O Dilema

O Dilema

Marília estava aflita. Pegava o celular, olhava as fotos no Instagram, colocava o celular na mesa. Depois voltava a olhar as fotos.

Mandou uma mensagem para Carla.

_ Amiga, não sei o que faço.

_ Não tem o que fazer Marília. Você não vai fazer nada…

_ Mas são três quarteirões daqui. Só três quarteirões.

Carla era sensata, embora entendesse a aflição da amiga. Mas me deixe voltar um pouco para que você entenda também.

Marília começou a quarentena quatro meses depois do fim de um namoro. Foi um período em que não quis sair, ficou mais introspectiva. Justo  agora que estava pronta para voltar às baladas, o mundo estava congelado pelo Coronavírus.

Morando sozinha, tentou se distrair ao máximo para não pensar na solidão. Não conseguiu. Entrava no Instagram e sem se dar conta começava a encontrar fotos de personal trainers sem camisa, entrava no Facebook e acabava stalkeando ex-namorados, entrava no Tiktok e tudo o que via era abdomens-tanquinho.

Acabou por instalar o Tinder e através do aplicativo conheceu Heitor, um personal trainer com uma barriga-tanquinho perfeita e que lembrava um ex-namorado.

Trocaram mensagens por madrugadas seguidas. A conversa foi ficando cada vez mais quente, assim como o sangue de Marília que chegava a sentir tremores pensando em Heitor. Foi ainda pior quando descobriu que eram quase vizinhos, poucos quarteirões separavam seus apartamentos.

Carla, a amiga íntima, estava por dentro da história nos mínimos detalhes, e dava conselhos.

_ Não tô aguentando amiga, eu vou à casa dele.

_ Não faz isso, Marília. É perigoso. Faz sexo virtual por enquanto.

_ Você acha que eu já não fiz? Não resolve. Pra você é fácil falar, com seu maridão aí todo dia.

Carla respondeu com sinceridade e um pouco de culpa.

_ E você acha que dá pra transar num apartamento minúsculos com dois filhos alucinados trancados em casa?

_ Então você me entende?

– Marília, se o cara é gostoso como você diz, ele deve estar transando com uma por dia…

Marília achou que seria mais ilustrativo mandar o link do Instagram de Heitor para Carla entender de quem se tratava. Depois de uns minutos, recebeu uma mensagem.

– Meu Deus, que corpo é esse? Vai de máscara e depois me conta tudo.

Marília vestiu a máscara e saiu correndo.

Estranhamente feliz

Estranhamente feliz

O mundo não vive um bom momento. Milhares de famílias estão  enlutadas graças à covid-19. Nos hospitais faltam leitos para tantos doentes, as pessoas estão desempregadas, empresários quebrando e o país vive uma sensação de caos total. O mundo nos assusta com notícias terríveis dessa doença enquanto os EUA estão em convulsão depois de um assassinato racista. Para piorar, como diria Frejat, quem nos governa não presta.

Eu mal saio de casa. Só vou ao mercado e à farmácia. Não vejo meus pais, meus irmãos, meus amigos. Sinto falta das pessoas que amo. Às vezes minha filha fica uns dias aqui, noutras estou completamente sozinho. Trabalho com projetos culturais, setor que foi duramente atingido pela crise.

Enfim, tenho todos os motivos para estar no buraco. Mas, pelo contrário, tenho estado estranhamente feliz. Bate até um sentimento de culpa.

Eu sei que é difícil de entender, mas alguns fatos ajudam a explicar essa anomalia.

Apesar crise estou trabalhando, produzindo e editando em casa, com algumas boas perspectivas de futuro. Isso já é um alívio. Ao mesmo tempo, por estar em casa, sobra-me bastante tempo que tenho usado de forma criativa. Escrevo, estudo música, gravo com minha banda (cada um da sua casa) e com minha filha. Nossos covers são sucesso entre os amigos nas redes sociais

Como já contei num texto anterior, tornei-me um especialista em tarefas domésticas. Passo as cuecas, lavo panos de prato, limpo o fogão, cozinho, faço bolos à tarde e panquecas no café da manhã. Nos últimos 60 dias não pedi comida uma única vez. Cozinho todas as minhas refeições, algumas caprichadas, outras bem simples, mas isso me dá uma sensação boa, como se eu tivesse um super poder.

