Tá Liberado

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Ei Petista, você que gritou golpe, pixou Fora Temer, colocou a foto do Lula no seu perfil, tá liberado ficar puto com a Dilma por saber que o ministro da Fazenda negociava pessoalmente propina. Tá liberado se sentir traído por ela saber que a própria campanha era irrigada por grana de corrupção.

Ei coxinha, você que votou no Aécio dizendo que estava cansado dos corruptos. Você que tocou vuvuzela na Paulista em frente ao Pato do Skaf. Tá liberado para bater panelas quando o programa do PSDB passar na TV ou nos discursos do Temer. Não é vergonha.

Amigo de esquerda, você que disse que a Lava Jato era um plano pra quebrar a Petrobras, daqui em diante você está livre para se indignar pelo Lula ter recebido 14 milhões em dinheiro, por ele ter ajudado a elite das empreiteiras a se locupletar com dinheiro público. Você pode cara, não é incoerência. Pode tentar.

E você caro revoltado, que apoiou Cunha, Temer e companhia, não tem problema nenhum postar que o Serra é corrupto, se sentir traído pelo Alckimin e seu cunhado. Assumir  que a queda de Dilma nada teve a ver com combate a corrupção (muito pelo contrário).

É permitido gente, podem experimentar, não precisa xingar só os seus velhos inimigos. Se o seu ídolo meteu a mão no nosso bolso, você pode ficar bravo com ele também. Isso não vai te fazer uma pessoa pior.

Tá liberado.

A Moralização do Brasil

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No dia da votação do Impeachment eu estava no metrô a caminho de um churrasco. Viajava meio desgostoso pensando que a quebra institucional traria muitos problemas para o país, que era triste ver nossa democracia tão debilitada.

No mesmo vagão havia muita gente animada. Vestiam roupas e adereços verde-amarelos e pensavam de forma oposta a minha. Um rapaz que estava com esposa e filho me dizia que seria o começo da moralização do Brasil, um momento histórico.

Mais tarde, assisti um pouco da votação na TV. Cada um dos nobres deputados fez um pequeno discurso (numa língua que parecia um português arcaico) tratando de honradez, de resgate aos valores, de Deus e da família.

Muitos dos meus amigos me garantiram que era o fim da corrupção.

Hoje, quase um ano depois, decidi fazer um apanhado dos projetos de lei propostos pelos mesmos nobre deputados e  seus partidos desde a fatídica data. Vamos a eles:

Lendo a lista acima surgiu uma pulga do tamanho de um besouro atrás da minha orelha. Estou começando a desconfiar dos nobres congressistas. Tenho a sensação que as intenções deles teriam um fundo de auto-preservação.

Talvez seja exagero meu, as coisas devem estar mesmo nos trilhos, afinal não ouço mais o rufar de panelas nem vejo as ruas repletas de patriotas.

Qual a sua opinião, caro leitor? Será que estou sendo muito descrente?

O PT, o Corinthians e a Legião Urbana

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Eles dividem opiniões

Sempre me pergunto o motivo pelo qual tantas pessoas odeiam o PT com tamanha intensidade. Se questiono os  meus amigos, as respostas são mais ou menos previsíveis:

_ “Porque o PT rouba” – Dirá alguém que votou inúmeras vezes no Maluf e não se importa quando Cunha, Temer ou Aécio metem a mão no dinheiro público.

_ “O Brasil está em crise” –  Diz o outro que odiava o PT  igualmente nos anos de crescimento do governo Lula.

_ “O PT é autoritário” – Diz ainda um que defende a ditadura militar.

No geral são respostas incoerentes, que não me ajudam a decifrar o mistério.

Creio que há motivos para não se gostar do PT, assim como há motivos parecidos para se odiar qualquer outro partido. Só não entendo por que o ódio ao PT é tão desproporcional.

Isso me lembra o Corinthians*, que inspirava ódio em seus adversários mesmo quando estava no fundo do poço.

