Um país em pedaços

Um país em pedaços

O que é um país? Parece uma pergunta simples, mas não é. Sabemos que o Brasil é um pais, mas sabemos por que?

Pensem comigo. A cultura uruguaia tem muito em comum com a cultura do Rio Grande do Sul. Eles adoram churrasco e chimarrão, são vaqueiros dos pampas. Ainda assim, os gaúchos não são compatriotas dos uruguaios e são compatriotas de índios do Acre, que falam outra língua e tem costumes totalmente diferentes.

A Itália é um país muito tradicional, não é mesmo? Pois há menos de 200 anos aquilo era um punhado de pequenos reinos, frequentemente em conflito, que só se unificaram de verdade no começo do século XX. 

Isso é comum na Europa e fora dela. Reinos menores se uniram para formar países e até hoje há briga entre esses povos. Muitos bascos e catalães não se consideram espanhóis, os curdos não se consideram nem sírios, nem turcos e nem iraquianos. E o que dizer da África e suas inúmeras guerras civis?

Então o que faz um país? Será a língua? Se for isso, a China tem centenas de países. Quantos índios brasileiros não sabem o português?

Será que a bandeira, o hino ou a fronteira que fazem um país?

Se negociarmos uma mudança de fronteira com nossos vizinhos o Brasil deixará de ser Brasil? E se mudarmos nosso hino e a nossa bandeira? O que aconteceria se esses símbolos, outrora tão queridos, fossem diferentes? O Brasil deixaria de ser o mesmo país?

Creio que se formos apenas bandeira, um hino, um idioma e um traçado no mapa, não seremos nada.

Então o que faz um país?

O que une um povo são ideias e uma cultura em comum. O que une um povo, é a crença no país e nos valores que ele representa.

Os EUA são um país muito diverso. O que tem em comum um caipira de Ohio com um executivo de Chicago? É a crença nos valores de democracia e liberdade da “América”. Outros países são unidos através da religião ou através da crença em um rei absoluto (as vezes com direitos divinos).

Há também a Cultura como amálgama. Os italianos podem ter sido formados por vários reinos mas estão unidos por sua arte, sua música, a moda, o cinema e principalmente, a gastronomia. Há diferenças regionais, mas alguém duvida que os italianos podem se reconhecer em qualquer lugar do mundo?

Não adianta criar fronteiras, hinos e bandeiras quando o povo não se enxerga como uma unidade. Foi o que aconteceu com a Iugoslávia nos anos 90. Cristãos, muçulmanos e os demais grupos entraram em guerra civil e hoje a Iugoslávia não existe mais.

E o Brasil? Será que tão divididos como estamos podemos nos reconhecer como nação?

Em 2016, quando Aécio perdeu a eleição, milhares entre seus eleitores pediram a separação do Brasil, queriam que os Estados do Norte e Nordeste se transformassem em outro país, pois tinham muitos eleitores do PT. De lá pra cá, as diferenças só aumentaram.

A direita Bolsochavista não suporta a existência da esquerda e de pessoas com pensamento progressista. A recíproca é verdadeira. A imensa nação evangélica deseja o fim do Estado Laico. A elite sonha com o liberalismo absoluto enquanto o povo ainda sonha com um Estado Mãe, ao estilo Getúlio Vargas.

Índios querem a floresta para viver enquanto capitalistas veem a floresta como área para cultivo de soja. Grupos sonham com a volta do imperador e outros com o parlamentarismo. Uns querem a renda mínima e outros o Estado mínimo e não há nenhuma boa vontade entre esses grupos para dialogar.

Eu posso falar por mim. Não tenho nenhuma paciência com os bolsochavistas e não tenho vontade de interagir com eles. Eu gostava de nossa bandeira, mas hoje para mim, virou símbolo na mão de fascistas e falsos patriotas. Pessoas que defendem a bandeira enquanto atacam o povo, atacam a nossa cultura, a natureza e querem destruir tudo o que o Brasil tem de bom ou belo. Tenho vergonha de dizer que estes são meus compatriotas e não acredito que as feridas abertas têm chances de cicatrizar. O Brasil está em pedaços

Me pergunto se um dia a nação poderá se curar. Ou mesmo se esse amontoado de gente cheio de raiva pode ser chamado de país.