Não é a vida dos meus sonhos, nem quero que seja assim para sempre. Mas em nenhum momento eu me sinto triste. Meus dias estão sempre ocupados com tarefas agradáveis, trabalhando,  cuidando da casa e nos horários que me dedico à música e à escrita.

Não preciso me preocupar com o que vestir. Na verdade, escolho sempre o que é mais fácil de lavar. Não uso perfume e não cuido do meu cabelo. Meus dias são gastos com aquilo que me faz sentir bem.

Fico em contato com os amigos pelo Whatsapp, participo de encontros no Zoom e minha família organizou algumas festas bem boas através de chats. Deito cedo em lençóis que eu mesmo lavei, leio Philip Roth na cama e durmo muito bem.

Enfim, desejo que essa pandemia passe logo e que todos fiquem bem. Talvez seja errado estar feliz no meio do inferno, mas no futuro, quando lembrar desses dias, creio que serão lembranças doces. Temos pouco espaço para mudar o mundo a nossa volta, mas podemos mudar a forma com que reagimos a ele. Talvez esse seja o segredo para encontrar a felicidade mesmo nos piores momentos.

Termino deixando de brinde uma das invencionices da quarentena:

Toca Raul!

Um país em pedaços

Um país em pedaços

O que é um país? Parece uma pergunta simples, mas não é. Sabemos que o Brasil é um pais, mas sabemos por que?

Pensem comigo. A cultura uruguaia tem muito em comum com a cultura do Rio Grande do Sul. Eles adoram churrasco e chimarrão, são vaqueiros dos pampas. Ainda assim, os gaúchos não são compatriotas dos uruguaios e são compatriotas de índios do Acre, que falam outra língua e tem costumes totalmente diferentes.

A Itália é um país muito tradicional, não é mesmo? Pois há menos de 200 anos aquilo era um punhado de pequenos reinos, frequentemente em conflito, que só se unificaram de verdade no começo do século XX. 

Isso é comum na Europa e fora dela. Reinos menores se uniram para formar países e até hoje há briga entre esses povos. Muitos bascos e catalães não se consideram espanhóis, os curdos não se consideram nem sírios, nem turcos e nem iraquianos. E o que dizer da África e suas inúmeras guerras civis?

Então o que faz um país? Será a língua? Se for isso, a China tem centenas de países. Quantos índios brasileiros não sabem o português?

Será que a bandeira, o hino ou a fronteira que fazem um país?

Se negociarmos uma mudança de fronteira com nossos vizinhos o Brasil deixará de ser Brasil? E se mudarmos nosso hino e a nossa bandeira? O que aconteceria se esses símbolos, outrora tão queridos, fossem diferentes? O Brasil deixaria de ser o mesmo país?

Creio que se formos apenas bandeira, um hino, um idioma e um traçado no mapa, não seremos nada.

Então o que faz um país?

O que une um povo são ideias e uma cultura em comum. O que une um povo, é a crença no país e nos valores que ele representa.

Os EUA são um país muito diverso. O que tem em comum um caipira de Ohio com um executivo de Chicago? É a crença nos valores de democracia e liberdade da “América”. Outros países são unidos através da religião ou através da crença em um rei absoluto (as vezes com direitos divinos).

Há também a Cultura como amálgama. Os italianos podem ter sido formados por vários reinos mas estão unidos por sua arte, sua música, a moda, o cinema e principalmente, a gastronomia. Há diferenças regionais, mas alguém duvida que os italianos podem se reconhecer em qualquer lugar do mundo?