Talvez a resposta esteja no fã do Legião Urbana. Aquele que pede que se toque Faroeste Caboclo toda vez que vê alguém carregando um violão. O sujeito que depois de umas cervejas gruda na gente e começa a discursar sobre a força poética do Renato Russo. A moça que chora toda vez que ouve “Pais e Filhos”.

O fã do Legião Urbana é o chato perfeito. Assim como o Corinthiano ou  o Petista. Seu amor vira religião e seu discurso pregação.

Toda vez que alguém diz “Fora Temer” vem na minha cabeça o insuportável “Toca Legião” que ouvia sempre que subia ao palco com minhas bandas de Rock. Não é muito diferente do “aqui é Corintcha”, ou do “Toca Raul” ou do “Em nome de Jesus”, dito por testemunhas de Jeová que nos acordam às oito da manhã num domingo chuvoso.

A garra e a fidelidade dos Petistas chegam a ser comoventes, mas a intensidade do discurso traz mais desafetos que admiradores. Assim como o bando de loucos conquista mais secadores que solidariedade. Uns acreditam no Golpe assim como outros acreditam no Mundial de 2000.

Talvez os três fãs devessem repensar seus erros, analisar sua parcela de culpa na perseguição a seus ídolos.

Ou pode ser que isso tudo seja uma grande viagem minha. Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão?

 

*Talvez essa comparação só faça sentido aos paulistas, mas você pode transportar para o time de sua preferência em seu próprio estado.

As Leis de incentivo e o Isaquias da Canoagem

isaquias queirozSou um defensor das leis de incentivo à cultura. Não que elas sejam perfeitas, precisam melhorar muito, mas é importante que elas existam.

Porém muitos pensam de outra maneira,  nos últimos meses vi milhares de comentários em redes sociais dizendo que o Estado não deveria investir  em cultura pois falta dinheiro para o saúde e a educação.

Nos últimos anos não foi só a Cultura que ganhou verbas de incentivo. O esporte também recebeu milhões via Caixa, Exército, renúncia fiscal ou bolsa atleta.

O baiano de Ubaitaba, Isaquias Queiroz, foi um dos que receberam esses benefícios e retribuiu ao Brasil com medalhas olímpicas. Sem incentivos talvez hoje ele fosse um desempregado na periferia de Salvador.

Não entendo de esportes e não sei se a forma de incentivo adotada pelo Brasil é a mais correta. Só tenho certeza que o país precisa decidir se quer ou não ter esportistas de ponta. Caso queira, precisa colocar a mão no bolso.

O Mesmo acontece com cultura.

Sem leis de incentivo enterramos o Chorinho, manifestações regionais, a música clássica, a dança e tudo o que não dá grande bilheteria.

No meu caso, recebi um apoio para desenvolver uma série de animação. Se tudo acontecer como eu e a Ancine esperamos, no futuro terei uns 30 colaboradores para fazer a série e pagarei em impostos muito mais do que recebi. Poderei exportar o minha produção e o Fundo Setorial do Audiovisual levará parte dos meus lucros para incentivar novos formatos e produções. Tenho plena convicção que essa fórmula só tem benefícios.

Estamos discutindo diariamente novos rumos para o Brasil. Nessa discussão cabe perguntar: Esporte e cultura são importantes para a nossa população?

A abertura das Olimpíadas mostrou a qualidade que nossa cultura pode ter. Isaquias mostrou que com o incentivo correto Ubaitaba gera uma lenda do esporte.

Eu acredito nesse caminho. Sonho que a arte de Fernando Meirelles, Deborah Colker e tantos brilhantes anônimos possa chegar a mais gente, assim como sonho que o esporte seja um instrumento de transformação social.

O lado ruim do esporte

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Minha participação nas olimpíadas da escola

Não há como falar mal das olimpíadas, não é mesmo? Esse desfile de corpos perfeitos, habilidades galáticas, ganas de vencer, show de transmissão e imagens. Um espetáculo que paralisa o planeta.

