O Dilema

O Dilema

Marília estava aflita. Pegava o celular, olhava as fotos no Instagram, colocava o celular na mesa. Depois voltava a olhar as fotos.

Mandou uma mensagem para Carla.

_ Amiga, não sei o que faço.

_ Não tem o que fazer Marília. Você não vai fazer nada…

_ Mas são três quarteirões daqui. Só três quarteirões.

Carla era sensata, embora entendesse a aflição da amiga. Mas me deixe voltar um pouco para que você entenda também.

Marília começou a quarentena quatro meses depois do fim de um namoro. Foi um período em que não quis sair, ficou mais introspectiva. Justo  agora que estava pronta para voltar às baladas, o mundo estava congelado pelo Coronavírus.

Morando sozinha, tentou se distrair ao máximo para não pensar na solidão. Não conseguiu. Entrava no Instagram e sem se dar conta começava a encontrar fotos de personal trainers sem camisa, entrava no Facebook e acabava stalkeando ex-namorados, entrava no Tiktok e tudo o que via era abdomens-tanquinho.

Acabou por instalar o Tinder e através do aplicativo conheceu Heitor, um personal trainer com uma barriga-tanquinho perfeita e que lembrava um ex-namorado.

Trocaram mensagens por madrugadas seguidas. A conversa foi ficando cada vez mais quente, assim como o sangue de Marília que chegava a sentir tremores pensando em Heitor. Foi ainda pior quando descobriu que eram quase vizinhos, poucos quarteirões separavam seus apartamentos.

Carla, a amiga íntima, estava por dentro da história nos mínimos detalhes, e dava conselhos.

_ Não tô aguentando amiga, eu vou à casa dele.

_ Não faz isso, Marília. É perigoso. Faz sexo virtual por enquanto.

_ Você acha que eu já não fiz? Não resolve. Pra você é fácil falar, com seu maridão aí todo dia.

Carla respondeu com sinceridade e um pouco de culpa.

_ E você acha que dá pra transar num apartamento minúsculos com dois filhos alucinados trancados em casa?

_ Então você me entende?

– Marília, se o cara é gostoso como você diz, ele deve estar transando com uma por dia…

Marília achou que seria mais ilustrativo mandar o link do Instagram de Heitor para Carla entender de quem se tratava. Depois de uns minutos, recebeu uma mensagem.

– Meu Deus, que corpo é esse? Vai de máscara e depois me conta tudo.

Marília vestiu a máscara e saiu correndo.

O Desejo

O Desejo

O que será que será
Que dá dentro da gente que não devia

Nos anos 70 Chico Buarque, o compositor mais amado do Brasil, escreveu estes versos, provavelmente estranhos para os mais jovens. Pensei neles enquanto lia as matérias sobre João de Deus. O médium que atendia milhares de pessoas em Goiás está preso depois de ser acusado de crimes  assédio por centenas de mulheres. Foram crimes bárbaros, repetidos por muitos anos.

Não foi o primeiro e nem será o último homem a jogar fora seu nome por não controlar os impulsos sexuais.

Juízes, políticos, esportistas e líderes religiosos já cometeram as maiores barbaridades e imoralidades destruindo as próprias vidas.

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá

Tudo culpa de um tal desejo, um impulso primitivo que nos provoca e nada tem a ver com nossa racionalidade.

Na cabeça de cada homem e mulher de respeito orando nos bancos da igreja, o instinto primitivo está escondido, aparecendo sorrateiramente, provocando, procurando respirar. E não falo apenas de instintos sexuais. A raiva, o medo e a gula fazem parte de nossa irracionalidade.

Talvez os caros leitores já tenham sofrido com isso, alguém que lhes despertou os instintos. Quem sabe um colega de trabalho, um professor, um amigo. Quem sabe alguém proibido como o namorado da amiga ou o pastor da congregação

O fato é que somos seres sociais e evoluídos e aprendemos a controlar nossos desejos. Aprendemos a colocá-los em segundo plano, escondidinhos, e seguimos em frente, atuando lindamente em nossos papéis sociais.

Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia

Assim, vez ou outra, quando o animal instintivo domina o racional, quando o cidadão acima de qualquer suspeita se mostra o tarado, o pervertido, o monstro, a sociedade com justiça, se defende acusando o agressor.

Enquanto isso, eu no meu canto, me lembro que há nervosos animais irracionais dentro cada um de nós, loucos para arrancarem as amarras racionais e sociais que os contêm. O que não tem decência nem nunca terá. O que não tem censura nem nunca terá.