7 de setembro

7 de setembro

Sete de setembro

Viva o Brasil

Sobreviva o Brasil

Viva a alegria do brasileiro

Sobreviva aos gritos de quem te quer triste

Viva nossa cultura, mais linda não há

Sobreviva aos que atacam sua arte

Vivam os beijos de todos os sabores

Sobreviva ao culto das armas e da morte

7 de setembro

Viva o Brasil

Sobreviva o Brasil

Viva o amor

Sobreviva ao ódio

Viva o respeito

Sobreviva à grosseria

Viva o misturado

Sobreviva à intolerância

7 de setembro

Viva o Brasil das matas

Viva o Brasil das onças

Viva o Brasil do carnaval

Viva o Brasil dos corpos exuberantes

Viva o Brasil do ritmo

Viva o Brasil de portas e janelas abertas

Viva o Brasil do toucinho na feijuca

Da carne de sol

Da caipirinha

Do barreado

Viva o Brasil do abraço apertado

Viva o Brasil da criança que aprende

Do jovem que compartilha

Do idoso que sorri

7 de Setembro

Viva o Brasil que não é bandeira,

Brasil não é fronteira

O Brasil é gente, gente, gente

Gente de Portugal

Gente da África

Gente da Itália

Gente do Japão

Gente da Bolívia

Gente da Coréia

Gente do Haiti

Gente da Síria

Gente muçulmana

Gente do Candomblé

Gente do Afoxé

Gente Cristã

Gente de tribos nem conhecemos

Gente que estava aqui antes do Brasil ter nome e fronteira

Gente que é mais brasileira que as cores da Bandeira

Sete de setembro

Viva o Brasil do Amor

Viva o amor

Somente o amor

Tá Liberado

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Ei Petista, você que gritou golpe, pixou Fora Temer, colocou a foto do Lula no seu perfil, tá liberado ficar puto com a Dilma por saber que o ministro da Fazenda negociava pessoalmente propina. Tá liberado se sentir traído por ela saber que a própria campanha era irrigada por grana de corrupção.

Ei coxinha, você que votou no Aécio dizendo que estava cansado dos corruptos. Você que tocou vuvuzela na Paulista em frente ao Pato do Skaf. Tá liberado para bater panelas quando o programa do PSDB passar na TV ou nos discursos do Temer. Não é vergonha.

Amigo de esquerda, você que disse que a Lava Jato era um plano pra quebrar a Petrobras, daqui em diante você está livre para se indignar pelo Lula ter recebido 14 milhões em dinheiro, por ele ter ajudado a elite das empreiteiras a se locupletar com dinheiro público. Você pode cara, não é incoerência. Pode tentar.

E você caro revoltado, que apoiou Cunha, Temer e companhia, não tem problema nenhum postar que o Serra é corrupto, se sentir traído pelo Alckimin e seu cunhado. Assumir  que a queda de Dilma nada teve a ver com combate a corrupção (muito pelo contrário).

É permitido gente, podem experimentar, não precisa xingar só os seus velhos inimigos. Se o seu ídolo meteu a mão no nosso bolso, você pode ficar bravo com ele também. Isso não vai te fazer uma pessoa pior.

Tá liberado.

A Moralização do Brasil

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No dia da votação do Impeachment eu estava no metrô a caminho de um churrasco. Viajava meio desgostoso pensando que a quebra institucional traria muitos problemas para o país, que era triste ver nossa democracia tão debilitada.

No mesmo vagão havia muita gente animada. Vestiam roupas e adereços verde-amarelos e pensavam de forma oposta a minha. Um rapaz que estava com esposa e filho me dizia que seria o começo da moralização do Brasil, um momento histórico.

Mais tarde, assisti um pouco da votação na TV. Cada um dos nobres deputados fez um pequeno discurso (numa língua que parecia um português arcaico) tratando de honradez, de resgate aos valores, de Deus e da família.

Muitos dos meus amigos me garantiram que era o fim da corrupção.

