O suicídio de Janaína

O suicídio de Janaína

Muitos dirão que a decisão radical de Janaína foi intepestiva, passional. Algo deve ter se passado com ela. Porém, o que Janaína estava prestes a fazer havia sido planejado há algum tempo e seria executado com toda a tranquilidade.

Ela estava sozinha em casa. Era a noite em que o namorado ia à pós-graduação. Janaína decidiu abrir uma garrafa de Pinot Noir para saborear o momento. Baixou a luz para um tom suave e se acomodou na chaise long do terraço. Do 18o. andar, em seu apartamento, as luzes da cidade pareciam distantes.

Ela abriu o notebook. Antes do ato final, resolveu rever sua vida registrada no Facebook, primeiro passando os olhos no feed.

Havia  fotos de lugares distantes e mapas indicando viagens aéreas. Pessoas felizes fazendo selfies em Paris, na Disney e em Inhotim. Havia gente colocando fotos de gatos e reclamando do governo. Muita fake new sobre diversos assuntos e alguns textos pedindo a liberdade do Lula e investigações sobre Marielle. Janaína sentiu um tédio profundo, tomou mais um gole do vinho  e voltou novamente a atenção para o Facebook, deste vez passou a rever as inúmeras fotos que já havia publicado.

Lembrou sua viagem para a Califórnia, o curso de patisserie em São Francisco e os amigos que fez na época. Tinha fotos ainda mais antigas, do tempo em que fora casada. Jorge, o ex-marido aparecia em algumas exibindo seu sorriso que um dia fora sincero e depois tornou-se sarcástico. Ele ainda curtia um ou outro post de Janaína, mandava felicitações frias em seu aniverário. Era um homem bonito, apesar de tudo, tinha de admitir.

Reviu fotos de diversas fases profissionais. Da carreira infeliz no departamento contábil de uma construtora, das tentativas de se estabelecer como chefe até abrir a loja de bolos personalizados. Havia muitas fotos de bolos. Em formatos diversos. Bolos com noivinhos, com cachoros esculpidos em glacê, bolos que comemoraram nascimentos, aniversários, bodas de ouro. Não podia negar, seus bolos fizeram muitas pessoas felizes. Porém, o talento culinário era maior que o administrativo e Janaína, endividada, teve de fechar a loja.

Ao rever as fotos do Facebook, muitas emoções vinham à tona, muitas coisas boas Mas  isso não seria suficiente para mudar sua decisão. Ainda assim, como sabia que era a última vez que fuçava o Face, voltou-se novamente ao feed. Tantas pessoas, tantos posts, tão pouco que a interessava. Egos e mais egos, mentiras e polêmicas inúteis. Mesmo os amigos e amigas de coração, pareciam menos interessantes na rede. Novamente a sensação de tédio voltou, chegou a hora de desligar, iria seguir os passos que planejara.

***

Uma hora depois, quando Miguel chegou da faculdade, encontrou Janaína no terraço, ainda bebendo o vinho. Ele pegou uma taça e se dirigiu à garrafa.

“Alguma celebração especial?”

“Cometi meu suicídio social.”

“Oi?”

Ela levou a taça a boca antes de explicar.

“Apaguei minha conta no Facebook.”

Ele respondeu desinteressado.

“Fez bem.”

 

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Meu sucesso no Whatsapp

Meu sucesso no Whatsapp

Acordei e levantei-me com cuidado para não atrapalhar a moça que dormia ao meu lado. O nome dela é Karen e eu a conheci numa festa na noite anterior. Tomei uma ducha rápida e passei um café. Ela apareceu na porta da cozinha, vestindo minha camiseta com um sorriso sem graça.

Conversamos melhor na padaria, onde fizemos um brunch juntos. Ela é simpática e extrovertida e me surpreendeu com uma afirmação.

“Estava louca pra te conhecer”

“Como assim? Alguém falou de mim pra você?”

“No meu grupo de Whatsapp, o Viúvas do Grey. Todas te achamos fofo”.

Eu quis entender melhor a história. Como virei assunto no grupo de Whatsapp dela? Que grupo é esse?