O que não faz sentido.

 

 

 

Sexo aos 40

Estou sem tempo para escrever. Então fica difícil administrar dois blogs. Decidi então para o “Sexo aos 40”, onde eu usava o personagem Marco Aurélio para tratar das agruras de relacionamentos de quarentões e quarentonas.

Só para que não se percam pra sempre, nas próximas semanas replicarei uns textos que escrevi por lá:

 

O Alter Ego

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Quando nos separamos somos obrigados a enfrentar um mundo dos solteiros e enfrentar o mundo dos solteiros significa voltar  a paquerar e a ser paquerado.

Para um homem que manteve-se casado por muitos anos há alguns obstáculos para isso.

1 . Não nos sentimos preparados.

2 . A sensação de que fazemos algo moralmente errado.

3. Estamos fora de forma (Se você é casado tente se imaginar abordando uma mulher numa paquera, a gente nem sabe por onde começar).

4 . Há muitas tecnologias novas com as quais não estamos familiarizados (leia-se aplicativos).

Apesar dos obstáculos, estando no mundo dos solteiros, as paqueras e encontros acabam por ocorrer.

Acontece que eu também não tinha amigos solteiros ou separados, então contava as histórias que começava a viver para os amigos casados, nas noites em que eles tinham seus habeas corpus etílicos.

Foi quando percebi o impacto que minhas histórias tinham sobre eles.

Os casados queriam saber de tudo, se seu havia saído com alguém, como era a mulher, o que tinha acontecido. Qualquer relato sem graça parecia uma uma nova versão do 50 Tons de Cinza. Eles pediam especialmente que eu mostrasse as fotos das pretendentes nas redes sociais e qualquer uma, aos seus olhos, era uma musa digna de filme do 007.

Até que um me pediu:

_ Marco Aurélio, você não pode namorar nunca, você é o nosso Alter Ego. Você vive as aventuras que não podemos viver.

De certa forma, esse interesse dos amigos em minha aventuras ajudou a levantar a auto-estima que é sempre afetada nas separações.

No final acabei decepcionando meus amigos e voltei a me envolver seriamente em um relacionamento. Afinal, não se pode viver apenas de aplausos.

Eu não sou estuprador

 

cultura do estupro

Observei em silêncio (até agora) a discussão levantada após o gravíssimo crime em que 30 rapazes são suspeitos de estuprar uma garota de 16 anos. Digo suspeitos pois  todos os jornais usam esse termo até a condenação dos indivíduos. Eu gostaria mesmo de chamá-los de bandidos. Não o farei. Vamos agir com cautela.

A principal novidade na discussão foi o surgimento de uma expressão que eu não conhecia: “Cultura do Estupro”.

(me perdoem se eu escrever estrupo, eita palavrinha que quer pegar a gente)

Aparentemente, nós brasileiros, somos educados para sermos estupradores ou para assediar as mulheres. O “Toda Unanimidade” já tocou num assunto parecido duas vezes (aqui e aqui). Só que eu estava preocupado com o Assédio, que também é uma violência, porém menos assustadora.

Como sempre, tenho dificuldade em aceitar as coisas como me dão.

Quer dizer que o crime do qual falamos é parte da cultura brasileira?

Pode ser que seja parcialmente verdade, mas há outros aspectos nessa história que gostaria de tratar.  Me parece que encerrar a conversa na “Cultura do estupro” é insuficiente.

Perdoem meus amigos de esquerda, mas serei conservador na sociologia de boteco que exponho abaixo:

A Cultura da glamourização do crime

A jovem violentada aparentemente gostava da companhia dos suspeitos que vieram a atacá-la. Não é a única. Nos bailes funk os rapazes com metralhadoras são símbolos de poder atraindo a atenção das moçoilas.

Isso não parece um privilégio brasileiro. Embora muito do funk defenda o crime, não o faz com tanto brilhantismo como a americana Rhianna.

Se você tem estômago fraco, pule. Nesse vídeo feito para adolescentes (86 milhões de acessos), Rhianna abusa e tortura uma mulher dopada. Não sei a opinião de vocês, mas que bem faz a exibição disso para adolescentes? Como mostrar que a companhia de traficantes armados não é uma boa se o a Rhianna mostra justamente o contrário?

 

A Cultura da Sexualização da infância e da Adolescência

Evoluímos. Hoje não é pecado uma adolescente ter desejos. Ela não precisa mais lutar contra eles e pode ter auxílio e orientação na escola, de médicos e dos pais para iniciar a vida sexual (levando-se em conta as diferenças da nossa sociedade desigual).

