Mulheres x Bolsonaro

Mulheres x Bolsonaro

A divisão entre direita e esquerda nunca teve a ver com feminismo.

Feminismo é a luta das mulheres por direitos iguais aos dos homens, seja no capitalismo, seja no comunismo.

Direita e esquerda tradicionalmente é uma divisão entre fãs do capitalismo e fãs do socialismo. Na minha opinião, até mesmo esse conceito está superado. Hoje, direitistas apoiam um Estado menor, com um enfoque liberal e o povo da esquerda sonha com o Estado de Bem-Estar Social (Welfare State), nos moldes da Europa ocidental dos anos 70. Ambos são capitalistas.

Curiosamente, por motivos que desconheço, a direita brasileira, especialmente  a mais extremada,  colocou a luta contra o feminismo como uma de suas pautas fundamentais.

O Pastor Feliciano diz que os direitos femininos destroem a família e estimulam o homossexualismo; Otávio de Carvalho diz que feminismo é coisa de mulher trouxa; Rodrigo Constantino diz que Scarlett Johansson ficou horrorosa por cortar o cabelo curto ao estilo feminista.

Scarlett-Johansson feminista.jpg
Será que a Scarlet feminista ficou mesmo horrorosa?

A extrema direita anda dizendo até que feminismo é comunista, seja lá o que isso quer dizer.

Toda essa problemática não passaria de uma curiosidade nas redes sociais se não fosse Bolsonaro, representante da Extrema Direita, liderar a corrida presidencial de 2018 com chances reais de vitória.

Bolsonaro seguindo os passos da direita radical se coloca contra o feminismo, repete o padrão do patriarcado e faz o estereótipo do homem macho tradicional. Ele tem mais de 20% das intenções de voto porém enfrenta uma rejeição de 40% do eleitorado. Sua principal barreira para chegar ao Planalto são justamente as mulheres.

Por motivos ideológicos e sem qualquer explicação lógica, a direita radical decidiu se posicionar contra o feminismo e justamente essa decisão está impedindo a direita de tomar o poder. Talvez isso sirva de lição a todos aqueles que preferem seguir a cartilha de determinado grupo ideológico no lugar de ter uma visão mais pragmática sobre os temas urgentes que nos afligem.

Se isso é ruim para os políticos, ainda é pior para as pessoas comuns que andam nas ruas, atrasam prestações e tomam café coado. Se as mulheres querem direitos, isso é totalmente legítimo, são elas que sentem na pele as diferenças de tratamento em relação aos homens. Me pergunto por que o feminismo soa como ameaça para tanta gente.

 

Anúncios

O suicídio de Janaína

O suicídio de Janaína

Muitos dirão que a decisão radical de Janaína foi intepestiva, passional. Algo deve ter se passado com ela. Porém, o que Janaína estava prestes a fazer havia sido planejado há algum tempo e seria executado com toda a tranquilidade.

Ela estava sozinha em casa. Era a noite em que o namorado ia à pós-graduação. Janaína decidiu abrir uma garrafa de Pinot Noir para saborear o momento. Baixou a luz para um tom suave e se acomodou na chaise long do terraço. Do 18o. andar, em seu apartamento, as luzes da cidade pareciam distantes.

Ela abriu o notebook. Antes do ato final, resolveu rever sua vida registrada no Facebook, primeiro passando os olhos no feed.

Havia  fotos de lugares distantes e mapas indicando viagens aéreas. Pessoas felizes fazendo selfies em Paris, na Disney e em Inhotim. Havia gente colocando fotos de gatos e reclamando do governo. Muita fake new sobre diversos assuntos e alguns textos pedindo a liberdade do Lula e investigações sobre Marielle. Janaína sentiu um tédio profundo, tomou mais um gole do vinho  e voltou novamente a atenção para o Facebook, deste vez passou a rever as inúmeras fotos que já havia publicado.

Lembrou sua viagem para a Califórnia, o curso de patisserie em São Francisco e os amigos que fez na época. Tinha fotos ainda mais antigas, do tempo em que fora casada. Jorge, o ex-marido aparecia em algumas exibindo seu sorriso que um dia fora sincero e depois tornou-se sarcástico. Ele ainda curtia um ou outro post de Janaína, mandava felicitações frias em seu aniverário. Era um homem bonito, apesar de tudo, tinha de admitir.

