Pirralha

Pirralha

Greta Thumberg, uma adolescente sueca 3 anos mais velha que minha filha foi escolhida a personagem do ano pela revista americana Time. É um baita reconhecimento. Ela foi a mais jovem contemplada de uma série que começou em 1927.

Como todos já sabem, ela conseguiu esse destaque através de seu ativismo defendendo a natureza e a sustentabilidade. Não parece um grande feito, mas de fato foi. Poucos adultos tiveram tanto sucesso ao tentar replicar a mesma mensagem. Num mundo de lideranças negativas, uma liderança com uma mensagem positiva chama a atenção, mesmo que seja para dizer o óbvio.

Minha filha adolescente pensa exatamente como ela. Aposto que se você tem um filho, ele também pensa assim. Caso você tenha alguma dúvida, pode deixar que ele responda as três perguntas abaixo:

O que você deseja para  a floresta amazônica?

A – Destruição     B – Preservação

O que você deseja para os animais?

A – Extinção        B – Preservação

Como você prefere o ar?

A – Poluído         B – Puro

Se seu filho respondeu B para as 3 perguntas ele pensa como Greta. Por coincidência essas foram justamente as minhas respostas. Então me pergunto. Se o que a Greta defende é um pensamento tão básico, tão universal, tão difundido, por que tantas pessoas a odeiam?

Isso mesmo, muitos a odeiam. Vários jornalistas brasileiros  atacaram ela com veemência. Até amigos meus nas redes sociais agiram da mesma forma. Parece que o governo brasileiro não a vê com bons olhos.

Pelo jeito, há quem prefira a resposta A nas perguntas que fiz. O que me parece estranho, mas não impossível. Talvez seja uma questão de diferença entre gerações. Talvez nossa triste e fracassada geração devesse conversar mais com os adolescentes, ouvir o que eles tem a dizer, entender seus valores morais. Acho que podemos aprender muito, como a Europa e os EUA têm aprendido com Greta Thumberg.

Para encerrar segue um vídeo da performance musical de Malena Ernman, a mãe de Greta:

Deveríamos ouvir mais a mãe da Greta.

Rock do Diabo

Rock do Diabo

O novo presidente da Funarte ficou famoso de uma hora para outra ao explicar que Rock era coisa de satanista, além de outras falas que fazem duvidar da sanidade do sujeito. Porém, enquanto todos gargalham nas redes sociais, eu sou obrigado a dar o braço a torcer. Ele tem certa dose de razão.

Ainda nos anos 20, o bluesman Robert Johnson compôs Crossroads, depois regravada pela banda Cream do Eric Clapton. Johnson é uma grande influência para o Rock. Crossroads falava de um bluesman (quem sabe o próprio Johnson) que fez um pacto com o Tinhoso numa encruzilhada. Depois disso, o blues evoluiu para o Rock e o Capeta nunca abandonou o estilo.

Já nos anos 60, os Stones gravariam Sympathy For The Devil. Na letra, Lúcifer contava sua história e desafiava o ouvinte ao ritmo de uma batida que lembra os terreiros de umbanda. Era uma música amaldiçoada. O estúdio pegou fogo na sessão de gravação e para piorar, muitos anos depois, Claudia Ohana fez a sua versão para a novela Vamp, assustando a todos.

Porém, somente quando o Heavy Metal surgiu que o Coisa Ruim dominou de vez. The Number of The Beast do Iron Maiden ou NIB do Black Sabbath são odes demoníacas. O satanismo se espalhou pelas capas dos discos de Metal e o estilo ficou cada vez mais pesado e popular, dominando principalmente o norte da Europa.

No Brasil o Capiroto sempre esteve na cabeça de roqueiros. Desde Roberto Carlos que mandou tudo para o Inferno e depois se negou a cantar a canção até Raul Seixas que matou a charada e foi o primeiro a explicar o motivo do Chifrudo estar associado ao ritmo. Afinal, o Diabo é o pai do Rock. Enquanto Freud explica, o Diabo dá os toques.