Porém há uma diferença entre começar a vida sexual aos 16 anos e deixar o filho de 3 em casa e frequentar orgias na mesma idade. Obviamente, a adolescente de que tratamos não tinha maturidade emocional para tudo o que passou. Não é bacana ser mãe aos 13. Não é legal tratar o sexo como banalidade quando deveria se estar sentindo todas as maravilhosas emoções da adolescência.

Não digo que a garota é culpada por isso. Ela é vítima, assim como são vitimas as milhares de crianças que engravidam antes dos 14 anos no Brasil.

Não me lembro de estímulos sexuais na minha infância, mas desde o momento em que a Xuxa passou a se vestir assim num programa infantil, algo saiu do controle.

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Com o tempo, continuamos estimulando a sexualidade precoce das crianças com a Dança da Garrafa ou com as novas cantoras americanas.

Katy Perry fez esse vídeo odiável (289 milhões de visualizações) em que atrai crianças com um visual infantil quando mostra uma relação sensual de uma garota nua (interpretada por ela) e um homem vestido de cafetão. Tudo no cenário mistura símbolos fálicos travestidos de objetos infantis

 

A Cultura da objetificação da mulher.

Alguém pode me explicar por que os ídolos adolescentes homens se vestem assim:

maroon-5-stock-images.jpgEnquanto as cantoras teen se vestem e agem assim?

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Dizem que tem a ver com a liberação feminina. Eu tenho minhas dúvidas. Acho que Miley Cyrus e suas pares agem da forma a aumentar os lucros da indústria do entretenimento. Por muitos dólares, jovens ensinam que o corpo e a sexualidade são o caminho da mulher para vencer na sociedade.

A Cultura da objetificação também pode ser notada no verbo que se usa para a paquera. Os jovens não “ficam” mais. Eles “pegam”. Afinal, o parceiro é um objeto.

 A Cultura da Banalização do Sexo

Em nome da liberdade sexual e de vencer as amarras da sociedade as mulheres estão aprendendo com os homens o que eles tem de pior. Elas banalizam o sexo.

Vejo o sexo como algo magnífico e espiritual. Mas os jovens não veem assim. Transar é tão corriqueiro como escovar os dentes ou falar com os amigos. É libertador por um lado, mas por  outro, me pergunto se adolescentes tem maturidade para enfrentar o turbilhão de hormônios e sentimentos que tudo isso envolve.

Será que não era mais legal no tempo em que uma transa representava um friozinho na barriga? Cada etapa de aproximação e intimidade era uma conquista com qual se sonhava a noite? Perdoem o ar nostálgico e a caretice.

Novamente, não vejo as garotas como culpadas dessa situação, mas vítimas.

Conclusão

Não vou vestir a carapuça da “Cultura do Estupro”. Me recuso a ser comparado com traficantes que empunham metralhadoras nos bailes funk. Eles não respeitam a vida dos outros, era de se imaginar a forma com que tratam a mulher.

Vi essa semana como Danilo Gentile, Alexandre Frota e anúncios de moda incentivam o estupro. Porém, não acredito que os trinta traficantes armados (como descreveu a vítima) sejam influenciados  por uma propaganda da Dolce e Gabbana na Vogue.

Precisamos repensar nossa sociedade em termos de valores e a forma com que os meninos são educados não pode carregar sozinha o ônus desse terrível desarranjo.

 

 

 

 

 

Pornografia e política

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Aviso: Não leia se você tem menos de 18 anos.

Sempre me diverti com os títulos que produtores de filmes pornô escolhem para suas paródias de cinema. “Despedida em Las Vegas” vira “Despedida em Las Pregas” e “Senhor dos Anéis” se transforma em “Senhor dos Anais”.

Lembrei disso ao ler na Folha que uma produtora brasileira lançou um filme pornô parodiando a atual situação política brasileira: Operação Leva-Jato.

Imagino que o filme deva ser bem realista. Afinal, se tem suruba, sacanagem, troca-troca e um tentando “foder” o outro, qual a diferença em relação ao nosso atual cenário político?

Aliás uma das figuras que mais apareceu no movimento pró impeachment foi o ator pornô Alexandre Frota.

Mas não consegui deixar de imaginar qual seria o roteiro do filme. Sem ter acesso ao original, resolvi criar uma sinopse, ou pelo menos, um apanhado de ideias, usando alguns personagens reais num ambiente onde elogiar a mandioca tem um significado totalmente diferente.