Reviu fotos de diversas fases profissionais. Da carreira infeliz no departamento contábil de uma construtora, das tentativas de se estabelecer como chefe até abrir a loja de bolos personalizados. Havia muitas fotos de bolos. Em formatos diversos. Bolos com noivinhos, com cachoros esculpidos em glacê, bolos que comemoraram nascimentos, aniversários, bodas de ouro. Não podia negar, seus bolos fizeram muitas pessoas felizes. Porém, o talento culinário era maior que o administrativo e Janaína, endividada, teve de fechar a loja.

Ao rever as fotos do Facebook, muitas emoções vinham à tona, muitas coisas boas Mas  isso não seria suficiente para mudar sua decisão. Ainda assim, como sabia que era a última vez que fuçava o Face, voltou-se novamente ao feed. Tantas pessoas, tantos posts, tão pouco que a interessava. Egos e mais egos, mentiras e polêmicas inúteis. Mesmo os amigos e amigas de coração, pareciam menos interessantes na rede. Novamente a sensação de tédio voltou, chegou a hora de desligar, iria seguir os passos que planejara.

***

Uma hora depois, quando Miguel chegou da faculdade, encontrou Janaína no terraço, ainda bebendo o vinho. Ele pegou uma taça e se dirigiu à garrafa.

“Alguma celebração especial?”

“Cometi meu suicídio social.”

“Oi?”

Ela levou a taça a boca antes de explicar.

“Apaguei minha conta no Facebook.”

Ele respondeu desinteressado.

“Fez bem.”

 

Selfie Sophia

Selfie Sophia

A palavra ecoava nos ouvidos de Sophia:

“Influencer”

Aparentemente, era um termo usado pelo mundo inteiro, menos por ela.

Compreendido o significado, Isabela passou a tarde toda no Instagram vendo as mais diversas influencer de moda. Algumas tinham milhões de seguidores.

Elas viviam fazendo selfies. Começavam no closet (e que lindo closet) mostrando o look do dia. Depois iam para  restaurantes estrelados, encontros com outras influencers, viagens magnificas. Eram lindas, estavam sempre alinhadas, perfeitamente maquiadas e ganhavam presentes das marcas.

Influencers!

Era tudo o que Sophia sempre sonhou.

No dia seguinte, assim que deixou os filhos na escola Sophia voltou para casa e passou uma hora na penteadeira se arrumando. Tinha bastante experiência para  disfarçar as linha de expressão e um excepcional gosto para se vestir, pelo menos as outras mães sempre elogiavam.

Não tinha closet, mas com um espelho e as portas do armário abertas fez um cenário digno e mandou ver na selfie “look do dia”.

Postou no Instagram, “linkou” no Facebook e foi cuidar da vida. Planejando a foto da tarde.

Dias depois o marido começou a ficar preocupado. Eram selfies de manhã, tarde e noite. Fotos dos pratos bacanas que comiam e algumas frases inspiradoras.

A vida da família não foi muito afetada, apenas deixaram de comer hamburgueres e passaram a frequentar restaurantes com opções mais fotogênicas como sushis e ceviches.

Sophia passou a gastar com roupas e se apertou o cartão, mas explicou para o marido que isso era apenas um investimento, em breve, quando ficasse famosa, haveria um compensador retorno financeiro.

Assim, família e amigos foram se acostumando com as inúmeras selfies: Looks do dia, pratos, pezinhos na praia, tbt´s, biquinhos de pato, olhos perdidos no infinito ou procurando algo no chão. O guarda-roupa de Sophia enriquecia na proporção inversa de sua conta bancária e os seguidores cresciam, mas não no ritmo esperado.

Depois de quase dois anos como influencer, Sophia não conseguia ultrapassar as 30 curtidas por foto. Uma vez viralizou, quando pediu para fazer uma selfie ao lado  da Bruna Marquezine num Shopping Center, mas nem a Bruna lhe trouxe seguidores.

Sophia continua tentando, afinal, só os fracos desistem. Ela tem certeza que é questão de tempo e capricha cada vez mais nas selfies. O marido não reclama. Curte todas as fotos para dar uma força, mas sabe que o tal retorno financeiro nunca virá. Só que não divide a opinião com Sophia, deixa que ela continue acreditando. Afinal, é o que a faz feliz e pensando bem, não é isso que importa?

EmoGiselle

dims

Giselle é um tipo que se tornou bastante conhecido em nosso mundo conectado, a empolgada do Whatsapp. Para Giselle, não basta participar de diversos grupos, é preciso mandar memes de bom dia para todos logo cedo e responder os aos amigos com Emojis de rostinhos sorridentes e beijinhos de coração.