Ela explicou que é um grupo de mulheres e uma tal de Vanessa (amiga da amiga) me compartilhou de um outro grupo que ela participava. Aparentemente ganhei alguma competição de solteiro mais interessante da semana. Assim, quando Karen me viu na festa, já estava interessada em mim.

Ela me mostrou a foto da Vanessa e eu não a conhecia. Mas, guardei o sobrenome para procurar no Facebook. Nada de amigos em comum.

Na noite seguinte fui jantar com dois casais de amigos e contei a história que me intrigava. Carolina, esposa do Rogério, trouxe luz ao caso.

“Uma amiga do meu grupo Advogadas PUC 98 se divorciou e eu te indiquei pra ela. Eu postei uns links das suas fotos do Face. Acho que eu dei uma exagerada nos elogios. Falei que você era pra casar.”

A confissão da Carol era um bom começo para entender o que se passara. Ainda assim, havia um gap entre as Advogadas da PUC 98 e as Viúvas do Grey. Será que os grupos tinham alguém em comum?

Mal tive tempo de ter dúvidas. Carolina com os dedos ligeiros já havia perguntado às amigas e descobriu que Karine havia compartilhado minhas fotos em outro grupo, o Runner do Tatuapé e que Carmem havia me sugerido para sua prima Ana Lúcia, que acabara de chegar de Cuiabá.

Em dois dias, Carolina, absolutamente curiosa e engajada, conseguira remontar a linha que separava a mensagem que ela enviara até o grupo da simpática Karen, o Viúvas do Grey. Minhas fotos e elogios cada vez mais exagerados sobre meu charme circulavam como piadas velhas em grupos de família.

Eu devia ter desconfiado.

Antes mesmo de conhecer Karen, desconhecidas começaram a pedir amizade no Facebook e a me seguir no Instagram. Eu ignorei o fenômeno no começo, mas não pude ignorar quando atingiu proporções épicas. Diziam já haver grupos de Viúvas do Marco Aurélio no Whatsapp. No Twitter, #marcoaureliofofo virou TT. Criaram memes com minhas fotos. Recusei um convite para ir ao programa da Luciana Gimenez.

Agora, quando entro em um restaurante, tenho a impressão que há olhos me fitando. Mesmo na rua, sinto dedos a me apontar. Percebo que sou assunto nas conversas em voz baixa no metrô.

Nunca mais fui a uma balada. Saí das redes sociais. Não quero ser celebridade, muito menos por um motivo tão estranho. Só não consigo evitar uma ou outra abordagem na rua quando respondo de forma seca.

“Não minha querida, apenas pareço com o Marco Aurélio, não sou fofo, não sou pra casar”.

Simpathy for William Waack

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Sou um sujeito estranho se comparado à maioria.

Sinto muitas vezes um negócio chamado empatia*.

Mesmo por aquelas pessoas que todo mundo odeia, ou que tem baixíssima popularidade, eu acabo tendo empatia.

O William Waack é uma delas, mas não a única.

Tenho empatia pela Katia Abreu, pelo Renan Calheiros, pelo Sarney, pelo Serra, pelo Zé Dirceu, pela Dilma, pelo Genoíno, pelo Ciro, pelo FHC, pelo Boulos, pelo Maluf, pelo Caiado…

Pode parecer incoerente, mas consigo ter empatia pelo Lula e pelo Temer ao mesmo tempo.

Acho que enquanto o mundo os vê como bandidos, eu os enxergo como meramente humanos. Donos de fraquezas (inclusive morais) que todos nós somos sujeitos a ter. Cada um deles com a ilusão de ser único e especial, cada um com  a ideia infantil de que deixamos uma marca positiva por onde passamos.

Isso não significa que concordo com seus erros ou crimes. Apenas não faço questão de me juntar à manada que com raiva julga e condena, que atira pedras e memes a esmo.

Também não pensem que sou santo. Há um grupo de humanos com quem não consigo solidarizar. Um grupo cuja forma de agir é imperdoável. São os profetas do ódio. Aqueles cujo discurso é repleto de dentes serrados e caixas altas. Os que agridem e criam as hashtags maldosas. Prefiro não citar seus nomes, mas vou citar assim mesmo: Alexandre Frota, Kataguri, Constantino e os reis de todos eles: Bolsonaro e Olavo de Carvalho, o pregador-mor do ódio.

