Vou chorar

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A imagem que faço de mim

Já contei a vocês que choro?

Choro muito, choro pelos mais diversos motivos. Filmes, livros, histórias, comerciais de Tv, locuções do Galvão Bueno, replays de gols do Palhinha… Sou um sentimental.

Comecei a listar mentalmente e decidi expor alguns exemplos das coisas que me fizeram chorar:

Filmes: À Procura da Felicidade, O Milagre de Anne Sullivan, Laços de Ternura, Cinema Paradiso, O Campeão, Peixe Grande, A Vida é Bela, Lado a Lado, Noites de Cabíria, Imitação da Vida, Filadelfia (esse eu tive uma crise de choro no carro, quando tentava sair do estacionamento do Shopping), Tarde Demais para  Esquecer, que é o maior melodrama da história.

Animações: Dumbo, Toy Story 3, Divertidamente.

Livros: Patrimônio (Philip Roth), Manoelzão e Miguilim (Guimarães Rosa), Reparação do Ian McEwan.

Quadros (sim, eu chorei no museu): Baile no Moinho da Galette (Renoir) e o Guernica (Picasso).

Séries de TV: Glee, outro episódio do Glee, quando cantam Imagine no Glee, quando o menino lembra do pai no Glee…

Acontecimentos: Morte do Telê Santana, posse do Obama, Morte do John Lennon. A morte do Lennon é um fato curioso, eu era criança e não me importei na época. Mas até hoje, eu penso no assunto e me comovo terrivelmente. Piora se ouço a música do Beto Guedes: “Oh minha estrela amiga, por que você não fez a bala parar”?

Enfim, choro não apenas pelas coisas tristes, choro pelas coisas belas e choro quando vou contar que chorei ou quando tento me lembrar de uma fala do filme. Enfim, sou quase patético.

Mas escrevi tudo isso para contar que domingo chorei por um motivo muito especial, eu chorei ao ver minha filha cantando Beatles com um grupo musical da escola.

Foi covardia, minha filha num grupo no estilo Glee cantando músicas do John Lennon.

A paternidade é a mais fascinante experiência da vida. Mudamos nosso entendimento do mundo ao obervar uma criança desde seus primeiros dias. Um chorão como eu se encanta com as diferentes conquistas. A criatura que tem dificuldades em fazer as coisas mais simples como engolir saliva ou engatinhar de uma hora para outra escreve uma poesia ou te supera no Clash of Clans.

Ela tem 11 anos. Em breve chegará a adolescência, os namoros, as decepçcões, as conquistas, o vestibular, o primeiro emprego…

Vou precisar de lenços de lenços, mutos deles.

 

Marli ´n Kedin

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Marli estava ansiosa, precisava chegar em casa a tempo de ver Camila acordada. A menina, em fase de tirar as fraldas, não via a mãe todas as noites.

Era comum Marli ficar até mais tarde no banco. Verificava planilhas, refazia cálculos. Quando tinha uma apresentação importante passava horas revendo o Power Point e treinando suas falas.

Miguel, o marido, estava acostumado. Dono de uma loja de pneus, sofreu um pouco no começo com as ausências da esposa. Depois, porém, passou a se acostumar com o conforto material que os bônus de Marli proporcionavam.

A primeira vez que o bônus superou os cem mil reais foi comemorada em Paris, na segunda vez, Marli já estava grávida.

Camila crescia menos rápido do que a fama da mãe no banco. Impiedosa com a equipe e obcecada por detalhes, Marli brilhou em todos os projetos que se envolveu.

Ao chegar em casa naquela noite, deu com Miguel saindo do quarto de Camila. A menina acabara de dormir. Ele fez sinal de silêncio com o dedo indicador em frente aos lábios e a chamou para comer algo. Ela o beijou na bochecha e disse que precisava trabalhar um pouco. Pegou um pacote de Pringles e abriu o notebook.

Ele, cansado de esperar por companhia, ficou em pé ao lado observando-a entrar no LinkedIn.

_ Faz duas semanas  que você faz isso toda a noite.