Não adianta criar fronteiras, hinos e bandeiras quando o povo não se enxerga como uma unidade. Foi o que aconteceu com a Iugoslávia nos anos 90. Cristãos, muçulmanos e os demais grupos entraram em guerra civil e hoje a Iugoslávia não existe mais.

E o Brasil? Será que tão divididos como estamos podemos nos reconhecer como nação?

Em 2016, quando Aécio perdeu a eleição, milhares entre seus eleitores pediram a separação do Brasil, queriam que os Estados do Norte e Nordeste se transformassem em outro país, pois tinham muitos eleitores do PT. De lá pra cá, as diferenças só aumentaram.

A direita Bolsochavista não suporta a existência da esquerda e de pessoas com pensamento progressista. A recíproca é verdadeira. A imensa nação evangélica deseja o fim do Estado Laico. A elite sonha com o liberalismo absoluto enquanto o povo ainda sonha com um Estado Mãe, ao estilo Getúlio Vargas.

Índios querem a floresta para viver enquanto capitalistas veem a floresta como área para cultivo de soja. Grupos sonham com a volta do imperador e outros com o parlamentarismo. Uns querem a renda mínima e outros o Estado mínimo e não há nenhuma boa vontade entre esses grupos para dialogar.

Eu posso falar por mim. Não tenho nenhuma paciência com os bolsochavistas e não tenho vontade de interagir com eles. Eu gostava de nossa bandeira, mas hoje para mim, virou símbolo na mão de fascistas e falsos patriotas. Pessoas que defendem a bandeira enquanto atacam o povo, atacam a nossa cultura, a natureza e querem destruir tudo o que o Brasil tem de bom ou belo. Tenho vergonha de dizer que estes são meus compatriotas e não acredito que as feridas abertas têm chances de cicatrizar. O Brasil está em pedaços

Me pergunto se um dia a nação poderá se curar. Ou mesmo se esse amontoado de gente cheio de raiva pode ser chamado de país.

A Mascarada do Mercado

A Mascarada do Mercado

(Esse texto é o desenvolvimento de uma ideia do Edson “Coke” e do Márcio Andraus. Espero que eles gostem…)

Geraldo olhava para a prateleira, indeciso sobre qual marca de azeitonas levar quando a estranha mascarada passou na outra ponta do corredor. Ele mal a viu, só reparou na camiseta do Metallica.

Depois, quando cruzava a sessão de iogurtes, pôde vê-la melhor. Era de média estatura, tinha o corpo bonito, cabelos curtos como se usava nos anos 80, vestia calça jeans e a camiseta já mencionada. Mesmo sem ver seu rosto, Geraldo concluiu que era bonita.

Mais tarde, em casa, quando limpava as embalagens antes de guardar as compras, Carla reclamou –  Já falei para não comprar essa marca de amaciante –  Geraldo lembrou da estranha mascarada e suspirou.

Geraldo era funcionário público, tinha tudo para viver uma quarentena confortável. Tanto o emprego como o salário estavam garantidos. Morava em uma casa espaçosa, podia até tomar cervejas no quintal, ouvindo Black Sabbath. Porém Carla, não estava tornando as coisas fáceis.

“Você já tirou o lixo?”

Abaixa esse som.”

“Não é assim que se dobra o lençol de elástico.”

Geraldo suspirava.

Na semana seguinte, ele decidiu fazer compras no exato horário em que havia feito na anterior, terça às 18h. Para a sua surpresa, lá estava ela, a estranha mascarada. Encontrou-a justamente selecionando cervejas artesanais, demonstrando um bom gosto incrível.  A mulher tinha um conjunto de atributos difícil de esquecer, cabelo curto estilo anos 80, fã de Metallica e cervejas artesanais. Precisava conhecê-la, mas antes disso precisava comprar Sapólio, se esquecesse de novo, Carla iria matá-lo.

