Lula, num mundo paralelo

Lula, num mundo paralelo

 

Lula está certo. Ele é o melhor estrategista do Brasil. Até a prisão virou um ato político a seu favor.

Sua história é tão forte, que mesmo diante de várias evidências de corrupção, continuou o candidato favorito de 30% dos brasileiros. Isso é um patrimônio eleitoral de valor inestimável. Portanto, todos os movimentos que tem feito (jurar inocência, alegar perseguição política, se vitimizar, juntar a militância) servem para manter este patrimônio.

O processo em que foi condenado também ajudou o ex-presidente. Não havia provas, não havia gravações ou malas de dinheiro. Os discursos de promotores, advogados e juízes são intelegíveis para a maioria das pessoas. O argumento da perseguição política replicado em redes sociais é de mais fácil compreensão.

Em breve Lula será preso e continuará a sua narrativa de perseguido por trás das grades, mantendo assim a imagem de lutador que agrada a seus fãs.

Eu particularmente, sonho com o Lula num mundo parelelo, num mundo onde ele quisesse se vingar dos inimigos e mandasse às favas o que restou do seu imenso prestígio.

Nesse mundo, Lula se ofereceria para fazer delação premiada e daria os mínimos detalhes de todas as negociatas em que participou. Daria todos os nomes de quem estava envolvido, políticos, empresários, donos de jornais e revistas… Seria absolutamente delícioso ouvir todas as verdades vindas dele, com seu jeito carismático e divertido.

Evidentemente, para isso teríamos de ter um Moro do mundo paralelo. Eu tenho uma certa suspeita de que Moro deste mundo aqui não gostaria de ouvir tal delação, com medo de que certos nomes fossem citados.

 

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Pela Vereadora Marielle

Pela Vereadora Marielle

Fiquei muito triste com a morte da Marielle Franco. Eu não a conhecia, mas ao ver sua história, sua trajetória de luta, me comovi como há tempos não me comovia. Indignado, agi como todo brasileiro lutador. Escrevi um post no Facebook lamentando o ocorrido.

Eis que um amigo meu, muito militante de redes sociais me responde: “Não vais falar do motorista, o motorista também morreu”.

Que erro! Meu Deus como sou desatento. Como mostrarei minha posição política nas redes se não defender o motorista. Então fiz mais um post em homenagem ao rapaz que morreu de forma igualemente brutal.

Outro amigo então me abordou: “Não vais falar da médica? Há uma médica que foi assassinada em outro local! Sua indignação é seletiva”.

E me vi fazendo um post para a tal médica, mas meus críticos não cessaram. Queriam que eu falasse dos policiais mortos, do Celso Daniel, dos 60.000 mil assassinados anualmente.

Quase enlouqueci, comecei a me sentir um grande inconsequente. Mas nessa hora, comecei a ver que meus críticos espalhavam mentiras em relação a Marielle Franco, apoiados por figuras públicas sem um pingo de caráter. Inventavam de tudo despidos de qualquer pudor. A ordem era destruir a memória dela.

Então percebi que estas pessoas não estavam preocupadas com o motorista, com a médica, com os policiais ou com os outros mortos. Estavam preocupadas com uma mulher negra sendo homenageada no Jornal Nacional. Estavam preocupados em ver uma mulher gay de esquerda sendo sendo tratada como heroína por ter peitado as milícias e a ala corrupta da PM carioca. Coisa seus ídolos nunca tiveram coragem de fazer. Percebi que nunca defenderiam as famílias dos PM´s mortos como Marielle sempre fez.

Não sou ninguém comparado a Marielle. Enquanto eu discutia a corrupção em botecos, ela colocava o dedo em riste na direção de milicianos. Enquanto eu escrevia no meu Blog, ela dava esperança a mulheres negras. Vou esquecer os críticos e prestar minhas homenagens com todas as letras. Tenho muito orgulho de ter marchado na Paulista por ela (eu não ia a uma manifestação desde 1992).

Se você quiser criticá-la, antes me diga o que fez de melhor que Marielle.

Eu nada fiz.

