Esquerda x Direita x Amor (parte 1)

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Caros leitores (vocês três), perdoem minha ausência. Ando atarefado com o lançamento dos meus dois novos livros (em breve mais detalhes) e acabei não conseguindo aparecer por aqui.

Volto com um tema que pretendo tratar em mais de um post.

O que é ser de esquerda ou de direita? O que são esses caminhos ideológicos que definem a visão política de praticamente todo mundo? Através deste painel com perguntas e respostas, todos entenderão esses conceitos tão complexos.

Pra que foi criada a divisão Esquerda x Direita?

A divisão do mundo entre esquerdistas e direitistas foi inventada em 2004 por um funcionário da Google para aumentar o fluxo de usuários no Orkut. Mesmo com o fim da avó das redes sociais, os memes zoando mortadelas e coxinhas nunca pararam de aumentar.

Hoje, a briga entre direita e esquerda é a mola base de sustentação do Twitter e do Facebook.

O que são pessoas de direita, a.k.a. coxinhas?

Pessoas de direita são figuras curiosas. Sua principal característica é o ódio ao Lula.

Elas tem lindos terraços em sua casa que usam para bater panelas quando a Dilma discursa. Vamos a algumas características:

  • Elas acham que o Chico Buarque é burro e tem grande admiração pelo intelecto do Alexandre Frota.
  • Elas sofrem de mutismo quando fala-se da corrupção dos partidos que não são o PT.
  • Elas acham que o Olavo de Carvalho é filosofo, que o Constantino é economista e que a Veja faz jornalismo.
  • Nos casos mais graves, eles torcem pelo Bolsonaro e odeiam gays, mulheres que pensam, esquerdistas, democratas e pessoas educadas.

O que são pessoas de esquerda, a.k.a. Mortadelas?

Pessoas de esquerda são tipos que gostam de causas. Eles defendem o negro, o palestino, a mulher, o Lula… Eles gostam muito de defender coisas. Também gostam de defender ideias. Mesmo algumas sem nenhum sentido.

  • Esquerdistas são emotivos, eles pensam  com o coração, se comovem com aquele discurso que só pega adolescentes ou com o Suplicy cantando Dylan.
  • Eles acreditam que o dinheiro publico é infinito e que qualquer plano para racionalizar o uso deste dinheiro é uma interferência do imperialistas.
  • Elas trabalham em espaços compartilhados, defendem o escambo  como forma de pagamento, nunca foram funcionárias registradas e mesmo assim defendem a a CLT.
  • Elas gritam palavras de ordem.
  • Nos casos mais graves, obstruem a mesa de votação do Senado.

O que querem os Coxinhas?

Zoas os mortadelas.

O querem os Mortadelas?

Zoar os Coxinhas.

Existem políticos de Direita ou de Esquerda?

A maioria dos políticos caga para as posições ideológicas. Eles gostam de mamar na máquina pública. Vejam o exemplo do Kassab que era Serrista do DEM, saltou para para o barco do governo se tornando ministro e grande apoiador da Dilma e de última hora votou pelo impeachment e agora defende Temer.

Porém, um grupo minoritário de políticos tem visão ideológica.

O que querem os políticos de direita?

Um estado menor, liberdade econômica e se possível uma tetinha para mamar.

O que querem os políticos de Esquerda?

Um estado maior, um colchão social grande e se possível uma tetinha para mamar.

Por que você colocou o “Amor” no título do post?

Ele vai aparecer na história, nas esse texto já está muito grande. Em breve escrevo a continuação e introduzo o tal do amor.

Vai acabar o post assim mesmo?

Vou

 

 

Um casal Gay no Metrô

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Vi as duas garotas na plataforma da estação Paulista da linha amarela. Estavam de mãos dadas e demonstravam grande carinho entre si. Ambas tinham menos de 30 anos. Uma era branca, usava óculos antiquados e tinha um ar de nerd, como as segregadas nos filmes passados em colégios americanos. A outra era negra, mais alta e usava longos dreadlocks com enfeitinhos rosas e vermelhos.

Entrei no trem e comecei a ler. Passado um tempo percebi que estávamos no mesmo vagão. Então reparei que ninguém dava bola para as duas e comecei a pensar nesta crônica.

Há vinte anos, duas gays não poderiam demonstrar carinho num vagão de metrô. Seriam hostilizadas, atrairiam olhares de reprovação, seriam o assunto das conversas em seus entornos. Muitos anos antes, um romance de um negro com uma branca seria um pecado absurdo, acabaria nos jornais, nas páginas policiais.

No entanto, lá estavam elas, branca e negra, duas mulheres apaixonadas e ninguém se importava com isso.

Infelizmente, o mundo não é tão perfeito como o amor que sentem. Ainda há políticos que lutam contra o direito das duas. Aqui mesmo, na redes sociais, há milhares de pessoas que hostilizam outras pela cor de sua pele ou por suas escolhas afetivas.

Pior que isso, nos EUA, que estão séculos a nossa frente, tivemos esse terrível atentado no final de semana. Um único indivíduo capaz de espalhar tanto ódio e terror.

Sou otimista. Acredito que o trem da história só caminha em uma direção. Há cinquenta anos um negro americano não podia entrar em determinadas lanchonetes. Hoje um negro americano está deixando a Casabranca depois de governar o país com brilhantismo.

Há 70 anos tentaram exterminar todas as pessoas do meu povo. Executaram velhos, mulheres e crianças. E isso aconteceu na região mais avançada e culta do planeta. Hoje isso seria impensável.

Sei que ainda há um caminho longo para andar. O preconceito resiste como resistirá por muito tempo. Trumps e Bolsonaros nos lembram disso. Mas as novas gerações já compreendem de outra maneira.

As duas garotas do Metrô precisam ficar atentas com os loucos espalhados por aí, porém não podem se esquecer que já vivem num mundo em que o termo “sapatão” perdeu o sentido. O futuro será sempre melhor.

O atentado de Orlando será um nota de rodapé na história, assim como serão esquecidos um dia Malafaia e Feliciano. As moças de mãos dadas no metrô serão cada vez mais frequentes e, melhor que isso, cada vez menos notadas.

 

 

 

 

Trocando a política pelo primeiro amor

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O texto de hoje estava na minha cabeça há dias. Falaria de golpe (ou não golpe), Panamá, STF e essas coisas que todos adoram falar hoje em dia.

Mas ocorreu que ontem passei para minha filha um filme que achei no Netflix e não via faz tempo: Little Manhattan (que no Brasil milagrosamente virou O ABC do Amor).

O filme é lindo, divertido e muito tocante. Conta a história da primeira paixonite de um menino de 10 anos que se encanta com a coleguinha das aulas de Karatê.

Vejam o trailer, que simpático. O menino hoje cresceu. É o Peeta de Jogos Vorazes.

Minha filha adorou e sendo uma menina de 10 anos, me fez pensar que em breve sofrerá do mesmo mal que afligia o personagem. A paixão. Quão grande é esse sentimento nos adolescentes e quão pequenos são seus recursos para encarar tamanho amor. 

Ela enfrentará decepções, ansiedades, desgostos, grandes surpresas. Ficará desesperada, beijará um pirralho espinhudo achando que ele é o homem de sua vida. Sentirá o coração bater tão forte como se fosse saltar para fora do peito. Chorará sozinha no quarto.

Eu morrerei de ciúmes e terei um pouco de inveja. Saudades dos tempos em que a vida ainda era um roteiro por escrever.

Meu primeiro amor aconteceu aos 11 anos. Foi uma paixão platônica por uma menina de 12 da minha classe. Era linda e muito mais madura que eu. Não tive a menor chance com ela. Éramos apenas (snif) bons amigos.

Lembro de um bailinho de garagem (meu Deus na casa de quem?). Durante a dança da vassoura passamos uma música inteirinha colados, como se nada mais existisse no mundo. Ela não aceitou a vassoura de ninguém. Foi glorioso mas a história terminou aí.

Ela saiu do colégio no ano seguinte e eu só a vi nos tempos de faculdade. Havia começado a namorar um conhecido meu. Os anos se passaram e a garota sumiu de vez e por ironia, esse namorado se tornou um dos meus melhores amigos.