Bolsomiriam

Bolsomiriam

Miriam saiu do culto emocionada. Mal sentia o peso da bojuda bíblia na bolsa, muito menos se incomodava com o aperto entre outros fieis no ônibus. As palavras do pastor ecoavam em sua cabeça – “Cada um de nós tem uma missão de Deus! O Senhor nos dá uma tarefa única e um talento especial para cumpri-la”.

Miriam nunca havia pensado ser importante. Fora sempre uma coadjuvante em sua própria vida. Era a faxineira do salão de beleza. Ajudou as 3 irmãs a preparar seus casamentos, mas ela mesma jamais vivera um grande amor. Sempre costurou lindos vestidos de festa, mas suas roupas eram velhas e feias.

Na saída do Culto ainda abordou o pastor.

_ O senhor acha mesmo que Deus me escolheu para uma missão importante.

_ Tenho certeza. Se ele ainda não revelou a missão para você, em breve vai revelar.

Miriam sonhava em receber a missão de Deus, mas a única coisa que recebia eram Zaps sobre o Bolsonaro. Diversas fotomontagens do político. Em algumas ele estava vestido de super-herói, em outras, estava ao lado de Jesus e com uma aparência celestial. Numa terceira o texto era inspirador.

_ Deus me deu a missão de livrar o Brasil do Satanás do comunismo. Ao seu lado vencerei.

Miriam percebeu a importância daquele homem. Ele iria enfrentar o Satanás do Comunismo! Isso sim era uma missão importante. O Satanás do comunismo. Miriam começou a pensar que ela poderia também ter uma missão: ajudar o Bolsonaro na luta quase impossível que ele travaria contra o mal. “Esse homem deve ser uma espécie de santo, nem a facada matou ele”.

No mesmo dia ela organizou as dezenas de memes que havia recebido com mensagens políticas. Apagou as bobagens em homenagens a outros políticos e estudou o que podia sobre o Capitão e sua luta messiânica.

A primeira mensagem ela mandou para o pastor. Era uma imagem de Bolsonaro pilotando um tanque e atropelando alguns negros vestidos como assaltantes.  “Vamos metralhar os vagabundos”, ela ainda complementou com um toque pessoal: “Cumprindo a missão!”

O pastor respondeu com um emoji de piscadinha que Miriam imediatamente interpretou como um incentivo. O pastor havia apoiava sua missão. Imediatamente começou a soltar dezenas de mensagens para amigos e parentes. A maioria começava com “Isso a Globo não mostra”. Quanto mais mensagens mandava, mais recebida de volta, num nítido sinal da providência divina.

A partir deste dia, Miriam não era mais a faxineira quase invisível do Salão, não era mais a moça do bairro que costurava vestidos a preços baixos. Miriam era uma missionária do Senhor, era uma soldada que empunhava o celular tal qual uma espada, distribuindo a mensagem divina. Eis uma mulher com uma missão! O Satanás do comunismo que se cuide…

Velhice

Velhice

Contribuição do amigo Eduardo Tironi

Acordou pela manhã e, como primeiro ato, deu aquela passeada no Instagram pra ver as novidades. Viu uma, outra, outra e outra fotos de amigos e parentes mais velhos do que são. Demorou um pouco pra descobrir que tratava-se do aplicativo da moda. Você tira uma foto e ele te mostra como você poderá ser com mais 20 anos, mais 30, mais 40… a gosto do freguês.

Começou a se divertir. Olhou uma ex-namorada velha e comemorou ter terminado a relação dizendo que “o problema não é você, sou eu”. Olhou o amigo de infância com um jeito de avô.

Riu com piadas que relacionavam velhice ao futebol. Foto do craque do time rival todo enrugado com a legenda: “Fulano esperando o título mundial do Palmeiras”. Sicrano quando o São Paulo voltar a ganhar um clássico” “Beltrano quando o Corinthians terminar de pagar o estádio”…

Baixou o aplicativo, tirou uma foto e também projetou sua velhice para o mundo ver. Ficou ansioso pela repercussão.

Mas ele tinha de trabalhar. Pulou da cama e sentiu aquela dor incômoda de sempre no joelho. Tomou banho e, como todo dia, viu uns cabelos no ralo do chuveiro. Nem ligou.

