O ódio venceu

O ódio venceu

Caros amigos, lamento informar que o ódio é maior e mais forte que o amor. Sei que isso vai entristecer a maioria dos leitores, mas devo dizer que somos exceções. Poucos ainda cultivam o esse sentimento tão ultrapassado como o amor. A maior parte dos brasileiros escolheu o ódio e está muito feliz com ele.

Não adianta um sujeito proferir mil palavras de amor, o ódio acaba com ele em um único disparo. John Lennon cantou Love, Love, Love e vejam o que foi feito. Martin Luther King pregou a igualdade e teve o mesmo destino,  assim como Gandhi ou aquele barbudo da Palestina que disse “amai ao próximo”.

Esse merece um parágrafo só para ele. Jesus ofereceu a outra face, perdoou seus algozes, conteve os apedrejadores. Mas no Brasil tem conservador dizendo que Jesus mandava matar vagabundo. São milhares de pessoas guiadas pelo novo profeta Olavo de Carvalho, que prega o ódio diariamente nas redes sociais.

Não importa que milhões de brasileiros dancem e brinquem o carnaval com suas famílias e amigos. Para o presidente do Brasil é necessário desmoralizar a festa e para isso basta colocar a imagem de dois degenerados nas redes. Pronto, o lindo trabalho das escolas de samba, a alegria da população brasileira, nada disso tem valor. Motivo suficiente para a horda cheia de ódio pedir a cabeça de gays e atacar a tudo e a todos.

Mas a cereja do bolo foi a morte de uma criança de 7 anos na semana passada. Muitos comemoram efusivamente nas redes sociais. Até o filho de um famoso presidente. Afinal, a criança era neta de um político de outro partido então sua morte mereceu fogos.

Agora, se você acha que a situação está feia e quer ingressar no time do amor para evitar o 7×1 do ódio, então atenção: Não adianta combater ódio com ódio. Comemorar facada, torcer por doença e festejar a desgraça alheia conta como gol contra. Cuidado, às vezes, parece que você está lutando pelo que é certo e quando se toca, acaba indo parar no outro time.

Não se iludam, estamos perdidos e seremos sempre minoria. A não ser que o mundo mude muito, as coisas são como são. Nossa única alegria é ter o coração leve por saber que estamos no time certo. Muito amor para vocês e muito amor para quem nos odeia. Um dia quem sabe, eles entenderão.

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Fake Nilma

Fake Nilma

Nilma era o sucesso do salão. As clientes diziam que tinha mãos de fada. Em anos de profissão jamais machucara um dedo sequer. Quando pintava as unhas, o esmalte durava uma semana, mesmo que a dona jogasse vôlei de praia ou praticasse jiu-jitsu.

Mas Nilma tinha um defeito. Ela atrasava um pouco. Diariamente chegava esbaforida no salão, cruzando a porta num arroubo e anunciando as notícias que ouvia no Rádio.

– Morreu aquele ator da novela!

– Ceis viram o furacão nos Estados Unidos?

Foi assim por anos. No caminho ouvia as notícias pelo fone de ouvido e durante o dia as compartilhava com as clientes no salão.

_ Deus me livre tanta corrupção!

Porém nos últimos dois anos Nilma passou por uma mudança em sua vida. Ela substituiu seu velho companheiro, o rádio, por um novo amor, o Whatsapp.

Agora, a caminho do trabalho, não ouve mais as notícias. Ela as compartilhava diretamente do celular, junto com imagens de Minions, gatinhos e saudações à sexta-feira.

Desde então, Nilma, continuou chegando esbaforida e atrasada, mas no lugar de anunciar o furacão, passou a mostrar o vídeo do homem de terno que caiu na enxurrada ou de bebês gargalhando.

Com a proximidade das últimas eleições Nilma foi ficando ansiosa. Pelo Zap andava recebendo informações de arrepiar Nunca se importara com política, mas vinha ficando indignada com as notícias, que não podia silenciar.

_ O Lula é o líder do PCC.

_ O Haddad distribui mamadeiras de pinto nas escolas.

_ Os holandeses masturbam nenês.

_ As vacinas são armas comunistas.