Escola de Samba sem Partido

Escola de Samba sem Partido

Desde de que o samba é samba é assim: A chacota, a picardia e a crítica fazem parte do carnaval. Pesquise e verás que havia marchinhas satirizando Getúlio e outros antes dele.

As Escolas de Samba sempre foram cronistas de seu tempo, falando de costumes e política. Quem não se lembra de Joãozinho 30 e seus mendigos escandalizando a Marques de Sapucaí? Coisa mais linda ver um desfile e ainda mais quando esse desfile cativa a plateia como fizeram Beija-Flor e Tuiuti.

Mas nas redes sociais e nas arenas da polarização política, as pessoas não pareciam tão empolgadas como eu.

A Beija-Flor fez uma linda crítica social, mostrou a desigualdade, a corrução, a desesperança do povo. Voltou a colocar mendigos na avenida. Usou uma metáfora de Frankstein absolutamente genial. Tinha tudo para conquistar os corações da galera da esquerda. Mas não conseguiu.

A turma do “Foi Golpe” estava encantada com a Tuiuti que satirizara Temer e os manifestantes da Fiesp. A escola também fez uma crítica inteligente mostrando que a abolição da escravatura era um desafio ainda por vencer.

O curioso, é que a galera da esquerda ao apoiar a Tuituti, tomou a Beija-flor como rival. Dava a impressão de que zoar o Temer e os coxinhas era mais mais legal do que a crítica social da escola de Nilópolis.

E a direita?

Aparentemente emburrou. Não gostou de uma crítica nem outra. Acho que vai fazer a campanha “Escola de Samba Sem Partido”.

A Jovem Pan, revoltada com críticas sociais, fez imensos editoriais falando como as Escolas são ligadas a bicheiros, como a Tuiuiti sofreu um acidente com o carro alegórico em 2017 e portanto era uma agremiação indigna. Carlos Andreazza dizia até que as fantasias estavam feias. Ninguém se comoveu com a força do samba, com a emoção do público e com o recado bem dado pelas escolas.

Ainda bem que o Brasil é maior que os torcedoes fanáticos da Jovem Pan ou das redes. As duas escolas ganharam o carnaval de 2018 e levaram o povo a cantar seus sambas cativantes.

Vejo as Escolas de Samba como uma metáfora do Brasil.

Elas tem tudo para dar errado. Nasceram em comunidades carentes, são organizadas no chão de barracões sob a influência de bicheiros.

Ainda assim fazem um verdadeiro milagre. Levam 4.000 pessoas fantasiadas, muitas delas turistas que mal sabem sambar para a avenida e desfilam em harmonia. Apresentam carros imensos iluminados, coreografias, luzes e magia.  Desfile da Sapucaí é a vitória do improvável, união de milhares, trabalho e suor que vira o jogo. Tal qual nosso país que faz tantas coisas maravilhosas de forma inesperada, onde menos imaginamos.

No lugar de criticar a satirização dos enredos, no lugar de torcer como num Fla-Flu, sugiro que no ano que vem todos se dispam um pouco de suas ideias pre-estabelecidas e caiam na folia. Antes que até o carnaval fique chato.

Lula, culpado por ser um anão

Lula, culpado por ser um anão

Assunto da semana: O Julgamento de Lula.

Já aviso que nada entendo de direito e não tenho a mais puta ideia de quem era o dono do triplex.

Por outro lado, eu entendo tudo de Game of Thrones, a série. Lembro (spoiler alert) do episódio do Julgamento de Tyrion, o anão tarado. Quando o juiz pergunta se ele era culpado por determinado crime, o anão (que era inocente) responde:

_ “Eu me confesso culpado! Culpado por ser um anão! Sou culpado por ser uma criatura horrorosa que sempre trouxe vergonha a minha família!”

Foi o desabafo de uma vida.

Agora voltemos ao petista.

Eu não tenho ideia de quem seja o dono do triplex, mas tenho certeza de que para boa parte da população, Lula sempre foi culpado, muito antes da obra no Guarujá começar. Não por determinada acusação de corrupção. Como Tyrion, sua culpa é ser quem é.

