O pé na bunda perfeito

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Júlia dedicou-se àquele texto como poucos vezes se dedicara a algo. Os dedinhos finos se apertavam no teclado do celular com habilidade e deles saia o que ela iria considerar sua pequena obra-prima. Era uma carta com o “pé na bunda” que estava para dar em Matheus.

Se Matheus fosse um namorado mesmo, teria que falar com ele ao vivo, porém estavam apenas saindo há algum tempo e uma mensagem pelo Whatsapp parecia mais que suficiente para ocasião. Era daqueles relacionamentos que crescem sem motivo, e como os Baobás do Pequeno Príncipe, precisam ser destruídos antes que suas raízes se finquem demais no chão.

Só não esperava que realizaria um texto tão perfeito. Em nove linhas conseguia ser delicada e ainda assim dar bons recados nas entrelinhas. Era efetiva, não deixava espaços para argumentações, sem ser arrogante. Fazia com que a culpa pelo fim parecesse dos dois e ainda passava a sensação de que também sofria com a separação.

Enviou a mensagem e recebeu de volta, minutos depois, um xororô qualquer do garoto que mal valia a pena ler. Caso encerrado.

Só que estava tão orgulhosa do feito que precisou ligar para Mirela e contar o ocorrido. Mirela acabou recebendo o texto como prova do brilhantismo de Júlia e foi obrigada a concordar. Era o melhor “fora” que já tinha lido. Tão bom, tão bom, que ela mesma usou para dispensar o Beto dias depois. Estava louca para fazê-lo mas não sabia como e o texto da Júlia veio a calhar.

Nas semanas seguintes, outras amigas que souberam da história acabaram por usar emprestado o tal texto com igual sucesso e depois disso, fatos curiosos começaram a ocorrer.

Primeiro foi na faculdade, Júlia encontrou Carla chorando com o celular na mão. Tinha acabado de ser dispensada por Miguel, o melhor amigo de Matheus. Mostrou a mensagem para Júlia que reconheceu imediatamente a sua criação literária sendo usada indevidamente.

Nos dias seguintes, houve um onda de relacionamentos encerrados na PUC. Todos por Whatsapp.

Júlia estava assustada, no ônibus percebeu uma moça começando a soluçar com o telefone na mão. Olhou sobre seu ombro e novamente estava lá o texto.

A coisa saíra do controle. Todos que não terminavam seus namoros por medo de enfrentar a chata situação de dispensar o outro passaram a usar o texto de Júlia. Era comum ver pessoas chorando na rua segurando seus celulares e a fama da carta cresceu.

O medo fez com que muitas pessoas apaixonadas deixassem de usar o Whatsapp e posteriormente, outros aplicativos de mensagens e e-mails. Mas era tarde demais. O texto podia ser entregue em cartas, telegramas ou manuscritos. E o amor nunca mais foi mesmo.

Júlia ficou confusa e assustada com a repercussão, tinha dúvidas se fizera a coisa certa e se devia arrepender-se. Sua única certeza era que escrevera uma obra-prima.

Nomes de coisas

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Como diria Caetano, adoro nomes. Talvez tenha aprendido esse pequeno prazer com meu amigo Adriano Quadrado e seus textos sobre nomes de gente. Aliás, ele mesmo já é daqueles nomes difíceis de esquecer. Mas os que me impressionam não são os de pessoas e nem são os de coisas. São aqueles nomes que empresas criam para os seus produtos e chegam a comover de tão bonitos.

Alguns desses nomes são sujeitos a modismos que mudam ao sabor dos tempos.

Vejamos alguns para esclarecer melhor o leitor que deve estar me achando mais louco que o habitual:

Nomes de Prédios

Pode procurar por aí e você verá que  os edifícios antigos tinham nome de gente: Edifício Esther, Conde Matarazzo, edifício J. Moreira, Joelma, Edifício Martinelli. Era bem provável que o construtor homenageava o pai, a avó ou alguém que amou.

Com o tempo, o nome dos prédios passa a servir aos interesses comerciais então passamos por diversas fases conforme as necessidades do marketing.

A moda européia: Muitas Piazzas, Places e Maisons, como Piazza Navone, Piazza di Toscana, Places des Vosges, Maison Royale. Eram prédios com nome de buffet de casamento.

Quando jovens executivos começaram a procurar apartamentos funcionais nas regiões das corretoras, agências de publicidade ou escritórios de advocacia, os prédios ganharam nomes que eram ou soavam americanos, que traduziam a praticidade e o modernismo da geração Y: Maxhaus, Sax, Dimension, Indi, One Eleven Home ou Move.

