2 Anos do Joãozinho Quero-Quero

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Foto: Eduardo Barcellos

Há dois anos a união destas três pessoas resultou no lançamento do livro infantil Joãozinho Quero-Quero.

Eu havia escrito a primeira versão do texto no meu tempo livre, em casa, incomodado com a realidade das crianças atiradas ao mundo do consumo e sonhando em lançar um livro infantil.

Mostrei o texto para o Pedro Menezes que na condição de velho parceiro de aventuras se dispôs a ilustrar e fazer a arte completa.

Por essas coincidências difíceis de explicar (há mais mistérios entre o céu e a terra) reencontramos nossa amiga Lizandra Almeida justamente quando ela preparava o lançamento de sua editora, a Polén.

No dia 23 de Abril de 2014, a Polén nasceu. Nasceu nosso livro Joãozinho Quero-Quero. Eu e o Pedro nascemos como autores. E como tudo isso não fosse suficiente, nasceu João, filho do Pedro e da Renata.

Foi uma mudança completa na minha vida. Joãozinho Quero-Quero está se transformando em uma série de animação para a TV e já estou com outros livros a caminho.

De todas as alegrias que o livro deu (essa parte será piegas mas isso é inevitável), o melhor foi saber das crianças que pediram para os pais lerem infinitas vezes. Foi ouvir que escolas usaram o livro em atividades de classe. Enfim, é saber que a nossa mensagem pode ter ajudado algumas famílias a enfrentar este mundo de desejos e frustrações materiais.

Agradeço aos meus amigos-irmãos-parceiros por essa união e aos leitores, principalmente os pequenos. Espero de coração ter contribuído, iluminando um pouco o caminho que eles começaram a trilhar.

 

 

 

 

Coisas da Bahia

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Paulo é um rapaz de 21 anos que atende num café no Quadrado de Trancoso. Zeloso do trabalho, é suficientemente humilde para não se considerar um barista, embora trate da bebida  carinho e esmero. Fala de alguns tipos de café enquanto usa a balança de precisão para fazer uma infusão diferente, 30g de café, 175g de água e muita prosa.

Herdei do meu pai o hábito de conversar com estranhos e Sílvia sofre do mesmo mal, então, quando viajamos, conhecemos muitos tipos, mas Paulo é um tipo mais que raro.

Fala do pais com veneração e trata seu chefe e tutor como o mesmo respeito. Do pai, mestre capoeirista, herdou a arte, com a mãe morou em muitos locais, inclusive navios de Cruzeiro.

Me conquistou ao contar que as pessoas tinham pouco acesso a livros em Trancoso. Incomodado com isso, criou uma biblioteca itinerante. Ele adaptou na bicicleta um carrinho e conseguiu os livros através de doações.

Seu dia é dividido em três partes: De manhã dá aulas de capoeira para as crianças, à tarde roda com sua bici-biblioteca oferecendo livros a quem precise, à noite serve café com rigor matemático.

Conheço muita gente que reclama da vida, gente que aos 21 anos estudava nas melhores faculdades e já tinha ido a Disney mais vezes que o Pateta. Paulo por sua vez, não tem do que reclamar. Ele trilha o seu caminho e melhora a vida das pessoas a sua volta. Ainda faz parecer que somos velhos amigos nos primeiros minutos de conversa.

Creio que há algo a se aprender com gente assim.

 

p.s. Eu peguei o cartão loja Cheia de Graças onde fica o café para enviar a ele meu livro e queria sugerir que o leitor generoso fizesse o mesmo. Sonhei com centenas de livros chegando de surpresa pelo correio para ajudar a bici-biblioteca. Só que a loja não tem endereço no cartão e nem nos sites. Só aparece assim: Loja Cheia das Graças, Quadrado – Trancoso. Aqui está a foto dela. Só tenho o telefone: 73 3668-1492

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Eu no Rádio

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Amanhã, dia 06 de outubro às 13:30h, estarei no programa Gente Como a Gente da Rádio Globo (1100 AM) para uma conversa sobre “Como dizer não aos filhos”.

Antes que vocês se perguntem o porquê deste cronista ser convidado para um debate de tema tão específico, eu explico. Sou autor de Joãozinho Quero-Quero, que trata justamente de consumismo infantil.

