Coxinhas, petralhas e a vizinha fofoqueira

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Todos conhecem a figura da vizinha fofoqueira. É uma personagem do imaginário Brasileiro.

Ela passa o dia na janela, espalhando que a filha da Dona Cacilda anda com um bando de vagabundos. Ela conta a todos que o cachorro do seu Heitor faz cocô na calçada.

Ela finge ignorar que o filho dela é o melhor amigo da filha da dona Cacilda, que eles  pertencem a mesma turma. E que o gato dela já quebrou vasos de quase todos os moradores da rua.

Enfim, todos concordamos que a vizinha fofoqueira devia cuidar da própria família no lugar de falar da vida dos outros.

Porém, em termos de política, somos todos a vizinha fofoqueira.

Explico:

Quando o Paulo Bernardo foi pego, todos os petistas bradaram em coro:

“_ Só prendem quem é do PT! Cadê a prisão do Cunha? Moro golpista! Globo golpista!”

Eles não disseram uma palavra em relação ao esquema sofisticado de corrupção criado pelo  ex-ministro petista.

Por outro lado, quando Janot pediu a prisão dos caciques do PMDB, os antipetistas postavam:

“_ Por que não prendem o Lula? Esse Janot trabalha para o PT!”

Eles se calaram em relação aos muitos milhões recebidos pelos corruptos peemidebistas.

Fico triste com o momento do Brasil e sonho com um país melhor. Acho que essa melhora passará por uma auto-crítica além da óbvia troca de acusações.

Sonho em ver os petistas clamando pela prisão dos dirigentes corruptos de seu partido. Sonho em ver os antipetistas batendo panelas contra a corrupção e não apenas contra a Dilma.

O conhecimento popular nos ensina a olhar para o próprio umbigo antes de atacar os outros e essa é sempre uma boa ideia.

Petistas, melhorar o PT é mais urgente que voltar ao poder.

Antipetistas, o governo já mudou, quando vocês vão se preocupar com o ATUAL presidente, no lugar de sonhar com revanchismos e vingancinhas?

Saiamos das janelas do Face e do Twitter e usemos o velho e-mail para cobrar o NOSSO partido e os políticos em quem votamos para que tenham uma atitude melhor. Ofender o vizinho nunca resolveu e não vai resolver nada.

 

A escalada do ódio

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Na foto, Rodrigo Constantino pregando a cassa aos artistas de esquerda.

Quando crianças brigam e um adulto vai separá-las é inevitável ouvir a desculpa clássica:

“Foi ele que começou.”

Com alguns adultos da nossa querida e polarizada sociedade não é diferente. A violência e o ódio estão ultrapassando o espaço virtual e os grupos de Whatsapp para chegar as ruas e isso não é bom.

Os coxinhas dizem que quem começou foram os petralhas e vice-versa. Eu não tenho as coisas registradas em calendário para saber, mas tenho certeza que alguns formadores de opinião contribuíram e continuam contribuindo para transformar o debate numa rinha.

Começamos pelo suposto filósofo Olavo de Carvalho. Digo suposto porque o vídeo abaixo mostra que ele não usa o tipo de linguagem que se espera de um filósofo, nem o mesmo tipo de raciocínio. Ultimamente ouvi muita gente desmerecendo o Lula porque ele fala palavrões. Pelo jeito, alguns deles fazem parte da filosofia moderna.

De qualquer forma, na última quinta-feira, em plena semana santa, uma mulher agrediu Dom Odilo. Será que foi incentivada pelo vídeo abaixo?

A filosofia anda me decepcionando muito. Nos meus tempos de USP, Marilena Chauí era uma espécie de Madonna dos professores universitários. Era a grande estrela. Líamos seus livros com a mesma dedicação que o Olavo de Carvalho lê as encíclicas do Vaticano. Pois vejam este o discurso famoso da filósofa da esquerda. Percebam o tom com que ela expõe  seus argumentos e notem que ela pede desculpas por estar sem voz. E o mais assustador. Ouçam o apoio da platéia enquanto ela joga lenha na nossa triste fogueira do ódio de classes.

Mas não pensem que o incentivo ao ódio é exclusividade dos filósofos.

