Desculpe amigo, mas vou te bloquear

 

 

yelling.jpgMeu caro amigo, gosto muito do Facebook. é um lugar onde troco fotos com pessoas queridas, fico sabendo como estão os conhecidos que não consigo ver no dia a dia e converso sobre assuntos que me interessam.

Sim, é um lugar onde também me divirto falando de política com aqueles que respeito e admiro.

Falar de política é saudável, importante e está na moda. Claro, o país vive um momento de grande agitação, é natural que as pessoas se envolvam e mais natural ainda que alguns se exaltem.

Mesmo assim, gosto das discussões que tenho. São conversas que me divertem e me dão prazer. O mesmo acontece com o Blog e os comentários dos queridos seguidores.

E vivo discordando de todo mundo.

Discordo dos meus amigos de esquerda como o Pedro Menezes, a Flávia Coelho e o Paulo Boccato. Travamos longos debates. Discordo de amigos de direita, como o Fabio Rosas ou o Marcelo Gentil.

Discordar é saudável. Aprendo muito com quem pensa diferente.

Mas com você tenho algumas questões:

  • Você não discorda pra trocar ideias, você precisa vencer qualquer batalha retórica em que se envolve.
  • Você não está interessado na minha opinião. Pouco te importa o que eu penso. Você quer apenas exibir suas convicções.
  • Aparentemente sua missão de vida é provar que estou errado.
  • Você acha que quem pensa de forma diversa a sua é necessariamente mal intencionado ou pouco inteligente.
  • Você escolhe o caminho de desmerecer o oponente no lugar de rebater as ideias deste.
  • Eu prego a paz e simplesmente deixo de seguir as pessoas que estão sempre postando mensagens de ódio e preconceito (sim, não te sigo há tempos). Você me trata com sarcasmo graças a essa minha atitude, ironizando meus textos pacifistas.
  • Você me manda links de jornalistas ruins e cheios de ódio para provar seus pontos de vista.
  • Nossas discussões quase sempre terminam com você me rotulando.

Resumindo, enquanto eu me divirto ao falar com os outros, eu me irrito quando debato com você. É desagradável, é cansativo, tem energia ruim.

Você não soube brincar. Estragou o brinquedo, ou como dizem os jovens, zoou o rolê.

Portanto meu caro, para salvar a minha alegria de usar o Facebook e pela preservação de meu espaço, me valho de toda a pompa para anunciar aos ventos que você está sendo bloqueado.

Não me leve a mal. Podemos nos encontrar ainda no mundo real, um espaço com uma série de vantagens, entre elas um certo constrangimento que as pessoas sentem antes de ofenderem umas as outras.

Enfim, nos vemos por aí.

 

 

 

 

 

 

Anúncios

O Adeus de dona Nenê

Dona Nenê acordou com a luz discreta que fazia brilhar o entorno da cortina do quarto. Sentia-se leve e jovem, nem a eterna dor nas costas a incomodava. Porém, ao tentar mover o corpo percebeu que nenhuma parte obedecia. Assustada, tentou chamar o marido, seu Gaspar, mas a voz também não saía.

Fez um enorme esforço e conseguiu se levantar. Mas para sua surpresa, ao olhar para a cama, viu que ainda estava lá, inerte, ao lado do marido. Novamente quis gritar e a voz não saiu. Ficou parada, olhando para o casal deitado, ouvindo o ronco suave do Gaspar.

Quando se casaram, há quase cinquenta anos, teve dificuldades para dormir devido aos ruídos que o Gaspar fazia, mas foi se acostumando e agora precisava desse som todas as noites, era a sua segurança.

Quando Gaspar acordou, chacoalhou o corpo ao seu lado e o abraçou enquanto chorava em desespero. Foi aí que Dona Nenê percebeu que estava morta.

Ela contemplou com candura a cena que envolvia seu marido. Estava comovida com a tristeza dele, era bonito ver tamanho amor.

De repente, a casa foi ficando cada vez mais clara. Era uma luz tão forte que não se podia distinguir mais os móveis e objetos. Tudo virou um imenso branco e um homem feito de luz surgiu.

_ Vamos Nenê. Chegou a hora de você subir.

_ Eu morri?

_ Digamos que você venceu uma etapa. Sua jornada continuará em outra dimensão.

_ É como se eu tivesse passado de fase no Candy Crush?

A entidade não entendeu a pergunta. Dona Nenê continuou.

_ Mas e as coisas que eu tinha, as pessoas…

_ Tudo ficará pra trás. Vamos seguir um novo caminho.

_ E não tem como ver meu Facebook?

A entidade novamente ficava confusa.

_ Meu Facebook. Vai ter um monte de gente falando de mim. Eu quero ler as homenagens.

_ No lugar onde a gente vai, nada disso será importante.

_ Moço, como não é importante? É onde minhas filhas colocam as fotos, eu vejo as viagens das amigas. Hoje vão falar de mim o dia inteiro. Vai ter um monte de textos emocionantes.

_ Dona Nenê, a senhora está apegada.

_ Eu queria tanto levar meu celular…

Os apelos eram inúteis, a própria entidade havia desaparecido e do alto surgia um túnel de luz multicolorida sugando dona Nenê que começava a se misturar à energia do universo. Em seu último esforço humano, ela ainda balbuciou:

_ E a minha cidadezinha do CityVille, tava tão bonita…

Malditas Havaianas

havaianas

_ “Nada mais lindo que um casamento”.  Pensam as mulheres do alto do seu romantismo clássico.  O Amor, a decoração, os vestidos novos, os docinhos, as lindas palavras ditas no altar, o choro da noiva ao abraçar a mãe.