O passar das semanas revelou que a estranha mascarada era pontual no seu horário de compras, o que transformou Geraldo num “stalker”  regular e assíduo. Toda terça ele estava no mercado, sempre a observando de longe. Curtia as camisetas dela, as cervejas que ela levava, o jeito independente e leve que imaginava que ela tinha.

Na cabeça de Geraldo, a mascarada era o oposto de Carla. Se estivesse vivendo a quarentena com ela, com certeza passaria as tardes ouvindo heavy Metal e tomando cerveja no quintal. Provavelmente fariam churrascos, drinks, ririam alto e tudo o mais.

Carla por sua vez estava obcecada com a limpeza da casa, impaciente com a nova rotina e achava Geraldo imaturo por ficar ouvindo as mil vezes as músicas de sua adolescência. A convivência 24 por 7 não estava fazendo bem ao casal.

Numa tarde de agosto, Geraldo decidiu se aproximar da estranha mascarada. A quarentena já estava menos rigorosa e muitas pessoas abriram mão das máscaras.

A estranha mascarada, ao vê-lo, aproximou-se:

_ Você não é o Geraldo? – Perguntou puxando a máscara para o queixo – Não está me reconhecendo?

Vendo-a de perto, de cara desnuda, ele reconheceu de imediato. Era Valéria, casada com o primo Jandir. Não os via há anos, mas na rede social eles eram daqueles chatos Bolsonaristas, sempre pedindo a cabeça do Moro ou o fechamento do Congresso.

Conversaram por 5 minutos e se separaram.

Ao chegar em casa, Geraldo bradou:

_ Amor, comprei uns queijos e aquele Malbec que você adora! Que tal uma noite romântica?

As 10 pragas

As 10 pragas

Nesta semana, nós judeus celebramos Pessach, a festa da libertação do Egito. Uma das nossas obrigações é relembrar a cada ano a história de como Deus através de Moisés libertou os escravos judeus das mãos do Faraó. Entre os episódios marcantes desse evento está o das dez pragas que Deus lançou contra os egípcios.

A última das 10 pragas foi a morte dos primogênitos. Deus mandou o anjo da morte à Terra para matar os filhos mais velhos das famílias egípcias.

Aos judeus, naquele dia, foi ordenado que ficassem em casa e fizessem uma marca na porta. Ficar em casa era a salvação. Ficar em casa era a certeza da segurança.

Acho divertido quando histórias da bíblia coincidem com o momento que estamos vivenciando e fiquei quebrando a cabeça para encontrar outras coincidências. Talvez algum afoito pudesse dizer que o coronavírus é uma praga de Deus e que outros acontecimentos contemporâneos seriam as outras pragas.

  • O Vulcão Krakatoa explodiu em Java.
  • Uma nuvem de gafanhotos gigantesca dizima a Somália (perto do Egito).
  • Ratos nas ruas: sem o lixo dos restaurantes, os ratos estão saindo às ruas nas grandes cidades em busca de comida.

Talvez eu tenha esquecido de algumas. Mas se estamos vivendo as novas 10 pragas, quem seria o Faraó? E mais importante que isso. Quem são os escravos que precisam ser libertados?

Gosto de pensar que somos nossos próprios faraós. Que todo ano precisamos nos lembrar de como se livrar da opressão que nos impomos, seja por nossos vícios, por nossas fraquezas, nossos medos ou nossas convicções.

Se a praga do coronavírus e a quarentena que ela nos impõe puderem ajudar em uma travessia, então esse sofrimento ao menos terá um lado positivo. Mas isso vai acontecer? Não tenho a resposta, acho que cada um de nós terá o seu aprendizado, seja ele qual for.

Encerro com um trecho do Êxodo, o livro que narra a saída dos judeus do Egito e que tem um conselho prático e atual.

Lavarão, pois, as suas mãos e os seus pés, para que não morram; e isto lhes será por estatuto perpétuo a ele e à sua descendência nas suas gerações.