Tomou café e evitou leite e muita manteiga porque vem sentindo uma azia logo depois que come alguma coisa. Está achando que pode ser intolerância à lactose.

Entrou no carro, ligou o rádio e passou os dez primeiros minutos do trajeto ouvindo músicas que nunca tinha ouvido antes. Sintonizou na Antena 1, que ali sim toca músicas boas.

A cada parada no farol, olhava o instagram para ver a repercussão de sua foto como velho. Coraçõezinhos, risadas, emojis de espanto… Numa das paradas reparou pela primeira vez que não vai ser um velho bonito.

Ao contrário: nariz caído, olhos tristes, cabelo ralo…

No meio da tarde sentiu uma fisgada nas costas que o incomoda há tempos. “Essa cadeira do escritório tá ruim, preciso trocar.”

Pouco depois, recebeu notificação no celular. Saiu o resultado do exame de sangue. O colesterol está alto. Tem de voltar ao médico.

Checou de novo a repercussão dele velho no Instagram. Muita gente comentou, legal! Olhou as fotos de outros amigos e amigas velhos tbem.

Se espantou com alguns tamanha a perfeição das montagens.

Terminou o dia saindo mais tarde do que tinha planejado. Muita coisa pendente no escritório e ele não conseguiu fazer metade do que tinha planejado. Sentiu dor de cabeça por isso desistiu de voltar à academia. Segue pagando o plano semestral, mas há cinco meses não vai porque anda sem tempo.

O tempo anda passando muito rápido, ele pensou ao chegar em casa. Já estamos no meio de agosto!

Abriu a geladeira, pegou o que tinha, pôs no micro-ondas e empurrou pra dentro. Entrou no  banho, saiu do banho, vestiu o calção do pijama e foi escovar os dentes. Se olhou no espelho e por um momento pareceu que olhava o Instagram. Voltou à realidade. Deitou, olhou sua foto de velho novamente. Pulou da cama, foi pro banheiro correndo e se olhou no espelho mais uma vez. Voltou pra cama ofegante. Apagou.

O ódio venceu

O ódio venceu

Caros amigos, lamento informar que o ódio é maior e mais forte que o amor. Sei que isso vai entristecer a maioria dos leitores, mas devo dizer que somos exceções. Poucos ainda cultivam o esse sentimento tão ultrapassado como o amor. A maior parte dos brasileiros escolheu o ódio e está muito feliz com ele.

Não adianta um sujeito proferir mil palavras de amor, o ódio acaba com ele em um único disparo. John Lennon cantou Love, Love, Love e vejam o que foi feito. Martin Luther King pregou a igualdade e teve o mesmo destino,  assim como Gandhi ou aquele barbudo da Palestina que disse “amai ao próximo”.

Esse merece um parágrafo só para ele. Jesus ofereceu a outra face, perdoou seus algozes, conteve os apedrejadores. Mas no Brasil tem conservador dizendo que Jesus mandava matar vagabundo. São milhares de pessoas guiadas pelo novo profeta Olavo de Carvalho, que prega o ódio diariamente nas redes sociais.

Não importa que milhões de brasileiros dancem e brinquem o carnaval com suas famílias e amigos. Para o presidente do Brasil é necessário desmoralizar a festa e para isso basta colocar a imagem de dois degenerados nas redes. Pronto, o lindo trabalho das escolas de samba, a alegria da população brasileira, nada disso tem valor. Motivo suficiente para a horda cheia de ódio pedir a cabeça de gays e atacar a tudo e a todos.

Mas a cereja do bolo foi a morte de uma criança de 7 anos na semana passada. Muitos comemoram efusivamente nas redes sociais. Até o filho de um famoso presidente. Afinal, a criança era neta de um político de outro partido então sua morte mereceu fogos.

Agora, se você acha que a situação está feia e quer ingressar no time do amor para evitar o 7×1 do ódio, então atenção: Não adianta combater ódio com ódio. Comemorar facada, torcer por doença e festejar a desgraça alheia conta como gol contra. Cuidado, às vezes, parece que você está lutando pelo que é certo e quando se toca, acaba indo parar no outro time.