Mas a nós,  homens, criaturas desprovidas de sensibilidade, nós que bocejamos impacientes mesmo na hora dos votos, a nós interessam outros detalhes, por diferentes motivos.

Sim, nas festas de casamento há muito que nos agrade. Tem uísque, vodka, amigos dividindo o uísque e a vodka…

A mim, particularmente, me agradam os montes e montes de batatas das pernas femininas desfilando enrijecidas por poderosos saltos agulha. Podem chamar de fetiche ou seja lá o que for, não há evento social que reúna tantos saltos, sandálias, pés com esmaltes absolutamente ilibados, vestidos revelando pernas e panturrilhas, lindas panturrilhas.

Lembra da moça sem graça do departamento pessoal? A que aparece em jeans, tênis, olheiras todo santo dia. Quem diria que ao calçar seus tacones e num vestido preto, colado ao corpo, se tornaria uma verdadeira musa roliudiana dos anos 50, uma espécie de Lana Turner de Osasco.

É mais ou menos assim, as mulheres  no dia a dia são todas “Clark Kents”, escondendo por trás dos óculos as verdadeiras identidades. O vestido está para elas como o traje está para o super herói. Ao vesti-lo, revelam seus poderes, suas armas e principalmente seus saltos altos e dedinhos vermelhos.

Pois nossas heroínas estão deslumbrantes. Cruzam os salões tremulando o tecido de seus vestidos enquanto tomamos nossos uísques e vodkas. E a festa está apenas começando. Sabemos que sentaremos em mesas de oito pessoas e falaremos com estranhos sobre futebol, economia e política. Mostraremos que somos inteligentes o suficiente para vestir o terno bem cortado que vestimos e esperamos o grande momento quando, com os buchos cheiros de molho madeira e álcool, as garotas invadem a pista aos primeiros acordes de Bizarre Love Triangle.

Percebemos a magia enebriados pelo uísque e a vodka. Proseccos circularam livremente nas mãos e bocas delicadas das moças. O salão está escuro. O tio avô do noivo chacoalha como se estivesse num baile de carnaval. Uma prima do interior dança com a irmã. Enfim o amor está no ar, e com ele a testosterona.

E quando o clímax da cena se aproxima, quando pensamos estar no céu, baixamos o olhar e vemos abismados que os lindos sapatos de salto sumiram. Isso mesmo, aquela plataforma encantada que havia transformado tia Adelaide na Sharon Stone simplesmente desapareceu. Sob os pés femininos surgem como pragas as famosas sandálias Havaianas. Aquelas que não deformam, não tem cheiro e não soltam as tiras.

Olhamos assustados. Cadê as panturrilhas durinhas? Cadê as moças altas a minha volta? Cadê a magia?

Não há mais nada. As musas-heroínas voltaram a ser as primas, amigas, esposas e tudo aquilo com o que já nos acostumamos. Os pés voltam a ter joanetes, as pernas estrias, o mundo problemas. Somos jogados de forma dura e imediata à realidade, ao concreto, ao amigo que passou do ponto e nos oferece um pedaço cortado da gravata do noivo.

É hora de ir, antes que apareça alguém de Crocs.

REFORMA DE POBRE

Imagem

Lá em São Bernardo, na minha infância, funcionava assim: Quando alguém queria mudar o visual da casa e não tinha dinheiro para uma nova decoração ou uma reforma propriamente dita, mudava os móveis de lugar. Colocava a estante no lugar da TV, as poltronas onde era a mesa de jantar e assim por diante. Comprava um tecido e jogava desleixadamente sobre o sofá e estava feito. Uma tarde de esforço da dona de casa e tínhamos uma sala novinha em folha.

O marido sempre era pego de surpresa. Chegava a noite  em casa e não sabia onde sentar, não encontrava o controle remoto, mas aceitava as mudanças apesar de alguns tropeços na primeira semana.

Penso que essa tática das donas de casa bernardenses dos anos 70 virou moda na indústria tecnológica contemporânea.

Tudo começou com a Microsoft. Desde o primeiro “Office”,  nós, pobres mortais, usamos sempre as mesmas funções: Salvar, centralizar, copiar, colar… Mas a cada versão os botões mudam de cara e lugar. Sempre que havia uma atualização, como maridos desatentos, tropeçávamos até a aprender novamente as disposição da tal “interface”. Passamos horas de nossas vidas adivinhando as novas localizações do botão de negrito.

Agora, outras grandes empresas inovadoras aprenderam a lição. É só mudar as coisas de lugar e  fica tudo novo. O Facebook acabou de fazê-lo em seu aplicativo e a Apple se mostrou uma digna bernardense em seu novo IOS 7.0. Alguns fãs defendem com entusiasmo:

_Você viu que tem um atalho novo para o Bluethooth?

_ Sim, claro, e isso muda toda a experiência. – Responderia o senhor gerente de marketing na conferência transmitida ao vivo pelo Youtube.

Eu do meu canto, sonho em ver dona Beatriz assumindo a presidência de uma dessas empresas, adornada em seu avental bordado e com de luvas de plástico em riste, para encher de criatividade os escritórios envidraçados do vale do silício.