O Filme tratará do embate entre o MBL e o MST. Ou seja Movimento da Bunda Livre contra o Movimento dos Sem Teta.

Tudo começa com uma grande suruba na Petrobras, porém as tramoias são descobertas pelo Teori Xavasca e pelo Lavandorolowski.

O ator principal é um japonês que prende Delcídio Amapau,  Jorge Luiz Pelada e Marcelo Odeprexecat.

O diálogo mais marcante acontece entre um deputado e um juiz:

_ Pode liberar o CUnha, não precisa Temer.

No final, todos vão presos (até o Felicianus) e continuam suas orgias atrás das grandes enquanto Tirapica, o único deputado remanescente, assume a presidência.

P.S. Contribuíram involuntariamente com esse texto Caetano Scatena e Adriana Brunstein, em um almoço regado a molho Shoyo e abobrinhas.

 

 

 

O Novo Sexo Seguro

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Giovanni decidiu ficar um pouco mais no bar depois que os colegas saíram. Haviam comemorado uma decisão favorável a um cliente que lhes garantiria um belo prêmio. Giovanni coordenara toda a estratégia de defesa e tomava seu último drink com a alegria do piloto que estoura champagne quando viu Valéria bebendo no balcão.

Era daqueles bares escuros que combinam mais com martinis do que com cerveja. Valéria olhava de volta enquanto alisava com os dedos uma taça de Manhattan.

Giovanni pegou seu Negroni e parou ao lado dela.

_ Se incomoda se eu ficar aqui?

_ De jeito nenhum – Ela tirou os cabelos que cobriam parte do rosto e apresentou-se – Prazer, Valéria.

_ Eu sou Giovanni.

Ambos estavam fascinados pela beleza do outro.

Se você não se incomodar – Ele falava enquanto puxava uma folha impressa do bolso do Blazer – eu gostaria que você assinasse esse termo antes de qualquer conversa.

Ela assustou-se, mas pegou o papel curiosa, reparando no timbre do famoso escritório jurídico. Tratava-se de uma autorização.

Eu ____________________________, portadora do RG n.º _____________, inscrita no CPF/MF sob o n.º _________________, residente e domiciliada a rua ____________________________________ , autorizo Giovanne Barros Magalhães, portador do RG n.º12.236.265-6, inscrito no CPF/MF sob o n.º 126.125.963.2, residente e domiciliado a al. Itu no. 42 apto 206 a conversar comigo.

Declaro que esta conversa começou de forma consentida e estou ciente que podem surgir intenções de paquera ou interesse para futuro relacionamento.

Declaro ainda que o presente termo não implica em um compromisso amoroso atual ou futuro, podendo a conversa ser interrompida sem explicação prévia por qualquer uma das partes sem prejuízo para ambos e sem necessidade de desacordo por escrito.

No final havia um espaço para datas e assinaturas.

Valéria mal conseguiu disfarçar o espanto enquanto Giovanni explicava.

_ Eu sei que parece estranho, mas eu sou advogado e já vi amigos e clientes passando por poucos e boas. Eu me sentiria melhor se você assinasse. Faz parte das paranóias da minha profissão.

Valéria teria interrompido a conversa se Giovanni não fosse tão bonito. Além disso, ela era consultora de RH e tentava fechar um contrato com o escritório dele havia meses. Se a paquera não desse certo, poderia ser um ótima oportunidade de network. Assinou o papel com uma rubrica qualquer e meteu-se na conversa um tanto desanimada pela atitude esquisita do rapaz.

Porém, passados uns minutos e uns goles, as afinidades começaram a aparecer. Ambos eram fãs do George Harrison, de desenhos animados antigos e dos livros da coleção Vagalume.

Falaram da infância, de trabalho, de relacionamentos que não deram certo e não demorou para o olhar de cada um puxar o do outro como se houvessem imas em suas córneas.

Quando entrou no carro dele, Valéria já havia se esquecido completamente do termo que assinara. Beijaram-se no primeiro semáforo e quando pararam em frente ao prédio onde morava ela o convidou para subir.

Então ele sacou mais uma autorização parecida com a primeira, em que ela confirmaria por escrito que o sexo seria consentido e não havia sofrido nenhuma pressão ou constrangimento para ir para a cama com ele.

Irritada, Valéria desceu imediatamente do carro, bateu a porta e entrou sem olhar para trás. Giovanni sentiu-se muito mal, sabia que havia perdido uma mulher incrível, mas não tinha o que fazer, eram novos tempos e não poderia correr riscos. Voltou pra casa resignado, sem qualquer arrependimento.