Enquanto isso, nas periferias, as incorporadoras miravam a nova classe C e o programa Minha Casa Minha Vida. Para esse público os nomes eram quase motivacionais: Condomínio Primeiro Passo, Conquista, Nova Esperança ou coisa que o valha.

Nomes de Programas Governamentais

Já falei disso num texto quando o blog ainda era desconhecido, foi uma moda que surgiu de uns 20 anos para cá. Não adianta o político falar que vai construir casas populares ou investir no CDHU, hoje é necessário um nome fofo para a ação, como o já citado “Minha Casa Minha Vida”. Para cuidar de drogados temos o “De Braços Abertos”, para limpar a cidade tivemos o projeto “Belezura”, para restaurantes populares o “Bom Prato” . Hoje, existem mais nomes fofos nos governos do que assessores inúteis no poder legislativo.

Nomes de investigações policiais

A Polícia Federal tem dado muitas alegrias aos brasileiros, mas a mim, uma em especial, chego a ter inveja da criatividade deles nos nomes de operações: Operação Sucuri, Praga do Egito, Medusa, Matusalém, Cavalo de Tróia, Pororoca, Saia Justa, Hipócrates, Woodstock (aposto que essa tem a ver com maconha), Flash Back… Se quiser saber mais, achei essa página na Wikipedia só com nomes de operações da PF, um deleite para este blogueiro.

Nomes de cores:

Tente fazer mentalmente uma lista rápida com os nomes de cores que você conhece: Azul, amarelo, verde, lilás, pensa o leitor apressado, sem imaginar que no catálogo das tintas Coral existem: Rosa Melodia, Rosa boneca, laço de amor, Zepelim, Areia Sirena ou Pelourinho. A última é um azul semelhante ao da igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Salvador.

Mas se quisermos ainda mais tons e nuances, precisamos recorrer às cores de esmalte. Neste ponto seremos obrigados a viajar por pelos caminhos mais ousados que a mente humana ousou se aventurar.

A Risqué tem cores como Besouro, Viúva Negra, Chão de Estrelas, Nuvem de Paetê, Arábia, Cinza Incerto, Relax da Penélope e Apuros em Miami.

A Avon tem uma linha chamada Encantos do Mar com as opções Onda Fashion, Terra à Vista, Homem ao Mar e Amor a Bordo.

São muitas cores, um número incalculável, mas vou recorrer a Colorama em sua linha chamada Brasileirices para encerrar esse texto e provar que em termos de nomes, eles são os campeões: Da Hora, Oxente, Bah, Tchê, Sussa, Uai e Partiu. Isso mesmo, Existe uma cor de esmalte chamada “Partiu” e com ela, parto eu, feliz em catalogar tantos nomes lindos e um pouco triste em saber que minha criatividade ainda está degraus abaixo de alguns marqueteiros que andam por aí.

* Na ilustração um maluco fez uma montagem com nomes de pubs. Bom saber que em outros países há insensatos com o eu.

Tenho 44 anos e nunca peguei ninguém

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Para contar essa verdade indiscreta preciso voltar no tempo, viajar a meados dos anos 80 quando passei da puberdade para a adolescência e o verbo “ficar” ganhava um novo significado: Beijar alguém sem compromisso, apenas durante uma noite ou até mesmo poucos minutos.

Antes disso o ato já existia, mas não me lembro se havia um verbo correto para chamá-lo, afinal antes disso, eu ainda não me preocupava em “ficar”, estava mais interessado em Kichutes ou Playmobils.

Porém, o tempo corre no sentido do amadurecimento. O verbo e minha adolescência chegaram juntos ao mundo e com muita dificuldade (eu era tímido a beça) aprendi o que era “ficar”.

Façamos um salto.

2011, ano em que me divorciei. Na ausência de amigos solteiros mais próximos recorri a colegas sem muita afinidade, alguns deles mais jovens, como companheiros de noitada e então descobri que eles não “ficam” mais. Eles pegam. E as mulheres pegam também.

Essa foi a grande mudança semântica ocorrida no Brasil durante os 13 anos que me mantive num único relacionamento. As pessoas deixaram de ficar e começaram a pegar.

A conversa mais comum entre solteiros é contagem do número de “pegadas” num fim de semana. Um mostra o Face para o outro e exibe seus troféus.

Mesmo a música sertaneja que desde sempre fora um templo do romantismo havia dado lugar ao sertanejo universitário e suas odes à pegação: “Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego…”

Só que a mudança não foi apenas semântica. Nos tempos antigos, ao “ficar”, dois indivíduos tratavam-se como seres humanos que em comum acordo beijavam-se por um tempo determinado, era uma troca. Por mais fugaz e vazia que pudesse ser, era uma troca.

