O Tempo do Amor

O Tempo do Amor

Quando minha filha tinha 5 ou 6 anos levei-a a uma reza em memória de uma tia recém falecida. Para distraí-la, uma prima deu-lhe papel e lápis. Quando saímos da reza, minha filha mostrou o que fizera.

A obra era o desenho de uma ampulheta em forma de dois corações, não toda bonita como essa da ilustração, mas num traço bem infantil. Logo abaixo, ela escreveu a frase.

Rápido, o tempo do amor está correndo.

Provavelmente o ambiente triste serviu de inspiração. Minha filha não tinha passado perto de experiências de morte até então. Eu perguntei sobre as suas motivações, mas ela se recusou a falar.

Creio que ao ver as pessoas se lembrando e ao sentir o clima de despedida, ela intuiu a finitude da vida. O tempo nos faz órfãos, o tempo corre indiferente aos nossos desejos e frustrações.

O pai babão fez o que qualquer pai babão faria: Enquadrei a obra e a pendurei na parede.

Acontece que agora, passados alguns anos, reparei neste quadro e para minha surpresa, o desenho e o texto se apagaram. Na parede havia uma folha em branco, mas no vazio pude ler uma mensagem subliminar.

Rápido, o tempo do amor está correndo.

Novamente e de uma forma inesperada o destino deu seu recado. Nada é perene. Nem os recados. O tempo do amor é finito como somos nós e por isso ele é tão importante. Não podemos parar a areia que cai da ampulheta, mas podemos usar o tempo da melhor forma possível. Quem está ao nosso lado hoje pode não estar na semana que vem e isso não é uma revelação incrível, é a maior das obviedades. Até uma criança de 5 ou 6 anos sabe.

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Velhice

Velhice

Contribuição do amigo Eduardo Tironi

Acordou pela manhã e, como primeiro ato, deu aquela passeada no Instagram pra ver as novidades. Viu uma, outra, outra e outra fotos de amigos e parentes mais velhos do que são. Demorou um pouco pra descobrir que tratava-se do aplicativo da moda. Você tira uma foto e ele te mostra como você poderá ser com mais 20 anos, mais 30, mais 40… a gosto do freguês.

Começou a se divertir. Olhou uma ex-namorada velha e comemorou ter terminado a relação dizendo que “o problema não é você, sou eu”. Olhou o amigo de infância com um jeito de avô.

Riu com piadas que relacionavam velhice ao futebol. Foto do craque do time rival todo enrugado com a legenda: “Fulano esperando o título mundial do Palmeiras”. Sicrano quando o São Paulo voltar a ganhar um clássico” “Beltrano quando o Corinthians terminar de pagar o estádio”…

Baixou o aplicativo, tirou uma foto e também projetou sua velhice para o mundo ver. Ficou ansioso pela repercussão.

Mas ele tinha de trabalhar. Pulou da cama e sentiu aquela dor incômoda de sempre no joelho. Tomou banho e, como todo dia, viu uns cabelos no ralo do chuveiro. Nem ligou.

Tomou café e evitou leite e muita manteiga porque vem sentindo uma azia logo depois que come alguma coisa. Está achando que pode ser intolerância à lactose.

Entrou no carro, ligou o rádio e passou os dez primeiros minutos do trajeto ouvindo músicas que nunca tinha ouvido antes. Sintonizou na Antena 1, que ali sim toca músicas boas.

A cada parada no farol, olhava o instagram para ver a repercussão de sua foto como velho. Coraçõezinhos, risadas, emojis de espanto… Numa das paradas reparou pela primeira vez que não vai ser um velho bonito.

Ao contrário: nariz caído, olhos tristes, cabelo ralo…

No meio da tarde sentiu uma fisgada nas costas que o incomoda há tempos. “Essa cadeira do escritório tá ruim, preciso trocar.”

Pouco depois, recebeu notificação no celular. Saiu o resultado do exame de sangue. O colesterol está alto. Tem de voltar ao médico.

Checou de novo a repercussão dele velho no Instagram. Muita gente comentou, legal! Olhou as fotos de outros amigos e amigas velhos tbem.

Se espantou com alguns tamanha a perfeição das montagens.

