A volta aos bons tempos

A volta aos bons tempos

O leitor do blog, já está familiarizado com meus textos, sabe que não sou dos sujeitos mais inteligentes. No português claro, sou meio burro mesmo. Para você ter ideia, até hoje tenho dificuldade em entender o imenso ódio ao PT. Mas isso não é nada. Acho ainda mais confusa a escolha de Bolsonaro como o Salvador da pátria.

Alguns amigos me dizem que não havia opção.

Como não? – Penso eu enquanto rumino minha alfafa. A direita podia escolher o Amoedo, o Meirelles, o Alvaro Dias e o Alckmin. Todos experientes, administradores testados. Ainda tinha o Cabo Daciolo para os mais religiosos. Por que escolheram a pior opção?

Pois eu andei matutando e observando as postagens dos amigos nas redes e no Zap e cheguei a uma teoria, daquelas bem malucas que povoam meus textos. Vamos ver se o leitor concorda.

O brasileiro é um conservador vivendo num mundo em plena transformação.

As pessoas da minha idade, não sabiam o que era um gay. Havia a bicha. Uma figura patética e caricata. Mas nos nossos cotidianos, o gay não existia e as famílias não aceitavam sua presença. O mesmo acontecia com mulheres chefes de família. Era um mundo de compartimentos separados e papéis claros. A autoridade pertencia ao macho provedor.

Durante os últimos 30 anos aceitamos bem as mudanças. Aceitamos que o sobrinho gay trouxesse o companheiro para a ceia de natal. Até curtimos o rapaz. Aceitamos que negros e gente de tipos e origens diferentes invadissem nosso mundo fechado de brancos de classe média. Somos abertos a mudanças.

Mas homens da minha geração chegaram próximos aos 50 num mundo totalmente diferente. Difícil de lidar. Abrimos a porta para os gays e de repente entraram negros, feministas, transgêneros, cotas, tatuagens, piercings e arte transgressora,  pressionando  os limites do nosso conservadorismo.

O tiozinho do churrasco aceitou bem o sobrinho gay, mas não consegue aceitar a cota pra transgêneros no concurso público ou o adolescente que sai de batom na Paulista.

A direita percebeu isso há anos e colocou lenha na fogueira do Whatsapp: O Peladão do Museu, a exposição de arte gay, a peça Macaquinhos, uma série de eventos sem importância viraram escândalos desnecessários, mas ajudaram o brasileiro tradicional a achar que o mundo está moralmente arruinado. Foram milhões de memes mentirosos associando a esquerda à pedofilia.

Bolsonaro não precisou falar de emprego como fazia Alckmin ou de experiência administrativa como fez Meirelles. Não precisou falar de corrupção como Alvaro Dias ou de um Estado eficiente, como Amoedo. O Brasileiro conservador por natureza está preocupado com o fictício Kit Gay nas escolas, criando um ambiente onde Bolsonaro é a referência.

O Brasileiro sonha com a volta de um passado bucólico onde branco é branco, preto é preto, homem é homem e mulher é mulher. Um passado onde o macho provedor é autoridade da família e da sociedade.

Bolsonaro é esse macho provedor autoritário, nesse campo ninguém ganha dele. Ele está propondo uma volta ao passado e as pessoas já compraram essa ideia. Voltemos ao meio do século XX, quando as coisas faziam sentido, quando caçar era divertido e derrubar as matas necessário. Voltemos ao século XX antes dos nordestinos invadirem as cidades do Sul, numa época em que não havia mulheres mandando no trabalho. Voltemos aos anos 60, enquanto o resto do mundo avança a passos largos num maravilhoso e revolucionário século XXI.

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Um casal Gay no Metrô

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Vi as duas garotas na plataforma da estação Paulista da linha amarela. Estavam de mãos dadas e demonstravam grande carinho entre si. Ambas tinham menos de 30 anos. Uma era branca, usava óculos antiquados e tinha um ar de nerd, como as segregadas nos filmes passados em colégios americanos. A outra era negra, mais alta e usava longos dreadlocks com enfeitinhos rosas e vermelhos.

Entrei no trem e comecei a ler. Passado um tempo percebi que estávamos no mesmo vagão. Então reparei que ninguém dava bola para as duas e comecei a pensar nesta crônica.

Há vinte anos, duas gays não poderiam demonstrar carinho num vagão de metrô. Seriam hostilizadas, atrairiam olhares de reprovação, seriam o assunto das conversas em seus entornos. Muitos anos antes, um romance de um negro com uma branca seria um pecado absurdo, acabaria nos jornais, nas páginas policiais.

