12 anos e os Playmobils

12 anos e os Playmobils

Minha filha fez 12 anos. Idade de mudanças físicas, hormonais e psicológicas. Para mim será um desafio. Mudo meu status de “pai de criança” para “pai de adolescente”.

Adolescente? Não é bem assim. O amadurecimento não é um processo linear. Minha filha é prova disso. Parece que dentro dela há uma criança lutando contra a adolescente que está nascendo.

Sei disso porque me lembro exatamente do meu aniversário de 12 anos, de como sofri por um Playmobil.

Eu tinha um caixa cheia deles. Playmobils de índio, de circo, mecânicos, cowboys… Eram meus brinquedo favorito e viviam amontoados numa grande caixa.

Pouco antes do meu aniversário a Playmobil lançou carros de corrida. Eram lindos, com rodinhas de borracha que podiam ser trocadas. Um sonho.

Porém, algo me dizia que eu não tinha mais idade para isso. Já começava a frequentar bailinhos e sonhar com as gatinhas da 6a. série ouvindo True, do Spandau Ballet. Eu queria muito os carrinhos de corrida, mas não queria parecer criança. Não queria parecer um boboca.

No fim, o Lúcio-criança falou mais alto e eu pedi o brinquedo. Acho que deve ter sido meu último.

No Ano seguinte, em meu bar-mitzva, ganhei envelopes de dinheiro e canetas-relógio. Depois disso vieram as roupas e minha vida foi degringolando até o dia que eu me vi feliz ganhando meias e pijamas – “Era exatamente o que eu precisava”.

Acontece com todo mundo, não há como evitar.

Por isso, torço para que ela prolongue ao máximo a infância, para que continue gargalhando vendo desenhos animados e fingindo ser Harry Potter na brincadeira com as amigas. Amadurecer é um processo de idas e voltas, mas uma vez que amadurecemos, a criança dentro de nós se vai. Fica para trás, torna-se uma lembrança.

Deus do céu, como sentirei saudades dessa criança.

Anúncios

Adeus Harry Potter. Muito obrigado!

Terminei o segundo livro do Harry Potter, A Câmara Secreta. Sei que não parece algo extraordário, a maioria das pessoas fez isso há muito tempo. Porém, esse foi um fato marcante para mim.

Até uns 4 ou 5 anos atrás eu inventava histórias diariamente para minha filha dormir. Era um desafio, ela era exigente. Eu espremia a cachola para botar ideias para fora.

Um dia, para facilitar a minha vida e porque ela já estava ficando grandinha, comecei a ler o primeiro Harry Potter. Minha filha dorme em casa de 4 a 6 dias por mês e muitas vezes ela está cansada e pega no sono logo que deita. Assim, eu levei anos para ler dois livros da saga e terminei neste final de semana.

Foram inúmeras noites repetindo o ritual e me embrenhando nas aventuras do bruxinho enquanto via minha filha crescer. No fim, ela já estava com 11 anos. Não é idade para ouvir histórias na cama, mas decidimos juntos ir até o fim deste e encerrar essa etapa da nossa relação.

Ao ler a última página percebi que virava também uma página da minha vida. Que abandonaria esse hábito como já abandonei muitas coisas que amava fazer.

– Nunca mais troquei uma fralda sem me me importar com o cheiro azedo.

– Nunca mais peguei minha filha no colo e a senti leve como um esquilo e nunca mais senti medo de tocar na moleira macia.

– Voltando ainda mais no tempo, nunca mais joguei futebol com os amigos num certo campo em São Bernardo que era nada e tudo ao mesmo tempo.

– Nunca mais sentei num banco de colégio acreditando que o futuro estava a minha frente e que eu poderia ser tudo o que quisesse.

– Nunca mais beijei meu avô.

Agora é a vez de, nessa eterna sucessão de abandonos, deixar para trás Hogwarts e as vozes que inventei para cada personagem. Minha filha vai terminar a saga lendo em silêncio como é mais adequado para sua idade.

