Selfie Sophia

Selfie Sophia

A palavra ecoava nos ouvidos de Sophia:

“Influencer”

Aparentemente, era um termo usado pelo mundo inteiro, menos por ela.

Compreendido o significado, Isabela passou a tarde toda no Instagram vendo as mais diversas influencer de moda. Algumas tinham milhões de seguidores.

Elas viviam fazendo selfies. Começavam no closet (e que lindo closet) mostrando o look do dia. Depois iam para  restaurantes estrelados, encontros com outras influencers, viagens magnificas. Eram lindas, estavam sempre alinhadas, perfeitamente maquiadas e ganhavam presentes das marcas.

Influencers!

Era tudo o que Sophia sempre sonhou.

No dia seguinte, assim que deixou os filhos na escola Sophia voltou para casa e passou uma hora na penteadeira se arrumando. Tinha bastante experiência para  disfarçar as linha de expressão e um excepcional gosto para se vestir, pelo menos as outras mães sempre elogiavam.

Não tinha closet, mas com um espelho e as portas do armário abertas fez um cenário digno e mandou ver na selfie “look do dia”.

Postou no Instagram, “linkou” no Facebook e foi cuidar da vida. Planejando a foto da tarde.

Dias depois o marido começou a ficar preocupado. Eram selfies de manhã, tarde e noite. Fotos dos pratos bacanas que comiam e algumas frases inspiradoras.

A vida da família não foi muito afetada, apenas deixaram de comer hamburgueres e passaram a frequentar restaurantes com opções mais fotogênicas como sushis e ceviches.

Sophia passou a gastar com roupas e se apertou o cartão, mas explicou para o marido que isso era apenas um investimento, em breve, quando ficasse famosa, haveria um compensador retorno financeiro.

Assim, família e amigos foram se acostumando com as inúmeras selfies: Looks do dia, pratos, pezinhos na praia, tbt´s, biquinhos de pato, olhos perdidos no infinito ou procurando algo no chão. O guarda-roupa de Sophia enriquecia na proporção inversa de sua conta bancária e os seguidores cresciam, mas não no ritmo esperado.

Depois de quase dois anos como influencer, Sophia não conseguia ultrapassar as 30 curtidas por foto. Uma vez viralizou, quando pediu para fazer uma selfie ao lado  da Bruna Marquezine num Shopping Center, mas nem a Bruna lhe trouxe seguidores.

Sophia continua tentando, afinal, só os fracos desistem. Ela tem certeza que é questão de tempo e capricha cada vez mais nas selfies. O marido não reclama. Curte todas as fotos para dar uma força, mas sabe que o tal retorno financeiro nunca virá. Só que não divide a opinião com Sophia, deixa que ela continue acreditando. Afinal, é o que a faz feliz e pensando bem, não é isso que importa?

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EmoGiselle

dims

Giselle é um tipo que se tornou bastante conhecido em nosso mundo conectado, a empolgada do Whatsapp. Para Giselle, não basta participar de diversos grupos, é preciso mandar memes de bom dia para todos logo cedo e responder os aos amigos com Emojis de rostinhos sorridentes e beijinhos de coração.

Para ela, os Emojis são a forma mais eficiente, inteligente e divertida de comunicação e servem para todo o tipo de mensagem. Certa vez apostou que seria capaz de reescrever a letra de Faroeste Caboclo em Emojis e conseguiu.

Os problemas de Giselle começaram em um fim de tarde, no trabalho, quando ao se despedir do chefe ela disse o seguinte.

_ Beijinho de Coração.

O chefe olhou assustado e ela Continuou:

_ Carinha assustada com dentes serrados! – E saiu correndo apavorada.

Em casa andava de um lado para o outro sob o olhar atônito do marido e dos filhos.

_ Calma Giselle, deve ser um ataque de estresse!

_ Carinha apavorada de boca aberta! Gatinho chorando!

_ Quer ir ao hospital?

_ Mãozinha de positivo!

Na mesma noite estavam no pronto-socorro mas não havia quem encontrasse a causa da doença. Depois de consultas com o clínico geral e o neurologista decidiu fazer análise com um famoso psiquiatra.

_ Me fale um pouco sobre a sua infância.

_ Duas meninas bailarinas, casal com menina. Menina coração cachorro.

_ Algum trauma que você se lembre?

_ Cachorro carro caveirinha.