Algumas clientes do salão passaram a se incomodar com as notícias sem sentido de Nilma e ao mesmo tempo, ela estava tão desesperada com as novidades terríveis que foi ficando menos cuidadosa. Depois de anos sendo a manicure perfeita, Nilma começou a falhar,  deixando unhas mal cuidadas e ferindo os frágeis dedos das patroas.

Não demorou e Nilma perdeu o emprego.

Agora passa o dia em casa, com o celular nas mãos trêmulas de ansiedade, compartilhando de forma frenética as notícias importantes que recebe:

_ Os cubanos explodiram brumadinho!

_ Jean Wyllys mandou matar o presidente.

_ FHC é comunista!

Nilma agora acredita que está fazendo um importante serviço para o Brasil.

O Lado Bom da Ditadura 2

O Lado Bom da Ditadura 2

Há uns anos fiz um texto chamado “O Lado Bom da Ditadura”. De umas semanas para cá, esse texto passou a ser bastante acessado. Achei curioso. Como um texto antigo de um blog obscuro começa a receber leitores do nada?

A resposta está no Google. As pessoas estão pesquisando sobre o lado bom da ditadura e acabam me achando. Não sei o que as motiva mas imagino.

Rapazotes, fãs do Bolsonaro, entram em embates nas redes contra democratas e recorrem ao Google para encontrar argumentos. Pobres internautas, chegam ao Toda Unanimidade esperando apoio e encontram meu texto cínico e provocador. Eles devem ficar um pouco decepcionados.

Não tem problema, se quiserem argumentos sobre este tema tenho apenas um que exponho abaixo. Pode usar para esbanjar entendimento político contra seus adversários virtuais:

Algumas democracias no mundo: Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha, Japão, Dinamarca, Coreia do Sul, Israel e Suécia.

Algumas ditaduras no mundo: Cuba, Arábia Saudita, Venezuela, Coreia do Norte e Síria.

Em qual time você quer colocar o Brasil?

*Na foto, o governador não eleito Paulo Maluf dá um abraço gostoso no General Figueiredo.

O suicídio de Janaína

O suicídio de Janaína

Muitos dirão que a decisão radical de Janaína foi intempestiva, passional. Algo deve ter se passado com ela. Porém, o que Janaína estava prestes a fazer havia sido planejado há algum tempo e seria executado com toda a tranquilidade.

Ela estava sozinha em casa. Era a noite em que o namorado ia à pós-graduação. Janaína decidiu abrir uma garrafa de Pinot Noir para saborear o momento. Baixou a luz para um tom suave e se acomodou na chaise long do terraço. Do 18o. andar, em seu apartamento, as luzes da cidade pareciam distantes.

Ela abriu o notebook. Antes do ato final, resolveu rever sua vida registrada no Facebook, primeiro passando os olhos no feed.

Havia  fotos de lugares distantes e mapas indicando viagens aéreas. Pessoas felizes fazendo selfies em Paris, na Disney e em Inhotim. Havia gente colocando fotos de gatos e reclamando do governo. Muita fake new sobre diversos assuntos e alguns textos pedindo a liberdade do Lula e investigações sobre Marielle. Janaína sentiu um tédio profundo, tomou mais um gole do vinho  e voltou novamente a atenção para o Facebook, deste vez passou a rever as inúmeras fotos que já havia publicado.

Lembrou sua viagem para a Califórnia, o curso de patisserie em São Francisco e os amigos que fez na época. Tinha fotos ainda mais antigas, do tempo em que fora casada. Jorge, o ex-marido aparecia em algumas exibindo seu sorriso que um dia fora sincero e depois tornou-se sarcástico. Ele ainda curtia um ou outro post de Janaína, mandava felicitações frias em seu aniversário. Era um homem bonito, apesar de tudo, tinha de admitir.

Reviu fotos de diversas fases profissionais. Da carreira infeliz no departamento contábil de uma construtora, das tentativas de se estabelecer como chefe até abrir a loja de bolos personalizados. Havia muitas fotos de bolos. Em formatos diversos. Bolos com noivinhos, com cachorros esculpidos em glacê, bolos que comemoraram nascimentos, aniversários, bodas de ouro. Não podia negar, seus bolos fizeram muitas pessoas felizes. Porém, o talento culinário era maior que o administrativo e Janaína, endividada, teve de fechar a loja.