Para ela, os Emojis são a forma mais eficiente, inteligente e divertida de comunicação e servem para todo o tipo de mensagem. Certa vez apostou que seria capaz de reescrever a letra de Faroeste Caboclo em Emojis e conseguiu.

Os problemas de Giselle começaram em um fim de tarde, no trabalho, quando ao se despedir do chefe ela disse o seguinte.

_ Beijinho de Coração.

O chefe olhou assustado e ela Continuou:

_ Carinha assustada com dentes serrados! – E saiu correndo apavorada.

Em casa andava de um lado para o outro sob o olhar atônito do marido e dos filhos.

_ Calma Giselle, deve ser um ataque de estresse!

_ Carinha apavorada de boca aberta! Gatinho chorando!

_ Quer ir ao hospital?

_ Mãozinha de positivo!

Na mesma noite estavam no pronto-socorro mas não havia quem encontrasse a causa da doença. Depois de consultas com o clínico geral e o neurologista decidiu fazer análise com um famoso psiquiatra.

_ Me fale um pouco sobre a sua infância.

_ Duas meninas bailarinas, casal com menina. Menina coração cachorro.

_ Algum trauma que você se lembre?

_ Cachorro carro caveirinha.

Depois de 4 sessões todos concordaram que a análise estava sendo perda de tempo. O doutor era o mais aliviado, havia mandado imprimir uma cartela com todos os emojis para facilitar as conversas mas isso de pouco adiantou. Recomendou uma internação, com uma dose forte de calmantes. Acreditava tratar-se de uma surto, porém a família discordou. Longe do trabalho, Giselle parecia muito bem apesar da fala confusa.

Ficou em casa e passou a cuidar da família, em pouco tempo a comunicação se reestabeleceu.

_ Giselle, você tem um compromisso para hoje de manhã?

_ Tesoura no cabelo, sacola, uva e maça

_ Depois do cabelereiro e da feira você pode pegar meu terno na lavanderia?

_ Mãozinha de positivo e beijinho de coração.

E foram rostinhos sorridentes para sempre.

 

 

Uberella

Captura de Tela 2016-06-06 às 22.44.02.pngQuando chamou o Uber naquela noite, Katia ainda estava com o as últimas palavras de Miguel ecoando na cabeça.

_ Tente entender, não é nada com você.

Katia aceitava foras muito bem, estava calejada com mais de 20 anos de relacionamentos fracassados, mas não suportava clichês. Ser passada para trás e ainda ouvir um clichê era muito dolorido, mesmo com toda a experiência. Mesmo estando acostumada com o monte de trastes com quem tentou ser feliz.

Na adolescência, fazia sucesso entre os meninos. Seus seios apareceram antes que o das colegas e nos bailinhos todos queriam dançar com ela de rosto colado ao som de Spandau Ballet.

Era louca por um garoto chamado Ricardo mas quando se beijaram ele tocou seus seios como quem manipula o joystick do Atari. Ela ficou tão ofendida que nunca mais se falaram e ele gabou-se do fato para metade da escola.

Na faculdade Katia demonstrava seu desprezo aos valores impostos evitando maquiagem, esmalte ou roupas da moda. Fazia o tipo desencanada e  vivia se apaixonando pelos donos dos melhores discursos de esquerda  do diretório acadêmico. No final, ouvia foras que lembravam textos políticos:

_ Não podemos ser donos uns dos outros, esses são pensamentos pequeno-burgueses…

Ela passou por muitas fases na vida, desde o crescimento profissional, quando se transformara numa workaholic até a busca pela verdade interior, quando meditava disfarçadamente em seu cubículo. Cada fase teve seu namorado adequado. Márcio, um jovem investidor, escreveu uma carta para acabar o namoro que mais parecia um memorando. Já Chico Ghandi, o namorado holístico, não deu fora nenhum, ela encontrou-o com outra num bar da moda, tomando champagne e fumando.

Por isso quando entrou no carro do Uber naquela noite, Katia não tinha vontade de chorar. As palavras pobres de Miguel não conseguiriam arrancar suas lágrimas. Ela sentou no banco de trás do sedan preto e o condutor a levou em silêncio para casa. Apenas perguntou a rádio de sua preferência e ela pediu que ele desligasse o som.