Já ouviram falar em jornalistas? Aqueles sujeitos com a importante missão de informar a população?  Aqueles que aprendem desde o primeiro dia de aula a importância da isenção. A responsabilidade do seu ofício. Pois, bem, jornalistas tem feito coisas muito estranhas.

Vejam o tom com que o jornalista Reinaldo Azevedo trata um ministro do STF. Vejam a frase “Vão ter que se acertar com a população”. É quase um chamado ao linchamento, talvez físico, com certeza intelectual. É uma tipo de jornalismo que incentiva com a humilhação completa de quem pensa diferente. E não é a única vez. Não basta discutir o tema, é preciso difamar a parte contrária.

 

E quando vamos para o lado vermelho da força o que encontramos? Mídia Ninja, Jornalistas Livres, supostos profissionais da notícia vasculhando as passeatas que encheram as ruas para encontrar uma imagem que remeta a luta de classes. Pronto, a voz de 6 milhões não precisa ser ouvida. “Temos uma foto da babá com o carinho. Todo o resto não interessa. Podemos usar a luta de classes a nosso favor.”

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Não é a toa que um bispo apanhou na missa, não é a toa que intimidaram o Chico Buarque, não é a toa que minha amiga foi xingada no metrô por uma professora petista. Se os jornalistas agem assim, se os filósofos agem assim, se os políticos agem assim, porque nós haveríamos de agir de outra maneira?

Eu lhes respondo.

Temos que agir de outra maneira porque não há coxinha ou petralha que não sonhe com mais segurança, educação melhor e saúde de qualidade. Se cada um parar um pouco de gritar e começar a ouvir, o tom da conversa muda.

Não creiam que esses sujeitos são melhores que nós ou exemplo de algo. Gaste algum tempo ouvindo os argumentos das pessoas equilibradas que pensam de forma diferente a sua (sim, elas existem). Na hora de discordar evite o sarcasmo, evite elevar o tom de voz, evite as letras maiúsculas.

E antes que comecem a argumentar, já vou avisando. Eu não quero saber quem começou.

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E fica um recadinho final, pra terminar o texto de um jeito fofo. Roubei do Alessandro Bender.

 

Será que sou burro?

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Vocês já repararam como as pessoas nas redes sociais são cheias de certezas? Todos tem opiniões definitivas sobre qualquer assunto.

Ando até me sentido meio burro, já que há tantas coisas que me deixam indeciso. Será que sou como meu quase xará Múcio, personagem do Jô Soares de quem só os mais velhos se lembrarão.

Para quem não conhece, olha ele aqui.

 

Outro dia o STF votou o rito do impeachment e eu, besta que sou, nada pude opinar porque nada sei sobre a legislação do rito de impeachment (mal sei escrever essa palavra difícil da peste).

Mas descobri que jornalistas, engenheiros, dentistas, desempregados, carteiros e afins conhecem a legislação de cabo a rabo e sabem exatamente o que diz a constituição, o código civil e o estatuto da câmara.

Aliás todos conhecem em detalhes o que diz a lei em relação a pedaladas fiscais e impeachment.

Infelizmente, passei meus 44 anos tentando memorizar os anões da Branca de Neve, os elencos do São Paulo, os filmes dos Irmãos Coen e um montão de coisas inúteis e não sei absolutamente nada sobre a relação de impeachment e pedaladas.

Para piorar, estes especialistas das redes sociais sequer concordam entre si. Uns sabem com 100% de razão que o impeachment é mais justo que calça de funkeira, já outros são absolutamente convictos de que se trata de um golpe. O que me deixa mais confuso.

Na próxima vez que me perguntarem sobre o assunto, farei o que o meu preparo intelectual permite, sairei de fininho em busca de uma cenoura para o lanche. E deixemos que os entendidos se entendam.

 

Sim aos refugiados

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Vou usar esse espaço para um pequeno manifesto que nada tem em comum com as crônicas que gosto de escrever.

O Brasil devia se oferecer para receber um número determinado de refugiados sírios e afins. Outros países da América Latina também deveriam fazer isso.

Quantos? Não sei, com certeza uns milhares.

Hoje já tempos essa política de receber refugiados, mas devemos ir mais longe, o mundo vive uma emergência.