 

 

 

 

 

 

 

Sexo aos 40

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Amigos, criei um novo blog, o “Sexo aos 40”, para tratar de questões envolvendo relacionamento entre pessoas da nossa geração.
Estou usando um personagem como se fosse o autor do blog (esse da ilustração), para deixar bem claro que as histórias contadas não são necessariamente minhas.
No Sexo aos 40 teremos histórias reais e inventadas. Se tiver um relato divertido e quiser me mandar, sinta-se a vontade.

Minha redação do ENEM – O Assédio dos meninos

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Daquelas coincidências difíceis de acreditar. A prova do ENEM, elaborada há meses, colocou a Violência Contra a Mulher como tema da redação e a prova caiu justamente na mesma semana em que homens adultos assediaram uma menina de 12 anos no Twitter, durante sua participação num programa de TV.

Claro que os dois fatos juntos aqueceram a discussão sobre o tema e o mais estranho de tudo, criaram polêmica.

Digo que é estranho porque não vejo nenhuma polêmica no assunto. Violência e assédio contra a mulher são ilegais, imorais, abomináveis e inaceitáveis. Mas ao que parece há quem não pense assim. Tanto que muitas mulheres, mostraram o tamanho do problema usando as redes sociais para descrever como foram sexualmente assediadas na infância.

Até aqui, nada de novidade. O que eu quero acrescentar é que se homens agem assim (na melhor das hipóteses como insensíveis ao sofrimento feminino e na pior, como tarados ou molestadores) é porque a educação deles contribuiu para isso. Não a educação formal, mas  a ausência dela, somada ao que se aprende nas ruas.

Aliás, nem falemos em eles e sim em nós. Vejamos os fatos:

  • Entre nós, os meninos, assim que chega a puberdade, falar de sexo é a coisa mais comum do mundo.
  • Garotos dos anos 80, longe da facilidade da internet, recorríamos a revistas pornográficas facilmente encontradas em bancas de jornal para começar a aprender sobre o assunto. Imagine a facilidade para os garotos de hoje. No mundo da pornografia, o papel da mulher é sempre de ser inferior que existe para dar prazer ao homem.
  • Alguns recorriam a prostitutas muito cedo, aos 13 ou 14 anos, em muitos casos com o apoio e incentivo do pai. Assustador? Pode ser, mas nas nossas conversas no pátio da escola, isso era assunto corriqueiro.
  • Havia uma certa hierarquia entre os garotos. Quem sabe um pouco mais, quem já beijou ou quem já transou é o melhor e mais admirável.
  • A hierarquia continua existindo por toda a adolescência até a idade adulta. Se alguém sai com várias mulheres, transa com todas e conta para os amigos sua aventuras sexuais, esse alguém se impõe como o macho alpha. Ele é o admirável, ao contrário de quem é tímido ou simplesmente não consegue o mesmo desempenho, que vai sofrer não apenas com a solidão mas com o fato de ser visto como inferior pelo grupo. E esses são a maioria dos garotos.
  • Garotos que “pegavam” várias mulheres eram heróis. Garotas que saiam com vários garotos eram vistas como vagabundas. (odeio o verbo pegar, mas aqui veio a calhar).
  • A relação com as meninas tinha a ver com satisfação dos desejos; realização do ego; posição social e poder. Não se fala em afetividade, troca de experiências ou respeito. (Curiosamente, é bem comum ver homens de sucesso ao lado de mulheres fisicamente maravilhosas, às vezes muito mais jovens, que justamente oferecem a eles: satisfação dos desejos; realização do ego; posição social e poder).

Resumindo, não me espanta ver tantos homens adultos agindo como desequilibrados se desde sempre seu desejo e afetividade são colocados no âmbito da competição e hierarquia social.

Se queremos adultos mais saudáveis, precisamos começar com a educação de meninos e meninas, de forma transparente e madura. Que trate de sexo e afetividade, que mostre as relações baseadas em respeito e troca.

Dentro da minha visão de leigo, o machismo vem da crença de que o homem possui um papel desigual ao da mulher na sociedade. Isso provoca diferença de salários, de oportunidades e de posição. A violência e o assédio são frutos de um desequilíbrio psicológico ou comportamental. Ambos são graves e precisam ser combatidos, mas o primeiro é um mal social, o segundo, um mal, individual que ataca milhões de homens.

SEXO (não recomendado para menores de 21 anos)

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Andava preocupado com a queda de pageviews do Blog e comecei a pensar em modos de reverter a situação. Precisava  de um  texto EXCITANTE, relevante e com GRANDE PENETRAÇÃO na audiência.

