A biblioteca que se incendeia

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Semana passada fui ao enterro de uma senhora que morreu aos 100 anos.

Pensei nas infinitas histórias que morriam com ela. Nas lembranças da infância na Alemanha em crise, na viagem de navio que a trouxe ao Brasil, no quanto deve ter sido estranho trocar a Europa por um país distante, tão diferente. Pensei nas histórias que ouviu de seus pais, de seus avós, histórias passadas no século XIX. Com certeza daria para escrever um livro, ou mais que um livro.

Diz um ditado que cada velho que morre é uma biblioteca que se incendeia.

Nas últimos meses tive a sorte de ouvir muitas histórias de pessoas com mais de 80 anos. Retratos do passado.

Ouvi histórias de como um viaduto de Santo André tem o nome de um pedreiro competente ou de como um médico presenteou seu paciente com um pato (e isso era normal na época). Histórias de como minha avó comprava carpas e as mantinha vivas em sua banheira antes de prepará-las. Histórias de um rico fazendeiro em Minas que levava uma marmita dupla para o trabalho pois se sentia na obrigação de dividir a refeição com quem necessitasse. Histórias do meu tio avô que foi soldado em Israel e participou de terríveis batalhas no começo dos anos 50.

Conversei com uma senhora com Mal de Alzheimer que perdeu a memória recente e consegue se agarrar a lembranças dos anos 30 e 40, como se estas lembranças fossem suas únicas conexões com o mundo. Com certeza ela já se esqueceu de mim, mas ainda se recorda de como subia nos sacos empilhados no armazém do pai.

Enquanto caminhava no cemitério, cruzando o mar de de granito, eu lia os anos de nascimento nas lápides: 1919, 1922, 1913, 1931. Fazia um estranho frio para a época do ano e a garoa começava a nos gelar. Eu porém, sentia calor, um calor vindo do imenso incêndio, de milhares de bibliotecas, de milhões de livros. Havia reflexo das chamas, havia brasas brilhando em cada túmulo.

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E Se

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E se o avião tivesse atrasado

E se o aeroporto tivesse sido interditado

E se o táxi não chegasse a tempo

E se o passaporte estivesse na gaveta

E se houvesse um overbooking, um desmaio, uma fratura

E se o semáforo estivesse fechado

E se o caminho fosse outro

E se o destino fosse outro

E se a gente tivesse dado bola para aquela dorzinha, aquela queimação

E se a gente tivesse ido antes ao hospital

E se o médico descobrisse a tempo

E se naquele dia, naquele fatídico dia, alguém mudasse os planos

E se a onda não se levantasse

E se a terra não tremesse

E se o ladrão não atirasse

E se a bala parasse no osso

E se fosse só um susto

E se fosse um milagre

E se o universo fizesse sentido

E se mundo fosse justo

E se os pais nunca tivessem de enterrar os filhos

E se não precisássemos nunca mais chorar

E se isso jamais, jamais tivesse acontecido

Mas aconteceu

Aconteceu

Aconteceu

 

 

11 letras do Bowie para dizer Adeus ao Bowie

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And I’m floating in the most peculiar way
And the stars look very different today

Space Oddity

 

Planet Earth is blue, and there’s nothing I can do

Space Oddity

 

Time – He’s waiting in the wings
He speaks of senseless things
His script is you and me, boy

Time

 

Some of these days, and it won’t be long
Gonna drive back down where you once belonged

Golden Years

 

We can be heroes
Just for one day

Heroes

 

I heard a rumour from Ground Control
Oh no, don’t say it’s true

Ashes to Ashes

 

I’m standing in the wind
But I never wave bye-bye

Modern Love

 

If our love song
Could fly over mountains
Sail over heartaches
Just like the films

There’s no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It’s absolutely true

Absolute Beginners

 

Because love’s such an old fashioned word
And love dares you to care for
The people on the edge of the night
And loves dares you to change our way of
Caring about ourselves
This is our last dance
This is our last dance

Under Pressure

 

Look up here, I’m in heaven
I’ve got scars that can’t be seen
I’ve got drama, can’t be stolen
Everybody knows me now

Lazarus

 

You know, I’ll be free
Just like that bluebird
Now ain’t that just like me?