Eu preciso me policiar para não ter raiva deles e  acabar ficando parecido com essa turma.

Opa, já ia me esquecendo do Waack.

Esse é outro ser humano com fraquezas e virtudes. É racista? O vídeo não me permite saber. Fez um comentário horrivelmente racista? Fez. Preciso atacá-lo louca e furiosamente? Acho que não.

Sinto pena dele, mais um humano tão parecido com todos os outros.

Vou pegar emprestada a frase do Papa Francisco – “Quem sou eu para julgá-lo?”

Quando ouço alguém chamando os outros de “essa gente”, penso com meus botões: “Essa gente somos todos nós”.

*Empatia significa a capacidade psicológicapara sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.

 

A Bíblia e os aplicativos

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Deus vê tudo, sabe tudo e pode tudo. Antes de existir qualquer coisa existia Deus.

Portanto, para Deus, não haveria problema algum em criar aplicativos e smartphones desde o início dos tempos. Ele apenas omitiu isso na bíblia pois os Apps da antiguidade eram motivos de imensas frustrações.

Vocês estão prestes a conhecer a verdade até hoje não revelada, trazida a luz pela mão dos Templários Espaciais, seita secreta que guarda os livros sagrados mágicos e só se comunica com a humanidade através do Toda Unanimidade.

Vamos aos fatos:

Adão foi o primeiro usuário mundial do Tinder, não teve grandes dificuldades em fazer a conta, porém aborreceu-se rapidamente quando todas as suas buscas indicavam apenas a Eva. Passaram algumas gerações até que o aplicativo voltasse a fazer sucesso.

Noé, por sua vez, era um usuário fanático do Instagram, fotografava os animais da Arca mas também aborreceu-se. Nunca conseguiu mais de 5 curtidas numa foto. E só chegava às 5 quando a mulher não esquecia de carregar o celular.

Quando a terra secou e arca aproximou-se do monte Ararat a troca de Emojis foi intensa. Noé enviou para Deus um emoji de pomba e recebeu em troca uma folha de oliveira. Ao deixar a embarcação todos receberam emojis de arco-íris.

Moisés era daqueles que não sabia usar direito o Smartphone. Passou 40 anos perdido no deserto em busca da terra prometida e só no trigésimo nono ano alguém lhe mostrou o Waze.

Sansão era o maior fã das selfies. Egocêntrico, fez sucesso exibindo os longos cabelos e músculos torneados. Sucesso que incomodou Dalila e o resto da história todos sabem.

Os Haters do Twitter pegaram no pé do rei Salomão. Foram milhões de pedidos de #forasalomao quando ele sugeriu que se dividisse uma criança ao meio. Afinal, divisão igualitária é coisa de Comunista. Vai para o Oriente, gritavam alguns, já que Cuba ainda não existia.

Davi, por ser uma criança na época em que venceu Golias, era o único da bíblia que conseguiu usar o Snapshat e eu não posso dizer o que ele fez com o Snap porque não consigo entender esse aplicativo.

O único app que não havia naqueles tempos era o Uber, devido a inexistência de carros. Porém, o Biguber era igualmente eficiente e ajudou muito os três reis magos que nada conheciam de Israel.

O WhatsApp foi muito útil nos tempos de Jesus. O grupo “Apóstolos” mudou a história do mundo. O que não se pode confirmar é o vazamento de nudes da Maria Madalena. Quando perguntaram a Tomé ele foi evasivo: “Só acredito vendo”.

Falando em Jesus, seu vlog o alçou para a categoria de maior Influencer da humanidade reinando absoluto até o vlog do Maomé entrar no ar. O vídeo do sermão da montanha teve mais de 6 milhões de views, transformando Jesus no Gangnan Style do Império Romano.

Essas são apenas algumas das muitas histórias ocultas dos livros sagrados. Se os meus informantes me derem licença, trarei outras, igualmente reveladoras. Preciso me recolher agora para encontrar meu grupo divino. Torcendo que curtidas transcendentais enfeitem este post.

O Prefeito e o Presidente

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No começo foi fácil, dava certo para o prefeito e para o presidente.

Diga que vai mudar as velocidades das Marginais e lá estavam as manchetes, estavam os fãs entusiastas e os desesperados opositores.