Queria voltar no tempo, encarar o mundo com a ingenuidade da minha filha. Esquecer de tudo o que eu aprendi e acreditar que cada história de amor é definitiva. Queria que o mundo se bastasse no restrito universo dos meus amigos de escola e minhas paixões. Queria sonhar com uma garota e ainda assim achar que o futebol do intervalo é mais urgente do que o amor.

Sofrerei cada vez que minha filha sofrer. Mas não esquecerei da sorte que tem em viver uma idade tão gostosa.

 

P.S. E você? Ainda se lembra do primeiro amor?

 

Por quem os sinos dobram

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Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano, e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

Escrito por John Donne no sec. XVII

(Ilustração de Islam Gawish)

Viver de amor

Amor de avó

Ah, o sonho dos apaixonados! Viver de amor.

“Não precisamos de nada, se estivermos juntos teremos um ao outro e é o que importa”

Quem acredita nisso? Talvez os adolescentes. Nós adultos sabemos que a vida não é bem assim. Ela nos cobra muito mais do que amor e os relacionamentos idem. Passa o tempo e ficamos cínicos. Há quem acredite que um companheiro razoável que divida as contas e seja limpinho valha mais que uma paixão avassaladora.

Acho que até pouco tempo eu tinha uma opinião formada. Acreditava que era impossível “viver de amor”.

Mas mudei de opinião nas últimas semanas observando minha avó que acabou de fazer 90 anos.

Percebi que com o tempo, para ela, a maioria das coisas perdeu importância. Ela não tem força para longas caminhadas e não pode sair andando por aí. Viagens ou compras são muito difíceis e acabam sendo evitadas. Ela quase não ouve, mesmo com o aparelho de audição e é comum que se desinteresse pelas conversas ao seu redor.

Não se importa com as novidades das novelas, não quer saber se o Janot denunciou o Cunha e está se preocupando cada vez menos com os pequenos problemas que povoam as conversas de família em almoços dominicais.

Basicamente, minha avó se interessa em abraçar e beijar as pessoas que ama o máximo possível e em externar o quanto gosta de todos.

Ela não era uma avó particularmente carinhosa na minha infância. Era daquelas que governavam a casa e as panelas com primor, sua torta de maçã e seu Gefilte Fish eram épicos. Gostava de todos e sempre foi uma boa avó. Mas estava mais para uma regente do lar do que para uma ilustração de Norman Rockwell. Super detalhista no orçamento familiar, sempre teve uma calculadora na cabeça e era atenta às necessidades de cada membro da família.

Agora, em seu mundo de silêncio, vive de beijos e abraços, absolutamente feliz com cada contato que tem conosco e com as poucas amigas sobreviventes.

Sorte dela poder viver de amor. Espero que cada um de nós alcance esta etapa da vida com um pouco de saúde e estando próximos aos que realmente importam. Pois tenho certeza que nessa idade, curtidas no Instagram de nada nos valerão.

O pé na bunda perfeito

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Júlia dedicou-se àquele texto como poucos vezes se dedicara a algo. Os dedinhos finos se apertavam no teclado do celular com habilidade e deles saia o que ela iria considerar sua pequena obra-prima. Era uma carta com o “pé na bunda” que estava para dar em Matheus.

Se Matheus fosse um namorado mesmo, teria que falar com ele ao vivo, porém estavam apenas saindo há algum tempo e uma mensagem pelo Whatsapp parecia mais que suficiente para ocasião. Era daqueles relacionamentos que crescem sem motivo, e como os Baobás do Pequeno Príncipe, precisam ser destruídos antes que suas raízes se finquem demais no chão.

Só não esperava que realizaria um texto tão perfeito. Em nove linhas conseguia ser delicada e ainda assim dar bons recados nas entrelinhas. Era efetiva, não deixava espaços para argumentações, sem ser arrogante. Fazia com que a culpa pelo fim parecesse dos dois e ainda passava a sensação de que também sofria com a separação.

Enviou a mensagem e recebeu de volta, minutos depois, um xororô qualquer do garoto que mal valia a pena ler. Caso encerrado.

Só que estava tão orgulhosa do feito que precisou ligar para Mirela e contar o ocorrido. Mirela acabou recebendo o texto como prova do brilhantismo de Júlia e foi obrigada a concordar. Era o melhor “fora” que já tinha lido. Tão bom, tão bom, que ela mesma usou para dispensar o Beto dias depois. Estava louca para fazê-lo mas não sabia como e o texto da Júlia veio a calhar.