Lazarus

Lazarus aliás é a canção de despedida que ele nos deixou. Coisa mais linda.

Adeus Bowie

 

BOWIE.jpgCinco e pouco da madrugada  e enfrento uma insônia daquelas. Levanto, deito, olho para o teto, pego o celular e abro o Twitter. Bowie está morto. Meu lado místico tenta relacionar a dificuldade em dormir à morte de um dos meus maiores ídolos na música mas sei que isso é bobagem.

Sento em frente ao computador, os portais ainda não tem as longas homenagens póstumas, apenas textos curtos reproduzindo a nota no site oficial de Bowie, câncer aos 69 anos.

Em breve todos acordarão também, sites e jornais escreverão longas biografias, fãs dirão que estão arrasados, substituirão suas fotos pelas do cantor e compartilharão as músicas do Youtube.

Sinto vontade de fazer tudo isso.

Fui a dois shows do Bowie, um deles foi das melhores coisas que já assisti, gravei da TV (em VHS) uma apresentação da turnê Spider Glass que revi até decorar, toquei com minha banda Rebel Rebel inúmeras vezes.  Me emocionei ao ver a exposição sobre sua carreira no MIS.

Provavelmente é o maior ídolo que vejo ir embora desde o Freddie Mercury. Penso que deveria estar mais triste, arrasado, como se tivesse perdido um amigo. Estou apenas confuso. Ouço o novo Blackstar (lançado esta semana) enquanto escrevo e o  disco é muito bom.

Adeus grande ídolo. Agradeço por ter dado uma contribuição única à cultura pop,  por ter escrito frases e versos que nos ajudaram a entender o mundo, por ter criado melodias  e harmonias maravilhosas, por ter mostrado que podemos mudar sempre sem que isso signifique incoerência.

Nada que eu escrever sobre você será importante, mas estou com insônia e é tudo que eu posso fazer.

Here am I floating round my tin can
Far above the moon
Planet Earth is blue, and there’s nothing I can do….
.
P.S. Só agora (horas depois de postar o texto originalmente) me dei conta que Planet Earth is blue pode significar: O Planeta terra está triste.

 

O Adeus de dona Nenê

Dona Nenê acordou com a luz discreta que fazia brilhar o entorno da cortina do quarto. Sentia-se leve e jovem, nem a eterna dor nas costas a incomodava. Porém, ao tentar mover o corpo percebeu que nenhuma parte obedecia. Assustada, tentou chamar o marido, seu Gaspar, mas a voz também não saía.

Fez um enorme esforço e conseguiu se levantar. Mas para sua surpresa, ao olhar para a cama, viu que ainda estava lá, inerte, ao lado do marido. Novamente quis gritar e a voz não saiu. Ficou parada, olhando para o casal deitado, ouvindo o ronco suave do Gaspar.

Quando se casaram, há quase cinquenta anos, teve dificuldades para dormir devido aos ruídos que o Gaspar fazia, mas foi se acostumando e agora precisava desse som todas as noites, era a sua segurança.

Quando Gaspar acordou, chacoalhou o corpo ao seu lado e o abraçou enquanto chorava em desespero. Foi aí que Dona Nenê percebeu que estava morta.

Ela contemplou com candura a cena que envolvia seu marido. Estava comovida com a tristeza dele, era bonito ver tamanho amor.

De repente, a casa foi ficando cada vez mais clara. Era uma luz tão forte que não se podia distinguir mais os móveis e objetos. Tudo virou um imenso branco e um homem feito de luz surgiu.

_ Vamos Nenê. Chegou a hora de você subir.

_ Eu morri?

_ Digamos que você venceu uma etapa. Sua jornada continuará em outra dimensão.

_ É como se eu tivesse passado de fase no Candy Crush?

A entidade não entendeu a pergunta. Dona Nenê continuou.

_ Mas e as coisas que eu tinha, as pessoas…

_ Tudo ficará pra trás. Vamos seguir um novo caminho.

_ E não tem como ver meu Facebook?

A entidade novamente ficava confusa.

_ Meu Facebook. Vai ter um monte de gente falando de mim. Eu quero ler as homenagens.

_ No lugar onde a gente vai, nada disso será importante.