Não se iludam, estamos perdidos e seremos sempre minoria. A não ser que o mundo mude muito, as coisas são como são. Nossa única alegria é ter o coração leve por saber que estamos no time certo. Muito amor para vocês e muito amor para quem nos odeia. Um dia quem sabe, eles entenderão.

Fake Nilma

Fake Nilma

Nilma era o sucesso do salão. As clientes diziam que tinha mãos de fada. Em anos de profissão jamais machucara um dedo sequer. Quando pintava as unhas, o esmalte durava uma semana, mesmo que a dona jogasse vôlei de praia ou praticasse jiu-jitsu.

Mas Nilma tinha um defeito. Ela atrasava um pouco. Diariamente chegava esbaforida no salão, cruzando a porta num arroubo e anunciando as notícias que ouvia no Rádio.

– Morreu aquele ator da novela!

– Ceis viram o furacão nos Estados Unidos?

Foi assim por anos. No caminho ouvia as notícias pelo fone de ouvido e durante o dia as compartilhava com as clientes no salão.

_ Deus me livre tanta corrupção!

Porém nos últimos dois anos Nilma passou por uma mudança em sua vida. Ela substituiu seu velho companheiro, o rádio, por um novo amor, o Whatsapp.

Agora, a caminho do trabalho, não ouve mais as notícias. Ela as compartilhava diretamente do celular, junto com imagens de Minions, gatinhos e saudações à sexta-feira.

Desde então, Nilma, continuou chegando esbaforida e atrasada, mas no lugar de anunciar o furacão, passou a mostrar o vídeo do homem de terno que caiu na enxurrada ou de bebês gargalhando.

Com a proximidade das últimas eleições Nilma foi ficando ansiosa. Pelo Zap andava recebendo informações de arrepiar Nunca se importara com política, mas vinha ficando indignada com as notícias, que não podia silenciar.

_ O Lula é o líder do PCC.

_ O Haddad distribui mamadeiras de pinto nas escolas.

_ Os holandeses masturbam nenês.

_ As vacinas são armas comunistas.

Algumas clientes do salão passaram a se incomodar com as notícias sem sentido de Nilma e ao mesmo tempo, ela estava tão desesperada com as novidades terríveis que foi ficando menos cuidadosa. Depois de anos sendo a manicure perfeita, Nilma começou a falhar,  deixando unhas mal cuidadas e ferindo os frágeis dedos das patroas.

Não demorou e Nilma perdeu o emprego.

Agora passa o dia em casa, com o celular nas mãos trêmulas de ansiedade, compartilhando de forma frenética as notícias importantes que recebe:

_ Os cubanos explodiram brumadinho!

_ Jean Wyllys mandou matar o presidente.

_ FHC é comunista!

Nilma agora acredita que está fazendo um importante serviço para o Brasil.

O Lado Bom da Ditadura 2

O Lado Bom da Ditadura 2

Há uns anos fiz um texto chamado “O Lado Bom da Ditadura”. De umas semanas para cá, esse texto passou a ser bastante acessado. Achei curioso. Como um texto antigo de um blog obscuro começa a receber leitores do nada?

A resposta está no Google. As pessoas estão pesquisando sobre o lado bom da ditadura e acabam me achando. Não sei o que as motiva mas imagino.

Rapazotes, fãs do Bolsonaro, entram em embates nas redes contra democratas e recorrem ao Google para encontrar argumentos. Pobres internautas, chegam ao Toda Unanimidade esperando apoio e encontram meu texto cínico e provocador. Eles devem ficar um pouco decepcionados.

Não tem problema, se quiserem argumentos sobre este tema tenho apenas um que exponho abaixo. Pode usar para esbanjar entendimento político contra seus adversários virtuais:

Algumas democracias no mundo: Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha, Japão, Dinamarca, Coreia do Sul, Israel e Suécia.

Algumas ditaduras no mundo: Cuba, Arábia Saudita, Venezuela, Coreia do Norte e Síria.

Em qual time você quer colocar o Brasil?

*Na foto, o governador não eleito Paulo Maluf dá um abraço gostoso no General Figueiredo.