Nas semanas seguintes, outras amigas que souberam da história acabaram por usar emprestado o tal texto com igual sucesso e depois disso, fatos curiosos começaram a ocorrer.

Primeiro foi na faculdade, Júlia encontrou Carla chorando com o celular na mão. Tinha acabado de ser dispensada por Miguel, o melhor amigo de Matheus. Mostrou a mensagem para Júlia que reconheceu imediatamente a sua criação literária sendo usada indevidamente.

Nos dias seguintes, houve um onda de relacionamentos encerrados na PUC. Todos por Whatsapp.

Júlia estava assustada, no ônibus percebeu uma moça começando a soluçar com o telefone na mão. Olhou sobre seu ombro e novamente estava lá o texto.

A coisa saíra do controle. Todos que não terminavam seus namoros por medo de enfrentar a chata situação de dispensar o outro passaram a usar o texto de Júlia. Era comum ver pessoas chorando na rua segurando seus celulares e a fama da carta cresceu.

O medo fez com que muitas pessoas apaixonadas deixassem de usar o Whatsapp e posteriormente, outros aplicativos de mensagens e e-mails. Mas era tarde demais. O texto podia ser entregue em cartas, telegramas ou manuscritos. E o amor nunca mais foi mesmo.

Júlia ficou confusa e assustada com a repercussão, tinha dúvidas se fizera a coisa certa e se devia arrepender-se. Sua única certeza era que escrevera uma obra-prima.

O estranho nu *

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Quando Camila acordou estava ao lado de um corpo masculino nu e desconhecido.

Tentou reconhecer o ambiente e se deu conta que nunca estivera naquele quarto. A porta na parede oposta a cama estava semi-aberta e permitia que a luz entrasse. Ao lado dela havia um armário de compensado, folhado a mogno, nitidamente vagabundo. Na parede a sua direita viu uma estante enorme, do mesmo material, repleta de livros e velharias. Na outra parede, prateleiras abarrotadas de revistas, a maioria parecia ser de histórias em quadrinhos.

Camila saía pelo menos três noites por semana, bebia sempre, fumava maconha com certa freqüência e tomava um exctasy de vez em quando. Não era a primeira vez que esquecia do acontecido na noite anterior. Normalmente se divertia ouvindo as descrições de seus vexames com detalhes picantes que as amigas faziam questão de enfatizar. Algumas vezes já beijara desconhecidos. Experimentara também o desprazer de ser importunada por mensagens de infelizes com quem se engraçava em festas e clubes. Isso a preocupava. Achava que beijar um desconhecido era bastante perdoável, trocar Whatsapps porém, era algo que não aceitava. Preferia continuar sozinha a suportar aquele bando de moleques sem criatividade atrás dela. Com 23 anos, Camila podia prever palavra por palavra o que ouviria de um homem, e isso era muito chato.

Mais chato porém era chegar aonde chegou. Era acordar de calcinha ao lado de um corpo masculino estranho em um local desconhecido. Pelo menos o rapaz não roncava. A cara enfiada no travesseiro não permitia que analisasse melhor a feição. Estava descoberto, tinha uma pele cuidada e lisa, poucos pelos e uma bela bunda. O que de certa forma a consolou. Do jeito que bebera na noite anterior, poderia ter sido pior.

Ainda assim foi a primeira dez que deu para um estranho, a primeira vez que deu para alguém com quem não tinha o menor relacionamento e a primeira vez que não se lembrava de como havia sido. Não sabia sequer se tinham usado camisinha. Foi também a primeira vez que se sentiu infeliz com o próprio comportamento.

Depois de pensar um pouco localizou com os olhos suas roupas espalhadas no chão e decidiu sair de fininho. Tentaria ser discreta para não acordar o rapaz. Enquanto se vestia ele fez um movimento brusco, virando-se com o rosto para cima. Ela se assustou, pensando que ele despertara, depois parou um pouco para analisá-lo. Os olhos estavam inchados e a cara amassada pelo travesseiro mas ainda assim era bonito. Um pouco rude, mas bonito. O Corpo também era ok, não tinha uma forma atlética mas era proporcional. Reparou que era grande, devia ter mais de um metro e oitenta e provavelmente era judeu.