Êxodo 30:21

Formigas no transatlântico

Formigas no transatlântico

O mundo está um caos. Bolsas caindo, chuvas devastadoras, vírus mortal, ódio vencendo, pessoas assustadas. Uma excelente hora para filosofar.

É justamente quando o mundo está uma confusão, quando sentimos a esperança nos abandonar que pensamos em Deus, que desejamos uma ajuda da providência divina. Em geral essa ajuda não vem.

Estaria Deus insensível a tanto sofrimento? Estaria ele nos testando justamente agora que nos sentimos tão frágeis, tão desamparados?

Nossa aflição vem da incapacidade de compreendermos Deus. Eu também sou assim. Somos tão pequenos diante d’Ele que não podemos concebê-Lo então reduzimos Deus ao tamanho da nossa compreensão. Como se Ele fosse uma criatura parecida com o homem, capaz de pensamentos com a moral humana.

Deus gosta de preces e não de aborto; Deus ajudou um sujeito a fazer um gol e atrapalhou o goleiro do outro time; Deus salvou uma criança no desabamento. Ou seja, deixou que as outras crianças morressem no mesmo acidente. Isso faz sentido?

Para tentar compreender sua grandeza, pensei numa metáfora.

Pensem em formigas que moram na cozinha de um gigantesco transatlântico. Elas Vivem das migalhas que caem no chão ou dos alimentos que os cozinheiros esquecem sobre uma bancada.

São tão pequenas, que acreditam que a cozinha e as salas no seu entorno são o universo. Acreditam que os homens são as maiores criaturas existentes, poderosos como deuses que podem as matar com um dedo apenas.

As formigas não conseguem conceber o transatlântico que as transporta, as abriga, as protege e as alimenta. Se elas pensassem em Deus, talvez o vissem como uma criatura espiritual na forma de uma formiga.

Nós somos as formigas. Deus é o transatlântico.

Os ateus devem estar achando o texto uma grande perda de tempo. Mas ele vale também para o universo. Nossos super telescópios nos desertos chilenos nos revelam galáxias e buracos negros, nebulosas distantes e explosões de estrelas. Tudo isso é fascinante, mas não passa da cozinha do navio. Não conseguimos imaginar a embarcação como um todo, muito menos o oceano que a cerca.

Somos formigas no transatlântico, preocupadas porque hoje não há bolo e caíram poucas migalhas para roubar.

Os dois tipos

Os dois tipos

Não existe a necessidade de acreditar-se na história do Almir, especialmente da maneira que o autor a coloca. Sabe-se que os autores são humanos e que em seu ponto de vista já há uma deturpação. Essa história, porém, dentro do possível, pode ser considerada real.

         Foi de uma hora para outra que Almir começou a classificar as pessoas. Todas deviam estar de um lado ou de outro de um Equador imaginário. Sei que é difícil entender assim, mas em exemplos veremos como funcionava sua cabeça.

         Para ele haviam os que lutavam até o fim e os fadados ao fracasso. Não havendo uma alternativa neutra. O avô Alberto era um lutador. O primo Cláudio um derrotado. Se contestavam seu raciocínio dizendo que alguém poderia não ser uma coisa nem outra ele replicava:

_ Você é que não sabe classificar.

         E não era apenas em relação a este critério. Para ele havia os que dormiam adequadamente e os que dormiam errado (e não me perguntem o que isto significa), os que cortavam o cabelo por vaidade e os que faziam por obrigação, os conscientes de seu papel no mundo e os alienados, e assim por diante.

         Não entendíamos da onde vinham os critérios de classificação e nem se havia relação entre eles. E ninguém sabe exatamente quando tudo começou mas de fato aquilo havia se tornado de tal forma uma obsessão para Almir que era difícil vê-lo falando de outra coisa.

Diante da televisão:

 _O Chico Pinheiro é do tipo que leva mais tempo escovando os dentes que se barbeando.

 _Mas quem é do outro tipo?

_O Márcio Canuto.

Em um jogo de futebol:

_ Existe o jogador que chuta bola com raiva e o que chuta com indiferença.