Depois de 4 sessões todos concordaram que a análise estava sendo perda de tempo. O doutor era o mais aliviado, havia mandado imprimir uma cartela com todos os emojis para facilitar as conversas mas isso de pouco adiantou. Recomendou uma internação, com uma dose forte de calmantes. Acreditava tratar-se de uma surto, porém a família discordou. Longe do trabalho, Giselle parecia muito bem apesar da fala confusa.

Ficou em casa e passou a cuidar da família, em pouco tempo a comunicação se reestabeleceu.

_ Giselle, você tem um compromisso para hoje de manhã?

_ Tesoura no cabelo, sacola, uva e maça

_ Depois do cabelereiro e da feira você pode pegar meu terno na lavanderia?

_ Mãozinha de positivo e beijinho de coração.

E foram rostinhos sorridentes para sempre.

 

 

Marli ´n Kedin

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Marli estava ansiosa, precisava chegar em casa a tempo de ver Camila acordada. A menina, em fase de tirar as fraldas, não via a mãe todas as noites.

Era comum Marli ficar até mais tarde no banco. Verificava planilhas, refazia cálculos. Quando tinha uma apresentação importante passava horas revendo o Power Point e treinando suas falas.

Miguel, o marido, estava acostumado. Dono de uma loja de pneus, sofreu um pouco no começo com as ausências da esposa. Depois, porém, passou a se acostumar com o conforto material que os bônus de Marli proporcionavam.

A primeira vez que o bônus superou os cem mil reais foi comemorada em Paris, na segunda vez, Marli já estava grávida.

Camila crescia menos rápido do que a fama da mãe no banco. Impiedosa com a equipe e obcecada por detalhes, Marli brilhou em todos os projetos que se envolveu.

Ao chegar em casa naquela noite, deu com Miguel saindo do quarto de Camila. A menina acabara de dormir. Ele fez sinal de silêncio com o dedo indicador em frente aos lábios e a chamou para comer algo. Ela o beijou na bochecha e disse que precisava trabalhar um pouco. Pegou um pacote de Pringles e abriu o notebook.

Ele, cansado de esperar por companhia, ficou em pé ao lado observando-a entrar no LinkedIn.

_ Faz duas semanas  que você faz isso toda a noite.

_ É importante. Preciso saber o que está acontecendo no mundo. No banco eu não tenho tempo para nada.

_ O LinkedIn não é o mundo – Retrucou Miguel contrariado.

_ O mundo é o que você vai conhecer se eu não perder o foco.

Miguel saiu de mansinho, pegou outro pacote de Pringles e foi ver futebol na TV.

Uberella

Captura de Tela 2016-06-06 às 22.44.02.pngQuando chamou o Uber naquela noite, Katia ainda estava com o as últimas palavras de Miguel ecoando na cabeça.

_ Tente entender, não é nada com você.

Katia aceitava foras muito bem, estava calejada com mais de 20 anos de relacionamentos fracassados, mas não suportava clichês. Ser passada para trás e ainda ouvir um clichê era muito dolorido, mesmo com toda a experiência. Mesmo estando acostumada com o monte de trastes com quem tentou ser feliz.

Na adolescência, fazia sucesso entre os meninos. Seus seios apareceram antes que o das colegas e nos bailinhos todos queriam dançar com ela de rosto colado ao som de Spandau Ballet.

Era louca por um garoto chamado Ricardo mas quando se beijaram ele tocou seus seios como quem manipula o joystick do Atari. Ela ficou tão ofendida que nunca mais se falaram e ele gabou-se do fato para metade da escola.

Na faculdade Katia demonstrava seu desprezo aos valores impostos evitando maquiagem, esmalte ou roupas da moda. Fazia o tipo desencanada e  vivia se apaixonando pelos donos dos melhores discursos de esquerda  do diretório acadêmico. No final, ouvia foras que lembravam textos políticos:

_ Não podemos ser donos uns dos outros, esses são pensamentos pequeno-burgueses…

Ela passou por muitas fases na vida, desde o crescimento profissional, quando se transformara numa workaholic até a busca pela verdade interior, quando meditava disfarçadamente em seu cubículo. Cada fase teve seu namorado adequado. Márcio, um jovem investidor, escreveu uma carta para acabar o namoro que mais parecia um memorando. Já Chico Ghandi, o namorado holístico, não deu fora nenhum, ela encontrou-o com outra num bar da moda, tomando champagne e fumando.