Fale de um muro no México, crie uma crise internacional pelo Twitter, ponha as redes sociais aos seus pés e fature artigos e mais artigos no mundo inteiro exibindo o topete arrogante.

Meus Deus como é fácil, dá pra fazer todo dia.

Pinte os grafites de cinza, ofenda os muçulmanos,  fantasie-se de lixeiro, proponha leis absurdas, tire do site da CET informações sobre queda de acidentes, apague do site da Casabranca matérias sobre aquecimento global, ofenda os grafiteiros, ofenda os latinos.

As dificuldades começaram no segundo ano, quando o prefeito se vestiu de veterinário  numa visita ao zoológico e não havia nenhum repórter para fazer o registro.

Enquanto isso, no hemisfério norte, o presidente usou as redes para chamar o Papa de maricas, mas nem os seguidores nem a imprensa se impressionaram. Sequer o Vaticano enviou qualquer resposta.

Foi quando o presidente e o prefeito perceberam que para manter a atenção do público e da imprensa precisavam se esforçar mais.

O presidente começou a ofender mais gente e de forma ainda mais gratuita. Chamou Steve Wonder de “porco cegueta”, disse que o Abraham Lincoln tinha uma barba ridícula e que planejava fechar a Disney para evitar a gritaria infernal daqueles pirralhos.

O prefeito se fantasiou de macaco, de Incrível Hulk, de Lula (ele até se esforçou para imitar a voz rouca) e baixou um decreto autorizando à Guarda Civil jogar tinta cinza nos tatuados que andavam pelas ruas. Nada adiantou.

No final de seus mandatos os dois estavam irreconhecíveis, silenciosos e exibindo sintomas de depressão. O prefeito fantasiou-se de mendigo e passou dias na cracolândia sem ser reconhecido. O presidente saiu pelas ruas e xingou um caminhoneiro que fazia seu lanche numa barraca de cachorro-quente. Apanhou como nunca.

Coxinhas, petralhas e a vizinha fofoqueira

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Todos conhecem a figura da vizinha fofoqueira. É uma personagem do imaginário Brasileiro.

Ela passa o dia na janela, espalhando que a filha da Dona Cacilda anda com um bando de vagabundos. Ela conta a todos que o cachorro do seu Heitor faz cocô na calçada.

Ela finge ignorar que o filho dela é o melhor amigo da filha da dona Cacilda, que eles  pertencem a mesma turma. E que o gato dela já quebrou vasos de quase todos os moradores da rua.

Enfim, todos concordamos que a vizinha fofoqueira devia cuidar da própria família no lugar de falar da vida dos outros.

Porém, em termos de política, somos todos a vizinha fofoqueira.

Explico:

Quando o Paulo Bernardo foi pego, todos os petistas bradaram em coro:

“_ Só prendem quem é do PT! Cadê a prisão do Cunha? Moro golpista! Globo golpista!”

Eles não disseram uma palavra em relação ao esquema sofisticado de corrupção criado pelo  ex-ministro petista.

Por outro lado, quando Janot pediu a prisão dos caciques do PMDB, os antipetistas postavam:

“_ Por que não prendem o Lula? Esse Janot trabalha para o PT!”

Eles se calaram em relação aos muitos milhões recebidos pelos corruptos peemidebistas.

Fico triste com o momento do Brasil e sonho com um país melhor. Acho que essa melhora passará por uma auto-crítica além da óbvia troca de acusações.

Sonho em ver os petistas clamando pela prisão dos dirigentes corruptos de seu partido. Sonho em ver os antipetistas batendo panelas contra a corrupção e não apenas contra a Dilma.

O conhecimento popular nos ensina a olhar para o próprio umbigo antes de atacar os outros e essa é sempre uma boa ideia.

Petistas, melhorar o PT é mais urgente que voltar ao poder.

Antipetistas, o governo já mudou, quando vocês vão se preocupar com o ATUAL presidente, no lugar de sonhar com revanchismos e vingancinhas?

Saiamos das janelas do Face e do Twitter e usemos o velho e-mail para cobrar o NOSSO partido e os políticos em quem votamos para que tenham uma atitude melhor. Ofender o vizinho nunca resolveu e não vai resolver nada.