Ao rever as fotos do Facebook, muitas emoções vinham à tona, muitas coisas boas. Mas  isso não seria suficiente para mudar sua decisão. Ainda assim, como sabia que era a última vez que fuçava a rede, voltou-se novamente ao feed. Tantas pessoas, tantos posts, tão pouco que a interessava. Egos e mais egos, mentiras e polêmicas inúteis. Mesmo os amigos e amigas de coração, pareciam menos interessantes na rede. Novamente a sensação de tédio.

Chegou a hora de desligar, iria seguir os passos que planejara.

***

Uma hora depois, quando Miguel chegou da faculdade, encontrou Janaína no terraço, ainda bebendo o vinho. Ele pegou uma taça e se dirigiu à garrafa.

“Alguma celebração especial?”

“Cometi meu suicídio social.”

“Oi?”

Ela levou a taça a boca antes de explicar.

“Apaguei minha conta no Facebook.”

Ele respondeu desinteressado.

“Fez bem.”

 

Quando tudo não é o bastante

Quando tudo não é o bastante

Kate Spade era uma das maiores estilistas do mundo. Bonita, talentosa, bem sucedida, ganhou tanto dinheiro que se quisesse poderia lustrar panelas usando Veuve Clicquot.

Anthony Bourdain viajava o mundo se hospedando nos melhores hoteis e comendo nos melhores restaurantes, namorava uma linda atriz italiana e era admirado por todos.

Os dois deram fim às próprias vidas entristecendo seus milhões de fãs, inclusive este desconhecido cronista.

Porém, além da tristeza, estes suicídios levantaram uma questão.

Se estas pessoas fantásticas que conquistaram tudo o que sempre sonhamos não suportaram o peso de viver, como ficamos nós, que atrasamos boletos, nos apertamos no metrô, temos nossos projetos engavetados, como nós atravessamos nossas míseras existências?

Minha impressão é que nossas vidas são ainda mais difíceis que as de gerações anteriores. Quando eu era um garoto de classe média em São Bernardo, filho de funcionários públicos que me deram absolutamente tudo, viajávamos para Águas de Lindoia em todas as férias e isso estava mais do que bom. De vez em quando almoçávamos no Dinhos da Alameda Santos e essa era a grande conquista. Sem Internet, sem o Trip Advisor e sem o canal TLC, viajar para o exterior era quase uma abstração.

Hoje, quando planejo uma viagem, estou em busca de uma experiência inenarrável. Não basta ir a Paris, é preciso se hospedar um hotel Boutique, encontrar um bistrô exclusivo que mais ninguém conhece, viajar para um vinhedo e tomar in loco um vinho que o Robert Parker indicou.

A felicidade começa a ter parámetros dos mais arredios. Pense num casamento há trinta anos. Havia comida, música e todos se divertiam. O mesmo com nossos aniversários na garagem de casa, quando capinhas de papelão enfeitavam pequenas garrafas de guaraná.

Hoje, para um casamento ser aceitável, a noiva precisa chegar de helicóptero. As pessoas tem de receber cacarecos como óculos e perucas de plásticos, as convidadas ganham Havaianas personalizadas e a despedida de solteira precisa ser em Nova York. Uma festa de aniversário infantil inclui monitores, atividades, tobogãs, tirolezas e as presenças supresa do Hans Solo e do Homem Aranha.

Evidentemente tanto o bistrô de Paris, como helicóptero do casamento ou o tobogã da festinha precisam ser compartilhados nas redes sociais. Felicidade só faz sentido se arrancar aplausos da galera.

Aparentemente, essa meta de felicidade com padrões cada vez mais inatingíveis tem trazido muitos problemas. O mundo vive uma pandemia de depressão, aparentemente, ao querer sempre mais, estamos eternamente insatisfeitos. Kate e Antonhy eram do time que efetivamente tinha essa vida de sonho, repleta de experiências exclusivas e mesmo eles parecem não ter encontrado paz de espírito.

Se você leu até aqui esperando repostas para essas questões, sinto decepcioná-lo. Não sou o sujeito que vai salvar o mundo dessa crise de desesperança. Meu único palpite é que no caminho que seguimos não vamos encontrar a tal felicidade. Talvez o caminho seja bem mais simples. Talvez encontremos o pote de ouro quando deixarmos de buscá-lo com tamanha sanha.

