A Moralização do Brasil

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No dia da votação do Impeachment eu estava no metrô a caminho de um churrasco. Viajava meio desgostoso pensando que a quebra institucional traria muitos problemas para o país, que era triste ver nossa democracia tão debilitada.

No mesmo vagão havia muita gente animada. Vestiam roupas e adereços verde-amarelos e pensavam de forma oposta a minha. Um rapaz que estava com esposa e filho me dizia que seria o começo da moralização do Brasil, um momento histórico.

Mais tarde, assisti um pouco da votação na TV. Cada um dos nobres deputados fez um pequeno discurso (numa língua que parecia um português arcaico) tratando de honradez, de resgate aos valores, de Deus e da família.

Muitos dos meus amigos me garantiram que era o fim da corrupção.

Hoje, quase um ano depois, decidi fazer um apanhado dos projetos de lei propostos pelos mesmos nobre deputados e  seus partidos desde a fatídica data. Vamos a eles:

Lendo a lista acima surgiu uma pulga do tamanho de um besouro atrás da minha orelha. Estou começando a desconfiar dos nobres congressistas. Tenho a sensação que as intenções deles teriam um fundo de auto-preservação.

Talvez seja exagero meu, as coisas devem estar mesmo nos trilhos, afinal não ouço mais o rufar de panelas nem vejo as ruas repletas de patriotas.

Qual a sua opinião, caro leitor? Será que estou sendo muito descrente?

Coxinhas, petralhas e a vizinha fofoqueira

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Todos conhecem a figura da vizinha fofoqueira. É uma personagem do imaginário Brasileiro.

Ela passa o dia na janela, espalhando que a filha da Dona Cacilda anda com um bando de vagabundos. Ela conta a todos que o cachorro do seu Heitor faz cocô na calçada.

Ela finge ignorar que o filho dela é o melhor amigo da filha da dona Cacilda, que eles  pertencem a mesma turma. E que o gato dela já quebrou vasos de quase todos os moradores da rua.

Enfim, todos concordamos que a vizinha fofoqueira devia cuidar da própria família no lugar de falar da vida dos outros.

Porém, em termos de política, somos todos a vizinha fofoqueira.

Explico:

Quando o Paulo Bernardo foi pego, todos os petistas bradaram em coro:

“_ Só prendem quem é do PT! Cadê a prisão do Cunha? Moro golpista! Globo golpista!”

Eles não disseram uma palavra em relação ao esquema sofisticado de corrupção criado pelo  ex-ministro petista.

Por outro lado, quando Janot pediu a prisão dos caciques do PMDB, os antipetistas postavam:

“_ Por que não prendem o Lula? Esse Janot trabalha para o PT!”

Eles se calaram em relação aos muitos milhões recebidos pelos corruptos peemidebistas.

Fico triste com o momento do Brasil e sonho com um país melhor. Acho que essa melhora passará por uma auto-crítica além da óbvia troca de acusações.

Sonho em ver os petistas clamando pela prisão dos dirigentes corruptos de seu partido. Sonho em ver os antipetistas batendo panelas contra a corrupção e não apenas contra a Dilma.

O conhecimento popular nos ensina a olhar para o próprio umbigo antes de atacar os outros e essa é sempre uma boa ideia.

Petistas, melhorar o PT é mais urgente que voltar ao poder.

Antipetistas, o governo já mudou, quando vocês vão se preocupar com o ATUAL presidente, no lugar de sonhar com revanchismos e vingancinhas?

Saiamos das janelas do Face e do Twitter e usemos o velho e-mail para cobrar o NOSSO partido e os políticos em quem votamos para que tenham uma atitude melhor. Ofender o vizinho nunca resolveu e não vai resolver nada.

 

A escalada do ódio

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Na foto, Rodrigo Constantino pregando a cassa aos artistas de esquerda.

Quando crianças brigam e um adulto vai separá-las é inevitável ouvir a desculpa clássica:

“Foi ele que começou.”

Com alguns adultos da nossa querida e polarizada sociedade não é diferente. A violência e o ódio estão ultrapassando o espaço virtual e os grupos de Whatsapp para chegar as ruas e isso não é bom.

Os coxinhas dizem que quem começou foram os petralhas e vice-versa. Eu não tenho as coisas registradas em calendário para saber, mas tenho certeza que alguns formadores de opinião contribuíram e continuam contribuindo para transformar o debate numa rinha.