Recebemos anteriormente fugitivos de guerras e fome: Italianos, espanhóis, libaneses, bolivianos, judeus, alemães, poloneses, coreanos, japoneses e outros ajudaram a criar o que temos de mais bonito, o nosso multiculturalismo.

Dilma, faça o que é certo, abra as nossas portas e tente convencer nossos vizinhos a fazer o mesmo.

Lutemos pelo que é certo

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Sejamos engajados. Lutemos pelo que é certo.

Vamos defender os homossexuais pintando de arco-íris nossos perfis.

Vamos defender os cartunistas franceses e a liberdade de expressão bradando: Je Suis Charlie.

Lutemos pelos índios mudando nossos sobrenomes para Guarani-Kaiowa. Lutemos pelo empoderamento da mulher. Enfrentemos o machismo e os tarados do metrô.

Mostremos nosso amor pela cidade levando os filhos para pedalar na inauguração das ciclofaixas.

Lembremos de expressar nosso luto a cada morte de artista ou intelectual.

Briguemos pelos diretos dos animais especialmente dos cães e gatos, expondo fotos de bichinhos maltratados e seus agressores.

Sejamos politizados, atacando ou defendendo a Dilma conforme nossa convicções.

Entremos em debates com amigos cujas afirmações não concordamos.

Compartilhemos fotos de famintos na África para revelar que nossa imensa preocupação não tem fronteiras.

Façamos textos condenando o Isis, o Boko Haran, o Tea Party e o Likud para que parentes e amigos saibam que nosso repertório político vai além de PT e PSDB.

Coloquemos frases bíblicas construtivas terminando assim: Quem é cristão compartilha!

Vamos repartir textos incríveis que ajudarão a todos em seus cotidianos miseráveis mesmo que falsamente assinados pelo Arnaldo Jabor.

Vamos defender os negros, os trans, o aborto, os palestinos, o direito ao sexo, os chefs de cozinha, a arte popular, a cerveja artesanal, a Ucrânia, os sem teto, o ajuste fiscal, o Timor Leste, a Luiza do Canadá, a oposição da Venezuela, os adolescentes mexicanos, a aposentadoria, os golfinhos e os ursos polares.

Ataquemos o consumo de carne, os alimentos transgênicos, a corrupção na Petrobras, o Lula, a poluição, o pum das vacas, o atraso nas obras, a Globo, as corporações, a mídia vendida, o Jô Soares, o Dunga, a CBF, os estádios da Copa, o funk ostentação, os assassinos, os menores, os inimigos dos menores, a Carminha da novela, os juízes do Supremo e os Estados Unidos.

Mostremos nossa correção bloqueando amigos reacionários ou comunistas (depende do gosto do freguês).

Mostremos a todos nossa luta, nossa preocupação com o mundo, nosso altruísmo, nossa bondade absoluta, nossa cultura e nossa superioridade ideológica

Conquistemos muitas curtidas para que nossos egos se sintam premiados com tamanho engajamento.

E, finalmente, compartilhemos este texto, para que o autor também possa sentir-se vaidoso de seu intelecto e brilhantismo

p.s. E por favor não saiam dizendo que foi o Jabor que escreveu.

A Conspiração

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Versão da esquerda

Em maio de 2014 as cinco maiores petrolíferas do mundo decidiram pegar todo o petróleo do pré-sal sem gastar num tostão. Deram um telefonema para o Rodrigo Constantino que concordou em fazer parte do plano. Foi ele quem fez a ponte com a Globo, a Veja e o Lobão.

O plano foi simples, convenceram a diretoria da Petrobras e o juiz Moro a fazer uma encenação de que a corrupção na Petrobras persistiu mesmo depois do governo FHC. Bancos estrangeiros depositaram enormes quantias em dólar na conta dos diretores da Petrobras e eles usaram este valor para dizer que eram corruptos e ajudavam o PT. O dinheiro serviu de prova. A imprensa pediu a privatização e os brasileiros (que não sabem pensar) ecoaram o pedido.

O golpe termina com a derrubada o PT, os militares conduzem FHC ao poder na condição de ditador vitalício, a Petrobras é vendida a preço de banana para George Soros e as reservas do pré-Sal são distribuídas gratuitamente para as petrolíferas estrangeiras.

Como cereja do bolo, os pobres ficam proibidos de entrar nos aeroportos.