Passado o momento de estudos voltou a vestir-se e checou se nada estava faltando. Ficou feliz ao ver uma embalagem de camisinha aberta jogada ao lado da cama. Aproveitou para reparar nas roupas dele que também estavam no chão. Através delas concluiu que o estranho tinha bom gosto e era informado. Usava roupas modernas, compradas em brechós ou lojas alternativas. Havia livros e revistas de design gráfico na estante, o que, junto com os quadrinhos, poderia denunciar a profissão do sujeito. Camila estava mais calma, pensou que se não tivesse dado para o cara do jeito que deu, seria um bom cara para se dar um dia. E foi saindo de mansinho, antes de calçar os sapatos.

Parou na porta surpreendida por uma voz:

_ Aproveita e traz um copo de Coca pra mim.

Camila ficou paralisada. Estava de costas para ele e não tinha vontade de virar-se. Também não havia como sair correndo e deixar a situação ainda mais ridícula.

_ Camila, o seu nome é Camila, né? Desculpa o mau jeito é que ontem eu tava muito bêbado.

_ Tudo bem, é Camila sim – Ela ainda não tinha criado coragem para encará-lo.

_ Então, pega alguma coisa pra você na geladeira, não vai sair assim de barriga vazia. Tem um iogurte, suco, pega o que quiser. E se puder traz um copo de pra pra mim que eu to estragado.

_ Ok.

Ela não sabia onde se enfiar. Foi para a cozinha sentindo-se desarmada. Ainda olhou pela janela do apartamento e viu que não reconhecia o bairro. Estava amedrontada. Não era exatamente medo do estranho ou do lugar. Era uma sensação ruim.

A cozinha era um pouco melhor que a de uma república, embora o bom gosto nos detalhes fosse marcante. No lugar do tradicional pingüim, via-se um boneco “Ken” vestindo smoking.

O vazio da geladeira quebrado apenas por duas caixas de suco de laranja, alguns refrigerantes, cervejas, frutas e um queijo fresco. Camila experimentou o suco mas achou muito ácido e desistiu. Pegou uma fatia de queijo e surpreendeu-se de novo com o dono do apartamento que apareceu nu na cozinha.

_ Eu preciso é de uma Coca-cola.

_ Você não se veste nunca?

_ Foi mal, espera um pouquinho.

Ele pegou uma Coca Zero e foi à lavanderia, de onde voltou usando bermuda e chinelos.

_ Você tem como ir embora? Se quiser eu te levo.

_ Que bairro é esse?

_ Vila Leopoldina. E você, mora onde?

_ Paraíso.

_ Espera só eu tomar banho que eu te levo, dá tempo até de almoçar com a família.  Só vou tomar uma ducha rapidinho.

Ele era bonito. O cabelo estava um horror, as olheiras quase tampavam os olhos mas ainda assim era bonito.

Ficaram um pouco em silêncio enquanto ele pegava uma toalha. Ela queria esquecer o que aconteceu e quanto mais distante ficasse desse cara melhor. Ele, porém, estava a fim de conversar e da forma menos sutil possível.

_ Quer dizer que você nunca tinha transado com um estranho? – Camila ficou de boca aberta olhando a cara dele, foi impossível disfarçar, ele continuou.

_ Pelo menos foi o que você me disse ontem.

_ Olha, eu não acho engraçado, quer saber, eu não lembro nem o seu nome. A última coisa que eu me lembro de ontem é da fila do banheiro da balada.

_ Eu me lembro de tudo.

_ Sorte a sua.

Ela não queria prolongar o papo, ele agora tinha um ar superior como se a memória intacta lhe conferisse algum poder. Talvez estivesse certo, ele sabia coisas sobre as intimidades de Camila que nem ela sabia. Que posições teriam feito? Fizeram sexo oral? Será que ele a amarrou na cama? Ele agora parecia um chantagista.

_ Olha – ela prosseguiu – Parabéns, aposto que a noite foi ótima, espero que você tenha gostado, mas já era, é passado e eu não quero falar disso…

_ Gérson. Meu nome é Gérson.