Terminou o dia saindo mais tarde do que tinha planejado. Muita coisa pendente no escritório e ele não conseguiu fazer metade do que tinha planejado. Sentiu dor de cabeça por isso desistiu de voltar à academia. Segue pagando o plano semestral, mas há cinco meses não vai porque anda sem tempo.

O tempo anda passando muito rápido, ele pensou ao chegar em casa. Já estamos no meio de agosto!

Abriu a geladeira, pegou o que tinha, pôs no micro-ondas e empurrou pra dentro. Entrou no  banho, saiu do banho, vestiu o calção do pijama e foi escovar os dentes. Se olhou no espelho e por um momento pareceu que olhava o Instagram. Voltou à realidade. Deitou, olhou sua foto de velho novamente. Pulou da cama, foi pro banheiro correndo e se olhou no espelho mais uma vez. Voltou pra cama ofegante. Apagou.

Eu, o abduzido

Eu, o abduzido

O leitor mais fiel deve ter percebido que escrevi pouco nos últimos tempos. Perdoem minha ausência. Ultimamente tive uns probleminhas meio diferentes que acabaram me afastando do blog. O maior deles talvez tenha sido a abdução que sofri há cerca de um mês.

Se você acha que só Raul Seixas e Zé Ramalho são bons o suficiente para serem abduzidos, então aperte os cintos e leia esse relato e verá que há mais coisas entre o céu e a terra do que acreditava o Maluco Beleza.

Não sei como fui para parar na Nave. Eu estava apagado no momento da abdução. Quando acordei, me vi em um leito numa sala escura, senti um tubo enfiado na minha garganta e meus pés e mãos estavam amarrados. Eu tentei gritar, mas não consegui. O tubo não deixava. Como estava preso, usei os dedos para fazer algum barulho até que um dos tripulantes veio me acudir, porém não consigo lembrar direito dos primeiros momentos já que ainda estava sob efeito de drogas.

Só pude entender o desenho da nave no dia seguinte quando acordei. Era uma sala circular. No meio havia uma central de comando onde os alienígenas podiam observar todos os abduzidos. Nós ficávamos deitados em leitos que davam a volta na sala. Havia divisórias de forma que eu não conseguia ver os outros humanos, a não ser quando eles estavam sendo transportados.

Minha condição não era das melhores. Eu tinha um acesso no braço e um cateter no pescoço por onde os aliens injetavam químicas variadas. Uma máscara me ajudava a respirar. Do centro da minha barriga saíam dois fios de chuveiro que se ligavam a uma espécie de bateria de carro e isso determinava as batidas do meu coração, uma engenhoca digna do primeiro filme do Homem de Ferro. Finalmente (e conto isso com tremenda vergonha), havia um cano no meu pinto para escoar o xixi.

Basicamente, eu não podia me mexer devido aos canos e fios ligando o meu corpo aos mecanismos que me mantinham vivo.

Lendo o texto dá a impressão que os et´s eram maus. Longe disso. O objetivo deles era me manter e manter os outros humanos vivos. No meu caso eles conseguiram.

Havia algumas refeições por dia que eu não conseguia comer. Havia também um banho diário, em que dois aliens me lavavam, trocavam meus lençóis e meu jaleco sem que eu precisasse sair da cama.

Uma vez por dia, eu recebia visitas na nave. Duas pessoas da minha família podiam entrar e ficar uma hora ao meu lado. Basicamente eu sonhava com esse momento durante as outras 23 horas do dia.

A vida na nave era um exercício de superação mental. Eu sabia que voltaria para a Terra, que a tortura iria terminar. Porém o tempo passava muito devagar e eu precisava lutar contra o tédio e contra o terrível desconforto que sentia. Tentei chorar algumas vezes para ver se o choro me acalmava, mas o resultado era nulo. O tempo não passava.

Depois de 5 longos dias fui devolvido ao Planeta Terra e descobri que gosto demais do nosso mundinho. Gosto de me mexer livremente e de sentir o corpo sem canos e agulhas. Aprendi muitas coisas na nave, a mais importante delas é que uma hora por dia é pouco para desfrutar a companhia das pessoas que amamos. Sei que parece uma obviedade, mas às vezes só vemos o óbvio quando nos distanciamos. E creia meu amigo, a nave no meio do espaço é distante o suficiente para nos ensinar muito.

Deus no coração

Deus no coração

Meu nome em iídich é Leib (Leão).