Versão da direita

Fidel deseja terminar seu plano comunista antes que seja tarde demais. Ele chama o Lula e o José Dirceu e eles inventam o “Mais Médicos”. Uma forma do Brasil trazer 10 mil espiões cubanos e ainda pagar por isso.

Com ajuda de Nicolas Maduro e do exército do Stédile, o Golpe começa. A Globo e a Veja são estatizadas, livros de Paulo Freire são distribuídos e todas as empregadas domésticas e porteiros pedem a conta, passando a viver de bolsa família. O Sakamoto vira âncora do Jornal Nacional e o Cristo Redentor é substituído por uma estátua do Che Guevara.

Como ato final, o Governo Bolivariano comandado pelo filho do Lula proíbe voos para Miami, obrigando as elites a fugirem em jangadas improvisadas.

Deixem em paz a Senhora Corrupção

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Vivemos um período de ânimos acirrados e fortes emoções. Cada dia os jornais e sites nos premiam com uma novidade quente, um motivo para discussão calorosa, daquelas que terminam com amigos bloqueados no Face.

Entre os temas do momento, a corrupção ganhou um lugar de destaque. Parece que o pobre brasileiro está condenado a conviver com políticos que metem a mão no seu bolso desde que as caravelas de Cabral estacionaram no monte Pascoal para acabar com o sossego dos índios.

A nossa granda presidenta usou uma figura de linguagem interessante. Disse que no Brasil a corrupção é uma velha senhora. E Dilma não foi a única a personificar a bandida. Ouço muitos políticos e articulistas tratando a corrupção como um ser mítico que se movimenta nos corredores embolorados de nossas repartições.

Fiquei imaginando essa velha senhora fantasmagórica participando de reuniões com fornecedores das estatais como um ser invisível que sopra ideias nos ouvidos de servidores e lobistas, que toma café na lanchonete do congresso atenta às conversas dos deputados, que caminha nos tribunais ansiosa por seduzir juízes, que flana nos escritórios iluminados das grandes corporações.

Todos pedem que se combata a corrupção, desde opositores até a granda presidenta e isso me deixa confuso, quase que indignado. Combater a corrupção? Não podemos combater a corrupção.

Como assim? – Pergunta o estarrecido leitor.

Explico:

Essa senhora corrupção é um conceito, uma abstração, uma ideia. Você não pode imaginar o juiz Moro mandando uma ordem de prisão contra a senhora corrupção, ou um mandato de busca e apreensão na casa dela. A polícia não poderá interroga-la e nem o fantástico vai mostrar sua mansão em Angra.

Temos que combater os corruptos. Eles sim, seres humanos de carne e osso com endereço, CPF e perfil no Twitter.

  • Quem desviou dinheiro da Estatal, foi a Corrupção? Não, foi o corrupto.
  • Quem fraudou a licitação foi a corrupção? Não, foram corruptos.
  • Quem montou uma cartel para aumentar os valores de contrato?
  • Quem colocou cupinchas em cargos estratégicos nos ministérios?
  • Quem fez vistas grossa diante dos rios de dinheiro que sumiam de nossos cofres?

E não me venham com reforma política como caminho para o fim da corrupção. Ou vocês acham que se mudarem as regras de financiamento de campanha o Renan, o Collor, o Maluf, o Sarney, o Cunha, o PP, o Kassab, os fiscais e os diretores das construtoras vão ficar todos honestos?

Enfim, poupem a nossa Velha Senhora. Ela é uma velhinha ativa e esperta e está a tanto tempo entre nós que podemos vê-la como aquela vizinha da Vila que ainda faz compotas aos 92 anos.

Sugiro deixem ela em paz e que a gente se concentre nos seres humanos que agem a seu favor.

Arlindo e o Carnaval

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Arlindo quase sempre odiou o carnaval. Digo quase, pois por num período de poucos anos, quando ainda era pequeno demais para escolher as próprias roupas, a mãe o levava para as matinês do Juventus e ele adorava. Sempre fantasiado de pirata, Cowboy ou marinheiro, corria pelo salão juntando o confete caído para jogar ao alto repetidas vezes, enquanto aprendia sem querer as velhas marchinhas de carnaval.