O verbo pegar, em compensação, não pressupõe a existência de duas pessoas mas de apenas um indivíduo que é o agente (aquele que pega) e um objeto (que é pego). Quando “ficar” virou “pegar”, o outro já não importava mais. Era um produto numa prateleira. Algo feito para ser usado e jogado fora.

Isso ficava mais claro a medida em que eu me aprofundava no mundo dos solteiros contemporâneos: contabilidade de pegadas, táticas para administrar várias “peguetes” ao mesmo tempo – “É fácil, é só ligar de vez em quando”.

De fato, é fácil administrar objetos, você não precisa ligar no dia seguinte, você não precisa demonstrar qualquer carinho, enfim, você não precisa se solidarizar com o sentimento alheio e nem se preocupar com qualquer dor que possa estar causando. Numa sociedade egoísta tudo existe apenas para a satisfação dos nossos desejos. Para essa satisfação conquistamos uma roupa bacana, um carro equipado ou um (a) parceiro (a) numa noite de sexo.

A maior prova disso é o Tinder, o aplicativo de encontros mais popular que existe. No Tinder, há pouquíssimo espaço para falar de gostos pessoais ou expectativas. Isso não importa. As pessoas se escolhem tão somente pelas fotos, tal qual compramos um vinho cujo rótulo nos encantou.

Revendo a minha trajetória desde os tempos de adolescência, quando dançávamos com vassouras ao som de Lionel Ritchie, até hoje, quando sair à noite significa comer uma pizza, tenho orgulho em afirmar que já beijei, fiquei, namorei, tomei foras, casei, separei voltei a namorar, voltei a tomar foras, mas nesses quarenta e quatro anos nunca peguei alguém. E podem ter certeza, isso jamais acontecerá.

* Na foto: Eu, convencido que relacionamentos vazios não valem a pena

De volta às cavernas?

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Num passado muito distante, quando nossos ancestrais dormiam em cavernas e usavam uma pele de mamute no lugar da calça Diesel, sua comunicação se dava por grunhidos.

Com o tempo, eles foram dando significado aos sons que conseguiam produzir com a boca e a evolução destes sons se tornou a nossa fala.

Paralelamente aos grunhidos, eles também pintavam as cavernas e estas pinturas exerceram um papel importante em sua comunicação.

Nos antigos alfabetos, como os hieróglifos do Egito, vemos que os sinais ainda eram muito baseados em figuras. Podemos imaginar que para os antigos era mais fácil desenhar uma cobra do que criar símbolos que representassem o som da palavra “cobra”.

Mas o homem é uma criatura muito inquieta e a comunicação verbal e escrita foi ficando cada vez mais sofisticada até chegar em Shakespeare, Camões, Miguel de Cervantes, Dante e tantos outros que nos mostraram suas infinitas possibilidades.

Isso sem falar nos alemães que criavam termos complexos para absolutamente tudo. Pelo que dizem, em alemão há uma palavra para: “Angústia suave que sentimos em dias frios” e outra palavra para “angústia suave que sentimos em dias chuvosos”.

Mesmo nós que não somos Camões, podemos usar a língua e sua imensa beleza.

Imagine uma carta no começo do século XX:

Minha amada, 

Espero que esta mensagem te encontre gozando de perfeita saúde. As noites que passo distante de ti são uma tortura que se recusa a cessar. O único alívio que ainda sinto vem das suas missivas. Você não pode imaginar a alegria que me inundou quando o portador trouxe-me notícias suas.

Porém se fosse escrita nos anos 1980, quando já havíamos ficado mais informais, a carta seria algo assim:

Amor, 

Tudo bem? Adoro suas cartas. Estou morrendo de saudades.

Com a chegada do e-mail e da comunicação digital, mudanças grandes foram sentidas. Em pouco tempo, o Twitter nos limitou a 140 caracteres e o MSN reduziu a língua a letras soltas e iniciais.

O que fora uma carta de amor virou isso:

Oi td bem? Sdds. S2.

O passo seguinte foi o desenvolvimento dos aplicativos de conversa imediata e com eles, os emoticons. De repente nossa comunicação tornou-se uma mistura de hieróglifos com pintura rupestre. Não precisamos mais escrever “cobra”, agora temos um emoji para isso. Não precisamos descrever nossa “angústia suave nos dias de frio”, basta escolher a carinha triste.

A carta de amor ficou assim:

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Será que estamos voltando a nossas origens? Estariam nossos grandes escritores destinados ao esquecimento? Será que deixaremos de ler Machado de Assis posto que Dom Casmurro não pode ser traduzido em pequenos símbolos? E no futuro? Voltaremos aos grunhidos?

Se isso acontecer, não haverá quem leia este blog de textos enormes e provavelmente ultrapassados. Estou me sentindo assim…

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A Inspiração

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Na matéria da TV, o  menino pergunta ao escritor de onde vem a inspiração. Ele coça os cabelos brancos antes da resposta e diz que vem das coisas que vê na rua e principalmente da sua cabeça, onde vivem suas lembranças.

A inspiração é um sopro que nos pega de surpresa, uma criatura elemental que nos sussurra aos ouvidos. Surge através de uma cena banal, que testemunhamos sem querer, ou através da arte de outro que, por sua vez, foi inspirada Deus sabe como.

Embora venha como quem nada quer, nos pegue desprevenidos às vezes, a inspiração precisa de uma contribuição fundamental do criador: O radar ligado. Nada adiantariam as vitórias régias dos jardins de Giverny se Monet não tivesse os olhos atentos a luz que provoca no lago diferentes nuances de cor ao longo dos dias e das estações.

O mundo físico é repleto de beleza e feiura, de encontros e armadilhas, de bondade e política. Pessoas andam por aí exibindo tiques, ansiedades e desejos. Trocam abraços carinhosos nas saídas dos cinemas, cuidam para que os filhos atravessem a rua direito, falam com carinho em seus telefones no metrô. E a cada ato, a ninfa mágica da inspiração está a espreita, pronta para tocar o felizardo observador e iluminá-lo com com o clique da tão esperada ideia.

O lado bom da ditadura

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A moda muda rápido ultimamente.

Vejamos, essa semana preciso fazer uma selfie, posar com uma placa contra o estupro e falar mal da ditadura. Pensei em fotografar minha comida e elogiar cachorros mas acho que já está ficando demodê.

Escolho a ditadura. Porém, com minha obstinação por evitar clichês não falarei mal dela. Lamento. Prefiro lembrar  algo que era muito melhor naqueles tempos, especialmente se comparado a situação atual.

 

(silêncio para criar suspense)

 

Falo do nome das instituições públicas e dos programas governamentais.

Como assim, pergunta o leitor? Repito explicando:

O nome das instituições públicas e dos programas governamentais naqueles tempos era formado letras que se juntavam e criavam siglas inesquecíveis. O programa habitacional se chamava BNH. A empresa brasileira de telecomunicações era a Embratel. O Mobral cuidava da educação para adultos e menores infratores iam para a Febem. Para telefonar usávamos a Telesp. O órgão de informação/espionagem dos militares era o SNI.

Hoje, quando procuro por iniciais, vejo que fomos invadidos pelos “nomes fofos”.

“Nomes fofos” é como chamo genericamente essa onda de termos nitidamente criados por especialistas em marketing e que fazem a alegria do político moderno.

Quando procuro pelo BNH encontro “Minha Casa Minha Vida”. Quando clamo por lindos nomes como Telesp, BCP ou Embratel, sou atropelado por Vivo, Claro e valha-me Deus, Oi (“nomes fofos” privados). Na procura pelo posto de saúde encontro Amas e Ames. É muito amor.

Não sei quando tudo começou, só sei que a coisa perdeu o controle quando a Marta Suplicy criou o projeto “Belezura” e os Tucanos chamaram uma reforma nos impostos de emenda “Do Bem” (as outras são do mal?).

Tentando ajudar nossos governantes, vou mandar algumas sugestões de nomes para futuros projetos, adiantando que sou modesto suficiente para admitir minha incapacidade para superar a “Rede Cegonha”.

Que tal substituir o IPCA por “adorável precinho”? Assim os economistas diriam que o “Adoravel precinho de abril” ficou em 0,62%.

Quem sabe chamar a CBF de “Amigos da Bola”? O PCC não seria mais agradável se fosse “Bandoleiros Legais”? Podemos ir mais longe, quem sabe trocar os nomes dos partidos e instituições. O PT viraria “Ao Pobre com Carinho”, a Fiesp seria “Empresários Bonzinhos Pelo Brasil”.

As possibilidades são infinitas e a vantagem é que não precisamos ter medo do ridículo. Afinal, jamais seremos mais ridículos do que a criatividade político-marqueteira. E com a proximidade das eleições, podemos esperar novos nomes de programas cada vez mais fofos.

Quanto a ditadura, espero que concordem que eles acertaram ao chamar as coisas por iniciais. Ou vocês queriam um “nome fofo” para o Doi-Codi?