Um Guitarrista Estupendo

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Comecei a reparar nos dedos dele, rápidos, precisos e cheios de ginga. Não batiam nas casas de forma mecânica. Cada nota tinha a intensidade que precisava ter.  Fiquei tão hipnotizado pelo som da guitarra que não ouvia mais o que falavam em minha mesa.

Era uma trio que misturava soul, blues e jazz com muito swing e ousadia, mas isso não interessava aos frequentadores do bar. Nossa mesa, formada por quatro economistas jovens que comemoravam mais um bônus polpudo estava mais interessada em escolher rótulos caros de vinho e encontrar no google modelos de carros extravagantes. Não fazia sentido ganhar aquele dinheiro todo e comprar outra BMW.

Eles falavam em relógios exclusivos, restaurantes em Boston e mulheres siliconadas. Eu estava distante, atento a uma versão magnífica de “Nothing But a Woman”. Acho que só eu sabia que aquele guitarrista era extraordinário.

E por que eu sabia isso? Por que que tinha tanta certeza?

Porque sou um ótimo guitarrista. Toco desde a adolescência. Eu tirei Starway to Heaven e Sultans of Swing de ouvido e não tinha mais de 15 anos. Ainda hoje muitos ficam impressionados com minha versões de Highway Star ou Back To Black. Porém conheço os meus limites e sei a diferença do ótimo para o extraordinário e o que via era verdadeiramente especial.

No intervalo, quando os músicos pararam para descansar um pouco, abordei o tal guitarrista no fumódromo. Reparei de perto que suas roupas estavam em péssimo estado. Os sapatos imprestáveis. Chamava-se Samuel.

Obviamente, falamos de música, listando os guitarristas e bandas que mais admirávamos. Ele deu uma aula sobre George Benson e Steve Lukather, me indicou alguns álbuns deles. Era culto, estudioso do assunto. Tive de controlar minha prepotência habitual e apenas ouvir.

Quando esperava o manobrista trazer meu carro ele apareceu com a guitarra nas costas. Ofereci uma carona. Ele disse que ia para a Giovanni Gronchi, era perto de casa.

No carro voltamos a falar de música, arranjos, do prazer que é trabalhar com aquilo que se gosta. De repente ele pediu que eu parasse o carro em um posto de gasolina e o deixasse lá. Eu disse que podia levá-lo em casa mas ele insistiu em ficar no posto. Nos despedimos e ainda o vi pelo retrovisor caminhando sozinho com seus sapatos desgastados.

Quando cheguei no meu apartamento saí para fumar o último cigarro no terraço. Eu moro num andar alto e tenho uma boa vista da zona sul. Deixei Samuel num ponto próximo a prédios muito luxuosos e a favela do Paraisópolis. As roupas gastas e o fato dele ter preferido ficar no posto de gasolina me fizeram pensar que mora na favela. Ele ficou constrangido em  me dizer.

Ainda tragando e olhando a neblina que surgia na madrugada pensei no meu potencial como economista. Sou igual a meus pares. Estudei bastante, trabalho direito, mas jamais serei brilhante. Samuel era diferente tinha algo de único, era especial no que fazia, tinha um talento que sonhei em ter. Com os acordes de Robert Cray ainda ecoando na cabeça, apaguei o cigarro e deitei-me confortavelmente no lençol de algodão egípcio que comprei com o bônus do ano passado.

 

 

 

Zumbis e chantilly

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Quando eu era criança o chantilly estava na moda. Punha-se chantilly em tudo e tudo ficava mais gostoso: Sorvete, pudim de leite, torta de maçã, salada de frutas…

Há quem diga que o creme às vezes migrava da cozinha para o quarto ultrapassando sua função meramente culinária e ainda assim tinha valor, mas isso eu já não tenho certeza pois naqueles tempos de menino eu ainda era ainda era ingênuo para comprovar essa informação.

O fato é que nos anos 70 e 80, tudo melhorava com chantilly.

Pois bem, cheguei a conclusão que os zumbis estão para a cultura pop  o que chantilly era para a culinária daquela época.

Tudo fica mais legal com zumbis.

Exemplos:

– Game Of Thrones – O grande sucesso da TV se passa na época dos cavaleiros e dragões, mas precisou dos zumbis para esquentar a trama.

– Michael Jackson – O rei do Pop deve muito aos mortos-vivos do clip Thriller e sua clássica coreografia.

