pistola na hora.  Quero ver se vagabundo aparece aqui em casa.

_ A gente mora no 15º. andar de um prédio super seguro. Não vai aparecer vagabundo aqui – Lygia respondia entediada, enquanto tirava o esmalte das unhas do pé – Também votara em Bolsonaro mas não tinha a mesma empolgação do marido, nem de longe.

Os sonhos de Benê foram se realizando um a um e finalmente veio a flexibilização da posse de armas. Logo no primeiro dia ele comprou uma Taurus 838 linda de morrer.

Chegou em casa e Lygia havia encomendado uma pizza, mas Benê não a acompanhou no jantar. Ficou concentrado na poltrona, lendo e relendo o manual, manuseando a bichinha que esperara tantos anos para ter.

A atitude se repetiu por duas noites. Lygia ficava na mesa sozinha enquanto Benê montava e desmontava a arma, colocava e tirava os cartuchos e fazia umas poses estilo Robert de Niro em Taxi Driver, até que Lygia se irritou.

_ Larga essa merda e vem comer, parece criança.

A cabeça de Benê ficou imediatamente vermelha, as veias do pescoço saltaram e ele levantou-se subitamente, segurando a pistola de forma ameaçadora, mas sem apontar diretamente para Lygia.

_ Qual o Problema! – Ele gritava – Vai me encher o saco? Isso aqui é pra matar vagabundo, mas ajuda a mostrar quem manda!

Lygia segurou o choro e jantou sozinha. No dia seguinte esperou ele sair para fazer as malas, deixando um bilhete lacônico na mesa.

Meu advogado liga para o seu.

Quando chegou em casa, Benê ficou assustado e revoltado por uns minutos, mas depois pegou a pistola na gaveta e começou a acariciá-la. Tão linda, tão lisinha. Passava o cano grafite escuro pelo braço como se deixasse a pistola devolver-lhe as carícias e depois encostava ela inteirinha nas bochechas, chegando perto de beijá-la, num ritual que se repetiu por muitos e muitos anos de solidão.

Grampearam o presidente

Já grampearam o presidente. Nada de novo. Aconteceu com os últimos 3. Com ou sem motivo, se você ganha uma faixa verde-amarela pode ter certeza que nela já tem um microfone escondido.

Porém, com o Moro no Governo vai ser mais difícil divulgarem uma conversa indevida, ou pelo menos, deveria ser mais difícil. Pois este blogueiro conseguiu em primeira mão uma gravação de hoje cedo feita diretamente do gabinete presidencial. Prepare-se leitor, você saberá tudo o que acontece no coração do comando tupiniquim.

Na conversa abaixo transcrita, Bolsonaro interage com um assessor ainda não identificado. Estamos no sétimo dia de mandato e o diálogo começa assim que ele chega ao trabalho, logo depois de beijar o retrato do Trump.

– Bom dia, pega o meu Ipad que hoje eu tô com umas tiradas ótimas para zoar os petralhas no Twitter.

– Não podemos mais, senhor presidente. Agora o Secom será responsável por suas postagens em todas as mídias sociais. Lembra?

– Lembro, catzo. Mas aquelas bicha fica me zuano direto (sic). Não posso nem responder?

– Infelizmente não, excelência.

O presidente fica um pouco em silêncio. Ouve-se um barulho de batuque na mesa, depois ele retoma.

– Será que tem uns jornalistas na frente do prédio? Eu posso ir adiantando as novidades da economia pra eles…

– O Paulo Guedes me pediu para não deixar vossa excelência falar de economia. Disse para que eu tentasse evitar de qualquer maneira.

– É verdade. Ele e o Marcos Cintra me proibiram mesmo…

Novo silêncio.

– O senhor quer outro exemplar de palavras cruzadas?

– Não precisa. Vamos dar um pulo no Congresso. Eu vou ameaçar quem vota contra o Governo. É hora dos esquerdistas vagabundos verem quem manda nessa merda.

– Senhor presidente, o Onyx já deixou claro que o senhor não pode fazer isso, lembra? Atrapalha a articulação.

– Tem  razão, no tocante a articulação, tem de ficar tudo bem articulado.

Silêncio constrangedor. 8 minutos depois…

– Olha de novo a minha agenda. Tem certeza que não tem nada?

– Tem uma visita ao Colégio Militar. O senhor vai discursar para os adolescentes.

– Excelente, perfeito! Convoque a imprensa, separe meu paletó, chame meus filhos.

– Os filhos não presidente, por favor os filhos não!

Homens de Rosa

A polêmica da semana é a ministra Damares dizendo que meninas devem vestir rosa e homens azul. Evidentemente a frase não se refere a padrões da moda, mas comportamento. Ela quer dizer que homens e mulheres devem ter seus papéis sociais tradicionais resgatados.

Não é um decreto governamental que vai regredir os 100 anos de avanço das mulheres na sociedade, mas o fato curioso reforça uma impressão que tenho do novo governo.

O presidente não gosta de governar e não tem o menor interesse por assuntos chatos como impostos, leis, déficit primário ou metas de inflação.  Ele gosta de lacrar em redes sociais e irritar a esquerda no Twitter. A escolha de alguns ministros malucos, incluindo a tal ministra das meninas de rosa, tem a ver com isso.

O pior é que a esquerda mordeu a isca e deve passar os próximos 4 anos fazendo memes contra as bobagens do presidente sem grandes articulações e saídas alternativas.

Enquanto isso Paulo Guedes, Onyx e Moro governam em triunvirato.

Pode dar certo, pelo menos do ponto de vista das classes médias e altas, na bolha onde vivo. Meu círculo de amizades pertence à camada da sociedade que frequenta o Outback, uma galera que não dá 1% da população.

