A pistola do Benê

A pistola do Benê

Benê nunca havia ficado tão feliz numa eleição.

Ao longo dos anos sempre votara no PSDB como antídoto contra o PT, mas agora, em 2018, pela primeira vez votou num candidato por quem tinha verdadeira admiração. Bolsonaro era seu sonho de consumo e ele é o nosso presidente.

Benê amava tudo a respeito do Bolsonaro: a história, as frases polêmicas, a esposa, os filhos, o partido e os amigos. Porém, entre todas as propostas do velho político, o que mais deixava Benê feliz era a facilidade para a posse de  armas.

_ Quando liberar a posse compro uma pistola na hora.  Quero ver se vagabundo aparece aqui em casa.

_ A gente mora no 15º. andar de um prédio super seguro. Não vai aparecer vagabundo aqui – Lygia respondia entediada, enquanto tirava o esmalte das unhas do pé – Também votara em Bolsonaro mas não tinha a mesma empolgação do marido, nem de longe.

Os sonhos de Benê foram se realizando um a um e finalmente veio a flexibilização da posse de armas. Logo no primeiro dia ele comprou uma Taurus 838 linda de morrer.

Chegou em casa e Lygia havia encomendado uma pizza, mas Benê não a acompanhou no jantar. Ficou concentrado na poltrona, lendo e relendo o manual, manuseando a bichinha que esperara tantos anos para ter.

A atitude se repetiu por duas noites. Lygia ficava na mesa sozinha enquanto Benê montava e desmontava a arma, colocava e tirava os cartuchos e fazia umas poses estilo Robert de Niro em Taxi Driver, até que Lygia se irritou.

_ Larga essa merda e vem comer, parece criança.

A cabeça de Benê ficou imediatamente vermelha, as veias do pescoço saltaram e ele levantou-se subitamente, segurando a pistola de forma ameaçadora, mas sem apontar diretamente para Lygia.

_ Qual o Problema! – Ele gritava – Vai me encher o saco? Isso aqui é pra matar vagabundo, mas ajuda a mostrar quem manda!

Lygia segurou o choro e jantou sozinha. No dia seguinte esperou ele sair para fazer as malas, deixando um bilhete lacônico na mesa.

Meu advogado liga para o seu.

Quando chegou em casa, Benê ficou assustado e revoltado por uns minutos, mas depois pegou a pistola na gaveta e começou a acariciá-la. Tão linda, tão lisinha. Passava o cano grafite escuro pelo braço como se deixasse a pistola devolver-lhe as carícias e depois encostava ela inteirinha nas bochechas, chegando perto de beijá-la, num ritual que se repetiu por muitos e muitos anos de solidão.

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Grampearam o presidente

Já grampearam o presidente. Nada de novo. Aconteceu com os últimos 3. Com ou sem motivo, se você ganha uma faixa verde-amarela pode ter certeza que nela já tem um microfone escondido.

Porém, com o Moro no Governo vai ser mais difícil divulgarem uma conversa indevida, ou pelo menos, deveria ser mais difícil. Pois este blogueiro conseguiu em primeira mão uma gravação de hoje cedo feita diretamente do gabinete presidencial. Prepare-se leitor, você saberá tudo o que acontece no coração do comando tupiniquim.

Na conversa abaixo transcrita, Bolsonaro interage com um assessor ainda não identificado. Estamos no sétimo dia de mandato e o diálogo começa assim que ele chega ao trabalho, logo depois de beijar o retrato do Trump.

– Bom dia, pega o meu Ipad que hoje eu tô com umas tiradas ótimas para zoar os petralhas no Twitter.

– Não podemos mais, senhor presidente. Agora o Secom será responsável por suas postagens em todas as mídias sociais. Lembra?

– Lembro, catzo. Mas aquelas bicha fica me zuano direto (sic). Não posso nem responder?

– Infelizmente não, excelência.

O presidente fica um pouco em silêncio. Ouve-se um barulho de batuque na mesa, depois ele retoma.

– Será que tem uns jornalistas na frente do prédio? Eu posso ir adiantando as novidades da economia pra eles…

– O Paulo Guedes me pediu para não deixar vossa excelência falar de economia. Disse para que eu tentasse evitar de qualquer maneira.

– É verdade. Ele e o Marcos Cintra me proibiram mesmo…

Novo silêncio.

– O senhor quer outro exemplar de palavras cruzadas?