– Jane Austin – O autor americano Seth Grahane-Smith transformou o clássico “Orgulho e Preconceito” em “Orgulho e Preconceito e zumbis”. Eu acabei de ler e atesto que a transformação do romance água com açúcar numa aventura com comedores de cérebros ficou ótima. Entre um baile e outro, Lizzie  Bennet usa sua espada Katana para decapitar as criaturas. O sucesso do livro foi tão grande que a versão cinematográfica estreia em 2016.

Fico pensando que poderíamos colocar zumbis em outras situações:

Novelas – Uma versão de “Vale Tudo” em que Odete Roitman volta do mundo dos mortos para comer o cérebro da Lídia Brondi.

Música – Bandas de zumbis com grandes ídolos mortos como Janis Joplin, John Lennon ou Amy Winehouse. Eles retornariam, comeriam os cérebros de alguns lixos da cultura pop atual e se reuniriam para fantásticas e fantasmagóricas Jam sessions.

Bíblia – A história de Moisés não ia ficar mais legal se os egípcios que perseguiam os judeus em bigas fossem zumbis? Daí o Mar Vermelho os cobriria espalhando seus ossos e restos mortais nas ondas.

Até mesmo Lázaro, que já estava morto mesmo, poderia ressuscitar na forma de zumbi.

As possibilidades são infinitas e aposto que o meu blog acabou de ficar muito mais divertido com com os mortos-vivos voltando de suas tumbas para invadir o texto e devorar meu cérebro cheio de abobrinhas. Aliás já vou passar um pouco de chantilly na cabeça antes que eles cheguem, os zumbis não sabem o que estão perdendo.

Quando troquei Nietzche por 50 Tons de Cinza

Salome

Tenho como lema nunca largar um livro depois de começado. Isso já me causou problemas. Fui obrigado a terminar alguns muito ruins. Porém, masoquismo tem limite e às vezes eu quebro minha própria regra.

Foi o que aconteceu com “Assim Falou Zaratrustra”, do Nietzche.

Já havia lido “O Anti-Cristo”, outra obra importante do filósofo alemão e também não gostei. Nietzche defende com paixão (muita paixão) que somos apenas um estágio intermediário da evolução do ser humano. O estágio final desta evolução é o “Super-homem”, ou seja, o homem mais íntegro, mais puro e melhor.

Até aí parece bem bonito, concordo, mas em sua argumentação Nietzche explica que características como solidariedade ou caridade são empecilhos para a chegada do “Super-Homem”. Ele defende que sejamos guerreiros, que tenhamos inimigos e um monte de coisas esquisitas.

Separei alguns trechos para exemplificar:

“Quem conhece o leitor não faz nada mais por ele. Um século de leitores e o próprio espirito há de feder.

Se a todos for permitido aprender a ler, irão estragar, a longo prazo, não apenas a escrita mas também o pensamento”.

“Não vos aconselho a trabalhar, mas sim a guerrear. Não vos aconselho a paz, mas a vitória.”

“Tudo na mulher é um enigma, e tudo na mulher só tem uma solução, chama-se gravidez.”

Pois bem, depois de 100 páginas com essas frases de efeito das quais discordo completamente, desisti de Nietzche para me embrenhar nos 50 Tons de Cinza”, best seller de anos atrás que voltou à fama graças ao filme.

Fiquemos inteirados do assunto do momento.

A primeira impressão é bastante negativa, não gostei do texto da moça, um verdadeiro festival de frases feitas e clichês, tanto estilísticos como na trama. Qual a originalidade em Anastácia se levantar da cama de madrugada e encontrar o príncipe encantado tocando uma linda música ao piano? Verdadeiro festival do lugar comum.

Só que não posso largar de dois livros em seguida, isso é demais para minhas regras, então sigo em frente na tarefa masoquista (aliás duplamente masoquista) de ir até o fim.

E eis que pego surpreendido por encontrar coisas positivas, ou que me fizeram pensar. A trama é no primeiro momento a típica história da Cinderela, da mocinha pobre que encontra o príncipe encantado, se apaixonam e etc.

Só que o príncipe encantado da história é inseguro, dominador e sadomasoquista. O moço adora espancar a Cinderela.

Então imaginamos que Anastácia deveria se mandar e achar um bom moço, não? Não. Ela fica e isso nos incomoda. Não fica pelos presentes, nem pela beleza do Grey. Ela fica porque está morrendo de tesão. Ela goza até quando apanha e isso nos agride.