Aposto que alguns leitores aqui sentirão vontade de gritar “mas ele é ladrão!”.

Pode ser, porém não é o  comportamento (honesto ou não) de Lula que atrai os olhos para este julgamento. Não é a desonestidade de Lula que faz com que paneleiros e bolsozumbis mandem fazer faixas e saiam às ruas.

Vejam bem, Maluf foi condenado por lavar 1 bilhão de reais. É dinheiro para 555 triplexes (existe plural de triplex?). Ainda assim não houve desfiles em comemoração ou balões com Maluf presidiário. Serra foi acusado numa delação recente de ter levado 28 triplexes e isso não comoveu ninguém.

Porém Lula, com alguns imóveis sob suspeita é considerado o grande bandido da história.

Hoje mesmo ouvi o radialista Marco Antonio Villa da Joven Pan dizer que Lula é o maior bandido da história da humanidade. Isso vindo de um homem que se diz historiador.

Villa um dia desses revelou que Lula tem uma patrimônio maior do que o visível. Além dos apartamentos e do sítio em Atibaia ele teria (na palavras de Villa), um posto de gasolina em São Bernardo. Prova definitiva de que é o maior criminoso de todos os tempos.

Curiosamente, a rádio Joven parece existir exclusivamente para tocar música ruim e atacar o Lula. O mesmo acontece com a Veja que persegue o barbudo em 12 de cada 10 capas.

Eu não sei o que provoca o ódio ao petista, mas evidentemente não é a corrupção, se fosse, haveria outros políticos que provocariam repugnação maior. E isso não há.

Um apressadinho dirá que o PT destrui o Brasil e trouxe 14 milhões de desempregos. A ele eu reponderei que o ódio a Lula era idêntico quando tudo ia bem e o Brasil crescia e o emprego bombava.

A resposta pode estar no editorial de hoje do Marco Antonio Villa. Ele disse que espera ver Lula preso para as coisas no Brasil serem como eram antigamente. Entendo o que ele quis dizer. Antigamente não tinha pobre em cargo importante. Antigamente os donos do poder eram pessoas nascidas das famílias certas.

Se eu fosse o Lula, pediria a palavra no dia do julgamento. Imitaria Tyrion.

_ Quero dizer que sou culpado!  Culpado por nunca ter pertencido aos grupos aceitos para mandar, para dominar. Culpado por não ser um dos 5 brasileiros que detem 50% da renda do país! Culpado por ser nordestino. Por ter sido operário. Culpado como a maioria  dos brasileiros, a quem se culpa pela pobreza, pela falta de mérito. Culpado por ser um anão!

Será que sou petista? — Toda Unanimidade

Post de 2016 para matar saudades…

Sou humano, confesso, por mais que resista não escapo das discussões em redes sociais. Mea culpa, mea maxima culpa. E o tema do momento, como não pode deixar de ser, é o balaio de gatos que alguns insistem em chamar de política nacional. Em um desses embates virtuais fui chamado de petista por um sujeito que […]

via Será que sou petista? — Toda Unanimidade

Somos todos Bolsonaro

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Encontrei Jair Bolsonaro sem querer numa padaria perto da Paulista, há uns meses. Ele chamava pouca atenção enquanto tomava café no balcão numa tarde chuvosa. Sentado próximo, pude ouvir a sua conversa com dois funcionários. Praguejava contra os políticos, todos iguais, e dizia que sem pulso, o Brasil não tomaria jeito.

Pensei em intervir na conversa mas tenho alergia a intervenções e encarei meu pão na chapa calado e pensativo.

Depois o vi na fila do Aeroporto, onde falava com dois amigos e dizia algo como:

“Eu não sou preconceituoso mas…”

Todos sabem o que vem depois do “mas” quando a frase começa assim. Um terrível discurso sobre os negros não darem certo em lugar nenhum. “Veja os japoneses, chegaram pobres no Brasil…”

A coincidência maior foi ter encontrado Bolsonaro uma terceira vez. Agora dirigindo um Uber. Pedia a volta dos militares ao poder enquanto gentilmente me oferecia balas 7 Belo. Pode ser estranho, mas neste dia Bolsonaro era uma mulher ligeiramente obesa e muito simpática. Falou dos filhos como havia falado de política e dei a ela 4 estrelas no final da corrida.