Para esses, se 200 cidades ficam sem médicos ou se índios são dizimados para plantar soja não faz a menor diferença. Mesmo o aumento criminoso dos salários mais altos do governo não é problema. O importante é xingar o PT e se preocupar com a saúde dos venezuelanos.

Enquanto a ministra Damares fazia seu pronunciamento a bandeira que tremulava atrás dela não era brasileira. Nossa bandeira não ficou vermelha, mas está muito longe do verde e amarelo. Quem sabe não abandonamos de vez essas cores e adotamos uma bandeira azul e rosa que agradará a ministra e lembrará um dos poucos orgulhos nacionais que unem homens e mulheres, laicos e religiosos, o Guaraná Jesus.

A volta aos bons tempos

A volta aos bons tempos

O leitor do blog, já está familiarizado com meus textos, sabe que não sou dos sujeitos mais inteligentes. No português claro, sou meio burro mesmo. Para você ter ideia, até hoje tenho dificuldade em entender o imenso ódio ao PT. Mas isso não é nada. Acho ainda mais confusa a escolha de Bolsonaro como o Salvador da pátria.

Alguns amigos me dizem que não havia opção.

Como não? – Penso eu enquanto rumino minha alfafa. A direita podia escolher o Amoedo, o Meirelles, o Alvaro Dias e o Alckmin. Todos experientes, administradores testados. Ainda tinha o Cabo Daciolo para os mais religiosos. Por que escolheram a pior opção?

Pois eu andei matutando e observando as postagens dos amigos nas redes e no Zap e cheguei a uma teoria, daquelas bem malucas que povoam meus textos. Vamos ver se o leitor concorda.

O brasileiro é um conservador vivendo num mundo em plena transformação.

As pessoas da minha idade, não sabiam o que era um gay. Havia a bicha. Uma figura patética e caricata. Mas nos nossos cotidianos, o gay não existia e as famílias não aceitavam sua presença. O mesmo acontecia com mulheres chefes de família. Era um mundo de compartimentos separados e papéis claros. A autoridade pertencia ao macho provedor.

Durante os últimos 30 anos aceitamos bem as mudanças. Aceitamos que o sobrinho gay trouxesse o companheiro para a ceia de natal. Até curtimos o rapaz. Aceitamos que negros e gente de tipos e origens diferentes invadissem nosso mundo fechado de brancos de classe média. Somos abertos a mudanças.

Mas homens da minha geração chegaram próximos aos 50 num mundo totalmente diferente. Difícil de lidar. Abrimos a porta para os gays e de repente entraram negros, feministas, transgêneros, cotas, tatuagens, piercings e arte transgressora,  pressionando  os limites do nosso conservadorismo.

O tiozinho do churrasco aceitou bem o sobrinho gay, mas não consegue aceitar a cota pra transgêneros no concurso público ou o adolescente que sai de batom na Paulista.

A direita percebeu isso há anos e colocou lenha na fogueira do Whatsapp: O Peladão do Museu, a exposição de arte gay, a peça Macaquinhos, uma série de eventos sem importância viraram escândalos desnecessários, mas ajudaram o brasileiro tradicional a achar que o mundo está moralmente arruinado. Foram milhões de memes mentirosos associando a esquerda à pedofilia.

Bolsonaro não precisou falar de emprego como fazia Alckmin ou de experiência administrativa como fez Meirelles. Não precisou falar de corrupção como Alvaro Dias ou de um Estado eficiente, como Amoedo. O Brasileiro conservador por natureza está preocupado com o fictício Kit Gay nas escolas, criando um ambiente onde Bolsonaro é a referência.

O Brasileiro sonha com a volta de um passado bucólico onde branco é branco, preto é preto, homem é homem e mulher é mulher. Um passado onde o macho provedor é autoridade da família e da sociedade.

Bolsonaro é esse macho provedor autoritário, nesse campo ninguém ganha dele. Ele está propondo uma volta ao passado e as pessoas já compraram essa ideia. Voltemos ao meio do século XX, quando as coisas faziam sentido, quando caçar era divertido e derrubar as matas necessário. Voltemos ao século XX antes dos nordestinos invadirem as cidades do Sul, numa época em que não havia mulheres mandando no trabalho. Voltemos aos anos 60, enquanto o resto do mundo avança a passos largos num maravilhoso e revolucionário século XXI.

O Lado Bom da Ditadura 2

O Lado Bom da Ditadura 2

Há uns anos fiz um texto chamado “O Lado Bom da Ditadura”. De umas semanas para cá, esse texto passou a ser bastante acessado. Achei curioso. Como um texto antigo de um blog obscuro começa a receber leitores do nada?

A resposta está no Google. As pessoas estão pesquisando sobre o lado bom da ditadura e acabam me achando. Não sei o que as motiva mas imagino.

Rapazotes, fãs do Bolsonaro, entram em embates nas redes contra democratas e recorrem ao Google para encontrar argumentos. Pobres internautas, chegam ao Toda Unanimidade esperando apoio e encontram meu texto cínico e provocador. Eles devem ficar um pouco decepcionados.

Não tem problema, se quiserem argumentos sobre este tema tenho apenas um que exponho abaixo. Pode usar para esbanjar entendimento político contra seus adversários virtuais:

Algumas democracias no mundo: Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha, Japão, Dinamarca, Coreia do Sul, Israel e Suécia.

Algumas ditaduras no mundo: Cuba, Arábia Saudita, Venezuela, Coreia do Norte e Síria.

Em qual time você quer colocar o Brasil?

*Na foto, o governador não eleito Paulo Maluf dá um abraço gostoso no General Figueiredo.