Aliás, se você ainda não conhece o livro, ele conta com a arte brilhante do Pedro Menezes e com a edição primorosa da Pólen e pode ser comprado aqui ou em várias livrarias.

#ficaadica para o dia das crianças.

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O livro menos vendido da história

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Caros leitores, vejam que interessante. Poucos meses atrás, a Amazon/Kindle criou um concurso de contos. Creio que seu intuito incentivar autores a publicar seu próprio e-book no Kindle.

Digo isso pois para participar éramos obrigados a publicar o conto como se fosse um livro. Inclusive colocando-o à venda na loja da Amazon.

Eu segui as instruções e publiquei o conto com o intuito de participar do concurso (que não ganhei) e nem pensei em divulgar o libreto (vamos chamá-lo assim daqui em diante).

Não via sentido em cobrar por algo que as pessoas obtém gratuitamente aqui no “Toda Unanimidade”. Aliás, se é difícil convencer alguém a ler algo de graça, imagine cobrando.

Seguindo esse raciocínio coloquei o menor preço que podia no meu libreto, U$0,99. Juro que era pouco há uns meses, mas agora com o dólar nas alturas virou uma pequena fortuna.

Eu provavelmente teria me esquecido dele não fosse um depósito que a Amazon fez na minha conta com o valor de um livro. Ou seja, um ser humano, em algum lugar, pagou pelo libreto. E como consta no relatório abaixo, foi no dia 23 de julho.

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De alguma forma essa descoberta me fez feliz. O Joãozinho Quero-Quero está em várias livrarias e agora o “Enquanto Isso no Proctologista” vendou um exemplar. Me sinto mais autor do que nunca. Justamente quando o blog chega 5.000 views no ano.

Mas não se preocupem, vocês que gostam do Toda Unanimidade não precisarão pagar por ele. Espero que no futuro, um anunciante faça isso por vocês. Agora, se quiserem conhecer melhor o livro menos vendido do mundo, ele está aqui e misteriosamente mais barato, modestos U$0,91.

p.s. Se alguém de vocês for o meu único comprador não me conte. Prefiro manter o mistério e fantasiar que fui lido pelo Luis Fernando Veríssimo ou pela Scarlett Yohansson.

Enquanto isso, no Mercado

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Agora há pouco no Extra (aquele pequenininho de bairro), duas funcionárias que trabalham repondo produtos nas gôndolas conversavam sobre livros. Senti-me impelido a entrar na conversa.

Elas me disseram que são viciadas em livros, conhecem novos autores, acompanham blogs de escritores e citaram vários de quem nunca ouvi falar.

Não vou dizer que ver duas moças simples, tão cultas e interessantes, me reacendeu a esperança de que este país tem futuro. Isso seria clichê, exagero e quase mentira.

Mas quando saí do estabelecimento estava mais feliz do que quando entrei.

Quando troquei Nietzche por 50 Tons de Cinza

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Tenho como lema nunca largar um livro depois de começado. Isso já me causou problemas. Fui obrigado a terminar alguns muito ruins. Porém, masoquismo tem limite e às vezes eu quebro minha própria regra.

Foi o que aconteceu com “Assim Falou Zaratrustra”, do Nietzche.

Já havia lido “O Anti-Cristo”, outra obra importante do filósofo alemão e também não gostei. Nietzche defende com paixão (muita paixão) que somos apenas um estágio intermediário da evolução do ser humano. O estágio final desta evolução é o “Super-homem”, ou seja, o homem mais íntegro, mais puro e melhor.

Até aí parece bem bonito, concordo, mas em sua argumentação Nietzche explica que características como solidariedade ou caridade são empecilhos para a chegada do “Super-Homem”. Ele defende que sejamos guerreiros, que tenhamos inimigos e um monte de coisas esquisitas.

Separei alguns trechos para exemplificar:

“Quem conhece o leitor não faz nada mais por ele. Um século de leitores e o próprio espirito há de feder.

Se a todos for permitido aprender a ler, irão estragar, a longo prazo, não apenas a escrita mas também o pensamento”.

“Não vos aconselho a trabalhar, mas sim a guerrear. Não vos aconselho a paz, mas a vitória.”

“Tudo na mulher é um enigma, e tudo na mulher só tem uma solução, chama-se gravidez.”

Pois bem, depois de 100 páginas com essas frases de efeito das quais discordo completamente, desisti de Nietzche para me embrenhar nos 50 Tons de Cinza”, best seller de anos atrás que voltou à fama graças ao filme.

Fiquemos inteirados do assunto do momento.

A primeira impressão é bastante negativa, não gostei do texto da moça, um verdadeiro festival de frases feitas e clichês, tanto estilísticos como na trama. Qual a originalidade em Anastácia se levantar da cama de madrugada e encontrar o príncipe encantado tocando uma linda música ao piano? Verdadeiro festival do lugar comum.

Só que não posso largar de dois livros em seguida, isso é demais para minhas regras, então sigo em frente na tarefa masoquista (aliás duplamente masoquista) de ir até o fim.

E eis que pego surpreendido por encontrar coisas positivas, ou que me fizeram pensar. A trama é no primeiro momento a típica história da Cinderela, da mocinha pobre que encontra o príncipe encantado, se apaixonam e etc.

Só que o príncipe encantado da história é inseguro, dominador e sadomasoquista. O moço adora espancar a Cinderela.

Então imaginamos que Anastácia deveria se mandar e achar um bom moço, não? Não. Ela fica e isso nos incomoda. Não fica pelos presentes, nem pela beleza do Grey. Ela fica porque está morrendo de tesão. Ela goza até quando apanha e isso nos agride.

Confesso que não terminei o livro, não tenho a menor vontade de ler as continuações ou de ver o filme. Mas E.L. James transgrediu os contos de fadas e sou sempre a favor de transgressões. Fora que apimentar as cabeças cansadas de donas de casa no mundo todo é um mérito.

Meu caro Nietzche, mulheres não existem apenas para engravidar. Elas tem muitos desejos e podem ler fantasias masoquistas, podem sonhar com quartos cheio de equipamentos exóticos e podem exigir mais dos seus maridos na cama.

*Na foto uma moça segura o chicote enquanto Nietzche posa no lugar do cavalo. Espero que ela lhe dê umas boas chibatadas.

Pornopopéia

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Acabei de ler Pornopopéia do Reinaldo Morais. Nunca tinha ouvido falar do livro e nem do autor, aceitei a recomendação de um amigo e não me arrependi.

Em primeiro lugar me assustei com a características em comum que tenho com o personagem Zé Carlos. Temos mesma idade, ambos somos donos de produtoras, moramos no mesmo bairro e fizemos a mesma faculdade. Acabam aí as coincidências.

Zé Carlos é um inconsequente que vive sem freios e parâmetros morais, seu principal norte é a busca pelo prazer imediato, seja uma carreira de cocaína, seja uma puta na Augusta. É capaz de gastar o dinheiro do mês numa única balada regada a tudo que se pode imaginar e acredita que com esperteza e charme conseguirá se safar de todas as situações que a vida impõe.

Embora caricatural, o personagem não deixa de mostrar uma faceta de nossa sociedade individualista, hedonista, imediatista e amoral. Neste ponto, a obra dialoga com o novo filme da Sofia Coppola, Bling Ring, onde jovens abastados de Los Angeles roubam casas de celebridades por puro prazer. A diferença dos jovens americanos é que eles também são exibicionistas e fashionistas.

Zé Carlos, que conta sua história em primeira pessoa, é sarcástico, impiedoso e deliciosamente intelectual. Citando autores, diretores e obras e filósofos, o que torna suas atitudes imorais (e bota imoral nisso ) ainda mais impressionantes.

O autor também nos delicia ao descrever os personagens secundários que integram especialmente a classes média e alta paulistanas. Seus hábitos e manias estão colocados de forma brilhante, seja através da atitude da equipe de marketing de uma empresa, da escolinha infantil com traços neo-hippies ou das SUV’s que povoam o estacionamento da pousada chic no litoral norte, revelando um poder de observação admirável.

Porém, devo deixar um alerta, o livro não é feito para quem tem gostos delicados e as vezes dá vontade de jogá-lo na parede. Mas não faça isso, vá até o fim mesmo que o livro te traga a pior das angústias. Aproveite que nem sempre arte que nos fere ou mexe com nosso estômago.