As 10 pragas

As 10 pragas

Nesta semana, nós judeus celebramos Pessach, a festa da libertação do Egito. Uma das nossas obrigações é relembrar a cada ano a história de como Deus através de Moisés libertou os escravos judeus das mãos do Faraó. Entre os episódios marcantes desse evento está o das dez pragas que Deus lançou contra os egípcios.

A última das 10 pragas foi a morte dos primogênitos. Deus mandou o anjo da morte à Terra para matar os filhos mais velhos das famílias egípcias.

Aos judeus, naquele dia, foi ordenado que ficassem em casa e fizessem uma marca na porta. Ficar em casa era a salvação. Ficar em casa era a certeza da segurança.

Acho divertido quando histórias da bíblia coincidem com o momento que estamos vivenciando e fiquei quebrando a cabeça para encontrar outras coincidências. Talvez algum afoito pudesse dizer que o coronavírus é uma praga de Deus e que outros acontecimentos contemporâneos seriam as outras pragas.

  • O Vulcão Krakatoa explodiu em Java.
  • Uma nuvem de gafanhotos gigantesca dizima a Somália (perto do Egito).
  • Ratos nas ruas: sem o lixo dos restaurantes, os ratos estão saindo às ruas nas grandes cidades em busca de comida.

Talvez eu tenha esquecido de algumas. Mas se estamos vivendo as novas 10 pragas, quem seria o Faraó? E mais importante que isso. Quem são os escravos que precisam ser libertados?

Gosto de pensar que somos nossos próprios faraós. Que todo ano precisamos nos lembrar de como se livrar da opressão que nos impomos, seja por nossos vícios, por nossas fraquezas, nossos medos ou nossas convicções.

Se a praga do coronavírus e a quarentena que ela nos impõe puderem ajudar em uma travessia, então esse sofrimento ao menos terá um lado positivo. Mas isso vai acontecer? Não tenho a resposta, acho que cada um de nós terá o seu aprendizado, seja ele qual for.

Encerro com um trecho do Êxodo, o livro que narra a saída dos judeus do Egito e que tem um conselho prático e atual.

Lavarão, pois, as suas mãos e os seus pés, para que não morram; e isto lhes será por estatuto perpétuo a ele e à sua descendência nas suas gerações.

Êxodo 30:21

Formigas no transatlântico

Formigas no transatlântico

O mundo está um caos. Bolsas caindo, chuvas devastadoras, vírus mortal, ódio vencendo, pessoas assustadas. Uma excelente hora para filosofar.

É justamente quando o mundo está uma confusão, quando sentimos a esperança nos abandonar que pensamos em Deus, que desejamos uma ajuda da providência divina. Em geral essa ajuda não vem.

Estaria Deus insensível a tanto sofrimento? Estaria ele nos testando justamente agora que nos sentimos tão frágeis, tão desamparados?

Nossa aflição vem da incapacidade de compreendermos Deus. Eu também sou assim. Somos tão pequenos diante d’Ele que não podemos concebê-Lo então reduzimos Deus ao tamanho da nossa compreensão. Como se Ele fosse uma criatura parecida com o homem, capaz de pensamentos com a moral humana.

Deus gosta de preces e não de aborto; Deus ajudou um sujeito a fazer um gol e atrapalhou o goleiro do outro time; Deus salvou uma criança no desabamento. Ou seja, deixou que as outras crianças morressem no mesmo acidente. Isso faz sentido?

Para tentar compreender sua grandeza, pensei numa metáfora.

Pensem em formigas que moram na cozinha de um gigantesco transatlântico. Elas Vivem das migalhas que caem no chão ou dos alimentos que os cozinheiros esquecem sobre uma bancada.

São tão pequenas, que acreditam que a cozinha e as salas no seu entorno são o universo. Acreditam que os homens são as maiores criaturas existentes, poderosos como deuses que podem as matar com um dedo apenas.

As formigas não conseguem conceber o transatlântico que as transporta, as abriga, as protege e as alimenta. Se elas pensassem em Deus, talvez o vissem como uma criatura espiritual na forma de uma formiga.

Nós somos as formigas. Deus é o transatlântico.

Os ateus devem estar achando o texto uma grande perda de tempo. Mas ele vale também para o universo. Nossos super telescópios nos desertos chilenos nos revelam galáxias e buracos negros, nebulosas distantes e explosões de estrelas. Tudo isso é fascinante, mas não passa da cozinha do navio. Não conseguimos imaginar a embarcação como um todo, muito menos o oceano que a cerca.

Somos formigas no transatlântico, preocupadas porque hoje não há bolo e caíram poucas migalhas para roubar.