_ Moço, como não é importante? É onde minhas filhas colocam as fotos, eu vejo as viagens das amigas. Hoje vão falar de mim o dia inteiro. Vai ter um monte de textos emocionantes.

_ Dona Nenê, a senhora está apegada.

_ Eu queria tanto levar meu celular…

Os apelos eram inúteis, a própria entidade havia desaparecido e do alto surgia um túnel de luz multicolorida sugando dona Nenê que começava a se misturar à energia do universo. Em seu último esforço humano, ela ainda balbuciou:

_ E a minha cidadezinha do CityVille, tava tão bonita…

Por quem os sinos dobram

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Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano, e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

Escrito por John Donne no sec. XVII

(Ilustração de Islam Gawish)

Morte

Death pathway

Estou lendo “Um Dia”, best seller do inglês David Nicholls. E esse simpático livrinho de amor me deu vontade de escrever sobre a morte.

Provavelmente não seguiria em frente se ontem não fossem noticiadas três mortes que me chamaram a atenção.

_ O Filho do Governador Alckmin, muito jovem, que morreu num acidente de helicóptero

_ Ricardo Della Rosa, um diretor de fotografia brasileiro brilhante e admirado por todos, levado pelo câncer aos 41 anos.

– Manoel de Oliveira, cineasta português que faleceu aos 106 anos de idade (isso mesmo, 106).

Até que um analista prove o contrário, a morte não é uma preocupação que me ataca em especial, não há ninguém em minha família doente ou que inspire maiores preocupações. Foi realmente a soma dessas situações que acabou me despertando para o tema.

Pensando nos mortos de ontem, dois provocaram imensa comoção. Eram jovens, se esperava que fizessem muito, que aproveitassem da vida mais do que aproveitaram. Eles perderam anos em potencial e as pessoas que os conheciam ficaram sem o prazer de seu convívio. No caso do Della Rosa, o mundo perdeu imagens maravilhas que ele certamente faria.

Quando falamos porém do Manoel Oliveira, a dor é menor. Por mais que isso pareça insensível, era de se esperar que ele partisse e não há como dizer que o tempo que tinha para criar, fazer o que gosta ou conviver com quem amava tenha sido pouco.

Mesmo assim, sua família e os mais próximos devem ter sofrido. Quem está preparado para morte? Quem pode aceitá-la com serenidade?

No livro de David Nicholls, que inspirou essa crônica, o personagem Dexter pensava justamente isso, não estar preparado para a grave doença da mãe:

“…Sempre imaginou que aos quarenta e cinco ou talvez cinquenta anos ele teria algum tipo de equipamento mental que o ajudasse a lidar com a iminente morte de um dos pais, se ao menos tivesse esse equipamento, estaria tudo bem. Poderia se mostrar nobre e altruísta, sábio e filosófico. Talvez pudesse ter seus próprios filhos, usufruindo assim da maturidade que vem junto com a paternidade, a compreensão da vida como um processo.

Mas ele não tem quarenta e cinco anos, tem vinte e oito. E a mãe tem quarenta e nove. Houve um terrível engano. A sincronia não funcionou, e como ele poderia lidar com isso, a visão extraordinária da mãe minguando daquele jeito?…”

Caro Dexter, se você tivesse filhos e os tais quarenta e cinco anos, nada adiantaria, somos sempre crianças diante da morte.

Creio que até o moribundo seja mais preparado para enfrentar a própria sina do que os que ficam.

No Brasil poucos conheciam Levon Helm, vocalista e baterista do “The Band”. Ele morreu de câncer em 2012. Em 2011 ele fez uma pequena apresentação ao lado de amigos num evento. É interessante ver no vídeo ele tocando banjo, muito rouco e numa magreza assustadora. Enquanto seus companheiros fazem força para conter as lágrimas, Levon está muito feliz, soltando o pouco da voz que sobrou, aproveitando o momento. Enquanto todos olham para ele e pensam na morte, Levon curte o que lhe resta da vida.

Agradeço a Levon Helm pela pequena lição. Vamos aproveitar o que temos, curtir o momento, ficar próximos daqueles que nos fazem bem. Afinal, jamais saberemos se vamos comemorar os cem anos, como fez Manoel de Oliveira, ou se sucumbiremos de repente, como infelizmente acontece com tantos.

Para quem se interessar, o vídeo de que falei: