A Moralização do Brasil

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No dia da votação do Impeachment eu estava no metrô a caminho de um churrasco. Viajava meio desgostoso pensando que a quebra institucional traria muitos problemas para o país, que era triste ver nossa democracia tão debilitada.

No mesmo vagão havia muita gente animada. Vestiam roupas e adereços verde-amarelos e pensavam de forma oposta a minha. Um rapaz que estava com esposa e filho me dizia que seria o começo da moralização do Brasil, um momento histórico.

Mais tarde, assisti um pouco da votação na TV. Cada um dos nobres deputados fez um pequeno discurso (numa língua que parecia um português arcaico) tratando de honradez, de resgate aos valores, de Deus e da família.

Muitos dos meus amigos me garantiram que era o fim da corrupção.

Hoje, quase um ano depois, decidi fazer um apanhado dos projetos de lei propostos pelos mesmos nobre deputados e  seus partidos desde a fatídica data. Vamos a eles:

Lendo a lista acima surgiu uma pulga do tamanho de um besouro atrás da minha orelha. Estou começando a desconfiar dos nobres congressistas. Tenho a sensação que as intenções deles teriam um fundo de auto-preservação.

Talvez seja exagero meu, as coisas devem estar mesmo nos trilhos, afinal não ouço mais o rufar de panelas nem vejo as ruas repletas de patriotas.

Qual a sua opinião, caro leitor? Será que estou sendo muito descrente?

Carta aos congressistas

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Caros congressistas

Aproveitando que praticamente todos vocês apareceram no congresso ao mesmo tempo (coisa rara) e demonstraram tanto compromisso por seu país, seu estado, seu município e seus parentes, eu vou fazer uma sugestão.

Talvez vocês não saibam, mas o Brasil vive um momento difícil na economia. Nós que não embolsamos os salários de 33 mil reais de vossas senhorias temos sofrido certas dificuldades e o principal motivo são os gastos irresponsáveis do Estado.

Então peço que vocês peguem esse imenso senso de responsabilidade cívica que demonstraram ontem e votem mais algumas coisinhas que faria um bem enorme para seus eleitores.

Posso até sugerir o discurso dos votos:

_ Em nome dos meus filhos Jacó e Balaão e dos meus netos Jó e Maria, eu voto pelo fim dos carrões oficiais!

_ Em nome do Piauí e dos cortadores de charuto de Pindorama, eu voto pela redução de 60% da verba parlamentar!

_ Em nome do Papa, do Rivelino e do Scooby-Doo, eu voto pela redução do número de assessores parlamentares!

_ Em nome dos torturadores do Brasil, dos militares, de Napoleão e do Capeta, eu voto pelo fim dos vôos em jatos da FAB!

_ Em nome do meu apoiador de campanha e do meu empreiteiro favorito, eu voto pelo fim dos inúmeros cargos de confiança no senado e no Congresso .

Enfim, caros congressistas, é apenas uma ideia. Porém aposto que muitos me apoiarão.

Eu como autor do Blog, encerro essa missiva com um discurso inflamado:

_ Em nome dos leitores do Toda Unanimidade, compartilhem meu post!

Quem sabe assim,  a ideia pega.

 

 

 

Duas mentiras sobre o Impeachment

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Há dois discursos nesta discussão sobre o afastamento da Dilma que não me convencem. Um da direita e um da esquerda.

1 – O impeachment faz parte da luta contra a corrupção

Eu tenho 45 anos. Já fui enganado milhares de vezes na vida e aprendi a ser um pouco mais atento a certas milongas.

Ninguém vai me convencer de que Temer, Cunha, Roberto Jefferson, Feliciano, Maluf, Rodrigo Maia, PSD, PP, PR estão lutando contra a corrupção.

2 – O Impeachment é um golpe das elites contra as conquistas sociais.

Esses mesmo deputados e partidos acima pertenceram a base governista desde 2002. Eles apoiaram Lula e votaram a favor da criação do Bolsa Família, do  Fies, das Cotas, do Prouni e de todas as conquistas sociais. Se eles fossem representar as elites na luta contra a ascensão dos pobres eles teriam derrubado Lula em 2003.