No silêncio do carro confortável, Katia percebeu que há tempos um homem não fazia o que fez o motorista. Foi educado, levou-a onde ela precisava e não cobrou nada em troca (a questão do cartão de crédito era resolvida diretamente no aplicativo, sem interferência dele).

Ela já havia passado pela fase dos sites de encontros (Par Perfeito, B2) e pela fase dos aplicativos (Tinder, Happn), sempre com resultados beirando o cômico. Só que o Uber era diferente, tinha o que ela queria.

Agora, duas ou três vezes por semana, ela sai muito bem vestida e maquiada. Chama um UberX e roda por aí. Ao terminar a viagem, desce do carro e chamava outro. Escolhendo endereços aleatórios por horas.

Nessas noites, tem homens elegantes e educados a seu dispor. Eles não questionam,  não reclamam, não a comparam com suas mães ou com a ex. Apenas a levam em silêncio e fazem perguntas no tom de voz adequado, coisa que namorado nenhum jamais fez.

 

 

 

 

 

O Dia em Que o Whatsapp Parou

Whatsapp bloqueado.png

Manu acordou e logo puxou o celular que estava no criado mudo para ter certeza de que não era um pesadelo: O Whatsapp não funcionava.

Na noite anterior aguardara com ansiedade o horário previsto para a interrupção do serviço, ainda com esperanças de que tudo não passasse de um boato. Infelizmente era verdade e nada podia fazer.

Chegou a mesa do café sentindo uma angústia difícil de explicar. O rádio dava as notícias da manhã, incluindo a da liminar que proibia o aplicativo. Seus pais conversavam como todos os dias, falando do trabalho ou da programação do final de semana. Manu segurava o celular, com vontade de ler os “bom dias” dos amigos e de ver ícones de rostos sorrindo, mas isso não aconteceu.

Entediada, começou a observar o movimento da cozinha enquanto comia. O pai falava gesticulando, levantava-se para preparar novas torradas, exibia seu sorriso matinal. A mãe limpava migalhas que caiam a mesa e usava o reflexo da garrafa térmica como espelho para ajeitar os cabelos. Era nítido o carinho de um pelo outro e Manu nunca tinha reparado nisso.

Mais tarde, no ônibus a caminho da FAAP, Manu pensou que o tédio ia matá-la. Segurava o celular como se o calor da mão pudesse derrubar a decisão judicial e sem melhores alternativas passou a prestar atenção no caminho. O Pacaembú era um bairro bonito, árvores frondosas, casas antigas e o velho estádio. Percebeu nos prédios alguns estilos arquitetônicos sobre os quais estava estudando.

Na faculdade, a luta contra o tédio continuava, sentiu-se obrigada a acompanhar o que os professores diziam nas aulas.

Mesmo com os amigos, a conversa era diferente. Claro que o assunto era o Whatsapp, mas as pessoas falavam de um jeito esquisito, olhando umas para as outras, respondendo, prestando atenção. Por um momento teve a impressão de que nunca havia visto os olhos de certas pessoas. Fazia parte de um grupo habituado a olhar para baixo.

Na volta pra casa decidiu ler no ônibus, coisa que não fazia há tempos. Estava encalhada no  100 Anos de Solidão. Gostava do livro mas não encontrava muito tempo para ele.

Só que não conseguiu ler nem duas páginas. Um aviso sonoro vindo do Iphone revelou que a liminar havia sido cassada. O Whatsapp ressuscitara. Guardou o livro na mochila e começou a mandar rostinhos felizes para todos os grupos.

Sugestão de trilha para o post:

As mulheres da minha vida

Captura de Tela 2015-07-13 às 19.33.06

Eu já escrevi sobre muitas coisas, algumas mais, outras menos importantes. Já critiquei, já sugeri, já analisei, mas hoje, vou fazer diferente. Vou abrir meu coração e expor para os queridos leitores as mulheres da minha vida. Portanto, se você gosta de fortes emoções está no lugar certo, pegue um lenço e venha comigo.

Minha primeira paixão aconteceu de forma precoce em 1977. Eu colecionava o álbum de figurinhas do filme King Kong quando vi uma foto da Jessica Lange na mão do Gorila. Aquilo aquilo mexeu comigo. Foi a primeira uma mulher me provocou alguma espécie de desejo, tanto que nunca me esqueci desse fato tão distante.

Hoje revendo a foto, entendo o apelo da fragilidade dela diante daquela criatura selvagem. É uma imagem sensual o suficiente para apaixonar um garoto de seis anos ou um gorila de 20 metros de altura.