Adeus Harry Porter, obrigado por estar ao meu lado nestas noites tão felizes.  Só espero que a voz que criei para você sobreviva na cabeça da Esther e que ela ressoe ainda que em pensamento, nos feitiços e magias da adolescência.

Poesia de pai para a filha 2

father-and-daughter-silhouette-494x329.jpg

O último texto que publiquei ficou muito bonito, falava de minha filha e de poemas que eu escrevia e que ela escreve.

 Porém escolhi um título tão ruim que quase ninguém leu. Decidi alterá-lo mas era tarde demais, o post ficou no passado.

Então reciclarei o título e vou publicar um soneto que escrevi dias antes do nascimento dela em 2006.

A Espera de Esther

Antes a vida tão certa e clara

O dia, a casa, o tudo saber

Em um dado momento o medo de ser

Depois a surpresa que se depara.

Antes o sonho, a esperança, o ideal

A confirmação, o cuidado e a fé

Em amar-se o que ainda não é

O que depois será tudo afinal.

Antes a espera, o torcer, a ansiedade

de pais e avós, de tios e amigos

O tempo, os meses, o aviso e o alarde

Um universo em ti resumido

Antes o silêncio encobrindo a cidade

Depois o teu choro rompendo o infinito

P.S. Há uma baita discussão no país sobre o papel da Cultura em tempos de crise. Eu me posiciono aqui, como besta e sonhador: A cultura e a arte podem nos salvar da crise, nos levar a outros mundos onde não há escassez de recursos, de gentileza, de entendimento e de moral. Podem ainda ajudar-nos a ver este mundo sobre outros prismas. Quem sabe assim possamos compreender o incompreensível e romper as barreiras invisíveis que nos dividem.

Poesia, de pai para filha

eterna-poesia.jpg

Quando eu tinha 12 anos fiz esse poema para a escola:

 

O Duelo

 

Tirei minha espada, olhei para o céu 

Começa o Duelo, duelo cruel

 

E vendo sentada, de arquibancada,

a morte

 Ali o Eterno, esperando alguém

pra levar para o inferno

 

Dei um golpe no ouvido e ainda duvido

Como ele ficou apenas ferido

 

Tirou minha espada num golpe audaz

Jogou-a para longe, deixou-me incapaz

 

Termina o duelo e dois machões 

dormem ao lado em seus caixões

 

Era um texto pueril, dava pra perceber que eu me esmerava em escrever porém minhas preocupações eram fantasiosas e superficiais.

Lembrei deste texto ao ler uma poesia escrita pela minha filha de 10 anos (espero que ela não se ofenda pela reprodução sem pagamento de royalties). Foi feita para a escola e o tema eram os contos de fadas:

 

Caminho para a Liberdade

 

Quando você for caminhar

Menina do vestido vermelho como o fogo

Lembre-se do conselho que vou te dar

 

Quando estiver assustada 

Com medo e se sentindo assombrada

Menina que caminha pela floresta

não tente ficar parada

 

Quando estiver em um momento

Que se resume apenas em sofrimento

Menina do rosto sorridente 

Saiba que estará sempre em meu pensamento

 

E quando decidir no fundo do teu coração

que não precisa mais segurar minha mão

nem ouvir os meus tantos conselhos 

inimiga de lobos traiçoeiros

saiba que não terei receios.

 

O poema me emocionou. Minha filha aos 10 anos mostrou profundidade e maturidade que eu estava longe de alcançar aos 12. Isso para não falar da qualidade do texto em si.

Eu me coloquei no lugar do narrador dos versos dela e a vi como essa chapeuzinho valente que caminha clamando por liberdade.

Ela pertence a uma nova geração, mais avançada que a nossa. Creio que ser superado pelos filhos é o sonho de todo pai. Sinto que isso vai acontecer.

Será que sou corajoso como esse personagem ou como o espadachim que sonhei ser na infância? Em breve chegará o dia em que ela largará minha mão e não ouvirá mais os meus conselhos. Sei que desbravará inúmeras florestas e que estará em meu pensamento. Como não ter receios?