P.S 1 – O título do post foi emprestado do livro de mesmo nome de Harold Kushner. Vale ler.

PS. 2 – Raul Seixas ajuda a entender essa angústia em Ouro de Tolo:

Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo
pra ir com a família no jardim zoológico dar pipocas aos macacos
Ah, mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco

Kids committing suicide

Kids committing suicide

O título do post foi tirado de uma música do Pink Floyd – The Post War Dream – que eu idolatrava na adolescência. Na época, a frase era tão terrível como distante. Hoje, tantos anos depois, é ainda mais terrível, justamente por estar tão próxima.

Minha filha estuda na escola onde dois adolescentes cometeram suicídio nas últimas duas semanas. É impossível ficar indiferente.

Se a morte de crianças e adolescentes nos assombra, o suicídio é mais assustador. Afinal, parece que ser algo que nós pais deveríamos e poderíamos ter evitado.

Não sei dizer se isso é possível e muito menos se eu seria capaz de identificar em minha filha os sinais do desespero que afligiu esses garotos. Afinal, somos todos companheiros de barco nessa sociedade de infelizes e desesperados. Como poderia ser diferente com os adolescentes?

Tudo vira competição, motivo para nos compararmos, para exibicionismo. Até nossa diversão.

_ “Ei eu tenho 50 anos e vou a todos os Shows de Rock!”

_ “Estou na praia em plena quarta-feira! Como sou feliz!

_ “Vejam, eu tenho uma família funcional perfeita”.

_ “Eu supero todos os limites da preparação física”!

_ “Olhem para mim! Minhas opiniões políticas são maduras e irrepreensíveis!”

Tantos adultos carentes implorando por joinhas nas redes sociais. Enquanto isso, na reunião da família funcional perfeita, todos comem em silêncio, cada um com os olhos grudados na tela do celular”.

Não há que se culpar os pais, nem os conheço e rezo para que Deus os conforte. É preciso olhar no espelho e tentarmos ser pessoas melhores para ajudar essa geração de jovens.

Convivo com muitos adolescentes e me surpreendo com garotos e garotas maravilhosos, bem educados e muito mais informados do que minha turma era no passado distante. Não podemos perder pessoas tão boas. simplesmente não podemos.

Para encerrar, deixo vocês com um clássico do Renato Russo: “Ela se jogou da janela do quinto andar, nada fácil de entender”.

 

Lula, num mundo paralelo

Lula, num mundo paralelo

 

Lula está certo. Ele é o melhor estrategista do Brasil. Até a prisão virou um ato político a seu favor.

Sua história é tão forte, que mesmo diante de várias evidências de corrupção, continuou o candidato favorito de 30% dos brasileiros. Isso é um patrimônio eleitoral de valor inestimável. Portanto, todos os movimentos que tem feito (jurar inocência, alegar perseguição política, se vitimizar, juntar a militância) servem para manter este patrimônio.

O processo em que foi condenado também ajudou o ex-presidente. Não havia provas, não havia gravações ou malas de dinheiro. Os discursos de promotores, advogados e juízes são intelegíveis para a maioria das pessoas. O argumento da perseguição política replicado em redes sociais é de mais fácil compreensão.

Em breve Lula será preso e continuará a sua narrativa de perseguido por trás das grades, mantendo assim a imagem de lutador que agrada a seus fãs.

Eu particularmente, sonho com o Lula num mundo parelelo, num mundo onde ele quisesse se vingar dos inimigos e mandasse às favas o que restou do seu imenso prestígio.

Nesse mundo, Lula se ofereceria para fazer delação premiada e daria os mínimos detalhes de todas as negociatas em que participou. Daria todos os nomes de quem estava envolvido, políticos, empresários, donos de jornais e revistas… Seria absolutamente delícioso ouvir todas as verdades vindas dele, com seu jeito carismático e divertido.

Evidentemente, para isso teríamos de ter um Moro do mundo paralelo. Eu tenho uma certa suspeita de que Moro deste mundo aqui não gostaria de ouvir tal delação, com medo de que certos nomes fossem citados.