Começamos pelo suposto filósofo Olavo de Carvalho. Digo suposto porque o vídeo abaixo mostra que ele não usa o tipo de linguagem que se espera de um filósofo, nem o mesmo tipo de raciocínio. Ultimamente ouvi muita gente desmerecendo o Lula porque ele fala palavrões. Pelo jeito, alguns deles fazem parte da filosofia moderna.

De qualquer forma, na última quinta-feira, em plena semana santa, uma mulher agrediu Dom Odilo. Será que foi incentivada pelo vídeo abaixo?

A filosofia anda me decepcionando muito. Nos meus tempos de USP, Marilena Chauí era uma espécie de Madonna dos professores universitários. Era a grande estrela. Líamos seus livros com a mesma dedicação que o Olavo de Carvalho lê as encíclicas do Vaticano. Pois vejam este o discurso famoso da filósofa da esquerda. Percebam o tom com que ela expõe  seus argumentos e notem que ela pede desculpas por estar sem voz. E o mais assustador. Ouçam o apoio da platéia enquanto ela joga lenha na nossa triste fogueira do ódio de classes.

Mas não pensem que o incentivo ao ódio é exclusividade dos filósofos.

Já ouviram falar em jornalistas? Aqueles sujeitos com a importante missão de informar a população?  Aqueles que aprendem desde o primeiro dia de aula a importância da isenção. A responsabilidade do seu ofício. Pois, bem, jornalistas tem feito coisas muito estranhas.

Vejam o tom com que o jornalista Reinaldo Azevedo trata um ministro do STF. Vejam a frase “Vão ter que se acertar com a população”. É quase um chamado ao linchamento, talvez físico, com certeza intelectual. É uma tipo de jornalismo que incentiva com a humilhação completa de quem pensa diferente. E não é a única vez. Não basta discutir o tema, é preciso difamar a parte contrária.

 

E quando vamos para o lado vermelho da força o que encontramos? Mídia Ninja, Jornalistas Livres, supostos profissionais da notícia vasculhando as passeatas que encheram as ruas para encontrar uma imagem que remeta a luta de classes. Pronto, a voz de 6 milhões não precisa ser ouvida. “Temos uma foto da babá com o carinho. Todo o resto não interessa. Podemos usar a luta de classes a nosso favor.”

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Não é a toa que um bispo apanhou na missa, não é a toa que intimidaram o Chico Buarque, não é a toa que minha amiga foi xingada no metrô por uma professora petista. Se os jornalistas agem assim, se os filósofos agem assim, se os políticos agem assim, porque nós haveríamos de agir de outra maneira?

Eu lhes respondo.

Temos que agir de outra maneira porque não há coxinha ou petralha qe não sonhe com mais segurança, educação melhor e saúde de qualidade. Se cada um parar um pouco de gritar e começar a ouvir, o tom da conversa muda.

Não creiam que esses sujeitos são melhores que nós ou exemplo de algo. Gaste algum tempo ouvindo os argumentos das pessoas equilibradas que pensam de forma diferente a sua (sim, elas existem). Na hora de discordar evite o sarcasmo, evite elevar o tom de voz, evite as letras maiúsculas.

E antes que comecem a argumentar, já vou avisando. Eu não quero saber quem começou.

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E fica um recadinho final, pra terminar o texto de um jeito fofo. Roubei do Alessandro Bender.

 

Será que sou burro?

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Vocês já repararam como as pessoas nas redes sociais são cheias de certezas? Todos tem opiniões definitivas sobre qualquer assunto.

Ando até me sentido meio burro, já que há tantas coisas que me deixam indeciso. Será que sou como meu quase xará Múcio, personagem do Jô Soares de quem só os mais velhos se lembrarão.

Para quem não conhece, olha ele aqui.

 

Outro dia o STF votou o rito do impeachment e eu, besta que sou, nada pude opinar porque nada sei sobre a legislação do rito de impeachment (mal sei escrever essa palavra difícil da peste).

Mas descobri que jornalistas, engenheiros, dentistas, desempregados, carteiros e afins conhecem a legislação de cabo a rabo e sabem exatamente o que diz a constituição, o código civil e o estatuto da câmara.

Aliás todos conhecem em detalhes o que diz a lei em relação a pedaladas fiscais e impeachment.

Infelizmente, passei meus 44 anos tentando memorizar os anões da Branca de Neve, os elencos do São Paulo, os filmes dos Irmãos Coen e um montão de coisas inúteis e não sei absolutamente nada sobre a relação de impeachment e pedaladas.

Para piorar, estes especialistas das redes sociais sequer concordam entre si. Uns sabem com 100% de razão que o impeachment é mais justo que calça de funkeira, já outros são absolutamente convictos de que se trata de um golpe. O que me deixa mais confuso.