Talvez os historiadores um dia encontrem os motivos dessa crise toda. Meus parcos conhecimentos em ciência política me fazem crer que tem a ver com a falta de habilidade da Dilma em domar a alcateia que sustentou o PT nos últimos 14 anos.

 

 

É Golpe?

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Especialistas debatendo a legalidade do processo de Impeachment aos olhos da constituição

Não sei se o leitor do Toda Unanimidade percebeu mas algumas pessoas tem discutido nas redes sociais a legalidade do processo de impeachment.

Eu já disse anteriormente que não sou lá muito inteligente e por essa razão não sei o que a constituição diz a respeito do assunto.

Porém, como não quero ficar em silêncio nas conversas de botecos e nem nos grupos de zapzap, decidi pensar no assunto. E pensarei em voz alta, aqui no blog.

Quem sabe você, leitor, me ajuda a chegar a uma conclusão.

Minha intuição

Minha intuição diz que as tais pedaladas não são motivos para impixe (perdoem, tenho preguiça de escrever aquele palavrão complicado).

A manutenção das regras, das instituições e a confiança no sistema democrático são muito importantes para um país. Acho que tirar um presidente eleito é um trauma e só deve ser feito em casos em que o motivo legal seja bastante claro.

Mas minha intuição vale muito pouco. Estamos num país regido por uma constituição e é ela quem manda. Então precisamos da…

Opinião dos especialistas 

Se eu não entendo ouvirei quem entende: Juristas famosos* e amigos advogados.

Vejo então que há opiniões divergentes. Uns dizem que é constitucional e outros pensam o contrário.

Mesmo percebendo que parte destas opiniões é contaminada por visões ideológicas pessoais, não se pode negar que existem muitos argumentos bons de gente que entende do assunto garantindo a legalidade do processo.

Então, não é golpe. É um debate que envolve a constituição e faz parte do jogo democrático.

Só que…

Onde a coisa se complica

Não vejo o menor interesse dos deputados que lutam pelo impixe em relação a discussão legal. Eles decidiram tirar a presidente e fazem apenas um teatro, cumprindo o rito processual sem se importar com quaisquer argumentos ou fatos do Processo. Isso parece Golpe.

Por outro lado, os defensores do governo também não se importam com debate. Usam a discussão legal como desculpa para defender a Dilma. Usam o argumento do Golpe como campanha para levantar a sua torcida.

Enfim, não é golpe, já que lei dá espaço na lei para esse tipo de debate e consequentemente de processo, mas também está longe de ser um procedimento que mostra a maturidade de nossas instituições republicanas.

E a minha vontade? **

Eu desejo que o governo caia.

Acho que seria mais agradável e menos sofrido se a Dilma renunciasse. Como isso não deve acontecer torço para um impixe rápido.

Dilma é uma presidente muito ruim. Ela recebeu um país que crescia, tinha inflação baixa, desemprego nulo e contas em dia.  Quando assumiu em 2011 ela também tinha o congresso a seu favor.

Se em condições tão favoráveis ela conseguiu produzir esse caos, imagine agora com o país desgovernado. Não acho justo que milhares de empresas fechem, que milhões de pessoas percam seus empregos em troca de alguma convicção legalista.

Sofreremos com o impixe, mas creio que a manutenção de Dilma represente um sofrimento ainda maior à população.

E a corrupção?

Eu não falei dela porque pra mim esse processo nada tem a ver com corrupção. Acho até que a Lava Jato pode ter sérios problemas num governo do PMDB. Veremos.

Como diria Roberto Jefferson, é uma questão de escolher o bandido favorito.

E Você?

Qual a sua opinião caro leitor? É golpe?

 

* Entre os juristas famosos desconsiderei a opinião Janaína Number of The Beast. Só leio os que não gritam e nem imitam pomba gira.

** Faço essa observação depois de alguma reflexão: Minha vontade não significa que algo é justo ou injusto, apenas indica um desejo sujetivo.

 

Será que sou burro?

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Vocês já repararam como as pessoas nas redes sociais são cheias de certezas? Todos tem opiniões definitivas sobre qualquer assunto.

Ando até me sentido meio burro, já que há tantas coisas que me deixam indeciso. Será que sou como meu quase xará Múcio, personagem do Jô Soares de quem só os mais velhos se lembrarão.

Para quem não conhece, olha ele aqui.

 

Outro dia o STF votou o rito do impeachment e eu, besta que sou, nada pude opinar porque nada sei sobre a legislação do rito de impeachment (mal sei escrever essa palavra difícil da peste).

Mas descobri que jornalistas, engenheiros, dentistas, desempregados, carteiros e afins conhecem a legislação de cabo a rabo e sabem exatamente o que diz a constituição, o código civil e o estatuto da câmara.

Aliás todos conhecem em detalhes o que diz a lei em relação a pedaladas fiscais e impeachment.

Infelizmente, passei meus 44 anos tentando memorizar os anões da Branca de Neve, os elencos do São Paulo, os filmes dos Irmãos Coen e um montão de coisas inúteis e não sei absolutamente nada sobre a relação de impeachment e pedaladas.

Para piorar, estes especialistas das redes sociais sequer concordam entre si. Uns sabem com 100% de razão que o impeachment é mais justo que calça de funkeira, já outros são absolutamente convictos de que se trata de um golpe. O que me deixa mais confuso.

Na próxima vez que me perguntarem sobre o assunto, farei o que o meu preparo intelectual permite, sairei de fininho em busca de uma cenoura para o lanche. E deixemos que os entendidos se entendam.

 

Ética ou resultado?

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Meu nome é Luciano e eu tenho uma loja de sapatos. Como não posso cuidar dela, a cada 4 anos coloco um administrador que se me agradar deixo lá mais 4 anos.

De 2002 a 2010 tive um administrador chamado Inácio. Ele era falastrão, egomaníaco e divertido. Embora não tivesse muito estudo formal, me convenceu com seu jeito seguro e foram 8 anos em que loja foi bem. Tinha ótima relação com a equipe, as vendas foram excelentes e os clientes estavam felizes.

Ele tinha seus defeitos. Dava pra ver que de vez em quando metia a mão no dinheiro do caixa e também fazia vista grossa quando um funcionário levava um sapato. Contratou mais gente para a loja do que era necessário e muitas dessas pessoas não eram qualificadas para suas funções e também roubavam sapatos. Mas no fim, como a loja lucrava bastante, acabei deixando que concluísse seu contrato.

Em 2010, a Vilma assumiu a administração da loja. Ao contrário do bonachão Inácio, Vilma era muito séria e compenetrada. Parecia uma sargenta do exército alemão. Falava em rigor e eficiência e eu confiei nela.

Vilma é extremamente honesta, jamais desviou um centavo do meu caixa e isso é admirável. Mas ainda sim estou tendo muitos problemas. Ela grita com a equipe e não tem talento para administrar pessoas. Colocou o melhor vendedor para atender nos horários mais vazios da loja, transformou a faxineira em caixa e o estoquista em vendedor. Também contratou assistentes para todos os funcionários e estagiários para todos os assistentes. Ela não rouba mas a confusão na loja é tão grande que todos estão roubando.

Ela também se mostrou incompetente na gestão do dinheiro e na escolha dos produtos.

Os clientes sumiram, os fornecedores não querem entregar a mercadoria e o lucro da loja se transformou em imenso prejuízo.

Isso me levou a um dilema moral:

  • Se mando ela embora, me sentirei uma pessoas extremamente antiética, já que suportei tantos funcionários sem caráter quando o resultado me interessava.
  • Se deixo ela no comando, estarei respeitando o contrato e o caráter da mulher, mas ela me afundará no lodo até o pescoço.

Não sei se o leitor já passou por uma situação parecida, mas agradeceria conselhos e sugestões.

Respeito meu lado justo e fico com a Vilma ou respeito meu lado prático e dispenso a coitada?