Hoje, quase um ano depois, decidi fazer um apanhado dos projetos de lei propostos pelos mesmos nobre deputados e  seus partidos desde a fatídica data. Vamos a eles:

Lendo a lista acima surgiu uma pulga do tamanho de um besouro atrás da minha orelha. Estou começando a desconfiar dos nobres congressistas. Tenho a sensação que as intenções deles teriam um fundo de auto-preservação.

Talvez seja exagero meu, as coisas devem estar mesmo nos trilhos, afinal não ouço mais o rufar de panelas nem vejo as ruas repletas de patriotas.

Qual a sua opinião, caro leitor? Será que estou sendo muito descrente?

O PT, o Corinthians e a Legião Urbana

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Eles dividem opiniões

Sempre me pergunto o motivo pelo qual tantas pessoas odeiam o PT com tamanha intensidade. Se questiono os  meus amigos, as respostas são mais ou menos previsíveis:

_ “Porque o PT rouba” – Dirá alguém que votou inúmeras vezes no Maluf e não se importa quando Cunha, Temer ou Aécio metem a mão no dinheiro público.

_ “O Brasil está em crise” –  Diz o outro que odiava o PT  igualmente nos anos de crescimento do governo Lula.

_ “O PT é autoritário” – Diz ainda um que defende a ditadura militar.

No geral são respostas incoerentes, que não me ajudam a decifrar o mistério.

Creio que há motivos para não se gostar do PT, assim como há motivos parecidos para se odiar qualquer outro partido. Só não entendo por que o ódio ao PT é tão desproporcional.

Isso me lembra o Corinthians*, que inspirava ódio em seus adversários mesmo quando estava no fundo do poço.

Talvez a resposta esteja no fã do Legião Urbana. Aquele que pede que se toque Faroeste Caboclo toda vez que vê alguém carregando um violão. O sujeito que depois de umas cervejas gruda na gente e começa a discursar sobre a força poética do Renato Russo. A moça que chora toda vez que ouve “Pais e Filhos”.

O fã do Legião Urbana é o chato perfeito. Assim como o Corinthiano ou  o Petista. Seu amor vira religião e seu discurso pregação.

Toda vez que alguém diz “Fora Temer” vem na minha cabeça o insuportável “Toca Legião” que ouvia sempre que subia ao palco com minhas bandas de Rock. Não é muito diferente do “aqui é Corintcha”, ou do “Toca Raul” ou do “Em nome de Jesus”, dito por testemunhas de Jeová que nos acordam às oito da manhã num domingo chuvoso.

A garra e a fidelidade dos Petistas chegam a ser comoventes, mas a intensidade do discurso traz mais desafetos que admiradores. Assim como o bando de loucos conquista mais secadores que solidariedade. Uns acreditam no Golpe assim como outros acreditam no Mundial de 2000.

Talvez os três fãs devessem repensar seus erros, analisar sua parcela de culpa na perseguição a seus ídolos.

Ou pode ser que isso tudo seja uma grande viagem minha. Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão?

 

*Talvez essa comparação só faça sentido aos paulistas, mas você pode transportar para o time de sua preferência em seu próprio estado.

As Leis de incentivo e o Isaquias da Canoagem

isaquias queirozSou um defensor das leis de incentivo à cultura. Não que elas sejam perfeitas, precisam melhorar muito, mas é importante que elas existam.

Porém muitos pensam de outra maneira,  nos últimos meses vi milhares de comentários em redes sociais dizendo que o Estado não deveria investir  em cultura pois falta dinheiro para o saúde e a educação.

Nos últimos anos não foi só a Cultura que ganhou verbas de incentivo. O esporte também recebeu milhões via Caixa, Exército, renúncia fiscal ou bolsa atleta.

O baiano de Ubaitaba, Isaquias Queiroz, foi um dos que receberam esses benefícios e retribuiu ao Brasil com medalhas olímpicas. Sem incentivos talvez hoje ele fosse um desempregado na periferia de Salvador.

Não entendo de esportes e não sei se a forma de incentivo adotada pelo Brasil é a mais correta. Só tenho certeza que o país precisa decidir se quer ou não ter esportistas de ponta. Caso queira, precisa colocar a mão no bolso.

O Mesmo acontece com cultura.