Sua aversão a grande festa do Brasil começou na faculdade de direito. Lá conhecera as ideia de Marx e passara a ver no carnaval um símbolo da alienação do Brasileiro. Pensava no trabalhador explorado o ano inteiro que ao invés de lutar contra a opressão, caía na folia. No Brasil, o carnaval era o verdadeiro ópio do povo.

Anos depois, quando já estava crescendo profissionalmente no departamento jurídico de uma multinacional, Arlindo abandonou os princípios comunistas e passou a sonhar com um Brasil que enriqueceria pelo investimento privado. Nessa época, ele odiava o carnaval por outro motivo. Achava a festa um atraso de vida. Acreditava que a população deveria ter mais educação, conhecer melhor a cultura de outros países, se esforçar para crescer profissionalmente e não ficar rebolando seminua pelas ruas das cidades.

Hoje, chegando aos 50 anos, Arlindo continua a não gostar do carnaval. Aliás, também não gosta muito da própria vida. A carreira em grandes empresas não decolou, ele ocupa um cargo menor e é subalternos de advogados bem mais jovens. O casamento acabou e a ex-mulher mudou-se para Santos com os filhos. Neste carnaval de 2015, Arlindo decidiu ficar em casa, vendo uma maratona de filmes pela TV e pesquisando inutilidades em sites de compras.

Porém, na noite de sábado, era impossível ver o Netflix pois havia o enorme barulho de um bloco passando em sua rua. Acabou descendo para testemunhar a bagunça de perto.

Alguns jovens com microfones, cavaquinhos e violões puxavam o samba de cima de uma caminhonete e eram seguidos a pé por uma bateria que não tinha mais de dez integrantes. Em seu redor, pessoas do bairro se divertiam. Senhoras, casais e crianças acompanhavam o bloco, cantando e dançando. A música era “Taí”, de Carmem Miranda.

Longe da família, dos sonhos de justiça da juventude, da ambição de sucesso que um dia o motivara, Arlindo começou a seguir aquele humilde cordão, entoando em coro a canção que ouvira na infância. Depois de “Taí”, a banda tocou várias marchinhas antigas que Arlindo pensava ter esquecido.

Não se sabe se ele passou a gostar de carnaval naquela noite, mas por algum tempo, ele experimentou o ópio do povo, e nesse tempo nada foi mais importante do que som do bumbo, em sua imitação rítmica da batida do coração. Embalado pela música, voltou a ser o pirata, o cowboy, o marinheiro que corria pelos salões do Juventus amontoando confete nas mãozinhas para finalmente jogar tudo para o alto.

O Maior Mal do Brasil

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Vem eleição, vai eleição, e os institutos de pesquisa sempre faturam uma graninha listando para candidatos e demais interessados as maiores preocupação dos brasileiros. E toda vez que sai essa pesquisa o apresentador do telejornal vem com a mesma ladainha:

32% acham que o maior problema do Brasil é a segurança, 26% se preocupam com a saúde, uns tantos com a educação e outros com o emprego. Há gente que odeia o PT, há quem se descabele com a corrupção ou com a falta d’água.

Eu não sei o que acontece com essas pesquisas, talvez seja o jeito de perguntar ou a falta de sensibilidade dos pesquisadores, mas 5 minutos de olhar atento nas redes sociais revelam que o maior problema do Brasil é outro. O que realmente preocupa o povo é a existência das “invejosas”.

Exatamente. Num país em que as pessoas são felizes, realizadas, cheias de educação, cultura e repletas de tudo o que precisam, há sempre quem fica para trás. Mulheres que não podem pagar o Red Label da balada, não conseguem um namorado, não exibem a beleza luminosa da maioria das brasileiras.

Falo de mulheres porque sou atento ao que vejo. Pouco se fala dos invejosos, são sempre “invejosas” que causam a grande indignação. Aliás, há ainda uma curiosidade gramatical nessa história. No caso dessas moçoilas, um pequeno erro de concordância é universalmente aceito. Ou seja, elas são “as invejosa”.

E para mostrar como sou inteirado com as novidades vou acrescentar a tal rexitegui e passar a nomeá-las assim, da mesma forma que leio no Twitter.