Um rabino um dia me disse que Leib se escreve com as mesmas letras de Lev (coração), porém há a letra Yod no meio. Yod é o símbolo de Deus. Logo eu teria Deus no meio do coração.

Nenhum cientista conseguiu provar esta presença, mas há alguns anos médicos detectaram uma hipertrofia no meu miocárdio. Na época era um problema discreto, mas se crescesse, poderia ter consequências graves, entre elas a morte súbita.

No começo desse ano o problema cresceu e depois de estudos e exames decidimos fazer a operação que corrigiria a hipertrofia. Aproveitaríamos e corrigiríamos também um defeitinho no átrio, e faríamos uma ablação, afinal o peito já estaria abertinho, o que custa fazer uma ablação? Retífica completa.

Assim, faz duas semanas que estou no Incor, vivendo aquela rotina básica de hospital que é dividida entre agulhas e esparadrapos.

Quando somos crianças uma única injeção nos tira o sono, quando adultos, nos internam e passam o dia nos espetando como canapés e arrancando tiras a ponto de a gente nem ligar.

Já fiz a retífica do motorzinho, umas coisas tiveram que ser ajustadas no meio do caminho, mas pelo jeito a máquina vai ficar boa. Entretanto, ainda estou no hospital, sendo espetado e tendo esparadrapos arrancados do meu corpo a toda hora.

Tive meus momentos de medo, me perguntei se Deus esquecera de mim. Numa madrugada na UTI lembrei do sofrimento dos judeus nos campos de concentração. Eles aguentaram tanto, por que não eu?

Não sei se sou forte, não consegui provas da existência de Deus no meu coração. Assim como eu, milhares passaram as mesmas noites de angústia em hospitais de todo Brasil, isso faz deles especiais? Na cabeceira da cama, Guimarães Rosa, que eu não consigo acabar nunca, me ensina: ”O que a vida quer da gente é coragem.”

Minha Viagem à Venezuela

Minha Viagem à Venezuela

Todos estão muito preocupados com a Venezuela. Claro que também tenho de me preocupar. O país vizinho vive uma imensa crise política, econômica e social. Não obstante os problemas, há muita polêmica, gente atacando e defendendo o presidente Maduro. Eu queria me aprofundar no assunto e decidi ir à Caracas para ver de perto a situação.

Aos que não acompanharam, segue um resumo do que tem acontecido por lá:

Há alguns anos os venezuelanos elegeram um militar nacionalista e populista para a presidência. Esse militar tinha ideias autoritárias, atacava a imprensa e ofendia os inimigos. Ele detonou a economia e se apoiou em milícias para o oprimir o povo. Quando o militar miliciano morreu foi sucedido por um aliado e o país entrou em parafuso.

Eu toquei para Venezuela para contar a verdade para vocês.

A verdade é que os Venezuelanos estão na miséria. Melhor do que falar é mostrar. As fotos abaixo me cortam o coração. O povo mora na rua, por vezes com os móveis que sobraram de suas antigas casas. Isso quando a polícia não passa e tira tudo o que eles têm. Muitos puxam carroças que usam para recolher entulho e latinhas de alumínio. Cheguei a ver gente pegando comida no lixo. Aliás lixo é o que mais se vê pela cidade. A população revoltada joga tudo no chão, talvez para provocar o governo. O resultado é muito triste.

Torço para que a ajuda humanitária do governo Brasileiro chegue logo a essas pessoas que precisam de tudo, desde comida a produtos de limpeza. Fico feliz em saber que nosso país é tão generoso a ponto de apoiar os necessitados Venezuelanos.

Melhor do que falar é mostrar. Então seguem algumas fotos:

É comum ver pessoas morando em barracas na Venezuela
Em Caracas, sob os viadutos, há comunidades inteiras.
Carroças de entulho são meio de vida para os venezuelanos.
Revoltados, os venezuelanos sujam as próprias ruas.
Quem poderá ajudar essas pessoas?

É uma pena que a Venezuela fique tão longe. Tenho certeza que se ficasse mais perto, os brasileiros com sua infinita solidariedade ajudariam. Tomara que o generoso governo brasileiro consiga fazer a ajuda humanitária chegar logo aos que precisam.