_ Ótimo Gérson, acabou.

_ Tudo bem – ele disse enquanto se levantava e saía em direção ao banheiro – Mas se quiser continuar me chamando de Ursão não tem problema.

Ela quase perdeu o ar. Ficou quieta para não piorar as coisas. Só faltava ficar ouvindo ironias. Precisava ter uma conversa séria com as amigas, criar um mecanismo para que se protegessem destes trastes folgados. Não podia acordar de novo em quartos estranhos, algo deveria ser feito.

Camila foi para sala esperar o Ursão, quer dizer, o Gérson que estava no banho. Ao passar pelo banheiro percebeu que a porta estava aberta e não havia Box. Ele não se importava.

_ Cê não tem vergonha mesmo, né?

_ Não de você – respondeu enquanto enxaguava os cabelos.

O mau humor de Camila não deixou a conversa ir muito longe. Ele saiu do banho e vestiu-se rapidamente enquanto ela passava os olhos em algumas revistas. Porém, a curiosidade que a fazia acordar as amigas nos domingos de manhã para que contassem suas desventuras alcoólicas começou a afligi-la. Ela conteve-se até a saída do elevador, quando, enfim, voltou a falar.

_ Escuta, você lembra como a gente se conheceu? Quer dizer, você que me abordou?

_ Na verdade a gente já se conhecia de vista.

Ela tapou o rosto com a mão direita, pelo jeito o mico ainda seria maior.

_ Eu era o namorado da Betinha, da faculdade, você não lembra.

Agora ela lembrava, já tinha visto este cara algumas vezes mas nunca tinham conversado. Meu Deus que vergonha, eles tinham amigos em comum. Ele certamente já tinha mandado mensagens espalhando a notícia, os homens sempre fazem isso, as mulheres também. Sorte que a Betinha estava em Londres. Esta noite ficaria como uma mancha negra na história de Camila e o cara ainda era arrogante. Pelo menos até o comentário seguinte.

_ Tudo bem, não precisa ficar com essa cara. Aconteceu. Eu prometo que vou esquecer tá bom? Não falo prá ninguém.

_ O que tem a minha cara?

_ Ué, parece que você acabou de amputar um braço.

_ Olha. Desculpa, mas é que eu acho um puta mico fazer o que eu fiz ontem, entende. Foi a primeira vez que eu perdi a consciência desse jeito e eu não to legal. Além disso ainda to de ressaca.

Depois de algum silêncio, já no carro, ela não agüentou e perguntou:

_ Só mais uma coisa, a gente se protegeu direito?

_ sim.

_ É só isso que você pode dizer?

_ Você quer os detalhes?

_ Não. Tudo bem.

_ Mais alguma dúvida?

_ A história do Ursão é verdade?

_ É.

_ Tem algo mais que eu preciso saber?

_ Não sei, talvez seja importante saber que você me disse que nunca tinha gozado daquele jeito ou que eu deveria dar um curso para os seus ex-namorados.

_ É verdade?!?

_ Não. Essa parte é brincadeira.

Camila sorriu pela primeira vez no dia e recordou-se da impressão positiva que tivera ao ver o corpo daquele estranho nu dormindo ao seu lado.

Depois da pequena piada Gérson ficou em silêncio novamente. Talvez estivesse chateado com o fato dela não lembrar de nada. Talvez, para ele, não tenha sido tão sem sentido. Pelo menos havia algo realmente interessante na conversa, ele não era óbvio.

_ Última pergunta, ok? E a gente muda de assunto.

_ Manda.

_ Você gostou?

Ele pensou um pouco e respondeu sem olhar para ela.

_ Muito. E qual o novo assunto?

_ Hum… Cinema! O que você achou do último filme do Wes Anderson.

_ Eu gostei mas prefiro “O Moonrise Kingdom”.

Eles não falaram mais do que ocorreu na noite anterior. Depois trocaram mensagens, ele ligou e ela gostou. Eles voltaram a se encontrar e ela voltou a vê-lo nu muitas vezes, porém não mais como um estranho.

 

 

*Achei uma série de contos que escrevi muitos anos atrás e decidi por preguiça e curiosidade publicar um. É bem diferente do que tenho colocado no blog.