Nos dias seguintes comecei a encontrar o Bolsonaro em muitos lugares: No mercado, na banca de jornais, no trabalho, na oficina mecânica. Ele assumia várias formas e jeitos, era alto, baixo, magro, moreno, loiro, bigodudo, peituda e até grávida.

Hoje mesmo, enquanto voltava para casa, o vi várias vezes no metrô. Falava do ódio aos vagabundos, de chineses, de artistas de esquerda, de presidiários que levam uma vida de marajá nas prisões. Pedia armas para pessoas de bem, maldizia o PT e lembrava saudoso dos tempos do Figueiredo.

Uma hora me vi cercado por eles, milhares de Bolsonaros que riam, faziam do V da Vitória e e apontavam para mim. A porta do vagão abriu e eu corri, desviando de Bolsonaros nas ruas, nos carros, nos andaimes, nos faróis.

Cheguei em casa com o coração disparado, o suor escorrendo em esguichos. Respirei fundo e pensei em me lavar, mas parei assustado, sem coragem de olhar o espelho, com medo da imagem que veria refletida.

Lula, Jesus e Luke Skywalker

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O leitor que não é familiarizado com roteiros talvez não tenha ouvido falar na “Jornada do Herói”.

Trata-se de uma estrutura básica narrativa onde o herói é um jovem com algum tipo de predestinação messiânica. Este herói (que ainda não conhece sua missão) sai de casa e se lança numa aventura onde vão aflorar seu heroísmo e habilidades especiais, até que se confirme a profecia.

Se você prestar atenção em Guerra nas Estrelas, Matrix, Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Jogos vorazes verá que todos se encaixam neste formato. Aliás, as origens da Jornada do Herói vem da antiguidade. As histórias bíblicas das vidas de Moisés e Jesus são típicos exemplos.

E onde entra o Lula na história?

A vida de Lula (excluindo-se os últimos anos) tem as estrutura narrativa idêntica à maioria destes personagens. Ele nasceu um ser humano comum, pobre, pertencente a um mundinho pequeno. Com o tempo, desenvolvendo habilidades de negociação, convencimento e carisma,  Lula evoluiu, enfrentou inimigos, dificuldades, até se parecer com um Messias que saiu do povo para salvar esse mesmo povo.

Nos primeiros anos de seu goveno, a profecia se concretizou: A inflação caiu, a economia cresceu, o desemprego sumiu, ganhamos a Copa. A narrativa perfeita se fechou.

Porém, por mais lindo que tenha sido observar uma Jornada do Herói na vida real, Lula não era Harry Potter e muito menos Jesus Cristo. Pena que seus seguidores acreditaram nisso. Ainda Pior, o próprio Lula parecia sentir-se ungido.

As maracutaias que vieram à tona mostram que a vida real é menos óbvia que a ficção e foi justamente o que disse Palocci na carta de desfiliação que enviou ontem.  Ele questiona se o PT é de fato um partido político ou uma “seita guiada por uma pretensa divindade”.

Lula nasceu pobre como Jesus, fez a travessia no deserto como um Moisés, tinha o corpo marcado como Harry Potter e enfrentou o Império como Luke Skywalker. Isso ajuda explicar porque tantos acreditaram em seus poderes. Porém, ao contrário de Frodo, Lula não resistiu a tentação do anel e o anel destrói que se deixa seduzir por ele.

A Jornada do Herói é linda, mas pertence ao mundo da narrativa, da ficção. Não podemos esperar que um Messias surja no Planalto e venha nos salvar. É o que muitos desejam quando idolatram seus candidatos. Mesmo o clamor de alguns pela volta dos militares não deixa de ser uma esperança num ente mágico que vai nos redimir.

Não se iludam meus caros, nosso futuro depende do trabalho com erros e acertos de muitos homens de carne e osso e não da Força de Luke Skywalker, por mais sedutor que isso possa parecer.