Sem leis de incentivo enterramos o Chorinho, manifestações regionais, a música clássica, a dança e tudo o que não dá grande bilheteria.

No meu caso, recebi um apoio para desenvolver uma série de animação. Se tudo acontecer como eu e a Ancine esperamos, no futuro terei uns 30 colaboradores para fazer a série e pagarei em impostos muito mais do que recebi. Poderei exportar o minha produção e o Fundo Setorial do Audiovisual levará parte dos meus lucros para incentivar novos formatos e produções. Tenho plena convicção que essa fórmula só tem benefícios.

Estamos discutindo diariamente novos rumos para o Brasil. Nessa discussão cabe perguntar: Esporte e cultura são importantes para a nossa população?

A abertura das Olimpíadas mostrou a qualidade que nossa cultura pode ter. Isaquias mostrou que com o incentivo correto Ubaitaba gera uma lenda do esporte.

Eu acredito nesse caminho. Sonho que a arte de Fernando Meirelles, Deborah Colker e tantos brilhantes anônimos possa chegar a mais gente, assim como sonho que o esporte seja um instrumento de transformação social.

O lado ruim do esporte

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Minha participação nas olimpíadas da escola

Não há como falar mal das olimpíadas, não é mesmo? Esse desfile de corpos perfeitos, habilidades galáticas, ganas de vencer, show de transmissão e imagens. Um espetáculo que paralisa o planeta.

Porém, aqui nos recantos perdidos do grande ABC, há um cronista que encontra questões existenciais e que não consegue se entregar totalmente à alegria compartilhada por todos.

Vamos ao que me incomoda no maior evento do esporte no sistema solar:

1 – A obsessão por vitórias.

Não sou medalha de ouro em nada nessa vida. Sou um sujeito comum em qualquer ângulo que se observe e assim também são meus amigos. Ninguém no meu círculo seria destaque mundial nem em arremesso de catota. Meu blog não bate recordes de leitores (isso, você é um dos poucos), sempre fui medíocre nos esportes, toco baixo há 30 anos e não sei uma escala além da pentatônica.

Ainda assim, meus amigos, meus camaradinhas me respeitam e eu os respeito. Que catzo faz com que pessoas deixem de admirar alguém por ser sétimo ou vigésimo terceiro no mundo?

Prefiro celebrar o sujeito que faz um churrasco decente mesmo usando carne Friboi ou a amiga que arranca aplausos da torcida no Karaokê da Liberdade.

2 – O nacionalismo

Viva o Brasil, temos um compadre que sabe saltar com a vara. Viva a Jamaica, eles estão na merda mas correm prá burro. Vamos bater no peito e mostrar o orgulho da nação. Vamos olhar a tabela para ver quem são os países em situação pior que a nossa.

Torço pelo Brasil como diversão mas não bato no peito nem grito o nome da pátria e também não faria isso se fosse americano, cubano ou vietnamita.

Sou o hiponga sonhador que acredita na letra de John Lennon – Imagine theres´s no countries. Vibro com o Brasil, com o Canadá, com a Malásia e o Cazaquistão. Somos um único mundinho e quanto menos as fronteiras nos separarem melhor.

3 – O uso político

Símbolos de vigor e vitórias, os atletas viram, mesmo que não queiram, peças nos jogos ideológicos.

Hitler queria usar as olimpíadas para provar a supremacia ariana em Berlim, 1936. Houve um momento que a guerra fria era travada nas pistas de atletismo e piscinas.

Hoje, no Brasil, as redes sociais são inundadas por mensagens que ligam os esportistas a determinado movimento. Feministas, defensores dos gays, o exército, a meritocracia, os programas sociais. Ao que parece, cada vitória parece servir a uma linha ideológica. Pobres atletas, reduzidos a metáforas na ânsia das pessoas em provarem seus pontos de vista.

E vejam como os três pontos que citei se misturam, se alimentam mutuamente. Vitórias, nacionalismo e ideologia.

Não vibrarei por isso. Estou no 22o. lugar no Cartola Club da galera e já me parece bom o bastante. Hora de ouvir John Lennon, arremessar minhas catotas e torcer por uma olimpíada onde o empate agrade a todos. E onde atletas egípcios e israelenses celebrem juntos.