É nessas horas de dúvida que recorremos aos mestres estrategistas de marketing dos conglomerados de mídia. O que fazem as editoras, grandes redes de televisão e cinema quando precisam VER CRESCER a audiência? INTRODUZEM o SEXO em suas histórias.

Isso mesmo, o SEXO, aquele que não tem medida nem nunca terá, não tem remédio e nem nunca terá, aquele que não tem juízo.

Afinal, se deu certo para E.L. James, Game Of Thrones, Bruna Surfistinha, Verdades Secretas e tantos outros, porque não DARIA certo PARA MIM?

O problema é discorrer sobre um tema que interessa a tantos e sobre o qual eu entendo tão pouco. Muitas leitoras podem até me acusar de falsa modéstia, mas é verdade. SEXO é algo que fazemos sem compreender, sem um estudo formal e sem grandes análises dos resultados. Como evoluir agindo apenas de forma empírica?

É como se fôssemos MEMBROS de um clube secreto, do qual todos participam mas ninguém TOCA no assunto.

Não seria mais prático se desde cedo as mães ensinassem as filhas seus troques para conseguir o ORGASMO? Mesmo as aulas de educação SEXUAL nas escolas, em vez de nos ensinar o lenga-lenga do óvulo atravessando a trompa de falópio, deveriam nos adestrar para realizar as PRELIMINARES sem o risco de EJACULAÇÃO PRECOCE.

Somos uma sociedade em que as mulheres são educadas para parecerem pudicas e assexuadas enquanto os homens precisam parecer mestres do KAMA SUTRA e da virilidade.

Então, no dia seguinte de uma TREPADA, as moças contam para às amigas como foi romântico o encontro com o príncipe gentil. Já os moços, na noite seguinte da BROXADA, mentem para os amigos inventando peripécias dignas de um KID BENGALA.

Sugiro que abandonemos as amarras e controles sociais, sejamos livres. Falemos de SEXO com a mesma naturalidade que discutimos futebol ou gastronomia. Qual o problema de uma mulher, na mesa de jantar, contar para a família sobre o 69 fantástico da noite anterior? Qual o problema do rapaz em perguntar para os amigo: – Afinal, onde fica esse tal de PONTO G?

Sejamos livres! Vamos fazer SEXO enquanto nossos corpos permitirem e falar dele no limite da nossa sanidade.

(P.S – IMPORTANTE – Filha se algum dia você vir a ler esse texto do papai, não é para levar a sério, tá? É brincadeirinha…)

O estranho nu *

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Quando Camila acordou estava ao lado de um corpo masculino nu e desconhecido.

Tentou reconhecer o ambiente e se deu conta que nunca estivera naquele quarto. A porta na parede oposta a cama estava semi-aberta e permitia que a luz entrasse. Ao lado dela havia um armário de compensado, folhado a mogno, nitidamente vagabundo. Na parede a sua direita viu uma estante enorme, do mesmo material, repleta de livros e velharias. Na outra parede, prateleiras abarrotadas de revistas, a maioria parecia ser de histórias em quadrinhos.

Camila saía pelo menos três noites por semana, bebia sempre, fumava maconha com certa freqüência e tomava um exctasy de vez em quando. Não era a primeira vez que esquecia do acontecido na noite anterior. Normalmente se divertia ouvindo as descrições de seus vexames com detalhes picantes que as amigas faziam questão de enfatizar. Algumas vezes já beijara desconhecidos. Experimentara também o desprazer de ser importunada por mensagens de infelizes com quem se engraçava em festas e clubes. Isso a preocupava. Achava que beijar um desconhecido era bastante perdoável, trocar Whatsapps porém, era algo que não aceitava. Preferia continuar sozinha a suportar aquele bando de moleques sem criatividade atrás dela. Com 23 anos, Camila podia prever palavra por palavra o que ouviria de um homem, e isso era muito chato.

Mais chato porém era chegar aonde chegou. Era acordar de calcinha ao lado de um corpo masculino estranho em um local desconhecido. Pelo menos o rapaz não roncava. A cara enfiada no travesseiro não permitia que analisasse melhor a feição. Estava descoberto, tinha uma pele cuidada e lisa, poucos pelos e uma bela bunda. O que de certa forma a consolou. Do jeito que bebera na noite anterior, poderia ter sido pior.