_E não há quem chute com gana?

_Nunca.

Sempre alguém retrucava o Almir. Nós, mais próximos, fazíamos por ironia, por irritação, por começarmos a nos preocupar com sua saúde mental. Outros faziam porque era divertido argumentar ouvir as explicações, ou simplesmente discutir por discutir. Ressalte-se aqui que Almir jamais aceitou a opinião alheia. – “Vocês ainda não entendem” – Dizia. 

Pode parecer engraçado, mas aquilo definitivamente havia se tornado um problema. Ele perdeu o emprego no departamento financeiro de uma multinacional e não conseguia outro, quando perguntávamos se foi bem numa entrevista em outra empresa ele respondia empolgado: – “Acho que sim, o entrevistador é do tipo que come o miolo do abacaxi”

Em relação às namoradas era ainda pior. Por mais que o assunto atraísse de certa forma as mulheres, não conseguia as entreter por muito tempo, para não dizer que se tornava maçante a ponto dele se tornar piada em círculos femininos. Aliás, fizemos vista grossa para não ver que ele já era motivo de piada em vários círculos.

Em casa, porém, ninguém via a menor graça. Mamãe rezava muito e meu pai fingia não se importar, sabíamos que por dentro era o que mais estava assustado. Tio Genésio quis levá-lo ao psiquiatra que tratou o filho de um amigo. Almir rejeitou a hipótese dizendo que havia pessoas que o amavam e pessoas que não o amavam, e que as que o amassem entenderiam que ele não precisava de médicos. Em casa, todos acreditavam que psiquiatra era médico de loucos e não quiseram insistir muito na idéia.

Com o tempo, a preocupação se tornou um fantasma que às vezes incomodava, às vezes passava desapercebido, mas estava sempre presente. Falava-se nele quase o tempo todo e mesmo quando o assunto era outro, parecia mais uma tentativa de evitá-lo. E assim foi-se vivendo.

E como a história acaba? Não acaba. Aceitamos Almir e suas manias e tentamos encontrar um pouco de alegria nas nossas vidas banais, não é assim que todos fazem? Afinal, há os que têm famílias simples e famílias complexas, os que têm irmãos diferentes e os que têm irmãos iguais, os que aceitam seu destino e seguem em frente e os que se deixam abater e, finalmente, os que classificam tudo em duas possibilidades e os que são obrigados a conviver com eles.

Amar é perigoso

Amar é perigoso

Amar é perigoso. Você duvida? Pois bem, então pense nesses caras:

Martin Luther King quis unir brancos e negros.

John Lennon cantou “All You Need is Love” e “Give Peace a Chance”.

Mahatma Gandhi pregou a resistência sem violência.

Yitzhak Rabin firmou tratados de paz entre israelenses e palestinos.

A freira Dorothy Stang defendeu a floresta.

Anwar Sadat fez a paz entre egípcios e israelenses.

Abraham Lincoln libertou os escravos nos EUA.

Todos defenderam o amor e a paz. Todos assassinados.

Teve mais um, o mais famoso, aquele rapaz de Nazaré cujo nascimento é comemorado na festa de Natal. Jesus, o filho de José, falou de amor, de perdão, defendeu uma adultera quando os cidadãos de bem queriam apedrejá-la e para completar brigou com aqueles que queriam transformar o Templo sagrado num lugar onde se ganha o dinheiro dos fiéis. Terminou executado com requintes de crueldade.

Pregar o amor é perigoso e talvez por isso, tão necessário.

O Grande Rabi Akiva dizia que todos os 613 mandamentos da Torá podem ser substituídos por apenas um: Ame ao próximo como a ti mesmo. Já o apóstolo Paulo escreveu que não adianta conhecer a língua dos homens e a dos anjos se não temos amor.

Aliás uma coincidência une Paulo e Akiva. Ambos foram presos pelos romanos e não se sabe com exatidão a causa de suas mortes. Pode ser que eles tenham sido executados, o que não me espantaria. Falaram demais no amor.