Porém, aqui nos recantos perdidos do grande ABC, há um cronista que encontra questões existenciais e que não consegue se entregar totalmente à alegria compartilhada por todos.

Vamos ao que me incomoda no maior evento do esporte no sistema solar:

1 – A obsessão por vitórias.

Não sou medalha de ouro em nada nessa vida. Sou um sujeito comum em qualquer ângulo que se observe e assim também são meus amigos. Ninguém no meu circulo seria destaque mundial nem em arremesso de catota. Meu blog não bate recordes de leitores (isso, você é um dos poucos), sempre fui medíocre nos esportes, toco baixo há 30 anos e não sei uma escala além da pentatônica.

Ainda assim, meus amigos, meus camaradinhas me respeitam e eu os respeito. Que catzo faz com que pessoas deixem de admirar alguém por ser sétimo ou vigésimo terceiro no mundo?

Prefiro celebrar o sujeito que faz um churrasco decente mesmo usando carne Friboi ou a amiga que arranca aplausos da torcida no Karaokê da Liberdade.

2 – O nacionalismo

Viva o Brasil, temos um compadre que sabe saltar com a vara. Viva a Jamaica, eles estão na merda mas correm prá burro. Vamos bater no peito e mostrar o orgulho da nação. Vamos olhar a tabela para ver quem são os países em situação pior que a nossa.

Torço pelo Brasil como diversão mas não bato no peito nem grito o nome da pátria e também não faria isso se fosse americano, cubano ou vietnamita.

Sou o hiponga sonhador que acredita na letra de John Lennon – Imagine theres´s no countries. Vibro com o Brasil, com o Canadá, com a Malásia e o Cazaquistão. Somos um único mundinho e quanto menos as fronteiras nos separarem melhor.

3 – O uso político

Símbolos de vigor e vitórias, os atletas viram, mesmo que não queiram, peças nos jogos ideológicos.

Hitler queria usar as olimpíadas para provar a supremacia ariana em Berlim, 1936. Houve um momento que a guerra fria era travada nas pistas de atletismo e piscinas.

Hoje, no Brasil, as redes sociais são inundadas por mensagens que ligam os esportistas a determinado movimento. Feministas, defensores dos gays, o exército, a meritocracia, os programas sociais. Ao que parece, cada vitória parece servir a uma linha ideológica. Pobres atletas, reduzidos a metáforas na ânsia das pessoas em provarem seus pontos de vista.

E vejam como os três pontos que citei se misturam, se alimentam mutuamente. Vitórias, nacionalismo e ideologia.

Não vibrarei por isso. Estou no 22o. lugar no Cartola Club da galera e já me parece bom o bastante. Hora de ouvir John Lennon, arremessar minhas catotas e torcer por uma olimpíada onde o empate agrade a todos. E onde atletas egípcios e israelenses celebrem juntos.

Minha doutrinação marxista (e a Escola Sem Partido).

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Eu e meus coleguinhas em 1979

Fui doutrinado no marxismo desde a 5a. série.

Começou no ginásio do Colégio Pirâmide em São Bernardo, mas se agravou mesmo no ensino médio do Singular, com o professor Takara. Ele nos ensinou que a história da humanidade era a história das lutas de classe. Ele disse que essa era a maior lição que tinha a ensinar.

Na Eca-USP, onde estudei publicidade, foi ainda mais radical. Maria, Immacolata, Celso Federico e outos nos apresentavam a dialética de Hegel, a escola de Frankfurt e Gramsci.

Porém, parece que meus professores foram um tanto incompetentes em seus intuitos doutrinatórios.

Meus amigos do Pirâmide e do Singular (salvo raras exceções) são todos capitalistas/coxinhas/direitistas e odeiam o PT.

Até entre os egressos da ECA, famosa pelo pensamento de esquerda, há desde petistas fanáticos até colunistas da Veja. Um colega meu escreve blogs para o exército.

E eu?