Ainda assim foi a primeira dez que deu para um estranho, a primeira vez que deu para alguém com quem não tinha o menor relacionamento e a primeira vez que não se lembrava de como havia sido. Não sabia sequer se tinham usado camisinha. Foi também a primeira vez que se sentiu infeliz com o próprio comportamento.

Depois de pensar um pouco localizou com os olhos suas roupas espalhadas no chão e decidiu sair de fininho. Tentaria ser discreta para não acordar o rapaz. Enquanto se vestia ele fez um movimento brusco, virando-se com o rosto para cima. Ela se assustou, pensando que ele despertara, depois parou um pouco para analisá-lo. Os olhos estavam inchados e a cara amassada pelo travesseiro mas ainda assim era bonito. Um pouco rude, mas bonito. O Corpo também era ok, não tinha uma forma atlética mas era proporcional. Reparou que era grande, devia ter mais de um metro e oitenta e provavelmente era judeu.

Passado o momento de estudos voltou a vestir-se e checou se nada estava faltando. Ficou feliz ao ver uma embalagem de camisinha aberta jogada ao lado da cama. Aproveitou para reparar nas roupas dele que também estavam no chão. Através delas concluiu que o estranho tinha bom gosto e era informado. Usava roupas modernas, compradas em brechós ou lojas alternativas. Havia livros e revistas de design gráfico na estante, o que, junto com os quadrinhos, poderia denunciar a profissão do sujeito. Camila estava mais calma, pensou que se não tivesse dado para o cara do jeito que deu, seria um bom cara para se dar um dia. E foi saindo de mansinho, antes de calçar os sapatos.

Parou na porta surpreendida por uma voz:

_ Aproveita e traz um copo de Coca pra mim.

Camila ficou paralisada. Estava de costas para ele e não tinha vontade de virar-se. Também não havia como sair correndo e deixar a situação ainda mais ridícula.

_ Camila, o seu nome é Camila, né? Desculpa o mau jeito é que ontem eu tava muito bêbado.

_ Tudo bem, é Camila sim – Ela ainda não tinha criado coragem para encará-lo.

_ Então, pega alguma coisa pra você na geladeira, não vai sair assim de barriga vazia. Tem um iogurte, suco, pega o que quiser. E se puder traz um copo de pra pra mim que eu to estragado.

_ Ok.

Ela não sabia onde se enfiar. Foi para a cozinha sentindo-se desarmada. Ainda olhou pela janela do apartamento e viu que não reconhecia o bairro. Estava amedrontada. Não era exatamente medo do estranho ou do lugar. Era uma sensação ruim.

A cozinha era um pouco melhor que a de uma república, embora o bom gosto nos detalhes fosse marcante. No lugar do tradicional pingüim, via-se um boneco “Ken” vestindo smoking.

O vazio da geladeira quebrado apenas por duas caixas de suco de laranja, alguns refrigerantes, cervejas, frutas e um queijo fresco. Camila experimentou o suco mas achou muito ácido e desistiu. Pegou uma fatia de queijo e surpreendeu-se de novo com o dono do apartamento que apareceu nu na cozinha.

_ Eu preciso é de uma Coca-cola.

_ Você não se veste nunca?

_ Foi mal, espera um pouquinho.

Ele pegou uma Coca Zero e foi à lavanderia, de onde voltou usando bermuda e chinelos.

_ Você tem como ir embora? Se quiser eu te levo.

_ Que bairro é esse?

_ Vila Leopoldina. E você, mora onde?

_ Paraíso.

_ Espera só eu tomar banho que eu te levo, dá tempo até de almoçar com a família.  Só vou tomar uma ducha rapidinho.

Ele era bonito. O cabelo estava um horror, as olheiras quase tampavam os olhos mas ainda assim era bonito.

Ficaram um pouco em silêncio enquanto ele pegava uma toalha. Ela queria esquecer o que aconteceu e quanto mais distante ficasse desse cara melhor. Ele, porém, estava a fim de conversar e da forma menos sutil possível.

_ Quer dizer que você nunca tinha transado com um estranho? – Camila ficou de boca aberta olhando a cara dele, foi impossível disfarçar, ele continuou.

_ Pelo menos foi o que você me disse ontem.

_ Olha, eu não acho engraçado, quer saber, eu não lembro nem o seu nome. A última coisa que eu me lembro de ontem é da fila do banheiro da balada.

_ Eu me lembro de tudo.

_ Sorte a sua.

Ela não queria prolongar o papo, ele agora tinha um ar superior como se a memória intacta lhe conferisse algum poder. Talvez estivesse certo, ele sabia coisas sobre as intimidades de Camila que nem ela sabia. Que posições teriam feito? Fizeram sexo oral? Será que ele a amarrou na cama? Ele agora parecia um chantagista.