Na próxima vez que me perguntarem sobre o assunto, farei o que o meu preparo intelectual permite, sairei de fininho em busca de uma cenoura para o lanche. E deixemos que os entendidos se entendam.

 

Pega na Mentira

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A novidade é que o povo está indignado e dessa vez não são os 20 centavos. Descobriram que os políticos mentiram nas últimas eleições. E quem está mais revoltado é o paulista, que foi engambelado pela Presidenta e pelo Governador.

Em muitos países a mentira não é bem vista, não se recomenda que os políticos falem uma coisa e façam outra. Aqui no Brasil não é bem assim, provavelmente esta é a primeira vez a mentira provoca uma reação tão negativa.

Falo isso com convicção. Desde sempre vejo políticos inventando as histórias mais estrambólicas em eleições e isso nunca foi problema para ninguém. O sujeito mostrava metrô que ainda não havia construído, hospital sem equipamento, escola sem professor, colocava uma musiquinha e estava tudo bem. _ “Vou construir 700 creches, 45 postos de saúde!” Depois ninguém se preocupava em verificar se ele fez ou não.

Houve uma época em que candidatos prometiam criação de postos de trabalho, um dizia que seriam 8 milhões e aí o concorrente trucava com 10 milhões. Mais fácil que blefar no poker.

Sempre me perguntei porque as pessoas insistiam em acreditar. Aliás, como em tudo na nossa ação política, a capacidade do Brasileiro aceitar ser embromado é seletiva, muda conforme seu gosto partidário. Assim, os Petistas não engolem as mentiras do Alckmin, mas acreditam em qualquer palavra que saia da boca do Zé Dirceu, e vice-versa.

Mas creio que esse tipo de ingenuidade não ocorra somente em nossas escolhas políticas. Quantas pessoas não se deixam enganar graciosamente em suas relações amorosas ou profissionais? Quantas mulheres não investem em relacionamentos com homens que as traem ostensivamente e preferem acreditar que eles realmente fazem hora extra todos os sábados a noite? Quantos jovens entram numa empresa trabalhando 16 horas por dia com a promessa de que isso irá trazer mais oportunidades futuras?

O brasileiro aceitou o plano Collor, fiscalizou os supermercados em nome do Sarney, comprou ações da Petrobras incentivado pelo Lula. Sempre estamos dispostos a acreditar.

Talvez Dilma e Alckmin tenham confiado demais nisso, em nosso histórico de autoengano e acharam que a mentira não precisava ter limite. Deu errado.

Penso que estamos num bom momento para mudar nossas atitudes. E sugiro que como primeiro ato, passemos a desconfiar mais dos políticos antes de nos engajarmos em suas campanhas. Cobrar o adversário é mais fácil. Se petistas e tucanos exigirem mais de seus próprios candidatos estaremos num caminho melhor. Pode ser ingenuidade minha, mas prefiro acreditar nisso.

O Maior Mal do Brasil

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Vem eleição, vai eleição, e os institutos de pesquisa sempre faturam uma graninha listando para candidatos e demais interessados as maiores preocupação dos brasileiros. E toda vez que sai essa pesquisa o apresentador do telejornal apresenta a mesma ladainha:

32% acham que o maior problema do Brasil é a segurança, 26% se preocupam com a saúde, uns tantos com a educação e outros com o emprego. Há gente que odeie o PT, há quem se descabele com a corrupção ou com a falta d’água.

Eu não sei o que acontece com essas pesquisas, talvez seja o jeito de perguntar ou a falta de sensibilidade dos pesquisadores, mas 5 minutos de olhar atento nas redes sociais revelam que o maior problema do Brasil é outro. O que realmente preocupa o povo é a existência das “invejosas”.

Exatamente. Num país em que as pessoas são felizes, realizadas, cheias de educação, cultura e repletas de tudo o que precisam, há sempre quem fica para trás. Mulheres que não podem pagar o Red Label da balada, não conseguem um namorado, não exibem a beleza luminosa da maioria das brasileiras.

Falo de mulheres porque sou atento ao que vejo. Pouco se fala dos invejosos, são sempre “invejosas” que causam a grande indignação. Aliás, há ainda uma curiosidade gramatical nessa história. No caso dessas moçoilas, um pequeno erro de concordância é universalmente aceito. Ou seja, elas são “as invejosa”.

E para mostrar como sou inteirado com as novidades vou acrescentar a tal rexitegui e passar a nomeá-las assim, da mesma forma que leio no Twitter.