Juro que não sei em que me transformei. Talvez o leitor fiel do Blog possa me ajudar. No geral acho os dois discursos estúpidos e rasos. Discordo de todo mundo.

Contei essa historia porque há uma discussão no congresso e na sociedade da tal “Escola Sem Partido”. Em que alguns grupos querem tirar a ideologia de esquerda que supostamente permeia nossas escolas.

A “Escola Sem Partido” é também uma Ong e no seu site há a explicação. Diz que a escola não existe para educar as crianças nos que diz respeito a ética, moral, política ou religião, pois desrespeitaria as posições e valores dos pais.

Eu já vi matérias mostrando livros com viés claramente político-partidários indicados pelo MEC e não concordo com seu conteúdo.

Porém, a neutralidade do Escola sem Partido é das maiores mentiras que já vi. A tal neutralidade é a ultra direita disfarçada e o desejo de tirar a visão crítica dos jovens.

Por trás de respeitar a religião está tirar Darwin dos currículos.

Por trás da neutralidade na história, está a defesa da ditadura que começou em  1964.

Por trás de não falar de ética e moral está o fim da defesa da mulher, do gay, do negro…

A doutrinação de esquerda que me foi dada  era ruim, cheia de falácias e utopias bobas. Mas ainda assim, é muito melhor que está sendo proposto. No mínimo, ensinava a contestar, a questionar, a duvidar.

O projeto da Escola Sem Partido é a pior coisa ser introduzida no Brasil desde que os Europeus introduziram seus vírus e bactérias em 1500.

p.s. Esse texto ficou sério e chato, para animar segue uma musiquinha com o coral do exército vermelho:

 

 

 

Cinco Brasileiros

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1.

Pirulito é o apelido de Clairyson Silva. Prestes a completar dezoito anos ele recebeu uma oferta para trabalhar no estoque de um supermercado. Os novecentos reais de ordenado ajudariam a família e lhe renderiam umas sobras para a baladinha do final de semana.

Pirulito queria mais e trocou as duas horas de ônibus até o centro e a carteira assinada por um trampo de olheiro na boca.

Agora ele exibe um tênis de mil reais para as novinhas do baile funk.

2.

Jorge Fernando Machado tinha orgulho do cargo  – Analista de Compras II – em uma indústria de auto-peças. Dava para pagar as prestações do apartamento juntando o salário com o da esposa, professora numa escola do bairro. Só não sobrava para luxos. A viajem à Disney era adiada ano após ano.

Jorge queria mais e fez alguns acertos com certos fornecedores que precisavam garantir contratos melhores.

Agora ele vai todo ano para o exterior. A família nunca posta as fotos das viagens em redes sociais.

3.

Priscila Cortez jamais vai se esquecer do dia em que passou no concurso da magistratura. Ela adora dizer no clube que é juíza. Só que nas mesmas conversas, quando as amigas contavam sobre casas em Aspen, ela se sentia inferiorizada.

Priscila queria mais e combinou com um advogado amigo que facilitaria a vida de alguns dos seus cliente.

Agora Priscila também tem uma casa em Aspen.

4.

Eduardo Becker só começou a trabalhar aos 30 anos na construtora do pai. Antes, estudou e curtiu a vida. Escolheu fazer a pós-graduação em Berna, para estar bem no Centro da Europa. Ao voltar, tornou-se CEO da empresa.

Eduardo queria mais e fez um plano de crescimento que envolvia a construção de obras públicas. Contava para isso com o apoio de Miguel, seu velho amigo, atual governador de Santa Catarina.

Agora a construtora da família detém alguns bilhões em contratros de obras com o governo e Eduardo é padrinho do neto do Presidente da República.

5.

Maria de Lourdes Rosário está desempregada há anos e vive de faxinas ocasionais. Ela nunca pegou nada de ninguém.

Maria de Lourdes quer mais e por isso faz aulas noturnas para ser manicure.

Agora, ela está na fila de um hospital qualquer na periferia, rezando para que a dor no peito não seja nada demais.