#asinvejosa

Os esforço para evitar esse mal é tão grande que os dois maiores sucessos musicais do Brasil nos últimos anos foram odes contra #asinvejosa. Lembrando aos menos antenados, falo de “O Show das Poderosas”, da Anitta, e “Beijinho no Ombro” da Valesca Popozuda. Nem a ditadura militar, que inspirou Chico e Vandré, foi tão fortemente combatida como nesses hinos universalmente aceitos.

Fiz uma pequena pesquisa nas redes sociais em comunidades como “Frases para Invejosas” e consegui coletar um pouco do pensamento que ajuda brasileiros e brasileiras a evitar essa ameaça:

_ Irrite os invejosos com a sua felicidade.

_ Eu só incomodo os fracos, os fortes andam comigo.

_ Meu brilho te incomoda? Recalque bate aqui e vira tapete para eu desfilar.

_ A pior vadia é aquela que se paga de santa.

_ #asinvejosa fala de mim mas é minha fã incubada

_ Vou postar dps só para aomilhar #asinvejosa

_ Obaaa! Ai q chique to nos eua #invejosa

Esses são apenas alguns exemplos, preservei as frases exatamente como as li para mostrar a liberdade em relação as velhas regras da língua portuguesa por parte dos autores. Para que se preocupar com gramática se há uma ameaça tão grande a combater?

Enfim queria sugerir aos marqueteiros políticos que ficassem atentos às novas demandas da população. Assim, nas próximas eleições teremos companhas mais adequadas aos anseios da nação. Quem sabe unindo beijinhos nos ombros e poderosas para salvar o Brasil.

Por que torcerei

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Vou entrar no time dos que assistirão felizes aos jogos do campeonato internacional de futebol que acontecerá no Brasil. (Nem digo o nome do evento que periga eu ser preso por uso indevido da marca)

Vou torcer e me divertir mesmo sabendo que fomos roubados (mais uma vez) por nossos governantes, mesmo sabendo que as obras de infra-estrutura não foram realizadas.

Vou torcer porque gosto de futebol, de grandes jogos, de craques em campo e será uma chance rara que terei de vê-los por aqui. Torneios assim acontecem a cada quatro anos e não quero esperar este tempo para vibrar de novo.

Vou torcer para tornar essa festa mais bonita para os milhares de turistas e jornalistas que vem nos visitar. E que eles, apesar da nossa incompetência organizacional, possam divulgar em seus países este é um lugar que vale a pena ser visitado pelas inúmeras coisas positivas que também temos. E que no futuro, milhões de turistas venham, gastem em nossos restaurantes, comprem nosso artesanato. Isso será bom para todos, independentemente das gangues de canalhas usufruirão do poder nos próximos anos.

E depois de torcer, vou escolher com muito cuidado em quem votarei nas próximas eleições. E vou pedir sempre que puder e como puder que cada centavo desviado neste país seja devolvido e que todos os corruptos sejam exemplarmente punidos.

E nunca esquecei que atuais governantes escolheram gastar quase dois billhões de reais no estádio de Brasília. Obra que ofende nossa inteligência. Não fosse o Estádio de Brasília, todos os outros desperdícios teriam doído menos. Mas o Mané Garrincha (e pobre do craque que emprestou seu nome a essa obra) é um tapa na cara da sociedade, é uma provocação, é mostrar que eles podem pisar em nossas cabeças. Aliás, se me colocam na cadeira de presidente, minha primeira canetada iria transformar o Mané Garrincha num conjunto habitacional. Fica a dica para os próximos mentirosos que sentarem por lá.

Mas voltando ao assunto, durante a Copa torcerei e pronto.

E para quem quer protestar, sugiro que pensem um pouco no futuro e que empunhem suas bandeiras contra um golpe ainda maior que preparam contra o Brasil: As Olimpíadas de 2016. Cujas obras mal começaram, estão mais atrasadas que a deste torneio de futebol e que provavelmente darão mais margem a incompetência, corrupção e gastos desnecessários. Por favor uni-vos no coro:

#naovaiterolimpiada

 

* p.s. A título de curiosidade, não torço necessariamente para nossa seleção canarinho. Posso virar casaca tranquilamente se algum time simpático e de futebol encantador despontar, como foi a Dinamarca de 1986 ou o Uruguai de 2010.