No entanto, lá estavam elas, branca e negra, duas mulheres apaixonadas e ninguém se importava com isso.

Infelizmente, o mundo não é tão perfeito como o amor que sentem. Ainda há políticos que lutam contra o direito das duas. Aqui mesmo, na redes sociais, há milhares de pessoas que hostilizam outras pela cor de sua pele ou por suas escolhas afetivas.

Pior que isso, nos EUA, que estão séculos a nossa frente, tivemos esse terrível atentado no final de semana. Um único indivíduo capaz de espalhar tanto ódio e terror.

Sou otimista. Acredito que o trem da história só caminha em uma direção. Há cinquenta anos um negro americano não podia entrar em determinadas lanchonetes. Hoje um negro americano está deixando a Casabranca depois de governar o país com brilhantismo.

Há 70 anos tentaram exterminar todas as pessoas do meu povo. Executaram velhos, mulheres e crianças. E isso aconteceu na região mais avançada e culta do planeta. Hoje isso seria impensável.

Sei que ainda há um caminho longo para andar. O preconceito resiste como resistirá por muito tempo. Trumps e Bolsonaros nos lembram disso. Mas as novas gerações já compreendem de outra maneira.

As duas garotas do Metrô precisam ficar atentas com os loucos espalhados por aí, porém não podem se esquecer que já vivem num mundo em que o termo “sapatão” perdeu o sentido. O futuro será sempre melhor.

O atentado de Orlando será um nota de rodapé na história, assim como serão esquecidos um dia Malafaia e Feliciano. As moças de mãos dadas no metrô serão cada vez mais frequentes e, melhor que isso, cada vez menos notadas.

 

 

 

 

Eu não gosto de ver homens se beijando

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Eu não gosto de ver homens se beijando.

É duro dizer isso justamente na semana em que os ânimos estão acirrados pela imensa discussão iniciada com a campanha do Boticário em que casais gays se presenteiam no dia dos namorados.

Muitas pessoas, especialmente cristãos evangélicos (alguns bem famosos) sugeriram um boicote à rede de perfumarias. Outras pessoas se solidarizaram e defenderam a iniciativa. Obviamente a polêmica era esperada pela marca que fez história ao usar gays em sua comunicação.

Para aumentar a polêmica, ainda tivemos a parada gay com alguns manifestantes usando símbolos cristãos como forma de protesto e até provocação.

Enfim, prato cheio para a polêmica no coração dos brasileiros e consequentemente nas redes sociais. Incitações a ação, discursos apaixonados, pessoas cheias de razão bloqueando amigos de um lado e de outro.

Este cronista não tem muito mais a acrescentar à discussão, apenas essa confissão. Puxando fundo em minha alma, eu declaro que não gosto de ver homens se beijando.

Motivo: Não sei.

Talvez minha criação, talvez algum recalque, posso descobrir um dia na análise, mas estou sem analista e quando arranjar um haverá outros temas anteriores. Demorarei a descobrir.

Porém é importante (e aqui se encontra o motivo deste pequeno texto) afirmar que o fato de eu não gostar de algo não deve e não pode ser motivo para a sua proibição. As pessoas que se beijam ou deixam de beijar não podem agir influenciadas pelos meus gostos e costumes.

Se minha vontade fosse lei, estariam proibidos:

  • Uso de bonés a noite
  • Alargadores de orelha
  • Maionese industrial
  • Pastores no congresso nacional
  • Sanduíche de mortadela do mercadão
  • Fondue de carne (esse seria o mais proibido de todos)
  • Caipirinha de Sakê
  • CPI’s
  • Novos filmes da saga Guerra nas Estrelas
  • Televisores 4K
  • O programa do João Kleber

Enfim, se eu não gosto de beijos masculinos devo virar o rosto e olhar para o outro lado quando homens se beijam. E segue a vida.

Aos que falam em nome de Jesus para defender sua posição, não tenho muito a dizer, já que sou judeu e não entendo do assunto. Mas do pouco que sei de sua história, consta que ele defendeu a prostituta Maria Madalena quando povo queria apedrejá-la pelos seus pecados. Essa passagem me parece bastante adequada.

Gosto do comercial do Boticário. É um marco na história da propaganda brasileira e depois dele virão outros já que a barreira foi quebrada. Pode ser que em algum deles, dois homens de boné e alargadores de orelha se beijem durante uma CPI onde caipirinha de sake é servida. Eu olharei para o lado, torcendo com todas as forças para que não façam propagandas de fondues de carne.