O limite do pragmatismo

O limite do pragmatismo

Sempre achei que se um dia encontrasse um dos membros da família Bolsonaro, me negaria a estender a mão. Os Bolsonaros são a antítese dos meus valores. O oposto de tudo o que prezo e acredito.

Porém, semana passada encontrei um deles e não foi isso que aconteceu. Estendi a mão e sorri, pois estava num evento de trabalho. Agi como um profissional. Fui pragmático e contei essa história no último post.

Temi a reação dos amigos, mas aparentemente os elogios foram maiores que os puxões de orelha. Mesmo assim a situação me instigou a fazer uma reflexão.

Até que ponto podemos abrir mão de nossas convicções por pragmatismo?

Minha atitude na Rio2C poderia ter consequências desastrosas. Se eu ofendesse o político todo o diálogo de nosso setor estaria comprometido. Uma atitude irresponsável poderia afetar a vida e o emprego de 300.000 pessoas que trabalham no audiovisual.

A política é feita assim, de diálogo. É absolutamente comum no mundo inteiro que adversários tomem decisões juntos em função interesses institucionais.

Mas será há limites para o pragmatismo? Num exemplo exagerado, se o encontro fosse com Hitler eu deveria ter o mesmo sangue frio?

Bolsonaro age por convicções e abandona o pragmatismo. Briga com todos, não abre canais de diálogo, ofende povos e países sem se preocupar com as consequências econômicas e diplomáticas de seus atos. Isso faz dele mais nobre?

Na minha opinião, essa convicção de que somos o grande exemplo de retidão moral nos aproxima mais do fanatismo do que da verdade. Há mais honestidade em quem tem dúvidas de suas convicções do que em tem certezas absolutas. Ao não ouvir o diferente, não crescemos, não aprendemos, não evoluímos.

Por outro lado, não há o que se aprender com o ódio, com quem apoia a tortura, com quem defende a morte, o preconceito, a homofobia, a mentira e o ódio como forma de exercer o poder.

De certa forma, eu abracei o capeta e superei meus próprios limites em nome do diálogo e ainda não sei se me orgulho ou se me arrependo disso.

Eu, meu pai e o Lollapalooza

Eu, meu pai e o Lollapalooza

Semana passada, passei diante de uma fila de jovens rockeiros que veriam um show na Audioclub. Fiquei curioso em saber a atração. Era uma das Lolla Partys que acontecem antes do Lollapalooza.

_ Quem vai tocar hoje? – Perguntei.

_ çkfjadçfkjaslkdjf. – Foi o que entendi.

_ Oi?

_ fdjksaçlkjfasdkjfasdj, uma banda nova.

Saí de lá abalado. Há alguns anos eu era o cara que conhecia as bandas novas. Cheguei a ter um blog onde comentava as novidades do Rock. Daí parei para pensar que White Stripes, Kings of Leon e Franz Ferdinand estão indo para as duas décadas. Mesmo o que era novo já envelheceu.

Quando eu era adolescente achava engraçado o desinteresse do pai pela música contemporânea, para ele New Order, Iron Maiden, Seal ou Prodigy eram a mesma coisa e nenhum valia nada. Ele conseguia guardar o nome de um ou outro artista que lhe agradava como Bee Gees ou Michael Jackson, afinal eram artistas que tocavam nas rádios 1600 vezes por dia, mas essas eram as exceções. De resto, podia-se dizer que ele ficou surdo em 1969.

Hoje, sei que virei meu pai. Consigo guardar o nome de algumas novidades que me agradam como Greta Van Fleet ou The Struts, de resto,  sou incapaz de dizer uma única música do Kendrick Lamar. Um gênio segundo a jovem que trabalha comigo.

Vendo os melhores momentos do Lollapalooza senti um tédio tremendo. Rappers, DJ´s, bandas e tais me pareciam igualmente chatas. Ao contrário do público em êxtase, eu lutava contra o sono.

Só velharias me animavam como  Lenny Kravitz e os quase velhos Arctics Monkeys.

Sem perceber, num momento de desatenção, virei meu pai.

Agora não tem como voltar. Vou consumir alucinadamente os discos do Led Zeppelin e dos Mutantes que é o que me resta. Lollapalooza não é para mim. Aguardo ansioso quando shows de verdade como Ray Conniff ou Julio Iglesias. Opa, tem especial do Roberto Carlos na Globo em dezembro. Ainda estou salvo.