_ É importante. Preciso saber o que está acontecendo no mundo. No banco eu não tenho tempo para nada.

_ O LinkedIn não é o mundo – Retrucou Miguel contrariado.

_ O mundo é o que você vai conhecer se eu não perder o foco.

Miguel saiu de mansinho, pegou outro pacote de Pringles e foi ver futebol na TV.

Poesia de pai para a filha 2

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O último texto que publiquei ficou muito bonito, falava de minha filha e de poemas que eu escrevia e que ela escreve.

 Porém escolhi um título tão ruim que quase ninguém leu. Decidi alterá-lo mas era tarde demais, o post ficou no passado.

Então reciclarei o título e vou publicar um soneto que escrevi dias antes do nascimento dela em 2006.

A Espera de Esther

Antes a vida tão certa e clara

O dia, a casa, o tudo saber

Em um dado momento o medo de ser

Depois a surpresa que se depara.

Antes o sonho, a esperança, o ideal

A confirmação, o cuidado e a fé

Em amar-se o que ainda não é

O que depois será tudo afinal.

Antes a espera, o torcer, a ansiedade

de pais e avós, de tios e amigos

O tempo, os meses, o aviso e o alarde

Um universo em ti resumido

Antes o silêncio encobrindo a cidade

Depois o teu choro rompendo o infinito

P.S. Há uma baita discussão no país sobre o papel da Cultura em tempos de crise. Eu me posiciono aqui, como besta e sonhador: A cultura e a arte podem nos salvar da crise, nos levar a outros mundos onde não há escassez de recursos, de gentileza, de entendimento e de moral. Podem ainda ajudar-nos a ver este mundo sobre outros prismas. Quem sabe assim possamos compreender o incompreensível e romper as barreiras invisíveis que nos dividem.

Poesia, de pai para filha

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Quando eu tinha 12 anos fiz esse poema para a escola:

 

O Duelo

 

Tirei minha espada, olhei para o céu 

Começa o Duelo, duelo cruel

 

E vendo sentada, de arquibancada,

a morte

 Ali o Eterno, esperando alguém

pra levar para o inferno

 

Dei um golpe no ouvido e ainda duvido

Como ele ficou apenas ferido

 

Tirou minha espada num golpe audaz

Jogou-a para longe, deixou-me incapaz

 

Termina o duelo e dois machões 

dormem ao lado em seus caixões

 

Era um texto pueril, dava pra perceber que eu me esmerava em escrever porém minhas preocupações eram fantasiosas e superficiais.

Lembrei deste texto ao ler uma poesia escrita pela minha filha de 10 anos (espero que ela não se ofenda pela reprodução sem pagamento de royalties). Foi feita para a escola e o tema eram os contos de fadas:

 

Caminho para a Liberdade

 

Quando você for caminhar

Menina do vestido vermelho como o fogo

Lembre-se do conselho que vou te dar

 

Quando estiver assustada 

Com medo e se sentindo assombrada

Menina que caminha pela floresta

não tente ficar parada

 

Quando estiver em um momento

Que se resume apenas em sofrimento

Menina do rosto sorridente 

Saiba que estará sempre em meu pensamento

 

E quando decidir no fundo do teu coração

que não precisa mais segurar minha mão

nem ouvir os meus tantos conselhos 

inimiga de lobos traiçoeiros

saiba que não terei receios.

 

O poema me emocionou. Minha filha aos 10 anos mostrou profundidade e maturidade que eu estava longe de alcançar aos 12. Isso para não falar da qualidade do texto em si.

Eu me coloquei no lugar do narrador dos versos dela e a vi como essa chapeuzinho valente que caminha clamando por liberdade.

Ela pertence a uma nova geração, mais avançada que a nossa. Creio que ser superado pelos filhos é o sonho de todo pai. Sinto que isso vai acontecer.

Será que sou corajoso como esse personagem ou como o espadachim que sonhei ser na infância? Em breve chegará o dia em que ela largará minha mão e não ouvirá mais os meus conselhos. Sei que desbravará inúmeras florestas e que estará em meu pensamento. Como não ter receios?