_ Olha – ela prosseguiu – Parabéns, aposto que a noite foi ótima, espero que você tenha gostado, mas já era, é passado e eu não quero falar disso…

_ Gérson. Meu nome é Gérson.

_ Ótimo Gérson, acabou.

_ Tudo bem – ele disse enquanto se levantava e saía em direção ao banheiro – Mas se quiser continuar me chamando de Ursão não tem problema.

Ela quase perdeu o ar. Ficou quieta para não piorar as coisas. Só faltava ficar ouvindo ironias. Precisava ter uma conversa séria com as amigas, criar um mecanismo para que se protegessem destes trastes folgados. Não podia acordar de novo em quartos estranhos, algo deveria ser feito.

Camila foi para sala esperar o Ursão, quer dizer, o Gérson que estava no banho. Ao passar pelo banheiro percebeu que a porta estava aberta e não havia Box. Ele não se importava.

_ Cê não tem vergonha mesmo, né?

_ Não de você – respondeu enquanto enxaguava os cabelos.

O mau humor de Camila não deixou a conversa ir muito longe. Ele saiu do banho e vestiu-se rapidamente enquanto ela passava os olhos em algumas revistas. Porém, a curiosidade que a fazia acordar as amigas nos domingos de manhã para que contassem suas desventuras alcoólicas começou a afligi-la. Ela conteve-se até a saída do elevador, quando, enfim, voltou a falar.

_ Escuta, você lembra como a gente se conheceu? Quer dizer, você que me abordou?

_ Na verdade a gente já se conhecia de vista.

Ela tapou o rosto com a mão direita, pelo jeito o mico ainda seria maior.

_ Eu era o namorado da Betinha, da faculdade, você não lembra.

Agora ela lembrava, já tinha visto este cara algumas vezes mas nunca tinham conversado. Meu Deus que vergonha, eles tinham amigos em comum. Ele certamente já tinha mandado mensagens espalhando a notícia, os homens sempre fazem isso, as mulheres também. Sorte que a Betinha estava em Londres. Esta noite ficaria como uma mancha negra na história de Camila e o cara ainda era arrogante. Pelo menos até o comentário seguinte.

_ Tudo bem, não precisa ficar com essa cara. Aconteceu. Eu prometo que vou esquecer tá bom? Não falo prá ninguém.

_ O que tem a minha cara?

_ Ué, parece que você acabou de amputar um braço.

_ Olha. Desculpa, mas é que eu acho um puta mico fazer o que eu fiz ontem, entende. Foi a primeira vez que eu perdi a consciência desse jeito e eu não to legal. Além disso ainda to de ressaca.

Depois de algum silêncio, já no carro, ela não agüentou e perguntou:

_ Só mais uma coisa, a gente se protegeu direito?

_ sim.

_ É só isso que você pode dizer?

_ Você quer os detalhes?

_ Não. Tudo bem.

_ Mais alguma dúvida?

_ A história do Ursão é verdade?

_ É.

_ Tem algo mais que eu preciso saber?

_ Não sei, talvez seja importante saber que você me disse que nunca tinha gozado daquele jeito ou que eu deveria dar um curso para os seus ex-namorados.

_ É verdade?!?

_ Não. Essa parte é brincadeira.

Camila sorriu pela primeira vez no dia e recordou-se da impressão positiva que tivera ao ver o corpo daquele estranho nu dormindo ao seu lado.

Depois da pequena piada Gérson ficou em silêncio novamente. Talvez estivesse chateado com o fato dela não lembrar de nada. Talvez, para ele, não tenha sido tão sem sentido. Pelo menos havia algo realmente interessante na conversa, ele não era óbvio.

_ Última pergunta, ok? E a gente muda de assunto.

_ Manda.

_ Você gostou?

Ele pensou um pouco e respondeu sem olhar para ela.

_ Muito. E qual o novo assunto?

_ Hum… Cinema! O que você achou do último filme do Wes Anderson.

_ Eu gostei mas prefiro “O Moonrise Kingdom”.

Eles não falaram mais do que ocorreu na noite anterior. Depois trocaram mensagens, ele ligou e ela gostou. Eles voltaram a se encontrar e ela voltou a vê-lo nu muitas vezes, porém não mais como um estranho.

 

 

*Achei uma série de contos que escrevi muitos anos atrás e decidi por preguiça e curiosidade publicar um. É bem diferente do que tenho colocado no blog.