Confesso que não terminei o livro, não tenho a menor vontade de ler as continuações ou de ver o filme. Mas E.L. James transgrediu os contos de fadas e sou sempre a favor de transgressões. Fora que apimentar as cabeças cansadas de donas de casa no mundo todo é um mérito.

Meu caro Nietzche, mulheres não existem apenas para engravidar. Elas tem muitos desejos e podem ler fantasias masoquistas, podem sonhar com quartos cheio de equipamentos exóticos e podem exigir mais dos seus maridos na cama.

*Na foto uma moça segura o chicote enquanto Nietzche posa no lugar do cavalo. Espero que ela lhe dê umas boas chibatadas.

Coincidências

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Estava quase dando férias ao “Toda Unanimidade” quando tive uma ideia: Vou escrever um pouco sobre cada livro que terminar. Não tenho pretensões nem capacidade para a crítica literária, faço isso porque escrevendo prolongo o prazer e a reflexão trazidos pelo livro e ao mesmo tempo, de forma elegante e discreta, faço um pouco de apologia ao ato de ler.

Ontem terminei o “Caderno Vermelho” de Paul Auster (Cia das Letras). Paul Auster conta pequenas estórias vividas por ele ou alguém de seu círculo de amizades em que aconteceram incríveis coincidências. Como o caso do curador de uma exposição de Matisse que procurou um quadro por seis meses até descobrir que a obra estava em um dos quartos do hotel onde morava.

Embora Paul Auster não se arrisque a filosofar sobre o significado destas coincidências, estes relatos que nos fazem pensar na existência de um plano superior onde nossas vidas estariam encaixadas, discussão também muito comum nos filmes do Woody Allen.

Pensando nessas coincidências, vasculhei por situações assim em minha vida e lembrei de uma história do meu tio-avô, Issac. No começo dos anos 50 ele tinha 19 anos e o Estado de Israel acabara de ser criado. Ele leu “Ladrões na noite”, de Arthur Koestler, que narrava a saga dos pioneiros que fundaram os primeiros Kibutzim, antes mesmo da independência de Israel. Ao ler o livro meu tio se inspirou e migrou para o jovem país, ingressando no exército onde chegou a ser tenente.

Alguns anos depois, quando cruzava uma estrada sentado em cima de um caminhão (ele não lembra de detalhes da história), o veículo capotou e ele ficou a beira da morte com uma grave amnésia. A família no Brasil não tinha notícias dele e minha bisavó foi obrigada a penhorar sua casa para comprar uma passagem de navio e procurá-lo em Israel.

É uma história bastante impressionante: O acidente que quase o matou, o tempo que ficou internado em um “hospital de loucos”, o desespero da família que não conseguia contatá-lo, a memória que ia e voltava e a saga da minha bisavó para tentar encontrá-lo em um país distante.

Depois de curado, meu tio decidiu voltar para o Brasil onde casou e seguiu sua vida. Ele me contou essa história em 2006 quando eu fiz um pequeno documentário com a história da família.

Inspirado por ele comprei o “Ladrões na noite” e eis a frase que abre o livro: “Se tiver que morrer hoje não será caindo do alto de um caminhão”.

A Inspiração

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Na matéria da TV, o  menino pergunta ao escritor de onde vem a inspiração. Ele coça os cabelos brancos antes da resposta e diz que vem das coisas que vê na rua e principalmente da sua cabeça, onde vivem suas lembranças.

A inspiração é um sopro que nos pega de surpresa, uma criatura elemental que nos sussurra aos ouvidos. Surge através de uma cena banal, que testemunhamos sem querer, ou através da arte de outro que, por sua vez, foi inspirada Deus sabe como.

Embora venha como quem nada quer, nos pegue desprevenidos às vezes, a inspiração precisa de uma contribuição fundamental do criador: O radar ligado. Nada adiantariam as vitórias régias dos jardins de Giverny se Monet não tivesse os olhos atentos a luz que provoca no lago diferentes nuances de cor ao longo dos dias e das estações.

O mundo físico é repleto de beleza e feiura, de encontros e armadilhas, de bondade e política. Pessoas andam por aí exibindo tiques, ansiedades e desejos. Trocam abraços carinhosos nas saídas dos cinemas, cuidam para que os filhos atravessem a rua direito, falam com carinho em seus telefones no metrô. E a cada ato, a ninfa mágica da inspiração está a espreita, pronta para tocar o felizardo observador e iluminá-lo com com o clique da tão esperada ideia.