Se você ainda duvida deste risco, pense em quantos casais gays tem sido espancados simplesmente por andar de mãos dadas nas ruas. Ou nas mães que tem sido reprimidas por amamentar seus filhos em lugares públicos. Existe ato de amor mais lindo?

Por outro lado, faz muito sucesso quem usa a arma como símbolo, quem prega o ódio, a segregação e o fechamento de fronteiras, quem defende a supremacia de um povo sobre outro, quem defende a destruição da matas e a caça, quem usa a religião como forma de enriquecer. As pessoas do time do ódio conseguem tudo, até mesmo a presidência dos países.

Creio que cada um nós escolhe um time, as vezes fazemos isso sem perceber. Escrevo em pleno Natal, época propícia para este tipo de reflexão. Será que o amor vale o risco?

P.S. Esse deve ser o último texto do ano. Então boas festas e um lindo 2020 para todos vocês meus queridos leitores amigos.

Rock do Diabo

Rock do Diabo

O novo presidente da Funarte ficou famoso de uma hora para outra ao explicar que Rock era coisa de satanista, além de outras falas que fazem duvidar da sanidade do sujeito. Porém, enquanto todos gargalham nas redes sociais, eu sou obrigado a dar o braço a torcer. Ele tem certa dose de razão.

Ainda nos anos 20, o bluesman Robert Johnson compôs Crossroads, depois regravada pela banda Cream do Eric Clapton. Johnson é uma grande influência para o Rock. Crossroads falava de um bluesman (quem sabe o próprio Johnson) que fez um pacto com o Tinhoso numa encruzilhada. Depois disso, o blues evoluiu para o Rock e o Capeta nunca abandonou o estilo.

Já nos anos 60, os Stones gravariam Sympathy For The Devil. Na letra, Lúcifer contava sua história e desafiava o ouvinte ao ritmo de uma batida que lembra os terreiros de umbanda. Era uma música amaldiçoada. O estúdio pegou fogo na sessão de gravação e para piorar, muitos anos depois, Claudia Ohana fez a sua versão para a novela Vamp, assustando a todos.

Porém, somente quando o Heavy Metal surgiu que o Coisa Ruim dominou de vez. The Number of The Beast do Iron Maiden ou NIB do Black Sabbath são odes demoníacas. O satanismo se espalhou pelas capas dos discos de Metal e o estilo ficou cada vez mais pesado e popular, dominando principalmente o norte da Europa.

No Brasil o Capiroto sempre esteve na cabeça de roqueiros. Desde Roberto Carlos que mandou tudo para o Inferno e depois se negou a cantar a canção até Raul Seixas que matou a charada e foi o primeiro a explicar o motivo do Chifrudo estar associado ao ritmo. Afinal, o Diabo é o pai do Rock. Enquanto Freud explica, o Diabo dá os toques.

A Reforma

A Reforma

A reforma é simples: troca de azulejos dos banheiros e cozinha, troca de parte do encanamento que é antigo, aumento no número de tomadas, troca dos boxes e pintura geral. Sinteco.

Dia 1 – Chamo todos os especialistas (pedreiro, pintor, encanador, etc) e estabelecemos juntos um cronograma. Assim, o trabalho de um não vai atrapalhar o do outro e todos me passam a lista de materiais. A obra deve durar 45 dias.

Dia 3 – Já com todo o material comprado o encanador começa a quebrar as paredes dos banheiros.

Dia 5 – O encanador avisa que faltaram 2 conexões.

Dia 6 – Vou a obra levar as conexões às 7h da manhã. O encanador não aparece. Eu liguei 6 vezes até encontrá-lo. Ele disse não dava para trabalhar sem o material. Eu disse que o material estava comprado. Ele perguntou se eu também havia comprado o sifão.

Dia 7 – O eletricista começa a quebrar as paredes, mas o trabalho do encanador está atrasado.