#asinvejosa

Os esforço para evitar esse mal é tão grande que os dois maiores sucessos musicais do Brasil nos últimos anos, foram odes contra #asinvejosa. Lembrando os menos antenados, falo de “O Show das Poderosas”, da Anitta, e “Beijinho no Ombro” da Valesca Popozuda. Nem a ditadura militar, que inspirou Chico e Vandré, foi tão fortemente combatida como nesses hinos universalmente aceitos.

Fiz uma pequena pesquisa nas redes sociais em comunidades como “Frases para Invejosas” e consegui coletar um pouco dos pensamentos que ajudam brasileiros e brasileiras a evitar essa ameaça:

_ Irrite os invejosos com a sua felicidade.

_ Eu só incomodo os fracos, os fortes andam comigo.

_ Meu brilho te incomoda? Recalque bate aqui e vira tapete para eu desfilar.

_ A pior vadia é aquela que se paga de santa.

_ #asinvejosa fala de mim mas é minha fã incubada

_ Vou postar dps só para aomilhar #asinvejosa

_ Obaaa! Ai q chique to nos eua #invejosa

Esses são apenas alguns exemplos, preservei as frases exatamente como as li para mostrar a liberdade em relação as velhas regras da língua portuguesa por parte dos autores. Para que se preocupar com gramática se há uma ameaça tão grande a combater?

Enfim queria sugerir aos marqueteiros políticos que ficassem atentos às novas demandas da população. Assim, nas próximas eleições teremos companhas mais adequadas aos anseios da nação. Quem sabe unindo beijinhos nos ombros e poderosas para salvar o Brasil.

O lado bom da ditadura

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A moda muda rápido ultimamente.

Vejamos, essa semana preciso fazer uma selfie, posar com uma placa contra o estupro e falar mal da ditadura. Pensei em fotografar minha comida e elogiar cachorros mas acho que já está ficando demodê.

Escolho a ditadura. Porém, com minha obstinação por evitar clichês não falarei mal dela. Lamento. Prefiro lembrar  algo que era muito melhor naqueles tempos, especialmente se comparado a situação atual.

 

(silêncio para criar suspense)

 

Falo do nome das instituições públicas e dos programas governamentais.

Como assim, pergunta o leitor? Repito explicando:

O nome das instituições públicas e dos programas governamentais naqueles tempos era formado letras que se juntavam e criavam siglas inesquecíveis. O programa habitacional se chamava BNH. A empresa brasileira de telecomunicações era a Embratel. O Mobral cuidava da educação para adultos e menores infratores iam para a Febem. Para telefonar usávamos a Telesp. O órgão de informação/espionagem dos militares era o SNI.

Hoje, quando procuro por iniciais, vejo que fomos invadidos pelos “nomes fofos”.

“Nomes fofos” é como chamo genericamente essa onda de termos nitidamente criados por especialistas em marketing e que fazem a alegria do político moderno.

Quando procuro pelo BNH encontro “Minha Casa Minha Vida”. Quando clamo por lindos nomes como Telesp, BCP ou Embratel, sou atropelado por Vivo, Claro e valha-me Deus, Oi (“nomes fofos” privados). Na procura pelo posto de saúde encontro Amas e Ames. É muito amor.

Não sei quando tudo começou, só sei que a coisa perdeu o controle quando a Marta Suplicy criou o projeto “Belezura” e os Tucanos chamaram uma reforma nos impostos de emenda “Do Bem” (as outras são do mal?).

Tentando ajudar nossos governantes, vou mandar algumas sugestões de nomes para futuros projetos, adiantando que sou modesto suficiente para admitir minha incapacidade para superar a “Rede Cegonha”.

Que tal substituir o IPCA por “adorável precinho”? Assim os economistas diriam que o “Adoravel precinho de abril” ficou em 0,62%.

Quem sabe chamar a CBF de “Amigos da Bola”? O PCC não seria mais agradável se fosse “Bandoleiros Legais”? Podemos ir mais longe, quem sabe trocar os nomes dos partidos e instituições. O PT viraria “Ao Pobre com Carinho”, a Fiesp seria “Empresários Bonzinhos Pelo Brasil”.

As possibilidades são infinitas e a vantagem é que não precisamos ter medo do ridículo. Afinal, jamais seremos mais ridículos do que a criatividade político-marqueteira. E com a proximidade das eleições, podemos esperar novos nomes de programas cada vez mais fofos.

Quanto a ditadura, espero que concordem que eles acertaram ao chamar as coisas por iniciais. Ou vocês queriam um “nome fofo” para o Doi-Codi?