Por isso quando entrou no carro do Uber naquela noite, Katia não tinha vontade de chorar. As palavras pobres de Miguel não conseguiriam arrancar suas lágrimas. Ela sentou no banco de trás do sedan preto e o condutor a levou em silêncio para casa. Apenas perguntou a rádio de sua preferência e ela pediu que ele desligasse o som.

No silêncio do carro confortável, Katia percebeu que há tempos um homem não fazia o que fez o motorista. Foi educado, levou-a onde ela precisava e não cobrou nada em troca (a questão do cartão de crédito era resolvida diretamente no aplicativo, sem interferência dele).

Ela já havia passado pela fase dos sites de encontros (Par Perfeito, B2) e pela fase dos aplicativos (Tinder, Happn), sempre com resultados beirando o cômico. Só que o Uber era diferente, tinha o que ela queria.

Agora, duas ou três vezes por semana, ela sai muito bem vestida e maquiada. Chama um UberX e roda por aí. Ao terminar a viagem, desce do carro e chamava outro. Escolhendo endereços aleatórios por horas.

Nessas noites, tem homens elegantes e educados a seu dispor. Eles não questionam,  não reclamam, não a comparam com suas mães ou com a ex. Apenas a levam em silêncio e fazem perguntas no tom de voz adequado, coisa que namorado nenhum jamais fez.

 

 

 

 

 

Séries e mais séries

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Lola irritava-se – “Que mania as pessoas tem de falar de séries de TV!”.

Lola trabalhava muito, chegava em casa cansada e tinha que dar atenção ao filho, ao marido, ao cachorro, cuidar de seus afazeres, ligar para a mãe… Nunca teria tempo para assistir uma novela americana sobre zumbis.

O problema é que quando conseguiam marcar um cervejinha no bar  ou um jantar no apartamento de amigos esse era o assunto predileto.

“Eu acho que o House morre no final.”

“Eu sou apaixonada pelo Draper.”

“Essa sexta temporada não está tão boa. O Jake perdeu a graça.”

” Não me conta nada que eu perdi o último episódio.”

E lá ficava Lola calada e cabreira de não lembrar de um personagem desde a Rachel de Friends nos anos 90.

Até que um dia Lola se separou. O filho passou a ficar ora lá, ora cá e o cachorro, traidor, escolhera o ex-marido.

Assim, sem que houvesse pedido, Lola ganhou um bem que há anos perdera, o tempo. Passou a ter algumas noites por semana que pertenceriam apenas a ela. Então presenteou-se com o direito de assistir às séries de TV de que tanto ouvira falar.

Assinou o Netflix e começou com Narcos, já que sempre ficara em silêncio enquanto os amigos elogiavam a atuação do Wagner Moura. Gostou tanto do primeiro episódio que assistiu seis em sequência. Na manhã seguinte chegou atrasada ao trabalho e passou o dia inteiro com sono.

Depois disso a situação piorou. Bastava começar qualquer série que sentia uma angustia imensa que só se resolvia no último episódio. Perdia madrugadas, se irritava quando o filho demorava a dormir. Começou a ter problemas gerados pela falta de atenção no trabalho,  passava o dia ansiosa pelo destino de Walter White ou de Frank Underwood. Chegou a ver um episódio inteiro de Demolidor escondida dentro do banheiro do escritório.

E isso tudo não a ajudou nas conversas com as amigas em bar. Isso porque não havia tempo de  ir a bares ou ver as amigas. Ela desmarcava encontros, perdia compromissos, faltava a eventos. Tinha muito o que assistir, eram séries e mais séries.

 

Vou beijar-te agora, não me leve a mal, sou um assediador

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Linda foto de Eduardo Knapp publicada na Folha, mostrando um beijo consentido e carnavalesco

Quanto riso, ó quanta alegria.

Sempre gostei do carnaval. E desde que me conheço por gente, relaciono a festa aos beijos. Não é nehuma surpresa, as pessoas beijam muito no carnaval.

A letra de Máscara Negra do Zé Keti (feita em 1967) não me deixa mentir. Os dois estranhos que se encontram no carnaval encobertos por suas fantasias de arlequim e colombina se lembram dos beijos trocados no ano anterior.

Mas esse carnaval teve uma movimento diferente.

As mulheres começaram a externar seu desconforto em relação ao comportamento de homens que no afã de beijar muitas bocas, passam dos limites e as agridem, seja de forma física, seja por intimidação.

Hoje sou um homem de cabelos prateados, não pulo mais o carnaval. Minhas lembranças vem dos tempos de farras em clubes no interior. Os bloquinhos eram raros.

