2 Anos do Joãozinho Quero-Quero

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Foto: Eduardo Barcellos

Há dois anos a união destas três pessoas resultou no lançamento do livro infantil Joãozinho Quero-Quero.

Eu havia escrito a primeira versão do texto no meu tempo livre, em casa, incomodado com a realidade das crianças atiradas ao mundo do consumo e sonhando em lançar um livro infantil.

Mostrei o texto para o Pedro Menezes que na condição de velho parceiro de aventuras se dispôs a ilustrar e fazer a arte completa.

Por essas coincidências difíceis de explicar (há mais mistérios entre o céu e a terra) reencontramos nossa amiga Lizandra Almeida justamente quando ela preparava o lançamento de sua editora, a Polén.

No dia 23 de Abril de 2014, a Polén nasceu. Nasceu nosso livro Joãozinho Quero-Quero. Eu e o Pedro nascemos como autores. E como tudo isso não fosse suficiente, nasceu João, filho do Pedro e da Renata.

Foi uma mudança completa na minha vida. Joãozinho Quero-Quero está se transformando em uma série de animação para a TV e já estou com outros livros a caminho.

De todas as alegrias que o livro deu (essa parte será piegas mas isso é inevitável), o melhor foi saber das crianças que pediram para os pais lerem infinitas vezes. Foi ouvir que escolas usaram o livro em atividades de classe. Enfim, é saber que a nossa mensagem pode ter ajudado algumas famílias a enfrentar este mundo de desejos e frustrações materiais.

Agradeço aos meus amigos-irmãos-parceiros por essa união e aos leitores, principalmente os pequenos. Espero de coração ter contribuído, iluminando um pouco o caminho que eles começaram a trilhar.

 

 

 

 

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Trocando a política pelo primeiro amor

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O texto de hoje estava na minha cabeça há dias. Falaria de golpe (ou não golpe), Panamá, STF e essas coisas que todos adoram falar hoje em dia.

Mas ocorreu que ontem passei para minha filha um filme que achei no Netflix e não via faz tempo: Little Manhattan (que no Brasil milagrosamente virou O ABC do Amor).

O filme é lindo, divertido e muito tocante. Conta a história da primeira paixonite de um menino de 10 anos que se encanta com a coleguinha das aulas de Karatê.

Vejam o trailer, que simpático. O menino hoje cresceu. É o Peeta de Jogos Vorazes.

Minha filha adorou e sendo uma menina de 10 anos, me fez pensar que em breve sofrerá do mesmo mal que afligia o personagem. A paixão. Quão grande é esse sentimento nos adolescentes e quão pequenos são seus recursos para encarar tamanho amor. 

Ela enfrentará decepções, ansiedades, desgostos, grandes surpresas. Ficará desesperada, beijará um pirralho espinhudo achando que ele é o homem de sua vida. Sentirá o coração bater tão forte como se fosse saltar para fora do peito. Chorará sozinha no quarto.

Eu morrerei de ciúmes e terei um pouco de inveja. Saudades dos tempos em que a vida ainda era um roteiro por escrever.

Meu primeiro amor aconteceu aos 11 anos. Foi uma paixão platônica por uma menina de 12 da minha classe. Era linda e muito mais madura que eu. Não tive a menor chance com ela. Éramos apenas (snif) bons amigos.

Lembro de um bailinho de garagem (meu Deus na casa de quem?). Durante a dança da vassoura passamos uma música inteirinha colados, como se nada mais existisse no mundo. Ela não aceitou a vassoura de ninguém. Foi glorioso mas a história terminou aí.

Ela saiu do colégio no ano seguinte e eu só a vi nos tempos de faculdade. Havia começado a namorar um conhecido meu. Os anos se passaram e a garota sumiu de vez e por ironia, esse namorado se tornou um dos meus melhores amigos.

Queria voltar no tempo, encarar o mundo com a ingenuidade da minha filha. Esquecer de tudo o que eu aprendi e acreditar que cada história de amor é definitiva. Queria que o mundo se bastasse no restrito universo dos meus amigos de escola e minhas paixões. Queria sonhar com uma garota e ainda assim achar que o futebol do intervalo é mais urgente do que o amor.

Sofrerei cada vez que minha filha sofrer. Mas não esquecerei da sorte que tem em viver uma idade tão gostosa.

 

P.S. E você? Ainda se lembra do primeiro amor?

 

Rogério Ceni e o fim da infância

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Rogério cercado de fãs. Não parece, mas sou um deles.

Há poucas coisas mais imbecis do que homens discutindo futebol.

_ Foi pênalti.

_ Não foi.

_ Meu time ganhou o Paulista de 79.

_ Meu time ganhou do seu por 5 x 0 em 82.

Vivo me perguntando a razão pela qual agimos assim e me arrisco a dizer que isso acontece porque na infância nos tornamos fãs de futebol e é nessa época que moldamos o nosso modo de torcer.

Crianças não tem o mesmo senso crítico que nós, não tem como comparar os jogadores que conhecem com craques do passado, por exemplo. Para as crianças os ídolos parecem maiores e mais importantes do que realmente são.

Na minha infância, jogadores do São Paulo hoje quase esquecidos tinham uma enorme peso. Eram figuras míticas, cada uma com super poderes. O lateral Getúlio (Gegê da Cara Grande) tinha o poder do chute atômico; Waldir Perez era um Globe Trotter que defendia pênaltis e fazia micagens divertidíssimas; Renato (Pé Mucho) tinha o poder do drible.

Naqueles tempos os boleiros eram fiéis aos clubes e por consequência, às suas torcidas. Biro-Biro e Zenon eram do Corinthians, Andrade era do Flamengo, Gatãozinho, do Juventos da Moóca. Isso reforçava a ligação que tínhamos com eles, nós garotos e eles ídolos.

Mas hoje crescemos e o futebol mudou. Guerrero, o ídolo do Corinthians joga no Flamengo, o são paulino Danilo é do Corinthians e o Santista Ganso está no São Paulo. Essa ligação entre atleta e torcida é frágil, poucos sabem o que é ter um craque para chamar de seu.

Rogério Ceni foi o último desta estirpe no Brasil. Foi são paulino a carreira toda, portanto, daqueles ídolos que fazem sentir que ainda somos crianças, torcendo por ele com carinho e ingenuidade. Sua parada fará com que olhemos para o São Paulo com olhos frios de adultos que somos. Iremos analisar as novas contratações pelo que realmente valem, iremos definir a atuação de um goleiro pelo que ele fez em campo. Sem Rogério, acreditaremos no comentarista da tv quando ele disser que o goleiro falhou.

Na condição de otimista doentio, sempre acredito que poderemos ter novos ídolos assim, mas o adulto em mim diz que depois de Ceni, restará o pragmatismo no futebol, com sua movimentação de dinheiro colossal e a triste declaração a cada compra e venda de jogador – “Sou profissional, preciso pensar na carreira…”

Há muito que falar de Rogério Ceni, pode-se tratar dos recordes , dos gols, das defesas. Eu porém, não estou preocupado com os resultados, com o índice de aproveitamento ou com o fim da liderança. Me preocupo menos ainda com o profissionalismo. Eu estou triste pois perco o último ídolo que me fazia torcer como criança.

Escolhi esse vídeo para ilustrar a matéria. É um jogo em que Rogério tinha 40 anos e tomou 3 gols. Ele estava voltando de contusão e longe da melhor forma.