Dia 9 – O eletricista avisa que comprei cabos de 4mm e ele precisava de 6mm. O encanador está com o trabalho quase pronto, mas não aparece há dois dias.

Dia 11 – Termina o trabalho do encanador.

Dia 14 – O eletricista, ao furar a parede do banheiro para passar um fio estoura um cano. Chamo o encanador desesperado. Ele está em outra obra. Fecho o registro.

Dia 18 – O encanador só aparece dias depois e precisa quebrar a parede para arrumar o cano estourado. Chamamos o pedreiro que só chega no dia 20. O eletricista está atrasado porque a pequena inundação prejudicou algumas instalações elétricas.

Dia 21 – O encanador começa a trocar o cano estourado e me liga pedindo mais dois cotovelos.

Dia 22 – Chego na obra com os dois cotovelos, mas o encanador não aparece. Por telefone ele pergunta se comprei o novo registro. No mesmo dia o eletricista me informa que o quadro não está bom e é preciso trocá-lo. A planilha de gastos sobe de maneira infernal.

Dia 26 – O encanador reaparece. O eletricista descobre que a casa não tem fio terra. O pedreiro me pressiona pois precisa iniciar a troca dos azulejos, minha obra está atrapalhando a agenda dele.

Dia 30 – Aparentemente elétrica e hidráulica estão resolvidas. Uma van do depósito chega com o material do pedreiro, mas o pedreiro não podia esperar e está em outra obra.

Dia 33 – O pedreiro começa seu trabalho. Precisa quebrar os azulejos do banheiro. Ao fazer isso estoura um cano dos que eu não havia trocado. O encanador está cansado das minhas reclamações e não quer vir. O Pedreiro indica seu cunhado.

Dia 36 – O cunhado do pedreiro finalmente aparece e mostra que os canos do banheiro que não foram trocados estão todos em estado deplorável. Acusa o encanador anterior de fazer um péssimo serviço e sugere corrigir os defeitos deixados pelo antecessor.

Dia 37 – Não consigo falar com o primeiro encanador.

Dia 42 – Depois de dias sem conseguir falar com o primeiro encanador aceito a proposta do cunhado do pedreiro.

Dia 45 – Recomeça a troca de canos.

Dia 47 – O novo encanador precisa parar a obra pois faltam dois cotovelos.

Dia 51 – A obra hidráulica está quase pronta, mas os canos devem passar bem por onde estava parte da nova fiação. Preciso chamar o eletricista, mas este está no Paraná, trocando a cabeação de uma fazenda. O Encanador me indica seu primo.

Dia 56 – O Pedreiro falece devido a um problema renal, ele nem havia começado a sua parte. O encanador, cunhado do defunto precisa ir ao enterro em Botucatu. O eletricista também vai.

Dia 63 – Depois de dois meses morando na casa da sogra, meus filhos estão estressados. Meu sogro não disfarça mais que nossas presenças incomodam e minha mulher começa a me tratar mal.

Dia 75 – A obra está praticamente recomeçando e já gastei 140% do que havia previsto.

Dia 91 – Já não sei mais quem é o eletricista, quem é o encanador e quem é o pedreiro, os problemas não param de chegar e ainda faltam 2 cotovelos.

Dia 95 – Minha mulher não fala mais comigo, estou devendo no banco. Ouvi meu sogro reclamar com a empregada que não tem que sustentar marmanjo.

Dia 105 – O Pedreiro terminou a parte dele. Diz que está muito confiante com a hidráulica, pergunta se pode me apresentar um primo encanador.

Dia 116 – O Instalador do box avisa que as medidas estão erradas, precisa rever o orçamento.

Dia 141 – Estou morando num hotel. Minha mulher mora com as crianças no meu sogro e ninguém fala mais comigo. Não atendo aos telefonemas do gerente do banco. Tive um ataque de nervos no trabalho. Estou pensando em comprar uma arma.

Dia 157 – O encanador me liga, faltam dois cotovelos.