Ainda assim, creio que tanto eu como muitos conhecidos fomos inconvenientes com garotas em mais de uma ocasião.

Acho que eu não seria capaz de intimidar, visto que naqueles tempos eu era minúsculo em tamanho e massa (ainda sou baixinho mas a massa já é bem maior). Apesar disso, posso ter assediado e incomodado.

Engraçado é que hoje a fronteira entre paquera e assédio é muito clara para mim. Se eu fosse jovem com a consciência que tenho agora, jamais cometeria os mesmo erros.

Mas e os jovens de hoje? Será que são capazes de ver essa diferença? Me parece que não. Se fossem, a revista “Az Mina” não precisaria publicar um manual que diferencia paquera de assédio.

Não devo beijar mais ninguém nos carnavais futuros. Acompanhar os blocos me daria dor nas costas e pressão alta. Não há mais necessidade usar essas regras. Mas peço desculpas às garotas dos anos 80 e 90 a quem devo ter importunado. Aquele baixinho magrela não sabia o que estava fazendo.

 

Renata e o Tinder

Tinder

Passados oito meses da separação, Renata ainda não havia saído com ninguém. As conversas com amigas e as sessões de análise levavam ao mesmo lugar. Precisava viver o luto. Qualquer tentativa de se arriscar numa aventura amorosa infringiria rígidas regras pessoais. Precisava cuidar do filho, se dedicar ao trabalho e se reconstruir.

Mas as amigas decidiram que o prazo do luto se esgotara e agora a pressionavam. Nos bares sugeriam que ela retribuísse a olhares masculinos de outras mesas. Algumas queriam levá-la a casas noturnas, mas Renata se recusava a aceitar. Tudo o que não precisava era de cantadas baratas, bafo de cerveja e homens que falam pegando no braço.

Oswaldo, o ex, já estava saindo com alguém. Aliás, segundo Rita, sua cunhada, ele já havia conhecido a moça uns dois meses antes do dia em que deixou a casa chorando como uma criança.

Renata não sentia falta dele, esse não era o problema. Aliás, ela mesma já não via motivos palpáveis para manter o celibato. Apenas sentia que era difícil encarar novamente uma paquera, se abrir física e emocionalmente para outro homem.

Naquela noite de sábado estava sozinha. O filho viajara com o pai e as amigas não estavam disponíveis. Sobrava apenas o celular e a curiosidade de usar o aplicativo do qual tanto lhe falavam, o Tinder.

Segundo Vera, amiga também divorciada, o Tinder é a maior invenção da humanidade desde as fraldas descartáveis. Os homens estavam à disposição, era só escolher.

Protegida pelo silêncio da casa vazia, ela olhava para o Iphone e pensava, não custa nada baixar o troço, se for ruim é só apagar depois.

Seguidas as instruções, fez a instalação e prosseguiu com o cadastro. Gastou um tempo maior na escolha da foto. Queria esconder alguns traços da idade, mas sem deixar de ser honesta. Melhor encontrar alguém que a aceitasse do jeito que é. Ainda assim, evitou mostrar o corpo e não revelar uns quilinhos intrometidos.

Agora era só começar a brincadeira, correr o dedo e escolher entre os homens que apareciam como um bolo de figurinhas repetidas. Era o que deveriam ser, figurinhas que já fizeram sucesso em outros álbuns e agora estavam lá disponíveis.

Com todas as ressalvas, começou timidamente, porém, muito rápido, a brincadeira a encantou. Era só marcar com sim ou não os rostos que iam aparecendo e haviam rostos de todos os tipos. Tradicionais, alternativos bigodudos, carecas, evangélicos, exibicionistas, homens que posavam ao lado de carros, homens com olhar inseguro.

De repente, não pensava mais na possibilidade de sair com um deles, estava se divertindo com o jogo, descartando milhares de tipos: Não, não e não.

Aqueles eram os homens que um dia mexeram com ela na rua. Os homens que, mesmo menos competentes, cresceram mais rápido na empresa. Os homens que tentaram beijá-la a força no carnaval de 1994, os homens que puxavam os cabelos das moças no caminho do banheiro da festa.

Sozinha, no escuro, seu rosto era iluminado pela luz do aparelhinho. Não iria sair naquele dia, não iria se importar com os possíveis matches. Fazia sua vingança pessoal mandando todos para a lixeira. Não, não e não.