– Não precisa. Vamos dar um pulo no Congresso. Eu vou ameaçar quem vota contra o Governo. É hora dos esquerdistas vagabundos verem quem manda nessa merda.

– Senhor presidente, o Onyx já deixou claro que o senhor não pode fazer isso, lembra? Atrapalha a articulação.

– Tem  razão, no tocante a articulação, tem de ficar tudo bem articulado.

Silêncio constrangedor. 8 minutos depois…

– Olha de novo a minha agenda. Tem certeza que não tem nada?

– Tem uma visita ao Colégio Militar. O senhor vai discursar para os adolescentes.

– Excelente, perfeito! Convoque a imprensa, separe meu paletó, chame meus filhos.

– Os filhos não presidente, por favor os filhos não!

Homens de Rosa

A polêmica da semana é a ministra Damares dizendo que meninas devem vestir rosa e homens azul. Evidentemente a frase não se refere a padrões da moda, mas comportamento. Ela quer dizer que homens e mulheres devem ter seus papéis sociais tradicionais resgatados.

Não é um decreto governamental que vai regredir os 100 anos de avanço das mulheres na sociedade, mas o fato curioso reforça uma impressão que tenho do novo governo.

O presidente não gosta de governar e não tem o menor interesse por assuntos chatos como impostos, leis, déficit primário ou metas de inflação.  Ele gosta de lacrar em redes sociais e irritar a esquerda no Twitter. A escolha de alguns ministros malucos, incluindo a tal ministra das meninas de rosa, tem a ver com isso.

O pior é que a esquerda mordeu a isca e deve passar os próximos 4 anos fazendo memes contra as bobagens do presidente sem grandes articulações e saídas alternativas.

Enquanto isso Paulo Guedes, Onyx e Moro governam em triunvirato.

Pode dar certo, pelo menos do ponto de vista das classes médias e altas, na bolha onde vivo. Meu círculo de amizades pertence à camada da sociedade que frequenta o Outback, uma galera que não dá 1% da população.

Para esses, se 200 cidades ficam sem médicos ou se índios são dizimados para plantar soja não faz a menor diferença. Mesmo o aumento criminoso dos salários mais altos do governo não é problema. O importante é xingar o PT e se preocupar com a saúde dos venezuelanos.

Enquanto a ministra Damares fazia seu pronunciamento a bandeira que tremulava atrás dela não era brasileira. Nossa bandeira não ficou vermelha, mas está muito longe do verde e amarelo. Quem sabe não abandonamos de vez essas cores e adotamos uma bandeira azul e rosa que agradará a ministra e lembrará um dos poucos orgulhos nacionais que unem homens e mulheres, laicos e religiosos, o Guaraná Jesus.

O Desejo

O Desejo

O que será que será
Que dá dentro da gente que não devia

Nos anos 70 Chico Buarque, o compositor mais amado do Brasil, escreveu estes versos, provavelmente estranhos para os mais jovens. Pensei neles enquanto lia as matérias sobre João de Deus. O médium que atendia milhares de pessoas em Goiás está preso depois de ser acusado de crimes  assédio por centenas de mulheres. Foram crimes bárbaros, repetidos por muitos anos.

Não foi o primeiro e nem será o último homem a jogar fora seu nome por não controlar os impulsos sexuais.

Juízes, políticos, esportistas e líderes religiosos já cometeram as maiores barbaridades e imoralidades destruindo as próprias vidas.

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá

Tudo culpa de um tal desejo, um impulso primitivo que nos provoca e nada tem a ver com nossa racionalidade.

Na cabeça de cada homem e mulher de respeito orando nos bancos da igreja, o instinto primitivo está escondido, aparecendo sorrateiramente, provocando, procurando respirar. E não falo apenas de instintos sexuais. A raiva, o medo e a gula fazem parte de nossa irracionalidade.

Talvez os caros leitores já tenham sofrido com isso, alguém que lhes despertou os instintos. Quem sabe um colega de trabalho, um professor, um amigo. Quem sabe alguém proibido como o namorado da amiga ou o pastor da congregação

O fato é que somos seres sociais e evoluídos e aprendemos a controlar nossos desejos. Aprendemos a colocá-los em segundo plano, escondidinhos, e seguimos em frente, atuando lindamente em nossos papéis sociais.

Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia

Assim, vez ou outra, quando o animal instintivo domina o racional, quando o cidadão acima de qualquer suspeita se mostra o tarado, o pervertido, o monstro, a sociedade com justiça, se defende acusando o agressor.

Enquanto isso, eu no meu canto, me lembro que há nervosos animais irracionais dentro cada um de nós, loucos para arrancarem as amarras racionais e sociais que os contêm. O que não tem decência nem nunca terá. O que não tem censura nem nunca terá.

O que não faz sentido.

 

 

 

Dois Negros Cadus

Dois Negros Cadus

O primeiro negro Cadu é um menino que nasceu na minha cabeça e ganhou vida através dos traços de Pedro Menezes e da aposta da Lizandra Almeida, da editora Pólen. É o personagem do meu livro infantil “Cadu e o Mundo Que Não Era”.

O Segundo negro Cadu é um adolescente que nasceu na cabeça de Mauro Paz, jovem e brilhante escritor cujo livro “Entre Lembrar e Esquecer” inspirou este texto.

É uma boa coincidência dois escritores brancos escolherem o nome Cadu para os seus personagens negros e maior coincidência é a dupla se aproximar depois dos livros serem lançados.

Meu Cadu é um menino sonhador, provavelmente de classe média, cuja cor da pele não interfere na criatividade incontrolável. Ele aprende que a imaginação exagerada pode ser um problema como pode ser um dom.

Já o Cadu do Mauro Paz já começa o livro morto. Um adolescente de classe média fera no Skate que é assassinado numa festa da elite de Porto Alegre. O Cadu do Mauro é inspirado por um menino real, um negro encontrado morto numa festa chique, e cujo crime ninguém quis investigar.

Meu Cadu é o sonho. Um negro que poderia ser branco, poderia ser japonês, poderia ser o que quisesse porque no meu livro a cor de Cadu não importa. Fosse como fosse, sua história seria a mesma.

O Cadu do Mauro era um negro entre brancos e talvez essa tenha sido a causa da sua morte.

No mundo real, o meu Cadu poderia virar o Cadu do Mauro ao chegar na adolescência e descobriria que nem toda a imaginação o afastaria de olhares estranhos, de gente assustada na rua quando ele passa à noite, de batidas policiais, de piadinhas sussurradas na faculdade.

Conheço Mauro o suficiente para saber que ele vai continuar escrevendo sobre este duro mundo real, onde Cadu vive no fio da navalha, e me conheço o bastante para saber que continuarei sonhando com mundos onde a cor do Cadu não seja relevante para a história.

p.s. Quando escrevi Cadu ele não tinha cor nem cara, era só um amontoado de letras num documento de Word. Cadu tornou-se negro por sugestão do Pedrão, o ilustrador e coautor.

A Velha e o Mar

A Velha e o Mar

Para os cinéfilos é fácil descrever o Hotel Argentino. Pensem no filme “Hotel Budapeste” e imaginem como seria o “Budapeste” hoje, absolutamente decadente, muito diferente dos dias de glória.

Pois bem, o Hotel Argentino, que fica na praia de Piriápolis é exatamente assim. Construído em 1930, era o orgulho do povo uruguaio. Um prédio majestoso com estátuas gregas, cassino, spa e todo o luxo que atraiu a alta sociedade rio-platense dos anos dourados.

Porém, quando visitei o hotel no mês passado, não vi glamour. A construção continua majestosa, mas a cidade de Piriápolis a sua volta cresceu sem graça, nada tem de balneário turístico, pelo menos que mereça uma visita. Tudo no Hotel Argentino revela sua decadência: Azulejos gastos, tapetes mofados, janelas descascadas e os hóspedes, bem, há muito o que dizer sobre eles.

Todos os hóspedes haviam nascido antes morte de Evita Perón. Exibiam suas bengalas nos salões mofados, nas roletas e aulas de hidroginástica. Entre as maçanetas douradas corrimões de madeira, eu observava seus movimentos lentos e confusos, como se a decadência do hotel acompanhasse o ocaso de seus corpos.

De repente, ao abrir a porta do elevador, vejo sair uma senhora muito idosa empurrada em sua cadeira de rodas por uma cuidadora. A mulher não falava, tinha a expressão distante de quem tem algum tipo de demência. A cuidadora conduziu a cadeira até uma janela e a velhinha ficou ali, com seu olhar perdido em direção ao mar.

Há quantos anos ela frequenta o Hotel Argentino? Que histórias teria vivido para continuar circulando por seus salões mesmo quando lhe escapa a sanidade?

Provavelmente, olhando para o mar, vinham-lhe memórias de tempos magníficos. Um dia ela foi uma jovem e elegante senhora que circulou altiva por aqueles corredores. Minha imaginação faz pensar que foi lá que conheceu seu marido, talvez num baile de ano novo. Fecho os olhos e a vejo num lindo vestido, rodando pelo salão ao som de La Barca.

O tempo não foi gentil com o majestoso prédio assim como não será com cada um de nós. Lentamente o lugar que atraía presidentes foi sendo esquecido como muitos seremos no futuro. Suas paredes permanecem em pé, mas as histórias desaparecem, perdidas como o olhar de uma velha senhora diante da janela que revela tempos distantes.

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O Hotel Argentino, charmoso apesar da idade.

A volta aos bons tempos

A volta aos bons tempos

O leitor do blog, já está familiarizado com meus textos, sabe que não sou dos sujeitos mais inteligentes. No português claro, sou meio burro mesmo. Para você ter ideia, até hoje tenho dificuldade em entender o imenso ódio ao PT. Mas isso não é nada. Acho ainda mais confusa a escolha de Bolsonaro como o Salvador da pátria.

Alguns amigos me dizem que não havia opção.

Como não? – Penso eu enquanto rumino minha alfafa. A direita podia escolher o Amoedo, o Meirelles, o Alvaro Dias e o Alckmin. Todos experientes, administradores testados. Ainda tinha o Cabo Daciolo para os mais religiosos. Por que escolheram a pior opção?

Pois eu andei matutando e observando as postagens dos amigos nas redes e no Zap e cheguei a uma teoria, daquelas bem malucas que povoam meus textos. Vamos ver se o leitor concorda.

O brasileiro é um conservador vivendo num mundo em plena transformação.

As pessoas da minha idade, não sabiam o que era um gay. Havia a bicha. Uma figura patética e caricata. Mas nos nossos cotidianos, o gay não existia e as famílias não aceitavam sua presença. O mesmo acontecia com mulheres chefes de família. Era um mundo de compartimentos separados e papéis claros. A autoridade pertencia ao macho provedor.

Durante os últimos 30 anos aceitamos bem as mudanças. Aceitamos que o sobrinho gay trouxesse o companheiro para a ceia de natal. Até curtimos o rapaz. Aceitamos que negros e gente de tipos e origens diferentes invadissem nosso mundo fechado de brancos de classe média. Somos abertos a mudanças.

Mas homens da minha geração chegaram próximos aos 50 num mundo totalmente diferente. Difícil de lidar. Abrimos a porta para os gays e de repente entraram negros, feministas, transgêneros, cotas, tatuagens, piercings e arte transgressora,  pressionando  os limites do nosso conservadorismo.

O tiozinho do churrasco aceitou bem o sobrinho gay, mas não consegue aceitar a cota pra transgêneros no concurso público ou o adolescente que sai de batom na Paulista.

A direita percebeu isso há anos e colocou lenha na fogueira do Whatsapp: O Peladão do Museu, a exposição de arte gay, a peça Macaquinhos, uma série de eventos sem importância viraram escândalos desnecessários, mas ajudaram o brasileiro tradicional a achar que o mundo está moralmente arruinado. Foram milhões de memes mentirosos associando a esquerda à pedofilia.

Bolsonaro não precisou falar de emprego como fazia Alckmin ou de experiência administrativa como fez Meirelles. Não precisou falar de corrupção como Alvaro Dias ou de um Estado eficiente, como Amoedo. O Brasileiro conservador por natureza está preocupado com o fictício Kit Gay nas escolas, criando um ambiente onde Bolsonaro é a referência.

O Brasileiro sonha com a volta de um passado bucólico onde branco é branco, preto é preto, homem é homem e mulher é mulher. Um passado onde o macho provedor é autoridade da família e da sociedade.

Bolsonaro é esse macho provedor autoritário, nesse campo ninguém ganha dele. Ele está propondo uma volta ao passado e as pessoas já compraram essa ideia. Voltemos ao meio do século XX, quando as coisas faziam sentido, quando caçar era divertido e derrubar as matas necessário. Voltemos ao século XX antes dos nordestinos invadirem as cidades do Sul, numa época em que não havia mulheres mandando no trabalho. Voltemos aos anos 60, enquanto o resto do mundo avança a passos largos num maravilhoso e revolucionário século XXI.