Captura de Tela 2015-07-13 às 19.34.16

Essa foi uma situação isolada. Continuei sendo indiferente aos encantos femininos até a minha adolescência nos anos 80, época em que a TV e as revistas nos vendiam musas inesquecíveis. Elas surgiam nos programas e novelas e terminavam na Playboy. Nós, garotos, dávamos um jeito de pegar escondido o exemplar de algum pai menos cuidadoso e assim nos inteirávamos antes da internet facilitar as coisas.

Na época, Xuxa e Luiza Brunet eram as musas do Brasil, porém havia outras cujas famas não duraram tanto, mas que eram igualmente importantes em nosso imaginário, como a Magda Cotrofe, a Matilde Mastrange ou a Isis de Oliveira (a irmã mais velha da Luma).

Preciso fazer aqui uma interrupção para que os mais novos entendam que as fotos da Playboy naquela época eram muito diferentes das de hoje. Quem for mais velho e estiver familiarizado com estas informações pode pular este trecho.

Como eram as Playbloys dos anos 80 (especialmente para a geração Y)

1 – As mulheres era diferentes umas das outras.

Cada qual tinha o corpo de um jeito. Umas tinham seios menores, outras seios maiores, umas tinham um bumbum mais empinado e outras tinham um bumbum rechonchudo. Algumas eram mais cheinhas, outras magrinhas. Enfim, elas não eram essa mistura de silicone com photoshop das mulheres de hoje em dia.

2 – Havia uns negócios chamados pelos pubianos.

Isso talvez assuste os jovens, mas as mulheres tinham pelos no entorno da genitália e acima dela, assim como os homens tem (ou costumavam ter). Aliás, os pelos também eram diferentes em cada mulher e podiam surgir em outras partes como nas axilas.

3 – Nas fotos não se podia ver a genitália, apenas os pelos que a cercavam.

Para ver mais do que isso era preciso recorrer a revistas pornográficas, mas estas não exibiam nossas musas.

Terminada a interrupção, preciso confessar que nessa década me apaixonei algumas vezes: Pela beleza singela da Tássia Camargo, por uma morena andrógena chamada Cláudia Egito e no final da década, provavelmente dividindo a paixão com a maioria dos meus amigos, pela ingênua e delicada Luciana Vendramini.

Os anos 90 foram curiosos para mim. Eu comecei a trabalhar numa empresa de moda, uma rede que fazia muitos desfiles e catálogos e passei a conviver com algumas destas modelos que até então pareciam intocáveis. Mesmo a Gisele Bundchen estava começando na época. Ao ver de perto aquelas moças altas, magras e supostamente perfeitas, passei a me interessar menos por elas. As mulheres de verdade, que tomam cerveja e falam pelos cotovelos eram mais legais.

Acredito que a realidade nunca supere a fantasia e essas mulheres perfeitas cabem apenas no mundo da idealização, vistas assim de perto, embora sejam muito bonitas, mas não me provocaram a deslumbre que a Kelly LeBrock provocava nas telas. É preciso dizer também que nessa época eu não era mais um adolescente e minha visão das coisas deixara de ter o fascínio juvenil.

Com o passar do tempo, as novas beldades só pioravam. O Photoshop e o silicone deixaram as mulheres cada vez mais parecidas. Panicats, Hucketes, dançarinas do Faustão e suas similares passaram a ser todas iguais. Peitos esculpidos, coxas como as do Lateral Roberto Carlos, longos cabelos loiros, lábios de botox e nenhuma marca na pele.

Eu teria me desligado dos meus amores distantes se as terras estrangeiras não fossem tão eficientes em criar mulheres de sonho. Agora, cada vez mais velho e crítico, ainda consigo me apaixonar por tipos muitos diferentes do que temos aqui.

Troco um punhado de coxas atléticas da Marques de Sapucaí pela generosidade das curvas da Scarlett Yohansson. Troco todas as barrigas negativas de Ipanema pelas imperfeições de Cristina Hendricks, ainda mais se ela vier com a força e a determinação da Joan Holloway, sua personagem na série Mad Men.

E finalmente, troco todas as namoradas de pagodeiros e jogadores de futebol pela quarentona Penélope Cruz, especialmente se ela prometer cantar pra mim um trecho do tango Volver. E agradeço todos os dias por não existir Photoshop e nem silicone para a voz.