Dois Negros Cadus

Dois Negros Cadus

O primeiro negro Cadu é um menino que nasceu na minha cabeça e ganhou vida através dos traços de Pedro Menezes e da aposta da Lizandra Almeida, da editora Pólen. É o personagem do meu livro infantil “Cadu e o Mundo Que Não Era”.

O Segundo negro Cadu é um adolescente que nasceu na cabeça de Mauro Paz, jovem e brilhante escritor cujo livro “Entre Lembrar e Esquecer” inspirou este texto.

É uma boa coincidência dois escritores brancos escolherem o nome Cadu para os seus personagens negros e maior coincidência é a dupla se aproximar depois dos livros serem lançados.

Meu Cadu é um menino sonhador, provavelmente de classe média, cuja cor da pele não interfere na criatividade incontrolável. Ele aprende que a imaginação exagerada pode ser um problema como pode ser um dom.

Já o Cadu do Mauro Paz já começa o livro morto. Um adolescente de classe média fera no Skate que é assassinado numa festa da elite de Porto Alegre. O Cadu do Mauro é inspirado por um menino real, um negro encontrado morto numa festa chique, e cujo crime ninguém quis investigar.

Meu Cadu é o sonho. Um negro que poderia ser branco, poderia ser japonês, poderia ser o que quisesse porque no meu livro a cor de Cadu não importa. Fosse como fosse, sua história seria a mesma.

O Cadu do Mauro era um negro entre brancos e talvez essa tenha sido a causa da sua morte.

No mundo real, o meu Cadu poderia virar o Cadu do Mauro ao chegar na adolescência e descobriria que nem toda a imaginação do mundo o afastaria de olhares estranhos, de gente assustada na rua quando ele passa à noite, de batidas policiais, de piadinhas sussurradas na faculdade.

Conheço Mauro o suficiente para saber que ele vai continuar escrevendo sobre este duro mundo real, onde Cadu vive no fio da navalha, e me conheço o bastante para saber que continuarei sonhando com mundos onde a cor do Cadu não seja relevante para a história.

p.s. Quando escrevi Cadu ele não tinha cor nem cara, era só um amontoado de letras num documento de Word. Cadu tornou-se negro por sugestão do Pedrão, o ilustrador e coautor.

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A Velha e o Mar

A Velha e o Mar

Para os cinéfilos é fácil descrever o Hotel Argentino. Pensem no filme “Hotel Budapeste” e imaginem como seria o “Budapeste” hoje, absolutamente decadente, muito diferente dos dias de glória.

Pois bem, o Hotel Argentino, que fica na praia de Piriápolis é exatamente assim. Construído em 1930, era o orgulho do povo uruguaio. Um prédio majestoso com estátuas gregas, cassino, spa e todo o luxo que atraiu a alta sociedade rio-platense dos anos dourados.

Porém, quando visitei o hotel no mês passado, não vi glamour. A construção continua majestosa, mas a cidade de Piriápolis a sua volta cresceu sem graça, nada tem de balneário turístico, pelo menos que mereça uma visita. Tudo no Hotel Argentino revela sua decadência: Azulejos gastos, tapetes mofados, janelas descascadas e os hóspedes, bem, há muito o que dizer sobre eles.

Todos os hóspedes haviam nascido antes morte de Evita Perón. Exibiam suas bengalas nos salões mofados, nas roletas e aulas de hidroginástica. Entre as maçanetas douradas corrimões de madeira, eu observava seus movimentos lentos e confusos, como se a decadência do hotel acompanhasse o ocaso de seus corpos.

De repente, ao abrir a porta do elevador, vejo sair uma senhora muito idosa empurrada em sua cadeira de rodas por uma cuidadora. A mulher não falava, tinha a expressão distante de quem tem algum tipo de demência. A cuidadora conduziu a cadeira até uma janela e a velhinha ficou ali, com seu olhar perdido em direção ao mar.

Há quantos anos ela frequenta o Hotel Argentino? Que histórias teria vivido para continuar circulando por seus salões mesmo quando lhe escapa a sanidade?

Provavelmente, olhando para o mar, vinham-lhe memórias de tempos magníficos. Um dia ela foi uma jovem e elegante senhora que circulou altiva por aqueles corredores. Minha imaginação faz pensar que foi lá que conheceu seu marido, talvez num baile de ano novo. Fecho os olhos e a vejo num lindo vestido, rodando pelo salão ao som de La Barca.

O tempo não foi gentil com o majestoso prédio assim como não será com cada um de nós. Lentamente o lugar que atraía presidentes foi sendo esquecido como muitos seremos no futuro. Suas paredes permanecem em pé, mas as histórias desaparecem, perdidas como o olhar de uma velha senhora diante da janela que revela tempos distantes.

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O Hotel Argentino, charmoso apesar da idade.

Desejos de ano novo

Desejos de ano novo

Que em 5779 não tenhamos pessoas sendo esfaqueadas nas ruas

Que em 5779 não tenhamos incêndios em museus

Que em 5779 as campanhas políticas falem em amor e não em ódio

Que em 5779 tenhamos união

Que em 5779 tenhamos empregos

Que em 5779 os venezuelanos famintos sejam acolhidos e protegidos

Que em 5779 livros sejam mais importantes que armas

Que em 5779 os problemas reais sejam resolvidos e os imaginários esquecidos

Que em 5779 as crianças estejam em ótimas escolas

Que em 5779 as pessoas tenham forças para seguir em frente, mesmo que as dificuldades nos digam que não há mais por onde ir.

Que em 5779 a esperança vença a desesperança

Que em 5779 as palavras ditas com educação vençam os gritos inflamados

Que em 5779 cada um pense em quem está ao seu lado

Que em 5779 todos aprendam que não adianta rezar na igreja e tratar mal o garçon

Que em 5779 as mães não precisem chorar por seus filhos

Que em 5779 tenhamos coragem para enfrentar os obstáculos

Que em 5779 tenhamos sabedoria para entender que a maioria dos obstáculos está dentro de nós

Que em 5779 tenhamos música, teatro, shows, livros e filmes para todos

Que em 5779 as pessoas entendam que para Deus somos todos iguais

Que em 5779 tenhamos paz

Que 5779 seja doce para cada um de vocês

 

Ligando na Vivo

Ligando na Vivo

Esse é o relato da terceira tentativa de ligar na Vivo – 10315 –  para cancelar uma linha.

Nas duas primeiras passei por centenas de menus até a linha ficar muda justamente quando parecia estar perto de ser atendido.

14:09 – Robot atende rápido e dá duas opções

14:10 – Robot pede para eu digitar o número da minha linha, eu digito mas o robot não reconhece. Eu digito o meu CPF. O Robot não reconhece pela segunda vez.

14:11 – Digito o meu CPF de novo e o robot me transfere para vivo Móvel.

Recebo este protocolo: 20185061603106

14:12 – No menu há opção de mudar para Vivo Fixo e é o que eu faço.

Recebi este novo protocolo: 20185061653297

14:13 – Novo menu, digito a tecla de cancelamento. A tecla 4 de cancelamento não funciona e peço para chamar o representante na tecla 8.

14:14 – Yuri me atende e eu explico para ele e passo o número da linha. Yuri diz que a linha é residencial e que não liguei para o setor certo. Ele me transfere para outro setor.

14:17 – Musiquinha de espera. Uma espécie de Bossa Nova com a flauta fazendo a melodia.

14:18 – Sidnéia me atende. Eu passo as informações e ela me põe na espera.

14:20 – A musiquinha voltou.

14:21 – O Ayrton me atendeu agora e pediu novamente os dados. Ele pede para eu aguardar em linha.

14:22 – A ligação fica com aspecto de mudo, conforme Ayrton me alertou.

14:26  – Ayrton pode um momento.

14:29 – A ligação caiu pela 3a. Vez.

Pelo menos os 20 minutos perdidos da minha vida serviram para escrever este texto. Quem sabe alguém da Vivo veja e resolva me ajudar.

 

Uma guitarra muda

Uma guitarra muda

Conheci o Velhinho quando tínhamos 11 anos. Nossos pais contruíram casas de campo no mesmo condomínio e caímos na mesma classe na escola. Em pouco tempo éramos inseparáveis, nos encontrando 7 dias por semana.

Logo veio a adolescência e começamos a crescer juntos.

Éramos CDF´s e competíamos pelas melhores notas na escola e essa era a única competição em que eu era páreo para ele. O Velhinho era o melhor em qualquer esporte, fazia um sucesso incrível com as meninas e ainda era um fenômeno no violão.

Quando éramos adolescentes, decidimos ser roqueiros. Cada um se esforçou para aprender um instrumento. Eu era o baixista da banda (aquele que ninguém da bola). O Velhinho era o vocalista e guitarrista solo. Ele brilhava.

Com todas as diferenças, havia harmonia entre nós. Eu fazia as letras, ele musicava.

Levou uns 3 anos para percebermos que não podíamos tocar juntos, ele era muito talentoso. Tanto que largou o Direito para fazer faculdade música. Eu segui a carreira de “não músico”, mantendo o baixo e o violão ao meu lado por toda a vida, mas nunca estudei. Não sei a diferença de um colchete para um sustenido.

Por toda juventude compartilhamos sonhos e projetos, estivemos juntos em inúmeros momentos mas fomos atropelados pela vida. Cada qual com sua rotina, com sua família, nos víamos cada vez menos. Mas as aventuras que vivemos na adolescência haviam criado um amálgama que nos unia. Não importa quanto estávamos distantes, éramos sempre os velhos amigos de infância.

Creio ter faltado nos últimos dois ou três encontros da velha turma, ele também não pôde ir ao último aniversário da minha filha. É a vida, não é mesmo? Tantos compromissos, trabalho, filhos… Nossas últimas conversas  aconteceram por Whatsapp.

Às vezes pensava nele quando ouvia algo musicalmente muito bom ou quando tirava no violão uma música difícil – “O Velhinho ia gostar dessa aqui“. Eu queria mostrar para ele um arranjo que fiz para “Love of My Life”, mas isso não será possível.

Um estúpido acidente de moto levou o Velhinho embora dois dias atrás, deixando uma guitarra muda e um mundo de pessoas petrificado.

Meu violão continuará tocando mais triste até que o tempo permita aceitar essa perda e lembrar com carinho do velho amigo. Até lá, cada nota, cada acorde, cada vibração das cordas vai trazer o vazio deixado por alguém cuja missão de vida foi espalhar harmonia. Missão cumprida lindamente.

O suicídio de Janaína

O suicídio de Janaína

Muitos dirão que a decisão radical de Janaína foi intempestiva, passional. Algo deve ter se passado com ela. Porém, o que Janaína estava prestes a fazer havia sido planejado há algum tempo e seria executado com toda a tranquilidade.

Ela estava sozinha em casa. Era a noite em que o namorado ia à pós-graduação. Janaína decidiu abrir uma garrafa de Pinot Noir para saborear o momento. Baixou a luz para um tom suave e se acomodou na chaise long do terraço. Do 18o. andar, em seu apartamento, as luzes da cidade pareciam distantes.

Ela abriu o notebook. Antes do ato final, resolveu rever sua vida registrada no Facebook, primeiro passando os olhos no feed.

Havia  fotos de lugares distantes e mapas indicando viagens aéreas. Pessoas felizes fazendo selfies em Paris, na Disney e em Inhotim. Havia gente colocando fotos de gatos e reclamando do governo. Muita fake new sobre diversos assuntos e alguns textos pedindo a liberdade do Lula e investigações sobre Marielle. Janaína sentiu um tédio profundo, tomou mais um gole do vinho  e voltou novamente a atenção para o Facebook, deste vez passou a rever as inúmeras fotos que já havia publicado.

Lembrou sua viagem para a Califórnia, o curso de patisserie em São Francisco e os amigos que fez na época. Tinha fotos ainda mais antigas, do tempo em que fora casada. Jorge, o ex-marido aparecia em algumas exibindo seu sorriso que um dia fora sincero e depois tornou-se sarcástico. Ele ainda curtia um ou outro post de Janaína, mandava felicitações frias em seu aniversário. Era um homem bonito, apesar de tudo, tinha de admitir.

Reviu fotos de diversas fases profissionais. Da carreira infeliz no departamento contábil de uma construtora, das tentativas de se estabelecer como chefe até abrir a loja de bolos personalizados. Havia muitas fotos de bolos. Em formatos diversos. Bolos com noivinhos, com cachorros esculpidos em glacê, bolos que comemoraram nascimentos, aniversários, bodas de ouro. Não podia negar, seus bolos fizeram muitas pessoas felizes. Porém, o talento culinário era maior que o administrativo e Janaína, endividada, teve de fechar a loja.

Ao rever as fotos do Facebook, muitas emoções vinham à tona, muitas coisas boas. Mas  isso não seria suficiente para mudar sua decisão. Ainda assim, como sabia que era a última vez que fuçava a rede, voltou-se novamente ao feed. Tantas pessoas, tantos posts, tão pouco que a interessava. Egos e mais egos, mentiras e polêmicas inúteis. Mesmo os amigos e amigas de coração, pareciam menos interessantes na rede. Novamente a sensação de tédio.

Chegou a hora de desligar, iria seguir os passos que planejara.

***

Uma hora depois, quando Miguel chegou da faculdade, encontrou Janaína no terraço, ainda bebendo o vinho. Ele pegou uma taça e se dirigiu à garrafa.

“Alguma celebração especial?”

“Cometi meu suicídio social.”

“Oi?”

Ela levou a taça a boca antes de explicar.

“Apaguei minha conta no Facebook.”

Ele respondeu desinteressado.

“Fez bem.”

 

Embratel – Capítulo final?

Embratel – Capítulo final?

Segunda-feira, 4/6/2018, fiz um comunicado à Anatel reclamando do meu problema infindável com a Embratel.

A Embratel me ligou agora, 06/06/2018 as 10:18, uma moça chamada Natália

O protocolo 20181679526494 me foi passado.

Natalia fez perguntas para confirmar os dados da conta e leu a reclamação que fiz na Anatel.

Ela afirmou que cancelou 1.906,02 das dívidas indevidas que a Embratel me cobrava há meses.

Aparentemente resolvi uma questão que se arrastava como pode-se ver nesse post.

Sou acometido por uma mistura de sentimentos. Um lado meu quer dar cambalhotas na paulista coberto por purpurina. Outro lado continua cabreira, como se na semana que vem um funcionário da Embratel fosse me ligar de novo para me cobrar pela milésima vez.

Caro leitor, sugiro que se use o site da Anatel para registro de reclamações. Parece um canal bastante eficiente.

Prezadas Claro e Embratel. Darei um voto de confiança a vocês. Vou acreditar que  tudo está funcionando.

E com esperança, copio o letreiro dos filmes hollywoodianos dos anos 40:

THE END

*** Atualização de 07/6/2018 – A Embratel acaba de me ligar cobrando a mesma conta.